It’s too late to stop now, por Daniel Pitta

O Daniel é um dos grandes amigos de todo o pessoal do Guaci. Não foram poucas às vezes em que eu, o Tiago, o Jay e o Daniel emendávamos conversas intermináveis sobre os mais variados assuntos. No geral, o assunto invariavelmente acabava voltando a alguma música, um disco ou coisa parecida.

Bom de papo que é,  o Daniel fala de som de uma maneira muito apaixonada que dá vontade de sair correndo pro computador pra baixar o disco.

Aqui ele fala de It’s too late to stop now do grande Van Morrison. O legal é que seu interesse pelo disco também surgiu a partir de um texto também apaixonado de Lester Bangs sobre Astral Weeks do mesmo cantor irlandês. Aproveitem aí.


Listen to the Lion
Listen to the Lion

Instigado por um bonito e inspirado texto do Lester Bangs sobre aquele que seria o disco mais significativo da vida do crítico musical (disponível em português numa coletânea de artigos lançada pela Conrad Editora), corri atrás de um específico registro ao vivo do Van Morrison: It’s too late to stop now.

Aliás, Bangs, mesmo quando – na minha opinião – fala bobagem (como nos artigos sobre a fase elétrica de Miles ou nos que tratam da música livre de improviso de uma maneira geral), escreve com gusto e habilidade. Sempre vale a pena ler ele. Nesse sentido, vejo na Wikipédia que esse texto seria um dos pontos altos da crítica de rock…

O texto citado é sobre o disco Astral Weeks. Há muito a ser dito sobre as impressões e as sacadas do Bangs ao longo do texto. E a forma como ele sai da análise (poética e semiológica) e atravessa correndo o campo da própria vida para voltar aos torvelinhos das memórias do Morrison é dolorosamente tocante… Mas quero me concentrar aqui naquilo que me levou a buscar o “ao vivo” no canto do irlandês: a voz e o que ela traz de dentro do peito num instante cego.

O disco
O disco

A frase “It’s too late to stop now” surge no texto para indicar que ele, Morrison, estaria no além do além – espiritual e fisicamente. Sua voz lhe anuncia isto, sendo ela própria o carreto que o levou até – onde? A partir de um certo ponto emocional, as palavras e sua organização (semântica e gramática) se dissolveriam em vocalizações, expressões, transes e encantamentos. Sua voz o possui, sai do peito para envolvê-lo em luz e escuridão, dentro e fora da vida.

Como um feiticeiro deve saber, há feitiços determinados para cada momento. Ao longo de It’s too late to stop now, há concisão e beleza – sublime e carnal: a urgência, a tensão e o desejo são tão fortes que ele não chega a terminar a frase “I Just want to make Love to you”…

Surgem, então, esses momentos, essas circunstâncias em que ele sai de si (ou o si sai dele, melhor), descritos frequentemente como fluxo de consciência. Eu não colocaria desta maneira. Sinto que é mais o caso de uma experiência mística ou espiritual do que simplesmente um afrouxar as amarras das categorias e estruturas de pensamento mediante indução.

Esses momentos surgem em “Listen to the Lion” e “Cyprus Avenue”. Mas volto a fechar meu foco: na primeira, construída sobre uma estrutura básica de seis frases, sua voz leva as palavras para novas regiões, repete-as como para purgá-las de sentido, até lançá-las em puro som, irmã e matéria dos sopros, das cordas e das batidas. Encanta-as com a voz como os antigos encantavam as coisas. A voz seria então a mais forte corda a atravessar o oceano da existência – a comunicação entre o cais e o navio.

E o que surge no convés desse navio? Um leão. Com a voz, ele tateia o leão. O leão equilibra-se na corda. E isso me fez pensar nessas aparições que os homens e as mulheres conseguem, às vezes, enxergar dentro de si: o super-lobo no Bonnie “Prince” Billy, as nuvens de chumbo e os raios dentro da Maria Bethânia, a chave que a Maya Deren retira da boca e Nonaah (uma linha vista num improviso que virou uma investigação solo, então um quarteto, então uma sinfonia) dentro do bafo do Roscoe Mitchell. Coisas que estão na gente, sentadas à sombra daquela árvore pra onde nos dirigimos “between the viaducts of your dream”…

15 comentários sobre “It’s too late to stop now, por Daniel Pitta

  1. vcs só comentam e indicam coisas feitas pelos próprios amigos. é a maior rasgação de seda. parece um blog de jabá….fora que os textos são reaça pra caralho em termos de arte. é só destaque para pseudo vanguardista. precisa melhorar muito e deixar de ser punheta de panela.

