O artista do corpo

Nem preciso dizer o quanto é duro para mim, são-paulino chato e anti-corinthiano militante, falar sobre o assombro que tem sido o Ronaldo em campo. O segundo gol contra o Tricolor (paulista, para não me acusarem de bairrismo) me encheu de raiva, inveja e até – caraca – alegria. Ronaldo, vários quilos a mais, dando pique na frente do zagueiro e, com um tapa na bola, enchendo as redes do Bosco, vendido no lance. Parece até fácil. Por que o Washington não faz igual? Pô.

No jogo de ontem, foram cinco toques geniais na bola. A matada incrível, o chute certeiro. Um, dois. Depois, o drible (três), a ajeitada, tirando o zagueiro do lance (quatro) e o chute leve, cheio de efeito, a bola caindo mansinha atrás do Fabio Costa. Cinco.

No seu ensaio sobre o artista de marionetes, Henrich von Kleist fala do talento do artista de criar a impressão de naturalidade. Dois sujeitos em um banco de praça comentam o empenho exaustivo que o artista precisa dedicar para desenvolver a destreza suficiente para que o boneco se movimente com naturalidade. Quando o grande artista atinge a perfeição dessa técnica, o seu controle sobre o boneco fica invisível para o espectador. Ele some no mesmo momento em que se revela na sua forma mais aperfeiçoada. Acho essa ideia fundamental para entender a arte, e em especial a noção de estilo, tema que anda ocupando o Tiago. E acho que é isso também o que o esportista talentoso, assim como uma grande bailarina, que se torna senhor absoluto da sua modalidade, faz. Esses lances do Ronaldo me fazem pensar nessa capacidade de controle e leveza que todo grande artista tem.

Deve ser isso que chamam de sabedoria. A tranquilidade, dentro e fora de campo, a capacidade de se manter à tona num ambiente hostil a um sujeito que, como ele, não vê motivo para adotar a postura subserviente que parece ser exigida de todo ex-favelado.

Ter o Ronaldo de volta aos campos brasileiros dá o que pensar. Fica a impressão de que um ciclo se encerra. A Europa, e o mundo, vão demorar para ver de novo o padrão de consumo dos últimos quinze ou vinte anos, padrão que dava lastro aos salários estratosféricos e aos contratos de publicidade milionários que fizeram a fortuna de muito jogador pelo mundo. Acho que em especial a Espanha vai ver desaparecer esse mundo de fantasia que se montou em torno do futebol. E o futebol europeu vai perder o poder de atração, e seus clubes a hegemonia mundial, inclusive simbólica. E o futebol vai recuperar alguma coisa do seu romantismo.

É inspirador ver o Ronaldo jogando com os meninos do Corinthians. Parece que o cara achou a alegria que tinha perdido. Voltou a jogar bola, agora não mais o menino prodígio do Cruzeiro, ou o profissional jovem, premiado e milionário preso numa montanha-russa de vida pública ruidosa, lesões e polêmicas, mas o sujeito vivido, que já não tem que provar mais nada, e que está contente por estar de volta ao seu lugar.

Não fica difícil entender a angústia do Adriano. Em outra escala, o destino dele é muito semelhante. E talvez o jogador de futebol seja o único tipo de milionário que tem que aturar um ritmo de trabalho como o deles. Se o Adriano quiser o meu conselho, sugiro que ele fique por aqui. A gente lá no São Paulo toparia ter ele de volta. Ter de novo o Imperador daria uma amansada na dor de cotovelo que a gente anda sentindo.

17 comentários sobre “O artista do corpo

  1. O mais legal é que tanto o Ronaldo quanto o Adriano jogam com uma alegria por aqui que eu não via há muito tempo. Se você der uma olhadinha nos jogadores do time, todos eles sentem uma alegria enorme quando esses protagonistas marca. Espere que se comece a temporada de repatriações, ia fazer um bem danado pro futebol brasileiro.

