Picasso, Duchamp, Warhol e a idéia de transformação na arte moderna.

Warhol carrega uma Brillo box na Factory
Warhol carrega uma Brillo box na Factory

Warhol começa a trabalhar em um momento em que o artista não é só o sujeito que trabalha com as técnicas consagradas pela tradição, mas também articulam diferentes manifestações, objetos não artísticos e propõe “acontecimentos”. Isso, ele aprendeu com os artistas que já utilizavam coisas prontas em sua obra. Ele pensou o modo que os outros artistas incorporavam essas contaminações e conseguiu uma forma peculiar a partir desses desenvolvimentos.
A admiração de Warhol por Picasso foi pronunciada diversas vezes e reiterada pelo artista à filha do seu mestre. Uma das maiores contribuições (se não a maior) da arte do século XX para a criação visual foi a idéia picassiana de colagem. Nela, a pintura se relaciona com os objetos pregados sobre a tela de uma forma superficial. Tudo é objetivo. A tela passa a ser vista cada vez menos como uma janela e cada vez mais como um anteparo. Picasso também faz dessa relação de coisas com coisas, um modo de articular objetos largados e procurar relações estéticas em materiais não-artísticos. A manipulação moderna de coisas prontas na obra de arte, acredito ter ganho substância a partir da obra de Picasso e Braque.

Picasso - Cabeza de toro
Pablo Picasso - "Cabeza de toro"

O aspecto pouco artístico de trabalhos de Pablo Picasso e Marcel Duchamp influenciou a obra de Warhol de maneira decisiva. Mas o modo que sua obra se diferenciou da obra desses artistas é crucial para entendermos a peculiaridade do seu uso das imagens. Duchamp e Picasso usaram objetos ordinários, não artísticos no seu trabalho. Os arranjaram se uma maneira que o nosso olhar passa os perceber de outra forma. Existe aí, a idéia de transformação, seja de um modo, seja de outro.
Picasso dá um novo sentido à função dos objetos que usa. Em uma escultura, por exemplo, o guidão de uma bicicleta transforma-se num chifre e o selim em uma cabeça. Em uma descrição lingüística, Yve-Alain Bois fala que Picasso se aproveita do que Saussure chama de “arbitrariedade dos signos”. De que os signos não têm sentido em si, mas adquirem esse sentido na relação com outros signos. Segundo Bois, “Picasso se funda na conversão de signos metonímicos (de fragmentos) em metáforas. Picasso acentua a existência migratória desses signos ao insistir, sempre, no fato de que eles não têm nenhum vínculo direto, imediato, com o que sua combinação parece representar. Quando, numa mesma colagem cubista, dois signos idênticos se referem a duas coisas diferentes, somos convidados a admirar a capacidade de transmutação dos signos ”[1].

Nos ready-mades de Marcel Duchamp, embora se opere com volumes prontos que saem do seu contexto, e ocupam um outro intervalo, com quase nenhuma intervenção artística, o princípio não é tão diferente.

Os primeiros ready-mades, como a Roda de bicicleta (1913) e o Porta garrafas (1913) têm a feição é muito próxima de algumas esculturas cubistas. O artista seleciona aqueles objetos cotidianos e os mostra de um jeito que não enxergamos nele mais a feição do utensílio, mas uma forma desenhada. O escorredor garrafas torna-se uma torre e a roda de bicicleta algo como um globo facetado por aros. Podemos vê-lo tanto como um objeto quase bidimensional como no que ele sugere de esférico.
Com a chamada Fonte (1917), as coisas mudam de figura. Embora exista uma ação artística mínima no objeto, o artista assina R Mutt, e muda a posição do mictório de modo que ele não apareça do mesmo modo que no banheiro, a idéia é colocar algo estranho em um espaço especializado em exposições de arte. Um vírus. Além de tudo, trata-se de mostrar em público, algo obsceno, carregado de sentido erótico, que nos faz pensar nas nossas intimidades mais secretas. Alguns interpretaram a  idéia como uma provocação, a criação de um rebuliço sobre o que se coloca numa galeria, os seus critérios e como consideramos um gesto determinado como um gesto artístico. Além disso, me parece importante a tentativa do artista em colocar algo íntimo e obsceno em cena. O ato artístico não está mesmo só na intervenção sobre o objeto, mas no sentido de expor o que se expões. No caso da Fonte trata-se de se expor o que deve ficar atrás da porta. A obra de arte passa a ser feito por sentidos que não estão na visualidade formal da obra.

