Dois livros de crise

É na fila que a coisa aperta
É na fila que a coisa aperta

Os momentos de crise são inspiradores e interessantes. Afinal, é nessa hora que a sociedade mostra de maneira muito clara os mecanismos que a movem e os interesses por trás de cada coisa.

Depois de ler o post do Rodrigo aqui no Guaci, eu parei pra pensar sobre como o período da crise dos anos 70 é um forte tema da produção literária que vem até os dias de hoje.

Acho que o livro que mais me pegou a esse respeito foi o Pastoral Americana (American Pastoral), do Philip Roth. É muito forte e te carrega para um cenário onde tudo parece acontecer ao mesmo tempo, de maneira violenta demais.

Ainda mais aos olhos do protagonista Sueco Seymour Levov, um baby-boomer, completamente integrado à próspera sociedade americana dos 50, proprietário de uma fábrica de luvas, de classe alta e que só esperava o progresso natural das coisas, alheio aos detalhes maiores da sociedade. Um filho de imigrantes judeus que cai de amores com a vida all-american.

Afinal, o mundo como ele conhecia está desmoronando lá, sempre no ritmo da pancada e a vida de Levov vai pro ralo , ao sabor do que acontecia. Tudo que ele entendia na vida dele deixa de fazer sentido, inclusive as luxuosas luvas femininas fabricadas pelo sueco. Nesse meio tempo, os EUA viram um ouro país ao sabor de crise institucional pesada, grandes mudanças comportamentais dos anos 60 e 70, Vietnã, radicalização da luta dos direitos civis, grupos extremistas, comunidades alternativas, subculturas, greves, riots, o medo da guerra nuclear e, é claro, Garganta Profunda e Atrás da Porta Verde. Parece que o livro vai ganhar uma versão para o cinema.

Esse mesmo olhar da pessoa comum no meio da crise bravíssima também aparece no Bem-vindo ao clube (Rotters’ Club). Sem nem um terçodas qualidades literárias de Roth, o livro – talvez por causa disso –  trabalha com uns tipos sociais bem delimitados e emblemáticos . O centro de tudo é um universo de uns meninos de Birmingham que convivem em uma escola pública.

A escola pública na época era o espaço onde todas as classes sociais viviam juntas, em um momento em que as diferenças entre patrões e operários era minúscula em toda Inglaterra. A sociedade vivia uma impressão de igualdade e de uma certa estabilidade que não apontava saídas para a crise que sacudia a economia mundial.

E o universo deles também gira em torno de um estado de coisas que está em processo violento de transformações. É a ascensão da Margharet Thatcher, do National Front e do IRA, a queda do Welfare State, do poder dos sindicatos, das políticas do Partido Trabalhista, da vontade da cultura popular se tornar clássica e de uma pretensão de convivências entre o rígido sistema de classes na Inglaterra.

E isso é mostrado a partir da compreensão dos meninos pelas coisas que cercam eles, principalmente a música popular e a cultura tradicional inglesa. Coisas que os protagonistas escutam, tentam entender, adoram ou odeiam. De Hatfield and the North aos Sex Pistols; do King Crimson ao Clash, passando por Henry Cow, Yes, Sham 69 e mais um monte de coisas. Valeria mesmo uma trilha sonora.

Não é à-toa que o nome Rotters’ Club foi inspirado pelo disco do Hatfield and the North, uma das bandas do rock de vanguarda da cena de Canterbury. O livro acabou virando série da BBC, que eu também nunca vi.

Acho que esse período rende muito. Ainda queria falar sobre outros livros e histórias em quadrinhos, mas vou deixar pra outros posts. É um exercício interessante expecular o que sai dessa crise de agora.

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