Boys from the Blackstuff e a TV na crise, por Rodrigo Merheb

Quem acompanha o Blog do Guaci sabe que o Rodrigo  Merheb é um dos nossos mais importantes colaboradores. Grande amigo meu e do Tiago, foi ele que nos ensinou muito sobre rock e cinema, além de sempre ser um dos melhores e mais provocativos debatedores políticos que eu já conheci (e olha que eu já quebrei muito o pau com ele). Uma das coisas que mais me deixou feliz foi quando ele começou a comentar os posts aqui direto e desde sempre ele é convidado para escrever algum texto pra nós.

E eis que chegou a hora tão esperada e Rodrigo fala um pouco sobre a série Boys from the Blackstuff. Um marco na TV britânica, o seriado marca um período em que a ficção  televisiva da Inglaterra se voltava para a crise econômica brutal que tomou conta da Grã Bretanha nas décadas de 1970 e 1980. 

A crise de hoje é bem pior, mas foi nesse período que surgiram grandes nomes do cinema inglês como Ken Loach e Mike Leigh. Leiam o post do Rodrigo que fala sobre produções baratas que poderiam bem estimular um debate que a TV pública no Brasil e o cinema independente bem poderiam estar tomando parte. 

 

 

A tigrada do seguro desemprego
A tigrada do seguro desemprego

A experiência de rever Boys From the Blackstuff quase 20 anos depois da minha chegada a Londres, foi como visitar o passado com lentes do presente e ao mesmo tempo me surpreender novamente com o poder que certas obras tem de superar as armadilhas do tempo para se manterem tão relevantes como quando foram lançadas. Seria normal que uma série em cinco episódios sobre trabalhadores em Liverpool na Inglaterra tatcherista tivesse esmaecido com o tempo e servisse apenas a propósitos nostálgicos, igual a algumas fotos que tirei por lá, mas aconteceu o contrário. O desemprego hoje é maior do que naquela época e as inseguranças provocadas pela globalização continuam a deixar sem respostas as muitas questões enunciadas por blackstuff. Quando isto vem amarrado a um texto sólido, uma encenação de tempo e ritmo quase perfeitos, sem ornamentos e firulas já que o orçamento era de guerrilha, a sensação é de estar vendo algo totalmente novo.

Vamos voltar um pouco mais para trás. A televisão inglesa começou a bater bola com a tradição do realismo social, ainda nos anos 60 quando tateava em busca de uma linguagem. É significativo que o teledrama mais impactante que a BBC produziu antes de Blackstuff tenha sido dirigido pelo mesmo Ken Loach que hoje é o grande expoente dessa vertente realista no cinema ao lado de Mike Leigh – outro que só migrou para a tela grande após estrear na TV. Cathy Come Home marcou época por interferir diretamente no debate sobre as condições dos sem- teto. Ken Loach filmou tudo em preto e branco, com câmeras de 16mm como se estivesse produzindo para o cinema.

 

Cathy come home
Cathy Come Home

As ramificações para outras áreas da cultura popular foram imediatas, a se dar crédito à versão de que os Beatles escreveram “She´s Leaving Home” diretamente influenciados pelo filme. A hipótese é bem plausível, pois Cathy Come Home foi exibido em dezembro de 66 quando eles preparavam o material para Sgt. Pepper que, descontado o viés lisérgico, nada mais é do que uma coleção de crônicas sobre o cotidiano inglês. As semelhanças entre as duas histórias são notórias, apesar de os Beatles pararem antes dos filhos, do desemprego e da pungente cena de despejo.

Cathy Come Home é cheio das erupções emocionais que caracterizariam os filmes posteriores de Ken Loach. Muita gente não gosta. Eu sou admirador do seu trabalho. Geralmente quando um crítico quer detonar um filme de cunho realista recorre à meia dúzia de clichês . Acusar o diretor de manipulador vem no topo da lista, como se manipular fosse uma prerrogativa apenas desse gênero. Estou ainda para ser apresentado a um diretor que não manipule seu público. O que me interessa é a ressonância e a consistência da dramaturgia, o resto é conversa fiada.

Mas vale notar que Boys from The Blackstuff segue um registro que se afina num tom menor que o de Ken Loach, embora a empatia dos personagens seja tamanha que os canais de identificação se estabeleçam de imediato. Ao invés de reduzir as caracterizações a tipos sociais, Alan Bleasdale criou personagens fragilizados pelas circunstâncias, porém em luta constante contra forças que escapam de sua compreensão ou capacidade de controle. A utilização do humor negro como recurso eventual abre um contraponto a desolação de trabalhadores da construção civil lidando com o desemprego enquanto a sociedade se movimenta rapidamente em direção a um novo futuro tecnológico e industrial. Em última análise, é a habilidade em modular diferentes tons, o meio caminho entre a tragédia e a comédia que proporciona a surpreendente convergência de imagens, emoções e idéias da série.

