Arte na oposição

montagem da exposição na galeria Zwirner
montagem da exposição na Galeria Zwirner

Há um ano atrás, a prestigiada revista October enviou um questionário a artistas e intelectuais em que fazia perguntas relativas à guerra no Iraque. Entre outras dúvidas, a publicação queria saber se os entrevistados reagiam de alguma forma à invasão americana e ocupação americana e como faziam iso. De forma lúcida, o pintor norte-americano Raymond Pettibon respondeu com o que faz melhor:  Enviou aos editores três belos desenhos da série que ele havia exposto em 2007, na Galeria de David Zwirner. A mostra se chamava Here’s Your Irony Back (The Big Picture) um dos assuntos era política externa norte-americana para o Oriente médio.

As pranchas tratam da relação do presidente Bush com a guerra. São cruas, diretas e sem cor. Sem cor, elas melhoraram. São companhadas de texto, se parecem com cartuns e têm, ao mesmo tempo, algo dos fanzines punk e de uma cultura da imagem existente nos Estados Unidos desde o século XIX. Em preto e branco, eles se parecem com o trabalho que o artista realizava nos seus primórdios. Aliás, eu prefiro quando essa carga de violência dá as caras na sua obra.

Pettibon vem da cena hardcore americana. É irmão de Greg Ginn,o guitarrista do Black Flag e dono do selo SST. Na sua juventude foi o autor de boa parte das imagens do underground dos Estados Unidos. Minutemen, Saccharine Trust, Sonic Youth, Circle Jerks, Fear, todos passaram pela pena de Pettibon. Entre outras coisas, ele é o autor do famoso logo do Black Flag. Seu vínculo com o Minutemen é tão profundo quanto com o Black Flag. Talvez até mais. O artista identifica o trio de Mike Watt, George Hurley e o finado D. Boon como importantes interlocutores. Acredito que isso aconteça pelo aspecto mais vanguardista do grupo e pela relação de amor ambígua que eles têm com a chamada americana.

raypettibon1

Embora seu trabalho preserve muito do espírito DIY, não dá para considerá-lo um artista popular. Ele tem os pés fincados na tradição da arte americana. E olha para uma cultura de imagens com um olhar muito culto. Aliás, o artista é de uma erudição danada. Articula elementos da historiografia do seu país com uma iconografia que seus patrícios querem apagar da memória. Tudo pintado com tintas heróicas, bem ao estilo norte americano, mesmo quando vagabundas. Ele é uma artista que não poderia ter nascido em outro lugar. Lida mais com uma história nacional da arte do que com uma narrativa mais universal.

Heres Your Irony Back
Here's Your Irony Back

Mesmo que declare a sua admiração a escritores irlandeses como Laurence Sterne e James Joyce, acima de quaisquer outros, o que lhe importa é a experiência do seu país.  Ele procura a audácia narrativa de seus ídolo, como eles também, apartir de um retrato da vida do dia a dia. Como os grandes escritores dos EUA procuram the great american novel, ele parece com o olho voltado para o great american drawn. Talvez por isso as suas imagens sejam tão eficazes.

Lado a lado, ele coloca a violência de Melville e a placidez de Fairfield Porter, por exemplo, Woddy Guthrie, Edgard Alan Poe e as pinturas iniciais de Warhol. Hoje, ele, junto com Paul McCarthy, Kara Walker, Cindy Sherman  e Richard Prince, talvez seja um dos artistas americanos que leva essa cultura de imagens  e ícones americanos mais a sério.

Sem título (I Wish I). 2007
Sem título (I Wish I). 2007
Sem título (If Tom Cruise). 2007
Sem título (If Tom Cruise). 2007
Sem título (You killed—Murdered—). 2007. Todos os trabalhos são da galeria de David Zwirner
Sem título (You killed—Murdered—). 2007. Todos os trabalhos são da galeria de David Zwirner

A arte crítica ao establishment dos Estados Unidos não vem de hoje. Aliás, é fundadora da cultura deles. Em 1971, o grande pintor Philip Guston fez uma série de desenhos entitulada Poor Richard. Lá, na forma de cartum, o artista desenhava peripécias do 37° presidente americano.

