Boal, o teatro maior que a vida

A representação como missão de vida
A representação como missão de vida

Augusto Boal é uma das coisas mais sérias da cultura brasileira e merece muitas homenagens mesmo. Ele fez as cenas serem muito maiores do que o representado no palco.

Boal se firmou como um dos grandes diretores do teatro brasileiro na década de 60 com o  Teatro de Arena. Foi lá que ele firmou uma estética de contestação essencialmente popular, no que essa palavra carrega de mais forte.

O curioso é que sua estética se cristalizou em cima de erros de interpretação históricos e estéticos. Em  Arena conta Zumbi, de 1965, Boal tentava mobilizar o público em um cenário triunfal. Isso quando a esquerda havia sido fragorosamente derrotada pelo golpe militar de 1964. Ou como escreve Roberto Schwarz em seu clássico  ensaio Cultura e Política:

Zumbi repetia a tautologia de Opinião [peça anterior, que fora um grande sucesso de público]: a esquerda derrotada triunfava sem crítica, numa sala repleta, como se a derrota não fosse um defeito.”

O que Roberto Schwarz caracteriza como falso triunfo da esquerda em seu ensaio, na verdade, tem uma explicação mais ao fundo se pararmos para pensar a estética desenvolvida e registrada (coisa rara no Brasil) por Boal ao longo de sua carreira.

Em Zumbi e, anteriormente, no show Opinião, Boal abandona aos poucos o teatro realista, inspirado no Actors’ Studio americano (e presente em obras anteriores do Arena como Homens e Ratos e Eles não usam Black Tie). Parte para um método de mobilização política mais próximo da agitação e propaganda. O problema é que seu teatro parecia pregar para convertidos em uma situação em que o clima era de fragorosa derrota das políticas populares.

Era o pior momento do pensamento progressista brasileiro, que florescia e tentou construir um projeto nacional nos anos anteriores, de democracia.  Numa época em que os governos se inspiravam no programa de alfabetização de Paulo Freire, nas políticas desenvolvimentistas e de distribuição de Celso Furtado, no diálogo permanente com a “Geografia da Fome” de Josué de Castro etc. Tudo isso parecia melancolicamente enterrado e uma postura festiva denunciava inocência e anacronismo .

Eu acho que não haveria o Teatro do Oprimido sem esse diálogo permanente de Boal com a crítica, na época do seu trabalho no Arena.

Como explica Luiz Fernando Ramos, em seu excelente artigo à Folha, o sistema de coringas, presente em Zumbi, era também uma má interpretação do distanciamento de Brecht:

Boal partiu das ideias de Bertolt Brecht, particularmente do efeito de estranhamento, em que se propõe ao ator uma distância de seu personagem, para que possa ver criticamente suas ações e permita ao público partilhar esse olhar crítico.Boal distanciou atores dos personagens por meio do uso coletivo dos papéis, com os atuantes compartilhando a mesma “máscara”, ou característica social e psicológica.Essa técnica foi utilizada pela primeira vez em 1965, na encenação de “Arena Conta Zumbi”, e aprimorou-se no espetáculo seguinte, “Arena Conta Tiradentes”.

A “Poética” de Augusto Boal, como a chamou Anatol Rosenfeld, foi publicada sob o título “Elogio Fúnebre do Teatro Brasileiro Visto da Perspectiva do Arena”. Rosenfeld apontou, no ensaio crítico “Heróis e Coringas”, a incompreensão por Boal das teses de Brecht ao conceder aos protagonistas a empatia diante do público que recusava ao coro. Segundo Rosenfeld, mesmo reconhecendo a importância “singular” do ensaio de Boal “no pensamento estético brasileiro”, essa opção favorecia uma identificação festiva do público com o herói, no caso Tiradentes, e traía as ideias de Brecht.”

Depois do AI-5, o teatro de Boal não era mais possível e nem tolerado pelo governo militar. Em 1971, com o endurecimento da opressão, Boal foi preso, torturado e se exilou na Argentina, em Portugal e em Paris. Durante esse percurso o diretor carioca desenvolve o teatro do invisível , o teatro jornal – que  promove improvisações e reflexões sobre às notícias a partir da improvisação teatral – e o teatro fórum.

Em minha opinião, a principal técnica desenvolvida por Boal é o Teatro-Fórum. Onde os atores apresentam um problema real no meio do espetáculo teatral e em seguida convidam os espectadores a entrar em cena, substituir o personagem oprimido na situação encenada. É a radicalização do tal sistema coringa, levada a todos que estão presentes assistindo a cena.

Nesse estágio o teatro para ele já extrapolava palcos, atores e diretores. Era mais uma estratégia de se discutir e transformar as pessoas e o mundo.  É nesse campo que nasce o Teatro do Oprimido. A metodologia utiliza o teatro para estimular uma postura ativa dos seus praticantes e espectadores.

A idéia dessa improvisação é apresentar alternativas que mudem o rumo dos acontecimentos não só no palco, mas na vida dos atores e espectadores. E é por isso que a técnica é tão interessante de outros pontos de vista que não só o teatral. Ela passou a ser utilizada em todo mundo em comunidades para entender os seus problemas; para combater o analfabetismo, em prisões, na recuperação dos presidiários, com pacientes de hospitais e muito mais.