Marcel Duchamp - Fonte
Marcel Duchamp - "Fonte"

Ao invés de chamar a atenção para a mudança de sentido do objeto, ele faz o objeto modificar o sentido do lugar em que ele está. O artista também parece falar de um sentido oculto que nos faz pensar aquilo como obra de arte. É como se com um gesto ele modificasse o sentido do espaço de arte e chamasse a atenção para questões de nossa experiência estética que não parecem claros.
O ready-made é um objeto preparado plasticamente, inclusive com capacidade de sedução visual, pra realizar essa operação. O artista tenta causar um transtorno nas concepções que nos fazem ver o lugar e o objeto. Mesmo sem transformar a coisa ele sugere uma transformação da nossa percepção dos objetos de arte e do seu entorno. Isso me parece uma idéia forte de “transformação”. Por isso, Picasso e Duchamp atuam na transformação do significado, por mais econômica que sejam as suas operações
Warhol relaciona imagens prontas. Ou melhor, copia uma imagem pronta e tenta limpá-la de qualquer contingência que a singularize. Quando elas se tornam imagens imateriais, ele trabalha com elas como se as sobrepusesse ou empilhasse caixas num supermercado. Warhol não tenta transformar o sentido do público em relação ao espaço que circunda e às instituições que recebem o trabalho, como Duchamp. Aliás, é curioso que o artista pareça trabalhar menos com a transformação das formas, símbolos e materiais e mais com uma idéia de manipulação.
O artista é um grande manipulador. Por isso, parece necessária a comparação tanto com a colagem de Picasso quanto com o ready made de Duchamp. A manipulação no caso é a que afeta copiar as coisas feitas e aspira a mostrá-las de um jeito que a cultura de massa apresenta a todos nós.
Warhol não muda nada, as coisas são o que são. Parecem palavras que de tão repetidas perderam o seu sentido. Assim, ao invés de inflacionadas de sentido, elas são esvaziadas. O artista não quer nada que identifique o produto mais que uma imagem no espelho. O mundo apresentado é o de um reflexo em uma superfície. Na superfície da superfície. Se em seu trabalho de feito entre 1960 até 1963 importava dar à tela a aparência menos artística possível, a partir de 1963, depois que o artista descobre e passa a se valer do silk screen, ele organiza as imagens tal organizasse coisas.

A partir do raciocínio de Yve-Alain Bois sobre Picasso, pode-se dizer que se os signos da colagem cubista são arbitrários, os significantes gastos de Warhol são autistas. Não é que eles não se refiram a ninguém Mas perdem a memória, começam a perder o seu significado, sem mudarem de aparência, em linhas gerais. Eles se descolam do seu referente e se tornam uma imagem geral, que por fim, de tão exemplar, não diz respito a nada. Mas Warhol trabalha na tensão entre essa vontade de mostrar como imagem de alguma coisa e o seu desgarramento.

Marilyns, díptico (1963)
Marilyns, díptico (1963)

Por fim, as imagens continuam a se referir à coisa que representam, mas vivem uma existência a parte. Onde o tempo não passa e qualquer intervenção, como a adição de cores ou a diluição do contorno, não afeta o seu sentido geral. Mas parece reforçá-la como um corpo imaterial. Seus signos não migram, eles se afastam do seu referente, de tudo e de todos em uma existência solitária em uma tela colorida

Ao recortar a imagem, tirar qualquer aspecto de solidez e colocá-la serialmente no espaço do quadro ele deixa de tratá-la inclusive como coisa, como representação objetiva de qualquer personagem e objeto e passa tratá-lo quase como uma mancha. Uma mancha figurativa, mas uma mancha.

É como se a figuração tivesse perdido o seu mundo, só encontrasse pelo que dizem das coisas pelos jornais, fotografias. O mundo não acontece aqui, mas nas histórias que essas imagens contam. E como o tempo não passa por lá e a carne se evapora, o tempo de uma nunca encontrou com o da outra.

Flowers (1967)
Flowers (1967)

[1] BOIS, Yve-Alain – Matisse e Picasso. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1999.

ATUALIZADO ÀS 18H DE QUINTA FEIRA.

3 comentários sobre “Picasso, Duchamp, Warhol e a idéia de transformação na arte moderna.

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