Nixon era representado com uma gigantesca cara de piroca que ostentava os seus títulos não menos rídiculos. Colocamos alguns desenhos aqui, mas quem disponibiliza tudo são os nossos amigos do Ubu web.

Esse tipo de figuração dos Estados Unidos apareceu tarde na obra de Philip Guston. Na década de quarenta o artista fez trabalhos figurativos e  politizados, mas visualmente eles se pareciam mais com a pintura mexicana da época, realismo socialista. De lá, ele só melhorou. O reconhecimento como um dos grandes nomes da arte moderna veio de sua pintura abstrata e lírica.

Mas no fim da década de sessenta, resolveu figurar elementos pegajosos da cultura de massa dos EUA.Muitos vêm essa pintura como uma espécie de reação à pop (que lhe interessava). À vida superficial, veloz e alienada ele respondia colocando toneladas de carne na sua pintura. Como nos quadrinhos, ele relatava o que havia de patético ali.

O seu amigo Philip Roth relatou essa relação de uma maneira mais bonita e esclarecedora:

O que Philip descobrira era o terror que emana dos utensílios mais comuns do mundo da completa estupidez. A visão nada enobrecedora  das coisas que ele aprendera com os quadrinhos que lia nos jornais na sua fase de formação, numa família de imigrantes judeus na Califórnia, a vulgaridade americana pela qual, mesmo no auge de sua fase lírica e meditativa, como intelectual ele sempre tivera um fraco, passou a ser vista — de um modo fácil de entender para os leitores de Molloy e de O castelo — como se sua vida, tanto como artista quanto como homem, dependesse disso. Essas imagens populares de uma realidade superficial eram imbuídas por ele de tamanha carga de sofrimento pessoal e intensidade artística que deram forma a uma nova paisagem americana de terror

Acrescentaria, que esse terror era feito com humor, um humor patético, mas engraçado.

Julguem por vocês:

01

09293154

11

10

36031mais no ubu

14 comentários sobre “Arte na oposição

  1. Muito bom o texto, é engraçado como os americanos tratam de seus problemas nessa chave de uma ironia trágica e patética. A literatura do Philip Roth mesmo tem muito disso também , né?
    E o curioso é que minha admiração tanto pelo Raymond Pettibon quanto pelo Philip Guston apareceram nas capas de discos. Do Pettibon, eu não preciso nem falar. Tenho uma lista que enche umas três folhas de caderno com os discos que eu adoro que têm a capa dele.
    Já o Philip Guston tem um bem específico chamado “Only” do Morton Feldman que acho que foi minha primeira aproximação da música contemporânea de uma forma mais apaixonada. Eu lembro que ficava escutando o disco vidrado naquela capinha de CD. Fiquei fã dos dois.

  2. A capa do Only foi feita a partir de um retrato do Feldman que o Guston fez. Eles eram amigos desde a juventude, muito amigos mesmo. Quando o Guston resolveu fazer pintura figurativa, o Feldman torceu o nariz. Depois amoleceu, amoleceu e começou a ver o trabalho do Guston como gêmeo da música dele. No entanto, eles nunca conseguiram se falr de novo. Isso foi um baque danado para Feldman, que considerava Guston o seu melhor amigo.

    Ambos têm essa carga meio trágica e meio patética, que vem de outro ídolo deles: Beckett. Essa impossibilidade de determinar as coisas foi aprendida com outro amigo comum: John Cage.

    Tem algo de lidar com imagens, no caso de Guston, e os sons, no caso de Feldman, meio abobados, inocentes e fáceis. E tentar extrair um sentido lírico da dificuldade de se ordenar as coisas. acho que no caso do Feldman, que tem uma obra gigante do qual eu só dou conta da unha do pé, isso aparece tanto no trabalho das melodias como no uso que ele faz de séries de sons. O Guston figura esse mundo massudo, com muita tinta, cor de carne e figuras banais que aparecem pesadas e pegajosas. Bem, ótima lembrança. São dois dos meus ídolos.
    Quem quiser saber mais sobre essa amizade, leia aqui:
    http://www.cnvill.net/mfmayer.htm

