Com vocês, o inventor da MPB

Fernando Brant e Milton Nascimento inventando a MPB
Fernando Brant e Milton Nascimento inventando a MPB

Como muitos dos leitores do Guaci sabem, há pouco tempo eu me mudei pra Belo Horizonte para trabalhar em uma rádio especializada em música popular brasileira. Além das várias felicidades que eu tenho por aqui (cidade cheia de bares, coisas legais e gente ótima), uma aspiração minha em BH era entender melhor o fenômeno Milton Nascimento.

Sempre fui muito interessado na história da música brasileira e tentei ler a historiografia e as análises de linguagem sobre esse tema. Uma das minhas surpresas em todos os livros que li e cursos que frequentei era o tratamento inadequado que a obra do Clube da Esquina recebe. Acho que o Milton e todos os que vieram juntos com ele tiveram um papel mais importante do que mostram as histórias da música popular brasileira.

Mesmo com essa estada em BH, ainda não consegui entender melhor qual o motivo desse alheamento dos historiadores da música brasileira. Mas ontem, conversando com o Daniel Pitta, que nasceu em BH, mas mora em Brasília, eu consegui levantar algumas das minhas hipóteses para reclamar a importância do Milton.

Milton, Lô Borges e Beto Guedes
Milton, Lô Borges e Beto Guedes

Eu acho em primeiro lugar que o Milton e seus parceiros, principalmente Márcio Borges e Fernando Brant, falavam de uma realidade mais próxima do público deles. No livro Os sonhos não envelhecem, Márcio Borges fala um pouco dessa hipótese. A música deles não era pra defender nenhum movimento estético ou político e nem falava de uma impressão de quem teve que sair do Brasil. Mesmo que a princípio retrate as experiências do jovem na capital mineira nos anos 60/70, as músicas têm uma temática muito próxima do que era ser um brasileiro comum em meio a um regime militar vitorioso e mais opressivo do que nunca.

Para a maioria do público, a esta altura, pouco importava se o músico usava guitarra elétrica ou violão. O desejo de retorno à democracia também era enorme entre a platéia jovem da música popular, mas os movimentos contrários à ditadura haviam sido massacrados pelo AI-5. A música feita pelo Clube da Esquina expressa bem essa juventude que pouco tinha a ver com o debate político do momento, mas que tenta impor uma nova voz.

Lô, Brant, JK, Márcio Borges e Milton, a turma do Brasil urbano
Lô, Brant, JK, Márcio Borges e Milton, a turma do Brasil urbano

Uma voz de uma primeira geração que crescia sob a pesada urbanização do Brasil e o crescimento da economia industrial. Não só do setor automobilístico ou da mineração, mas também de um primeiro movimento de profissionalização da indústria fonográfica no Brasil. Nunca, como nessa época, se pensou tanto o disco como produto.

Além da política e das mudanças da sociedade, o que eu acho mais importante na música do Milton é a amplitude de seu raio de ação. Ele é tratado como um apêndice da música de protesto dos anos 70 e na verdade, em minha opinião, o Clube da Esquina é meio que o vértice da música feita no Brasil nesta década. É pra onde tudo converge.

Foram eles que absorveram de uma maneira crítica e generosa tudo que tinha acontecido anteriormente e que parecia inconciliável: a Bossa Nova e o Samba Jazz, a Música de Protesto e o Tropicalismo, o Rock e a Música Terceiro Mundista dos Andes e de Cuba, o Chico e o Caetano, a Elis Regina e a Clementina, os Beatles e a música caipira.

Nesse processo todo, Milton inventou a MPB, com colaboração da Elis Regina (a intérprete que colocou ele na boca do povo) e do Chico Buarque (que foi seu maior interlocutor nos 70). Formatou um gênero uma abordagem musical que abarca qualquer estilo e se apresenta com um jeito de tocar típico do Brasil e que, para o bem ou para o mal, é reconhecida ainda hoje como “a” música do nosso País.

(Obs: Como mostrou Paulo César de Araújo em Eu não sou cachorro não, essa transformação em música nacional tem muito a ver com quem escolhia as músicas para as novelas da TV Globo)

Foi essa geração genial de Minas Gerais que conseguiu dar um panorama dessa transformação gigante que o Brasil vivia em minha opinião. Uma sociedade sob o peso do autoritarismo e da violência que ao mesmo tempo passava por uma liberação de costumes e um crescimento econômico sem par ao lado de políticas de manutenção da miséria (no tiro até), nacionalismo frenético por parte do governo e deslumbre com a cultura e com a economia internacional.

Acho que ninguém na música popular expressa tão bem esse momento tão nervoso da cultura nacional como o Milton. E por não tomar uma posição alinhada com o grupo x ou y da cultura nacional, por marcar a posição absorvendo tudo e criando uma obra absolutamente genial.  Isso tudo me faz pensar que a historiografia da música brasileira ainda é muito tímida em sua análise (e até mesmo em sua crítica) da música mineira dos anos 70. Na verdade, muito do que se fala do Clube da Esquina hoje em dia se deve mais ao reconhecimento internacional dos seus músicos, do que à importância que eles tiveram na cultura brasileira.

