Arte contemporânea japonesa, eros e a civilização no shopping

No ano passado a minha amiga Marina Fuentes me pediu um artigo sobre a arte japonesa para a revista que ela editava. A partir daquele texto, fiz esta postagem. Lá, eu pensava como alguns artistas japoneses transformaram sua arte em produto. Aqui, de forma nada criteriosa, tentei entender formas diferentes de manifestação e de vazão ao desejo em três momentos diferentes da arte japonesa recente. Acho que essa assimilação da irupção sexual e da vontade de se livrar da repressão, nascida com a idéia de “juventude”, pela sociedade produtora de mercadorias  aconteceu em vários lugares. Estou longe de entender, mas acho um fenômeno fascinante. Aqui, talvez possamos encontrar fios que unem três momentos descontínuos desta história.

Kazuo Shiraga
Kazuo Shiraga

No Japão, muitos artistas levaram a sua produção para áreas distantes da arte. Na década de cinqüenta e sessenta, eles utilizaram as suas técnicas e suas formas, como maneiras de propagar valores e contestar convenções sociais. Ressignificavam modos da criação visual de lá, fundiam com a produção dos países europeus e tentavam utilizar o que resultava em uma maneira de intervir, provocar e questionar o país na época.

Como no Brasil, a idéia de vanguarda e de arte moderna chegou no Japão um pouco mais tarde. Mas, diferente daqui, lá eles já tinham anos de tradição em artes visuais. Haviam criado uma linguagem própria, uma compreensão das formas visuais e uma relação com a arte própria da sociedade japonesa. Mais do que tudo, eles já produziam com auto-reflexividade. Um trabalho pensava no seu sentido a partir de uma tradição. Talvez por isso, os modernistas de lá estavam mais interessados em pensar os limites e virtualidades da sociedade japonesa do que criticar a arte tradicional européia e seus modelos pré-estabelecidos.

Para muitos, fazer arte era um modo de se discutir os hábitos dos japoneses e a vida no país. Assim, quando a pintura abstrata gestual chegou lá, entre 1950 e 1960, ela era não apenas uma forma mais livre de pintar, mas também uma maneira de se libertar e criticar as regras de conduta da vida social.

Artistas como Kazuo Shiraga, Saburo Murakami, Toshio Yoshida, Shimamoto Shozo e Shigeko Kubota se interessaram pelo o que havia de mais desgarrado, desobediente e expressivo nessas linguagens que saíam do expressionismo abstrato americano e do tachismo europeu, de Jackson Pollock e De Kooning e Jorn e Soulages. As pinceladas gestuais e informes da pintura ocidental, nos olhos japoneses, tornaram-se atos dramáticos, teatrais; atos de selvageria. Eles pintavam aqueles gestos como se deixassem seu corpo se liberar do asseio da vida escolar e profissional da terra do sol nascente. Ao invés de lidar com tinta sobre a tela, os artistas preferiam as performances e intervenções que tentavam mostrar um indivíduo em rebelião. Descomedido, em contato com suas necessidades primitivas. Desreprimindo o seu corpo e sua sexualidade.

Saburo Murakami: Passage, 1956
Saburo Murakami: "Passage", 1956

Os gestos eram violentos. Shiraga se esfregava violentamente na lama como uma forma de descobrir seu corpo. Desfazia uma cultura de disciplina e método e através dos destroços descobria algo que ele queria chamar natureza. Saburo Murakami andava na galeria através de camadas de telas de papel. Eram criados ambientes feitos pro olho, pro tato, pro corpo inteiro. “Rituais”, onde eles tentavam exorcizar as convenções de uma sociedade obediente e tradicional. Em um país que se modificava a passos largos. Que havia saído de uma guerra e repensava o seu papel no mundo.

Curiosamente, esses procedimentos foram análogos a um tipo de criação que aparecia na Áustria que também guardava relações com a idéia marcusiana de dessublimação repressiva. Os corpos dos japoneses e dos acionistas de Viena são mostrados como carne anestesiada. Por isso, procura como forma de se descobrir algo que eles chama de real  uma experiência dolorida, toda estilhaçada. Ambos países participaram do Eixo na II Guerra. Saíram de uma experiência autoritária e vinham de uma liberalização que permitiu esse tipo de manifestação.