As técnicas de Boal extrapolaram a mensagem política do teatro e se tornaram uma estratégia de melhoria social, foram além do debate político e se tornaram política mesmo.

O jornalista português José Soeiro escreveu um texto interessantíssimo sobre essa virada de Boal para uma estética que extrapola os palcos. Cito um trecho aqui:

A ideia de Boal é simples: todos somos teatro. E, sendo o teatro a capacidade humana de nos observarmos em acção, precisamos de recuperar a nossa capacidade de actuar. Como dizia de forma provocatória, na medida em que for passivo, um espectador é sempre menos que um ser humano. Daí ter inventado o termo de espect-actor: uma combinação da capacidade de observar e de reflectir (própria do espectador) mas que nos restitui também a de agir nas situações que vemos (típica do actor), não reduzindo a realidade àquilo que existe, mas abrindo-a às possibilidades que sempre tem de ser diferente. Há cerca de um mês, na mensagem do Dia Mundial do Teatro que este ano escreveu, terminava dizendo que “actores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!”.

A reviravolta que Boal propõe para o teatro não tem apenas que ver com a sua vontade de transformação. O mais interessante, para mim, é a superação que faz do teatro de intervenção e de propaganda: não mais um teatro que comenta a realidade e que leva uma mensagem a um público, mas sim uma prática que propõe que cada grupo se aproprie dos meios de produção teatral para encenar a sua própria realidade e para ensaiar formas concretas de a mudar. A história de Virgílio, o camponês que terá ensinado a Boal que não se pode propor aos outros aquilo que nós próprios não estamos dispostos a fazer, ou seja, que a “solidariedade é estar disposto a correr os mesmos riscos”, é a mais importante lição contra a arrogância da política ou do teatro enquanto propaganda. Não há uma única vez em que conte esta história – e já a contei muitas dezenas de vezes nas oficinas de TO – e não me arrepie profundamente quando tenho de dizer a frase com que o camponês Virgílio confrontou os actores do grupo de Boal, “Quando vocês actores dizem «nós vamos dar o nosso sangue pela Terra!», estão na verdade a falar do nosso sangue, e não do vosso”.

Boal foi um sujeito muito importante por que ao criar sua obra se colocou no lugar do diretor, do dramaturgo, do espectador e até do  seu assunto. Abriu o campo da cena para que todos eles se manifestassem e fez do teatro um fórum que não se encerra no recado dado pelos atores. Pensou o seu gosto pelo teatro como uma maneira prática e bem definida  de mudar a sociedade. Se já falta artista que pense o seu fazer, falta muito mais quem pense o fazer como uma maneira de mudar a vida das pessoas. Na minha opinião, a arte só é forte quando transforma as coisas, coloca a gente pra ver o mundo de outra maneira.

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Galpão inedito
Galpão inedito

E já que a conversa é sobre teatro e a possibilidade de se mudar o mundo, as pessoas e as sensibilidades, quem está em São Paulo não pode perder a Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo.

A mostra é gratuita e reúne vários dos melhores grupos de teatro do Brasil e de fora do país. A experiência é interessantíssima . Durante todo festival, os grupos participam de todos debates, dão e assistem workshops e constróem um clima muito legal de debate e de agitação cultural.

Estive nas duas últimas edições e sempre foi muito legal. Nesse ano tem o Grupo Galpão no sábado de tarde com a inédita Till Eulenspiegel, o grupo mexicano Delta Teatro com El Angel de Voz Dura…Uma historia del Che Guevara, e Um homem é um homem com os uruguaios do El Galpón.

Os temas de debate e workshop são demais e o tema desse ano é  “Tradição e Atualidade”. O melhor é que o ingresso para tudo isso é gratuito.

10 comentários sobre “Boal, o teatro maior que a vida

  1. muito bacana esse seu texto Lauro, eu conhecia pouco da trajetória do Augusto Boal, especialmente fora do âmbito do teatro de arena e nunca assisti a uma encenação dele.

  2. Na verdade eu assisti uma montagem de Arena Conta Zumbi em SP nos anos 80 com os atores todos uniformizados com a mesma roupa, sem cenário nenhum, salvo engano, e as músicas do Edu Lobo cantadas sem acompanhamento. Não sei até que ponto o quanto dessa montagem obedecia a concepção original do Guarnieri e do Boal, mas eu me lembro de ter ficado muito impressionado, especialmente com uma música que era em cima daquele poema do Brecht “eu vim para a cidade no tempo da desordem”, etc… achei muito bonito mesmo.

  3. Oi Rodrigo, muito obrigado pelos comentários. Do Boal mesmo, eu só assisti uma versão de Carmen do Bizet. A versão era bem mais ou menos, longe do melhor do Boal, mas tinha muitos aspectos interessantes.