  2. o Ronaldo é realmente um gênio, o maior da geração dele. Ao contrário do Ronaldinho Gaucho que é inconstante, flutua conforme as circunstâncias, o Ronaldo é o craque que decide oito entre dez partidas que participa. Se contam nos dedos os jogadores com ese poder. Pelé, Garrincha, Maradona, Cruijff e outros poucos, que operam numa frequência semelhante, como se ignorassem qualquer ruido externo e obedecessem somente a sua intuição, sua inteligência, sua antevisão. Só a genialidade explica. Claro que ele aperfeiçoou sua técnica com o tempo, mas me lembro de ver no Mineirão ele fazer a mesma coisa no meu Cruzeiro.

  3. “As easy as it looks to you I make it look so easy / With the music I be making the impression I be leaving / A lot of folks they stop and stare, thinking Im’a trick it off / I roll another bleezy, puff it, pass it and shake it of” em http://www.youtube.com/watch?v=2T1jdreS6ko

  4. Bom texto, Jay. Legal esse monte de craque jogando por aqui de novo, o Vieri tb demonstrou interesse em vir pra cá, um holandês, não me lembro quem, tb disse que quer encerrar a carreira no Brasil. Seria ótimo ter várias estrelas no país que domina a arte do futebol, né? Em relação à alegria dos caras de jogar aqui, acho que é porque não envolve só dinheiro e fama, há um tesão em agradar a torcida, em querer ser melhor que os outros. Vocês acham que o Ronaldo e o Adriano tem alguma relação com o Milan ou Inter de Milão? É um trampo pra eles, só isso, por isso que vários jogadores perdem o tesão em jogar bola, olha o Robinho como não está nem aí pro time dele na Inglaterra. Recentemente o Amauri da Juventus revelou que sofre vários preconceitos na Itália, chegou a ser acusado de roubar fralda na farmácia pelo único motivo de não ser europeu; que tesão vai ter um sujeito desse de agradar sua torcida, de dar o sangue pelo time, de deixar feliz quem o trata como um ladrão?

  5. jei jei

    foi divugado em “la gazzeta dello sport” que ronaldinho gaúcho tá querendo ir pro bugrão pra fazer tabela com o mito amoroso no brasileiro, ai em vez de um artista teremos uma bienal.

    texto massa e o jogo também

  6. Do caralho Joaquim, estava com saudades tb. E muito bem lembrado que essa hegemonia européia (que na minha opinião é mais oba oba que outra coisa) só ocorre por causa dos sudakas que estão lá.
    E digo mais, Ronaldo vai trazer o caneco pra nós DE NOVO ano que vem.

  7. Pô Rodrigo, esse é um blog de família. Vai publicar uma coisa dessas aqui, envolvendo duas entidades da indecência nacional. Fica feio.

  8. jay, muito boa a ligação entre crise econômica e fim do futebol-marketing europeu. quer dizer, ainda enche os olhos o barcelona socando até a morte o bayern e o paris saint-german e o manchester virando um 2 a 0 pra um 5 a 2 em 20 minutos. mas o que eu mais gostei mesmo da volta dele e o novo estilo romário do ronaldo. forma e função, a matada que vira drible e a encobridinha no goleiro fecha-ângulo. sempre achei o romário o nosso mondrian. agora temos dois mondrians.

  9. Rafa, concordo com a ligação entre o raciocínio do romário com a idéia de forma/função de um Gropius, por exemplo. Agora, o Ronaldo eu não vejo dessa forma. Concordo que a economia dos meios lembra mesmo muito o Romário, mas acho que ele tem uma relação espaço-tempo diferente. Mais rítmica do que espacial. Ele espera o momento certo, calcula o movimento dos outros para entrar. Assim, se eu fosse compará-lo a um artista, o compararia ao James Brown.

  10. Se eu fosse comparar o Ronaldo a um artista, o compararia ao Tim Maia, pô. Pela nacionalidade e pelo peso e polêmica que causa em nossa sociedade. PRAW!

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