Apesar de reconhecerem na arte de vanguarda um poder libertador, pareciam, como Marcuse, ver nas formas instituídas de liberdade “uma liberalização controlada que realça a satisfação obtida com aquilo que a sociedade oferece”. É bem romântico, mas parece ilustrar uma inquietação que as artes plásticas de países recém tornados “sociedades abertas” experimentaram.

Shigeko Kubota. Vagina Painting (1965)
Shigeko Kubota. "Vagina Painting" , 1965

Nessa efervescência, e com profundo interesse pela a arte moderna norte-americana, Yayoi Kusama começa a trabalhar. Na década de 1950, parte para perto dos seus heróis e se muda pros Estados Unidos. No começo, suas telas são abstratas, muitas vezes monocromáticas e com um trabalho acurado nas texturas. Esse campo, logo se torna uma forma de organizar padrões com bolinhas, coloridas. Essas formas escandalosas e circulares tornam-se, daí em diante, uma de suas marcas. Ela faz tantas bolinhas que isso, mais tarde, ajuda a deteriorar a sua saúde mental.

A artista passa a distribuir essas formas e essas estampas por todo o lado: objetos tridimensionais, figuras fálicas, instalações, corpos nus e telas. Nessa época, ela se interessa pelas novas vanguardas nova-iorquinas, como a pop art, o minimalismo, os happenings, o teatro de vanguarda entre outros. Mas participa mesmo é da vida cultural dos jovens da cidade. Encanta-se com a moda, delicia os prazeres da cultura de consumo, vive as manifestações contra a guerra do Vietnã, a psicodelia e a drug culture.

Yayoi Kusama, Infinity Mirror Room (Phalli’s Field), 1965
Yayoi Kusama, Infinity Mirror Room (Phalli’s Field), 1965

Em 1966, ela termina a sua exposição Love Forever, onde enche as salas com círculos coloridos. O mais curioso é que ela cria um ambiente assemelhado a um peep show. Aquelas salas de strip-tease, com luzes e espelhos por todos os lados. Daí em diante, os seus padrões coloridos passam a enfeitar cartazes e servir como estímulo para festas hippie, performances e até orgias. Paralelo a isso, ela se dedica à criação de roupas, montando a sua própria boutique em 1969. Passa de uma linguagem a outra como se realizasse o mesmo trabalho. De tanto fazer, torna-se obsessiva e essa linguagem se torna voraz. Diferente de seus antecessores do grupo Gutai, Yayoi Kusama não tenta fazer com que tudo desapareça até que só sobrem rastros de uma ação concreta, ela quer que o mundo se transforme nos seus padrões obsessivos. Quer que todos embarquem em um espaço meio fora do mundo, feito de ilusões e manias, onde tudo parece fazer mais sentido. Assim, ela embarca na cultura hippie e se isola mais e mais em uma vida a parte, decorada por suas insistentes brotoejas.

As bolas estão por todos os lados. Ela faz pinturas, esculturas e instalações do mesmo modo como desenha vestidos e padrões de tecido ou promovia orgias sexuais. Como em outras histórias da contracultura dos anos sessenta, na década seguinte, sua experiência tem desfecho trágico. A artista enlouquece, volta para o Japão onde se trata de um transtorno obsessivo compulsivo que perdura até hoje.

Curiosamente, o seu trabalho tem também algo do destino de alguns desenvolvimentos da cultura alternativa dos anos sessenta: a sua diluição como produto de consumo e estilização da vida. Embora a artista sofra muito com os seus problemas e pareça uma mulher dedicada à obra, seu trabalho veste um belo Armani, como aqueles hippies que se descobriram yuppies. Ao invés de fugir das convenções, ela se adapta à ferocidade do mercado e descobre que as suas ilusões são mais rentáveis se produzidas para provocar delírios em consumidores ávidos por novidades.

Não conheço a arte japonesa, mas de lá pra cá, alguns de seus artistas tornaram a indistinção entre obras de arte e bens de consumo ainda mais confusa. A separação entre a loja e a galeria no museu parece ter sido coberta por um daqueles padrões de Kusama que transformam tudo em um parque temático das ilusões.

Murakami e seu jardim das delícias de plástico
Murakami e seu jardim das delícias de plástico

O artista japonês Takashi Murakami foi quem levou esse uso da arte na produção de bens de consumo de luxo mais longe. Em 2005, foi convidado pelo estilista Marc Jacobs a realizar padrões para as bolsas da marca francesa Louis Vutton.

