Cortinas de fumaça do medo

Nada como um exército pra fazer aquela cortina de fumaça
Nada como um exército pra fazer aquela cortina de fumaça, em qualquer situação

Apesar de alguns esforços honrosos e de coisas boas que saem aqui e ali, a imprensa brasileira vai do mais ou menos ao tenebroso. E a mediocridade parece estar ganhando terreno, como mostra esse texto no Idelber.

O post do Tiago sobre o Steve Reich me levou ao vencedor do prêmio Pulitzer de melhor matéria investigativa nesse ano.

Escrita pelo jornalista David Barstow, a reportagem revela a ligação estranhamente próxima que os comentaristas de guerra das maiores redes de TV e de rádio dos EUA mantinham com o Pentágono. Segue um trecho do texto (com a singela e mal feita tradução do Laurose aqui):

Os analistas foram cortejados em centenas de reuniões privadas que , segundo os registros, incluiam militares de alta patente e funcionários com uma influência significativa sobre contratações e questões orçamentárias. Eles foram levados a tours no Iraque e tiveram acesso a informações confidenciais. Os especialistas eram ainda brifados por funcionários da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Departamento de Justiça, incluindo  (o vice-presidente) Dick Cheney, (o procurador-geral) Alberto R. Gonzales e (o conselheiro de Segurança Nacional) Stephen J. Hadley.

Dessa maneira, os membros deste grupo de analistas repercutia os tópicos interessantes ao governo, mesmo quando a informação parecia suspeita, falsa ou exagerada. Alguns analistas reconhecem que preferiam deixar as dúvidas de lado porque tinham medo de comprometer o seu acesso ao governo.

Poucos mostraram qualquer arrependimento por ter participado dessa possível tentativa de enganar o público americano com propaganda travestida de análise militar independente.

“Eles nos diziam: ‘Temos de colocar as mãos em suas costas e mover a boca para vocês'”, diz Robert S. Bevelacqua, um Boina Verde aposentado e ex-analista da Fox News.

Kenneth Allard, um ex-analista de guerra da NBC, que dá aula de Guerra da Informação na National Defense University, disse que a campanha se estruturou como uma operação sofisticada de informação. “Esta foi uma forma de política coerente e ativa”.

Tal “coerência”, pré-fabricada no Departamento de Defesa dos EUA, ajudou o país a se manter ignorante em relação às atrocidades praticadas em Guantánamo e Abu Ghraib, por exemplo.  A tortura, como o novo governo americano tem apontado, era um crime comandado e incentivado pelas mais altas esferas do governo Bush.

A tortura em Abu Ghraib só foi descoberta por que os soldados (polícia do exército) que trabalhavam lá foram conduzidos a um nível de demência em que a tortura era tratada como atividade de recreação em um hotel-fazenda. O curioso nesse caso é que, ao mesmo tempo em que as fotos revelaram uma imagem dos Estados Unidos, bem distantes dos filmes de guerra (mesmo os mais críticos), a divulgação delas na imprensa também serviu para ocultar os fatos.

Ou como escreve o documentarista Errol Morris em seu site:

As fotografias de Abu Ghraib serviram tanto para expor as torturas como para escondê-las. Foram uma exposição porque as fotos nos ofereceram uma visão dos horrores de Abu Ghraib, ao mesmo tempo as imagens convenceram boa parte dos jornalistas e leitores que não havia necessidade de olhar mais longe, que aquilo seria o máximo que podia ser visto. Só em reportagens recentes que nós ficamos sabendo, por exemplo, sobre a destruição das fitas do interrogatório de Abu Zubaydah (alto terrorista da Al Qaeda). Foi um acobertamento que foi  para  primeira página dos jornais muito tempo depois. Mas o acobertamento em Abu Ghraib envolveu milhares de presos e centenas de soldados. Ainda não descobrimos a extensão do que foi feito lá. Muitos jornalistas comentam sobre o sinal de fumaça descoberto em Abu Ghraib. Para mim, essa não é a pergunta. Como o jornalista Philip Gourevitch já disse, Abu Ghraib inteira é um sinal de fumaça. A questão subjacente que ainda não foi resolvida, quatro anos após o escândalo é: como os valores americanos foram tão comprometidos a ponto de que Abu Ghraib — e a maneira como as informações foram encobertas posteriormente —pudessem acontecer?”