Cena de documentário sobre a série britânica

O mais marcantes destes personagens, Yosser Hughes, descendente de árabes, passava o tempo todo andando sem rumo com seus três filhos loirinhos (claramente filhos da esposa que o abandonou com um amante) repetindo como se fosse um mantra para quem encontrasse : gisss a job! I can do that. No começo eu não entendia, achava que ele falava is it a job?Mas não. Com seu sotaque carregado, Yosser pedia: give us a job. Como a televisão privilegia os closes e planos aproximados, é possível acompanhar a desintegração de alguém no limite de um colapso mental, a dor e humilhação de um homem incapaz de superar uma adversidade que o empurra cada vez mais para o abismo. E lá vai Yosser, .gisss a job…giss a job.

Dá pra discutir se televisão é ou não uma forma de arte. Seja qual for a resposta, Boys from The Blackstuff é um de seus momentos mais transcendentes.

Rodrigo Merheb

p.s O trabalho para televisão do falecido Alan Clarke, outro grande cronista do tatcherismo, mereceria um post mais para frente. Apesar de irregular e da mão as vezes pesada, alguns teledramas como The Firm sobre hooliganismo e especialmente Scum – ambientado num reformatório para adolescentes que a BBC se recusou a exibir tal a virulência das imagens, mostram um diretor vigoroso, especialmente na abordagem niilista sobre os mais diversos níveis de convivência social

11 comentários sobre “Boys from the Blackstuff e a TV na crise, por Rodrigo Merheb

  1. É interessante como essa descrição dos programas de TV tem contato com a literatura do Jonathan Coe tb né?
    O Rotters Club (Bem-vindo ao Clube, em português) também acabou virando série de TV da BBC e trabalha com tipos sociais e lida com a realidade da crise econômica inglesa do final dos 70 e começo dos 80 tb.
    O curioso é que nesse caso os principais personagens são todos jovens e a ligação com o que acontecia na música popa da época é muito forte. Muito interessante.

  2. pensando na música popular, os anos de desmprego da Inglaterra também foram um assunto muito forte entre os cantores. De prima, penso em várias músicas da turma da two tone sobre o assunto (tipo ghost town)e todo o pub rock

  3. Pois é Joaquim, e engraçado que essa linha mais realista é exceção na Tv americana. Pra dizer a verdade, nunca tinha ouvido falar dessa série, mas já passei muito ali perto de Cabrini Green. Engraçado que nem é periferia, mas próximo da Michigan. O pessoal do Consulado dizia que nos anos 70, época, aliás, dessa série, a Michigan era um lugar barra pesada a noite.

  4. É maluco isso mesmo. No tempo que morei em Chicago, passei a maior parte do tempo no South Side, e as Robert Taylor Homes – o maior conjunto habitacional do mundo à época, e cujo índice de desemprego bateu em 90% dos habitantes – já tinha sido demolido, mas era como um fantasma na região. E ali pertinho do Hyde Park, bairro de bacana.
    Na abertura de Good Times tem uma tomada aérea, e dá pra ver o centro da cidade, na altura do Rio Chicago, e também os edifícios do conjunto habitacional Cabrini Green.

  5. Ah – e tenho certeza que o Jimmie Walker – que coincidentemente faz o personagem “J.J.”, filho mais velho da família – é uma das grandes inspirações do David Chapelle.

  6. Pois é… a sociedade debatida em suas mazelas em séries (mini-séries) televisivas. Gostaria muito de ler/ver/ouvir/falar/gostar (usando os 5 sentidos, mais um possível 6º sentido evocando os fundamentos das neurociências, quem sabe!) mais, segundo palavras do Rodrigo, ” abordagem niilista sobre os mais diversos níveis de convivência social”. Sabemos que,
    Niilismo vem do latim nihil, “nada”, é uma doutrina filosófica e política baseada na negação seja da ordem social estabelecida, seja de todas as formas de esteticismo, assim como na defesa do utilitarismo e do racionalismo científico.
    Assim sendo, escreva mais, Rodrigo, pois é bom saber que você navega em mares profundos do psiquismo humano. (Bacio).

  7. OI, pessoal. Foi ótimo reencontrar Rodrigo Merheb aqui, eu adorava as colunas dele em O Tempo. Muitas vezes divergia dele, pois adoro Glauber e o Cinema Novo, e não gostei, por exemplo, do curta Velinhas que ele recomendou, mas ele e´sempre instigante.

    Abs do Lúcio Jr.

  8. Lúcio, que legal. Apareça sempre, para acrescentar, divergir e até para concordar. Além disso, espero que o rodrigo colabore mais
    Bem vindo ao blog

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