O artista é conhecido por utilizar em suas pinturas, infláveis, gravuras e esculturas, as figuras do universo dos desenhos animados (animes) e quadrinhos (mangás) do Japão. Trabalha suas telas de acordo com as convenções do gênero e até dos temas fantásticos da cultura tradicional do Japão que são exploradas por animadores como Hayao Miyazaki e ilustradores como Osamu Tezuka. O artista se interessa por essa linguagem direta e popular desde jovem. Logo, ele migrou de uma abordagem das formas tradicionais pra essa linguagem jovem e pop.

Nas suas obras, encontramos monstros coloridos, objetos e vegetais antromorfizados, flores com caras infantis e todo o tipo de fábula. São padrões repletos de formas de representação obsessiva a partir da linguagem cristalizada nos quadrinhos, na animação e nos videogames. Não por acaso Murakami passou a produzir, além de objetos de arte, acessórios pra celular, mouse pads, bolsas, chaveiros, camisetas etc.

Isso seria suficiente para aproximá-lo de Yayoi Kusama. Existe a idéia de padrões obsessivos, de lugares ilusórios, de um paraíso retratado a partir de motivos infantilizados e, talvez, uma idéia que esse retorno à infância seja um retorno ao jardim das delícias. Aliás, em alguns trabalhos, o artista não deixa de ver perversidade sexual nessa associação. No entanto, se contrapusermos, sem rigor nenhum, a sua produção com a de Kazuo Shiraga por exemplo, notamos que se um tentava escapar do efeito da anestesia, o outro resolve customizar anestesias com sabor de tutti-fruti. Aliás, anestesias que nos fazem regredir, comportarmos como meninos ricos em uma loja de brinquedos.

Na campanha da Louis Vutton a alucinação dos padrões, torna-se o prazer de ter uma marca. No comercial uma menina é chupada por um monstro bacana para o mundo encantado dos logotipos da Louis Vutton. Como diria um locutor no cinema “um lugar de sonhos”, onde “ela se diverte a valer”.

comprei um murakami na Louis Vutton
O negócio na Louis Vutton é comprar um "murakami'

Murakami se vende como alguém que desierarquiza a cultura de museu, que faria arte como faz desenhos animados. Mas não é bem assim. Ele produz sonhos enlatados, mas para dar aqueles sonhos a marca da “arte”, aquela bem guardada nas reservas técnicas. Ao invés de iconoclasta, seu gesto mimetiza a sociedade produtora de mercadorias de agora: que diferencia as marcas, cria faixas de consumo, identidades entre os produtos e quer diversão pra gente preparada, bem nascida, bem criada e exclusiva.

bolsa de museu
bolsa de museu

Não posso falar muito, pois não entendo nem metade daqueles signos que ele usa, por exemplo, no clipe do Kanye West — que, aliás, é legal (como alguns outros desenhos animados que ele fez). Mas acho que no fim ao invés de buscar a experiência entusiasmada de um garoto diante de um desenho animado – isso poderia ser bom -, ele parece buscar uma marca, uma assinatura de “artista” que permite que tudo que ele faça apareça sob o verniz do artístico. Assim, ele não quer fazer camisetas quaisquer, mas obras de arte que acontecem em camisetas e têm preço de galeria.

Suas bolsas são mais caras por serem Murakamis. Acho que seria legal o sujeito entrar de sola em uma produção mais ordinária, mas Murakami incrementa os produtos em que toca. Um Midas que faz as marcas ficarem mais caras do que elas já são. Inclusive, os chaveiros são bonitos, o que incomoda é a “intenção artística”. Não se trata, como dizem, da indistinção entre alta e baixa cultura, mas de dar distinção aos produtos da baixa cultura que ele toca (o sujeito fez uma mochila que custa dois mil dólares, se isso não veio pela assinatura, não sei de onde tiraram o preço). Faz muito tempo que querem empurrar esse verniz artístico em tudo, transformar em entediantes “experiência de museu” ótimas vivências não-artísticas.

Eu, pessoalmente, acho que se tudo na nossa vida se tornar arte, será uma chatice incomparável.

8 comentários sobre “Arte contemporânea japonesa, eros e a civilização no shopping

  1. amigo, que texto joia! essa você Yayoi Kusama parece uma figura muito interessante. você sabe mais coisa sobre essa “Vagina Painting” da Shigeko Kubota?