    Aqui tem a homenagem que Guston fez para Feldman (mencionada pelo Lauro):

    Aqui, algo sobre a homenagem de Feldman para Guston (eu tenho o áudio em casa, se vocês quiserem disponibilizo mais tarde).
    http://www.revistas.ufg.br/index.php/musica/article/view/4602/3927
    http://www.amazon.com/Morton-Feldman-Philip-Guston/dp/B001387XJY/ref=pd_bbs_sr_1?ie=UTF8&s=music&qid=1238184017&sr=8-1
    http://www.ubu.com/sound/feldman.html

  3. Muito bom o post xará, Pettibon é o cara! Já tentei contato com ele algumas vezes pra fazer alguma coisa com ele, mas nunca tive nenhum retorno. O próprio Aaron Rose, curador do Beautiful Losers me disse uma vez que o cara é assim mesmo, difícil, quase inacessível.

    Mas o “quase” ainda me dá a esperança de ver um de meus maiores ídolos de infância na capa da +soma um dia. E ai, topa o desafio?

    Abraço e continuem o bom trabalho por aqui, acompanho sempre, meio voyeur…rs..mas nessa tive que comentar!

  4. Opa, topo fácil. aliás, conheço um pessoal lá na David Zwirner. Não sei se rola, mas quando eu desafogar, vamos conversar sobre isso xará. Saiba que sua presença aqui me honra muito
    abração meu querido

  5. Massa, ainda não tinha tentado por eles, mas pode ser um bom caminho mesmo. Mas é essa a idéia, sem pressa, quando rolar rolou.

    Abraço e bom final de semana!

    Tiago.

  6. Dessa turma de art punk já entrevistei o Gary Panther – um dos artistas que mais amo nesse mundo – e o John Yates, que é mais um lance agit prop, sem grandes pretensões artísticas.

    O Pettibon é um colosso! Comprei uma Swindle que tem uma entrevista com ele muito foda, mas o cara é o mais puro black flag das ideias, hahaha. Tem esses dois artistas punks que me interessam muito:
    Winston Smith: http://www.winstonsmith.com/main.html e a Gee Vaucher, que foi pioneira e realmente muito talentosa, apavorava nas artes de todas as bandas da Crass Records: http://www.96gillespie.com/artists_profiles/vaucher.htm

  7. excelente. pettibon é meu novo ídolo. e esse negócio do guston é da porra. valia a pena, inclusive, falar da escolha do tema pobre ricardo, que é o almanaque escrito e publicado pelo benjamin franklin em pessoa. uma mistura de crítica e elogio à sabedoria popular, que é, pra mim, no fundo e no raso, o tema da moçada pop.

  8. Arthur, até onde eu sei, o Pettibon faz de tudo para não ser considerado um artista punk. Sobretudo art punk. Uma frase conhecida dele é “any of the most disliked things would be prefaced with art”.

    Seu trabalho, na minha opinião, está muito mais próximo de criadores americanos que tentaram pensar a arte e o texto juntos e do meio de arte da California, que desde a década de 70 nunca separou muito o popular e a cultura de consumo da criação tida como mais elevada.

    O nomão que eu penso como antecedente é o Saul Steinberg, além do Guston mesmo. O meio de arte californiano que eu falo tem o Ed Ruscha (que aprendi que a pronúnica é ed ruchê), Mike Kelley, Paul McCarthy, Richard Prince, Tony Oursler, Michael Asher e etc.

    Por isso, eu não penso ele como uma face visual do punk, mas alguém que aproximou a idéia de autonomia do punk com a de autonomia visual, mas é só.

    Rafa, nunca vi esse manual do Benjamin franklin. Você tem?
    abraços e muito obrigado pelos comentários

  9. O Pettibon também fala que “Punk Rockers Dont Buy Art”. A Gee Vaucher também não chama a arte dela de punk. Mas fazer o que se ambos foram reconhecidos fazendo flyer, capas de discos e posteresw punk e participam de toda e qualquer antologia e exposição sobre punk?

    Acho que isso não muda nada e é uma discussão boba. O que importa é que ele é um artista foda.