O triste é que o  legado desta síntese da música pós-bossa nova feita pelo Clube da Esquina é hoje só uma caricatura de seus aspectos técnicos (da exploração da harmonia) ou uma emulação frouxa da influência dos Beatles entre os músicos de Minas nos anos 70.

Parece que os músicos (assim como os historiadores da MPB) desistiram de ver o mundo lá fora e continuaram alheios às tranformações do mundo. Transformando o que era vivência em regra. A citação do Cyro dos Anjos, que no Amanuense Belmiro  retratou como ninguém o começo de BH, parece me explicar melhor essa coisa toda:

As coisas não estão no espaço, leitor; as coisas estão é no tempo. Há, nelas, ilusória permanência de forma, que esconde uma desagregação constante, ainda que infinitesimal. Mas não me refiro à perda de matéria, no domínio físico, e quero apenas dizer que, assim como a matéria se esvai, algo se desprende da coisa, a cada instante: é o espírito quotidiano, que lhe configura a imagem no tempo, pois lhe foge, cada dia, para dar lugar a um novo espírito que dela emerge.”

Mas acho que rende uma boa conversa aqui no blog.

15 comentários sobre “Com vocês, o inventor da MPB

  1. lauro, também sou um empolgado com o clube da esquina, sempre tive essa opinião de que ele é visto de uma forma muito menor do que ele realmente foi (ou é), mas… dizer que milton é o inventor da mpb é exagero. creio que um dos privilégios da nossa música seja a capacidade de reinvenção (ah, é? e agora, onde estamos?), e concordo que nesse contexto essa rapaziada de minas enriqueceu mais que substancialmente o conceito de música popular nos anos 70.

    esse ‘não-movimento’ produziu uma uma obra atemporal, é verdade. genial. choro toda vez que ouço. é uma montanha que se joga no mar (como, aliás, foi que aconteceu: o primeiro disco não foi quase todo composto aqui em piratininga?).

    porém, não podemos esquecer da releitura da bossa que subiu o morro com edu lobo, nara leão, zé keti e cia., da desconstrução lisérgica do secos e molhados, da tropicália, da própria elis bem citada no seu texto, cartola, do gonzagão (o criador do baião!) et cetera et cetera et cetera … e de uma leva de sambistas inspirados pela tia ciata láá do tempo da praça onze.

    pô, a gente não vai parar de falar sobre isso nunca. bom, né?

  2. Oi André, valeu pelos comentários, mas vamo lá. Quando eu digo MPB eu tô me referindo a um rótulo utilizado a partir do final dos anos 60 pra identificar um certo grupo da música brasileira que não era mais samba e nem baião e nem xote e nem Samba Jazz, nem dor de cotovelo, nem bossa nova. Era um rótulo difuso usado pra identificar um tipo de música feito para o público de classe média (nessa época os grandes compradores de LP no Brasil).
    A criação do termo deve ter vindo desses executivos tipo um André Midani da vida, eu nem sei.
    O que eu quero dizer aqui é que o Milton foi o primeiro grande nome dessa música que não se encaixava em nenhuma turma. E ele fazioa isso bastante deliberadamente.
    O primeiro disco do Milton foi quase todo composto em BH mesmo. O Clube da Esquina, se não me engano, foi gravado em Niterói, mas não tenho essa memória toda não.
    Acho Edu Lobo e Nara geniais mas eles estavam circunscritos a esse cenário da Bossa Nova, sob uma perspectiva esquerdista. O Zé Ketti e o Cartola sempre foram sambistas mesmo e trabalharam dentro dessa faixa né? O Gonzagão tem o mesmo sentido, mas no baião e no forró, cuja invenção remete à Radio Nacional e se insere em um projeto do Estado Novo de mostrar as regionalidades (a música caipira tem uma origem parecida como prodto fonográfico).
    Os tropicalistas eu acho que talvez até tenham amaciado a carne que ia dar na MPB. Mas era ainda uma coisa muito demarcada de movimento mesmo.
    O que eu coloco é que o Milton é onde essa coisa que pode ser um monte de estilos musicais chamada de MPB se solidifica.
    Ele certamente não criou nada, por que isso aí tem a ver com um processo musical e também com a consolidação de um mercado de discos no Brasil. Mas é um jeito de fazer música que tem mais a ver com a abordagem musical do que com qualquer estilo.
    O primeiro grande produto foi os Secos e Molhados, mas o trem já tava andando quando eles subiram.
    Mas acho que o assunto rende muito pano pra manga e opiniões legais como a do Mantelli. Vamos falando.
    Abração.