  2. André, que legal que você gostou. A Yayoi Kusama é uma personagem interessantíssima mesmo. Acho que a sua biografia é mais um dos dramas que geraram a ressaca da contracultura nos anos 70. Mas ela ainda vive e parece melhor de saúde.
    Sei muito pouco sobre a Shigeko Kubota. Ela foi uma das primeiras orientais a entrar no grupo Fluxus (através da Yoko Ono, de quem era amiga) e foi esposa do artista coreano Nam June Paik. Um programa de vídeo do MoMA já homenageou a artista.
    Essa pintura vaginal é muito famosa, mas eu nunca vi o registro em filme. Então não sei direito o que rola. Acho que em um livro sobre arte corporal que eu tenho em casa explica alguma coisa. Se eu encontrar, reproduzo aqui
    abração

  3. André, acabei de ler sobre a performance. A artista introduziu no seu órgão um pincel daqueles de caligrafia japonesa, e o molhava em uma tinta vermelho sangue sobre uma folha de papel. De lá ela se movia como se produzisse os drippings de Jackson Pollock.
    O trabalho, já foi feito no contexto dos happenings do fluxus e foi interpretado de duas formas. Uma visão mais formalista, a de Yve-Alain Bois, via no gesto de Kubota tanto uma interpretação de animalidade no gesto de Pollock, que associava a tinta ao sangue menstrual, como em um gesto de escândalo.

    Outra interpretação, mais feminista, feita por Barbara Rose, vê no gesto uma interpretação do falocentrismo da pintura moderna. Francamente, acho furada,mas não conheço o suficirente para falar.
    O importante é que depois Kubota tornou-se uma das grandes interlocutoras de Marcel Duchamp na arte contemporânea.
    Abrazz

  4. O Brookjlin Rail publicou uma entrevista com a artista em que ela, para dizer o mínimo, atenua o sentido feminista da sua ação. Para ela a obra tinha um sentido experimental, não simbólico:
    http://www.brooklynrail.org/2007/09/art/kubota
    De qualquer forma, olha os comentários de gente que sabe mais desse riscado que eu:
    http://www.lizchristine.net/delicato_senses/edicao06/Roberto_Acioli/Shigeko_Kubota.htm
    http://www.nytimes.com/1991/05/24/arts/review-art-sleek-video-sculptures-by-shigeko-kubota.html
    http://www.fungcollaboratives.org/projects/ny_exhib/sk99.html
    http://findarticles.com/p/articles/mi_m1248/is_5_96/ai_n25384220/

  5. Muito massa mesmo o texto Tiago. Legal como você mostra como certas manifestações da contracultura foram se tornar um incremento para dar uma aura artísticas a projetos empresariais de luxo.
    Pra mim esse é um dos assuntos mais interessantes no capitalismo atual.
    Em um primeiro plano tem essa absorção (como descrito no Eros e a Civilização mesmo) das trangressões e dos novos valores em uma lógica de diferenciação comercial e customização máxima.
    Mesmo na hora de consumir as pessoas precisam mostrar que tem uma cara própria. E nessas, qualquer manifestação cultural que passe pelo gosto dos “diferenciados” (para usar uma expressão em voga nas firmas desse brasilzão) tem de levar o carimbo de arte. Ilustração pra jornal, diagramação de revista, estampa de camiseta, pixação na rua, pegadinha do Faustão tudo tem de ter esse crivo.
    E é daí que muita gente mede o valor de arte pelos contratos com grifes famosas fechados pelos artistas.

  6. cara, que mulher legal. e a entrevista é ótima. achei interessante que em um dos artigos essa pintura é colocada como vinda do dripping do pollock mas em certa oposição Às mulheres como pincéis vivos de Yve Klein – que eu nem sabia que existia. faz sentido ne? ou nem?

  7. Então Lauro, arte ganha um valor que ela mesma nunca quis. Um valor de incrementar as coisas que contém artisticidade. Acho que precisamos voltar a noções mais simples. Quando uma idéia sobre um determinado fenômeno começa a descrever realidades tão heterogêneas, esse termo parece não explicar mais nada. é como a idéia de classe média. Descreve situações sociais tão diferentes que ou perdeu a sua utilidade ou está sendo usado para coisas que não parecem caber no conceito.
    André, ela era bem provocadora mesmo. Aliás, como o Yves Klein, que para mim, cada vez mais, é um dos gigantes do século XX.

  8. Olá, fiquei interessada no seu artigo. Gostaria de ler também o que você fez pra revista da sua amiga. Onde eu poderia conseguí-lo?

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