Estilo

Herberto Helder
Herberto Helder

Vivo de escrever sobre arte, por isso, sempre penso na idéia de estilo. Como tudo na vida, ela pode ter várias acepções, que variam com o uso e tornam-se inteligíveis por um acordo tácito que os interlocutores estabelecem uns com os outros. Por isso, na maioria das vezes, se forem compartilhadas por alguns falantes, as diferentes e desencontradas versões de uma palavra tão elástica costumam estar certas.

Animado por isso, resolvi postar algumas acepções diferentes da idéia aqui. A primeira é de uma prosa do poeta português Herberto Helder, que está no seu livro lindo Os passos em volta. Depois, em dois vídeos, Ney Matogrosso toma aulas como aluno aplicado de mestres como o Blecaute e o Moreira da Silva, a conjecturar sobre a sua sorte.

Em cada um, a idéia de Estilo aparece de um jeito. O texto se refere a ele na escrita, como limite e forma. O primeiro vídeo fala de uma forma de se apresentr e se distinguir dos outros, é uma elegância só. O outro vídeo também fala disso, mas também trata o termo como um jeito de levar a vida.

Juntei os três como se fizesse uma diagramação sobre o tema. Aproveitei e aprendi a beça com os gigantes.

***

ESTILO

HERBERTO HELDER

– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida…compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

Uma vez fui a um médico.

– Doutor, estou louco – disse. – Devo estar louco.

– Tem loucos na família? – perguntou o médico. – Alcoólicos, sifilíticos?

– Sim senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?

O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.

– Não preciso de remédios – disse eu. – Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?

A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.

O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo, senão quer dar em pantanas. Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. – João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês n.º 5? Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura… Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício, este. Às vezes uso o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? Pego numa palavra fundamental. Palavras fundamentais, curioso… Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença, Medo, Morte, Metamorfose. Digo-o baixo vinte vezes. Já nada significa. É um modo de alcançar o estilo. Veja agora esta artimanha:

As crianças enlouquecem em coisas de poesia.

Escutai um instante como ficam presas

no alto desse grito, como a eternidade as acolhe

enquanto gritam e gritam.

(…)

– E nada mais somos do que o Poema onde as

crianças

se distanciam loucamente.

Trata-se do excerto de uma poesia. Gosta de poesia? Sabe o que é poesia? Tem medo da poesia? Tem o demoníaco júbilo da poesia?

Pois veja. É também um estilo. O poeta não morre da morte da poesia. É o estilo.

Está a ouvir como essas enormes crianças gritam e gritam, entrando na eternidade? Note: somos o Poema onde elas se distanciam. Como? Loucamente. Quem suportaria esses gritos magníficos? Mas o poeta faz o estilo.

Perdão, seja um pouco mais honesto. Seja ao menos mais inteligente. Vê-se bem que não estou louco. Eu, não. As crianças é que enlouquecem, e isso porque lhes falta o estilo.

Sabe de que lhe estive a falar? Da vida? Da maneira de se desembaraçar dela? Bem, o senhor não é estúpido mas também não é muito inteligente. Conheço. Conheço o género. Talvez eu já tivesse sido assim. Pratica as artes com parcimónia: não a poesia, mas as poesias. Cultiva-se, evidentemente. Se calhar está demasiado na posse de um estilo. Mas, escuta cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura… Enfim, não seria isso mais nobre, digamos, mais conforme ao grande segredo da nossa humanidade?

Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu.

Blecaute!

“Morengueira, você me feriu”

6 comentários sobre “Estilo

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