  2. Van Morrison, grande amigo. Sujeito inesquecível. Amizade, coisa linda, imprescindível.
    Uma vez que o blog é nosso, nós continuaremos a publicar o que a gente quiser e a falar muito bem do que estiver na nossa cachola. Antes de qualquer coisa a nossa idéia é mostrar o que gostamos.
    Só nessa página também escrevemos sobre Gustavo Dudamel, Robert Wyatt, Zarfur Demissie, Roscoe Mitchell e Dilma Roussef. Não tenho contato pessoal ( e nem um traço de amizade) com nenhum desses. Mas se você quiser adicioná-los ao meu rol de amigos, não tem o menor problema. Eu não ligo mesmo.
    Quanto ao reacionarismo, se é o que você acha o que eu posso fazer? Eu não acho não, mas pra mim soa mais como provocação do que como algum tipo de debate.
    De resto, visite sempre e mande brasa na Maracujina. Abs.

  3. Grandes amigos: Andy Warhol, Tarsila do Amral, Parajanov, Mike Davis, José Murilo de Carvalho, Habermas. O Glauber e o Godard não saiam aqui de casa. Mas o meu maior amigo foi o Hélio Gracie. era como um irmão, um avô. Que saudade viu.
    Renata, você era amiga dele também?
    beijos e volte sempre

  4. Lauro, esqueci de te avisar, o Picasso deixou um cachecol seu aqui em casa e o Robert Wilson anda cobrando aqueles trinta paus do Joaquim.

    No mais, Daniel o texto está muito legal e eu escutei a música algumas vezes hoje. Adoro esse ensaio do Lester Bangs, acho que é a melhor coisa dele que eu conheço. Depois conversaremos mais sobre o seu texto, mas achei as associações muito bonitas.
    muito obrigado

  5. o texto faz muita justiça nao apenas ao disco mas ao ímpeto e visceralidade que vem junto com a voz do Van Morrison quando ele se abandona a esse transe que o Daniel descreve tão bem. Em alguns momentos ele me remete ao Sam Cooke, o meu favorito entre todos os cantores, na forma como usa a voz pra criar um sentido de drama para cada momento,apesar de sdesenevolverem caminhos opostos. O Sam Cooke usava as todas inflexões de uma voz inigualável para reelaborar totalmente os sentido de cada frase cantada. Penso, por exemplo, num trecho de A Change Is Gonna Come em que ele canta “there been times that I tought I couldn’t last for long” que é ao mesmo tempo um exorcismo, uma busca de salvação e a promessa de resgate de uma agonia social. Um pouco como os múltiplos sentidos que vem dos trechos finais de Madame George em Astral Weeks, exclusivamente pela forma do Van Morrison cantar. Interesante notar que nesse disco ao vivo, o Van Morrison canta uma música do Sam Cooke.

  6. Eu acho muito verdadeira a relação que o Rodrigo estabeleceu entre o Van Morrison e o Sam Cooke. Aliás, inclusive no plano da narrativa e do modo de contar as coisas, acho que ele, num plano mais geral, identifica a música irlandesa com o r&b. O que vocês acham?

  7. O Van Morrison e o Eric Burdon disputavam pescoço a pescoço o título de branco mais preto do mundo né? O que eu acho é que a contracultura acentuou esse traço místico da música mesmo. No Free Jazz isso tb tá tão presente né.
    Fazia um tempão que eu não escutava o It’s too late…, mas essa disposição de criar climas e de fazer da voz um instrumento que tenta criar várias possibilidades a partir de um fraseado melódico é muito impressionante.
    A banda toda parece ter essa disposição.
    O texto do Lester Bangs tb é muito legal, nunca tinha lido. É interessante o que ele fala que ao invés de buscar uma interpretação clara das palavras, ele constrói um extremo da melodia e da interpretação que buscar os significados de uma só palavra. “but there is also, always, the sense of WHAT if he DID apprehend that Word; there are times when the Word seems to hover very near.”
    Muito legal mesmo. Inclusive por que a idéia do singer-songwriter no geral é muito ligada à idéia do trovador que vai até a população transmitir a poesia, revelar a verdade. E dessa forma, e graças a ligação de Morrison com o jazz, acho que ele coloca um registro de busca de significados na canção que é fascinante. Fascinante por que é uma busca que não procura encontrar nada, mas manter um permanente processo de construção musical mesmo. Muito legal.

    Só pra registro, vou deixar aquele trecho de entrevista do Van Morrison que o Lester Bangs cita no texto dele: “But I don’t wanna give the impression that I know what everything means ‘cause I don’t. . . . There are times when I’m mystified. I look at some of the stuff that comes out, y’know. And like, there it is and it feels right, but I can’t say for sure what it means.”

  8. acho que punheta de panela deve ser bom.
    se for um prato português então, tenho muitas chances de gostar.
    um amigo que morou em portugal me disse que a gíria pra gay lá é paneleiro.
    acho que isso pode dar muito pano pra manga.
    assim como esse “blog de amigos” tão legal!
    adorei o texto sobre o van morrison!
    amo o disco Astral Weeks e amo tb a música Sweet Thing. Vou ler o texto do Lester Bangs.

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