  3. Lauro, também sempre me irritou a recorrente relativização da importância do Milton e do Clube na história da musica popular no Brasil. As versões que ficaram são para lá de insuficientes. Além disso, muitas vezes, a “defesa” da relevância do projeto estético deles se apresenta meio ressentida deste quadro, o que é problemático, ruim. E é claro que não basta que fulano ou o Caetano comente, diga que o Milton é figura central, etc…
    Seria bom mesmo que se estudasse isso melhor. A própria questão do desenvolvimento harmônico que eles promoveram e que, muitas vezes, recai numa conversa tecnicista, meio sem sentido, é importante. É um dos aspectos do espírito abrangente, inclusivo, desbravador a que você se refere. Penso o Clube da Esquina muito como realização antropofágica efetiva, em esfera formal. Massa o blog.
    Abraço.

  4. Belíssima análise. Apesar de não conhecer profundamente a obra do Milton, me encanto pelos primeiros discos dele.

    Não sabia que vc tinha ido morar em BH. Devo pintar por aí em breve – te aviso quando for!

    Grande abraço!

  5. Lauro, essa discussão é muito interessante. No meu ponto de vista, a música brasileira da época refletiu o racha da juventude que ficou a margem do regime mltar. De um lado, voce tinha um segmento mais engajado representado pelo Edu Lobo,m u show Chico, Sergio Ricardo e do outro o pessoal do desbunde, que fez meio que uma versão brasileira da contracultura internacioal chefiado pelos baianos e pelos seus filhos mais imediatos Macalé, Wally, Novos Baianos. Claro que havia comunicação e intercambio entre as duas partes, tanto que Chico e Caetano fizeram um show ao vivo no mesmo ano que o clube da esquina,mas acho que esses dois discursos foram sintetiados mesmo na música dos mineiros. E isto ocorreu pela interseção do Milton, um bossanovista, com garotos que estavam muito ligados no rock da época. E isto resultou, como voce mesmo observou, num disco muito generoso em sua abrangência.

  6. eu me lembro de um fim de noite em Bh em que rolaram as interpretações mais malucas pro Trem Azul do Lo Borges. A minha preferida é que ” você” na verdade é heroína e o tal “trem azul” é a veia do braço. Duvido que alguém supere esta.

  7. Poxa Luís que bom que vc gostou. Dê notícias quando aparecer, por favor. Vamos dar umas bandas por aqui, vai ser demais. Fazer uma edição Churrasco Grego com Feijão Tropeiro. Abração.

    Pois é Rodrigão, e é por isso que eu acho que é um disco que sintetiza a música que viria depois. Inclusive na música de Caetano, de Chico, do Edu (que no Missa Breve, só falta mudar a certidão de nascimento para BH) e de toda a música brasileira.

    Na minha opinião, quando o Clube da Esquina tinha um frescor e aquela vontade de juventude de dar conta de tudo, de uma maneira muito espontânea e feliz, que aquilo ali contagiou todo mundo mesmo. Uma coisa é certa, a música brasileira nunca mais foi a mesma. E acho que esse espírito musical da MPB como uma maneira de se aproximar dos gêneros musicais e fazer música se cristalizou com os discos do Milton dos anos 60 e 70, do primeiro disco com “O Beco do Mota” até o “Clube da Esquina 2”, que cada vez que eu ouço, eu acho melhor.

    Esse lance do Trem Azul, vai desde torcida de Futebol, viagem de ácido, apelido pra carro até essa versão que eu acho que é imbatível mesmo, mas se tratando do Lô né, tudo é possível.

  8. salve Lauro,
    me sinto um pouco pernambucano qd leio Gilberto Freire ou João Cabral, e sinto inveja do povo que tem a sua mitologia, e acho que os outros devem sentir o mesmo de nós, que o digam os gringos jazzistas que sempre aparecem por aqui para conhecer o clube, para conhecer a esquina (que não tem nada demais)… E vale sim a plavra do outro como por exemplo Alceu Valença (se não me engano) dizendo em uma entrevista que morria de medo de dar show em bh pq os músicos daqui estavam em outro patamar. E sobre o crédito de invenção da MPB (vamos combinar, essa que toca nas novelas, para o bem ou para o mal), eu diria que é de Caetano e Gil, que exarcebaram o papel do mass-media, do corpo, da história do país e da história da própria música brasileira. Escuto esses caras e me sinto muito brasileiro. Mas mitologia mesmo é Jorge Ben.
    abraços!

  9. ôpa…cheguei aqui pelo andre brasil e fiquei afeito. este post fez tanto a cabeça que resolvi me pronunciar. parabéns pelo blogo, que é da hora. tá com tudo e não tá prosa!

  10. FALOU UMA TREMENDA BOBAGEM. O GRANDE IDEALIZADOR E CRIADOR DOS FESTIVAIS QUE TROUXE ESSES MÚSCIOS A BAILA FOI SOLANO RIBEIRO. MILTON NUNCA FOI NEM VAI SER O INVETOR DA MPB. PRECISA LER MAIS. ELES VIERAM JUNTO COM OS FESTIVAIS E TUDO DEVE-SE AO SOLANO.

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