    Em tempo. Na mesma entrevista ele fala que tem três ícones políticos: o Lee Harvey Oswald, o Squaky Fromme da família Manson e uma mulher que tentou assassinar o presidente Ford…

  10. Arthur, só um detalhe historiográfico, eles ficaram reconhecidos no meio do rock. em paralelo a isso, o Pettibon já se aproximava do meio de arte californiano que falei, sobretudo do Ed Ruscha e do John Baldessari.Aliás, elefez trabalhos em parceria com ambos. Isso, inclusive, é de praxe no meio californiano da “turma” do Pettibon.
    http://www.worcesterart.org/Exhibitions/ruscha.html
    O Mike Kelley tem uma produção importante com o Paul McCarthy também.

    A discussão é mesmo menor, mas não desimportante. Tem a ver com os canais em que escoam a produção visual. Acho que associar a produção de Raymond Pettibon à “turma art punk” perdemos muito do seu sentido e inclusive o que ele fez com o que aprendeu com o punk. Vendo os caras que você colocou ao lado dele, convenhamos, mas nada mais distante.

    Acho que existe uma superestima do meio juvenil de onde alguns artistas apareceram. O raymond Pettibon, em particular, trabalhava com esse pessoal do rock e ao mesmo tempo se aproximava do meio de arte contemporânea da california. O seu trabalho não é algo desvinculado da tradição e parece dizer muito mais a respeito da tradição artística do que ser “puro Black Flag”. aliás, falo isso para elogiar tanto o Black Flag como o Pettibon. Não dá para pensar o seu trabalho como uma manifestação do punk americano. Ele passa por isso, mas não só. O que ele faz é levar algo da discussão da arte contemporãnea para o punk e algo da cultura DIY para a produção de arte americana.

    Por isso, não dá para colocá-lo dentro da “turma art punk”, como você falou arthur, é um engano. Pelo o que eu vi, (só conheço as capas de disco desses dois nomes que você citou), o trabalho de Pettibon, por exemplo, não tem nada a ver nem com os posteres do Winston Smith e nem com as colagens da Gee Vaucher. Eles estão ligados a outras tradições e parecem responder a demandas mais peculiares da militância. Tanto que a linguagem deles é mais kitsch e mais debitária da pop inglesa.
    Não consigo enxergar isso nas pinturas do Raymond Pettibon. Já vi muita coisa dele em museu e galeria. Como disse no texto, o aproximaria do William Kentridge (https://guaciara.wordpress.com/2009/03/05/william-kentridge/ ) da Kara Walker e do Kiefer. Sobretudo com uma relação entre imagem e texto típica do cinema moderno e dos experimentos literários do começo do século XX.
    Então, se ele começou incentivado tanto pelo hardcore como pelo cartoon político, acho que a sua linguagem discutiu com outras fontes. aliás, essa capacidade de não participar, de não aderir a estéticas e querer discutir o mundo no seu trabalho que dão chances dele ser bom.

  11. Agora o Brasil viu vantagem, ahhaha.

    Muito legal mesmo, Tiago. Realmente não dá para ver ligações com o trabalho de Winston Smith e da Gee Vaucher, por exemplo. Até porque punk é (foi – sei lá) um meio e não um movimento.

    Outro fato excêntrico do Pettibon: ele luta profissionalmente luta livre no México e no Japão. E não é luta livre encenada não! Vamos convidá-lo para um ultimate fight contra nossos campeões Fabiano Zoio e JJ Toledo?

    (como bom sujeito de piei, aposto no Zoio. Rá!)

  12. cara, está lá em taubatexas – a cidade do lanche frio e do refrigerante quente, onde cachorro anda em pé e galinha pode tirar carteira de motorista. vou pra lá nas próximas monções e pego pra vc. ediçãozinha americana meio chique, mas ainda assim é passável, apesar da letra marrom e do papel creme.
    e tem o texto, que vale a pena dar uma olhada. é o folhetim mais famoso da América nascente. inclusive a diagramação foi muito imitada e tal. meu zine tem muito a ver com ele. outro famoso da época, do caraleo, é o dicionário do diabo, do Ambrose Bierce. tenho em espanhol. ablçõ

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s