Abu Ghraib por Richard Serra
Abu Ghraib por Richard Serra (2004)

Documentários como Ghosts of Abu Ghraib (produzido pela HBO)  e Standard Operation Procedures, do próprio Errol Morris, mostram que a tragédia de Abu Ghraib só veio a público pela completa falta de noção dos soldados que executavam as torturas. Tão burro quanto cruel, um dos cabos fez cópias das fotos para todo o batalhão. O CD com as fotos passou de mão em mão até o ponto em que o alto comando, que em parte incentivou o sadismo, não podia encobrir os fatos.

Muito longe de serem “maçãs podres” no  exército americano, os torturadores das fotos eram parte de um violento e organizado mecanismo. No fim, nenhum oficial foi condenado. O serviço foi narrado como uma insubordinação.

O curioso é que a repercussão do show de horrores das fotos de tortura em Abu Ghraib  acabou também servindo para se relativizar tudo de criminoso que envolveu a guerra no Iraque – a participação de exércitos privados, a violência e a falta de respeito pelas convenções internacionais sem precedentes e tudo mais. Tudo isso contou com uma benevolência e uma falta de crítica inédita da imprensa americana – e até na brasileira se é que vocês não lembram da capa em que a Veja (não adianta, aqui não entra link da revista) defendia o exército de Bush com a tese da missão democratizadora no Oriente Médio?

A imprensa foi cúmplice da política de medo do governo Bush. A grande mídia americana se curvou às políticas belicistas e ajudou a relativizar a tortura como uma saída corriqueira. Tudo em nome de um inimigo que nunca foi vencido: o medo.

Tais fatos fazem pensar o Brasil, onde os grandes veículos de imprensa – historicamente associados ao grupo político que hoje está na oposição –  insistem nos mesmos “especialistas” para defender agendas que não buscam informar a população. São sempre saídas morais pra tudo continuar como está. A política do medo já foi o principal combustível de uma campanha presidencial vitoriosa (quem não se lembra do “Ou eu ou o caos”,  de Fernado Henrique Cardoso, em 1998).

O tal Risco-Lula foi uma dessas peças de ficção. Agora, depois de duas derrotas eleitorais, eles insistem na estratégia. Os exemplos são vários e vão da conversa fiada do dirigismo na discussão da Nova Lei Rouanet até dois exemplos que eu faço questão de destacar.

Tá com Soninho, não consegue dormir de medo desde 2002
Essa morre de medo, não consegue dormir de luz apagada desde 2002

O primeiro deles foi a conclamação feita por Raul Jungmann no programa eleitoral do PPS, também conhecido como radicais do DEM (ou PSolDB). De maneira canalha e criminosa, o deputado federal afirmou que o governo Lula iria confiscar a poupança dos brasileiros, como o Collor fez.

A mentira foi só um dos episódios torpes do reclame do partido de Soninha e Roberto Freire, ambos assessores kasserristas.

Mas Jungman, deputado, que teve campanha financiada pelo banco Opportunity, foi a TV dizer que Lula ia roubar o dinheiro das velhinhas em referência a algumas mudanças estudadas pelo governo para baixar o rendimento da poupança.

Nesses estudo, a possibilidade do confisco nunca foi aventada. Mas para o Bin Laden da Câmara, aquilo surgiu como uma possibilidade de enganar as pessoas por meio da mentira mais deslavada e estúpida. Pelo jeito a estratégia do grupo da oposição deve se repetir também na próxima eleição.