    Agora, do Teatro do Oprimido eu já assisti várias montagens e, para ser bem sincero, como obras teatrais elas não têm nada demais são sempre histórias bem simples. O que pega nelas é a carga da vida das pessoas mesmo. São poucas as pessoas que saem ilesas desse tipo de experiência. Sempre foi muito tocante e transformador pra mim.

    E pra quem quiser acompanhar a Mostra Latino Americana. Nosso frequente comentarista Arthur está editando um jornalzinho do evento. Vale conferir:

    http://www.mostralatinoamericana.com.br/?p=422

  4. eu também tinha muita curiosidade de saber em que medida essas interpretações equivocadas, em alguma medida, não fizeram uma boa obra teatral. Lauro, você conhece mais depoimentos de quem assistiu as peças do Arena?

  5. Cara, na mostra se dá algo engraçado. O pessoal no Brasil mesmo, é muito cheio de dedos em relação ao Boal. Talvez, porque o teatro mais combativo daqui de São Paulo seja notadamente pró-Brecht e como autor brechtiano o Boal era um bom corintiano, sei lá.

    O curioso é a relação do povo latino com o Boal. Daí o bicho pega mesmo. O pessoal do grupo peruano Yuyachkani, companhia de quase 40 anos e que ontem apresentou uma das peças mais bonitas e esteticamente interessantes que já vi na vida, prestou homenagem ao Boal e nas duas mesas que o ator/diretor Miguel Rubio participou, se emocionou muito e cansou de render loas ao Boal. Vale dizer que Boal passou um ano no peru (acho que em 1972) e foi professor de toda a primeira geração do Yuyachkani.

    Já o pessoal do El Galpon do Uruguai, o mais famoso grupo de teatro mais a esquerda daquele país, pra lá de 40 anos de luta e espetáculos, tem uma adoração com o Boal que não é fácil não. Isso sem falar dos mexicanos, argentinos. O cara é fácil fácil o mais conhecido homem de teatro brasileiro na América Latina.

    Se ele era bom de palco ou não, é outros quinhentos. Mas para um figura que era um homem de teatro e ativista político, acredito que cumpriu plenamente sua missão dentre seus pares.

    Pelo pessoal da Mostra, nem teria matéria sobre o Boal, mas por força do público latino, fui praticamente “obrigado” a dar uma matéria na edição de amanhã sobre o sujeito.

    E essa Mostra é um lance muito sério, viu? Muito espetáculo bom, demonstrações de trabalhos e debates quentíssimos. Coisa de gente grande. Obrigado ao Laurose por ter passado o bastão para mim. Porque pelo menos 10 dias no ano tenho a sensação de estar trabalhando para criar uma outra relação das pessoas para com o mundo. PRAW!

  6. pra mim o mais surpreendente foi ler o texto do Gerald Thomas emocionado em homenagem ao Boal.

  7. Na década de 1970 tinha um grupo de Teatro Jornal na Faculdade de Medicina da UFMG que era demais. Era genial naquele período de repressão braba o pessoal dar vida a notícias que passavam muitas vezes despercebidas em canto de página. Era de arrepiar.

  8. Gostei do texto, achei interessante a idéia do Teatro do Oprimido como fruto do diálogo com a crítica ao seu trabalho de direção anterior… A propósito, tivemos a reabertura do Teatro de Arena, com a peça “Chapetuba Futebol Clube”, dirigida pelo José Renato. Peça que inclusive havia sido dirigida pelo Boal nos outros tempos do Arena. É interessante eles terem reaberto o teatro com essa peça que, assim como “Eles não usam black tie”, pertence ao “realismo brasileiro”, trazendo temas populares da realidade brasileira para o centro da arena, numa estética realista, dramática. Tive a oportunidade de ver a peça, achei que a montagem ficou boa, mas gostaria de saber o que vc acha dessa reabertura do Arena, se tem algum sentido no cenário mais amplo do teatro…
    Abraço!

  9. Oi Marília, eu nem sabia que o Chapetuba tava em cartaz, depois vou dar uma passada lá pra assistir. Eu acredito que o Arena não parou de funcionar nos últimos anos. É sempre ocupado por alguns grupos não é? A Cibelle Forjaz e o grupo dela (a Cia. Livre) haviam montado o Areana conta Danton lá no Eugênio Kusnet há uns cinco anos atrás. Na ocasião organizaram uma série de eventos contando a história do teatro e das coisas que haviam se passado por lá.
    A Companhia do Latão também tentou, de maneira crítica, retomar a construção de um teatro político no Arena, na época em que eles ocuparam a residência por lá.
    UMa coisa que eu acho que vale ressaltar é que esse projeto do Boal tb tem muito a ver com o período em que ele tava inserido.

    O Hélio Oiticica no campo das artes também tinha esse propósito de que os expectadores reformatasse e resignificassem sua obra tomando uma atitude mais ativa em relação a elas. Sua inspiração era os moradores da Mangueira. Se não adquiriu essa conotação de política pública, sem dúvida tinha o interesse de transformar a arte em uma idéia necessariamente pública, transformadora e libertadora tb.

    Não sei como essa coisa se daria hoje em dia, mas é um tema a se pensar e um horizonte que eu acho que devia ser recuperado.

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