A outra lorota já foi mencionada aqui e partiu da Folha de S. Paulo, o jornal deu chamada de capa dizendo que o grupo da ministra e presidenciável Dilma Roussef participava de um grupo que havia tentado sequestrar Delfim Neto. A ministra já havia negado essa informação de primeira, no extenso interrogatório publicado pelos Frias.

Alguns dias  depois, a principal fonte da matéria, o jornalista Antonio Roberto Espinosa, publicou uma carta detalhando as imprecisões da investigação.  Deu uma semana, e a Folha também teve de reconhecer que o documento que ela tinha usado não era oficial e que não havia como eles saberem se o plano do sequestro era verdadeiro ou não – ou seja, que eles eram ruins de serviço e não tinham a manha de se desculpar.

Nem por isso, o grupo de informação dava o braço a torcer que estava errado. Hoje, o blog do Nassif postou uma carta não publicada da Dilma ao ombudsman da Foha. O texto mostra que a informação acerca da cagada editorial deles já havia sido passada anteriormente aos responsáveis na publicação, mas foi ignorada.

Aos poucos, os periódicos brasileiros vão perdendo a credibilidade e os leitores por se basearem única e exclusivamente nessa campanha de medo de bonzinhos e malvados. Com isso, os textos da imprensa vão se parecendo cada vez mais esses e-mails anti-Lula. Aqueles que fazem a gente se sentir mais idiota.

Afinal, se pensam que eu temo aquilo, como diz a Carol, certamente também acreditam que seu eu não mandar o Power Point dos Anjinhos para dez amigos, eu vou ter azar por uns 20 anos.

9 comentários sobre “Cortinas de fumaça do medo

  1. Alguém tinha que fazer uma reportagem sobre as fontes dos jornalistas daqui. Sobre como a pauta é dada. Seria instrutivo ver esse jogo de bastidores

  2. Oi Lauro,

    dia desses estava procurando texto sobre o Steve Reich e acabei caindo nesse blog…Li o que tinha que ler e depois que fui me tocar a procedência do mesmo….
    Fiquei feliz em te ver por aqui..e achei o blogui muito bom…
    Como anda? Fiquei feliz em te ver por aqui.
    Só para corroborar esse seu post…Hoje ou ontem, um dos editorais do Estado de S. Paulo afirmava categoricamente que o fato do Lula ter adiantado a campanha foi um dos motivos do adoecimento da Dilma…Espantei ao ler…achei que eles estavam de sacanagem…É de assustar!!!

  3. Nó Pedro que emoção você por aqui. Agora eu senti vantagem de fazer blog. Não tem nem dois dias e eu tava pensando em você. Já sabe que o Alê mora aí em Brasília? vou te escrever um e-mail.

    Essa galera dos jornais é muito sinistra mesmo. A chamada de capa do Globo de ontem era “Gripe suína, 11 casos – e o Brasil mais uma vez não estava preparado”. Nem o Brasil, nem a Alemanha , nem o Vietnã. Neguinho cria problema até com nosso leitãozinho de cada dia.

  4. Esse pessoal caprichou também:
    http://www.idelberavelar.com/archives/2009/04/gigantesca_barriga_global_noblat_e_diego_abreu_noticiam_que_empresario_pediu_punicao_a_joaquim_barbo.php

    http://www.rsurgente.net/2009/04/falsidade-ideologica-homem-usa-nome-da.html

    aliás, a turma do rs urgente tem mandado brasa. Um dos problemas de blogues é perder temo=po com eternas declarações de princípios ao invés de partir para a discussão de políticas e de elementos concretos. Faça a declaração de princípios, mas não se apresente todo o santo dia da mesma forma.
    Eles não, mostram novidades e cobrem a política, muito bom
    http://www.rsurgente.net/2009/04/educacao-no-governo-serra-metade-dos.html

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