Realidade de cartilha

Ferreira perdido
Gullar perdido

A revista Bravo! tem sido muito generosa com o Blog do Guaci. Tretou, relou e lá são publicadas declarações que, no mínimo, valem um bate papo. A mais recente vem de uma entrevista com o poeta Ferreira Gullar que na minha opinião é o mais importante escritor brasileiro vivo.

Mesmo com um talento poético avassalador, Gullar parece ser uma daquelas figuras que ficaram presas em uma cápsula do tempo ideológica; um dos antigos militantes do comunismo que ainda hoje não assimilaram a pancada da derrubada do muro de Berlim. Desde então, o escritor, que até se exilou na União Soviética, parece entender o capitalismo em uma lógica tão dualista como antiga. A declaração dele sobre o governo Lula parece vinda de algum estudante adolescente revoltado contra o governo:

Como você avalia o governo Lula?

Avalio mal. O Lula é um grande pelego. Sabe aquele indivíduo que se infiltra nos sindicatos para amortecer os conflitos entre trabalhadores e patrões? O Lula age exatamente assim. Por um lado, agrada os banqueiros e os empresários. Por outro, corrompe o povão com programas assistencialistas. Posa de líder popular, e a massa o aplaude. Viva o pai dos pobres! Resultado: todo mundo confia no Lula, o rico e o miserável. Em decorrência, as tensões sociais se diluem. Que maravilha, não? Um país de carneirinhos…”

A crítica é no mínimo estapafúrdia. Eu até entendo gente que fala que o governo Lula ajuda os banqueiros e dá só as migalhas aos pobres. Discordo completamente, mas entendo. E, no final, simpatizo com todo mundo que acha que ainda é pouco o que se faz pra combater a desigualdade social no Brasil. Acho que o Gullar é preocupado com a redução da pobreza no Brasil, mas a mistura de ressentimento com o governo e um engessamento ideológico faz dele uma referência em declarações anacrônicas.

Classificar a diluição de tensões sociais como um problema, por exemplo, me dá um medo danado. O que ele acha que deveria ser feito? Estender as tensões sociais até o limite em que o “campesinato” e o “proletariado” se revoltassem e assim criassem uma nova ordem social? Ele queria a interrupção das políticas que possibilitaram uma ascensão social histórica para que o povo deixasse de ser cordeirinho? Isso parece discurso saído em alguma cartilha do marxismo mais vulgar possível.

Os problemas dos militantes do antigo PCB (atual PPS) com o PT já são antigos. E a prática dos antigos comunistas de chamarem Lula de pelego já é velha. Os sindicalistas ligados ao comunismo foram os primeiros a acusar os metalúrgicos do ABC ligados a Lula de agentes da CIA, de colaboracionistas da ditadura. A intelectualidade do ex-partidão foi a primeira a colocar em Lula a pecha de ignorante. Tudo por que ele e seus companheiros de sindicato e de luta inauguravam em 78 um modelo de partido de esquerda mais pragmático e menos submisso à intelectualidade partidária que se confirmaria muito mais bem-sucedido do que o eurocomunismo chique do PCB e depois PPS. Não é à toa que este partido hoje mais parece uma tendência direitista dos tucanos.

Se não bastasse, a infeliz convocação de Gullar para as tensões sociais (eu entendi mais do que nunca o amor desses ex-pcbistas pelo FHC, acho que eles se sentem mais próximos da revolução com ele), o poeta ainda dá uma interpretação do capitalismo, no mínimo esquisita pra quem acompanha todo esforço estatal que vem sendo gasto para se salvar o capitalismo mais ou menos como nós o conhecemos hoje. Diz ele que a organização econômica baseada na mercadoria e no trabalho livre se desenvolve “espontaneamente”, que é uma segunda natureza:

O capitalismo, à semelhança da natureza, se desenvolve espontaneamente. Não precisa que meia dúzia de burocratas dite o rumo das coisas, como acontecia nos regimes socialistas. (…) Impossível deter uma engrenagem tão eficiente. Podemos, no máximo, brigar para que as desigualdades geradas pelo capitalismo diminuam. Aliás, convém que briguemos. Não devemos abdicar de um mundo mais justo, ainda que capitalista.”

É engraçado mesmo como as pessoas que se aferravam ao pensamento comunista mais partidário sempre tiveram dificuldade de entender o Brasil, fora de um cabedal de opções teóricas já dadas. Comunista, Caio Prado Júnior, em A Revolução Brasileira, já criticava um pensamento predominante no PCB da época, que defendia que o país deveria atravessar todas as fases do capitalismo até chegar na revolução comunista, o chamado etapismo. De acordo com essa concepção, o país era regido por uma organização econômica feudal, ainda que tenha se formado a partir das Grandes Navegações. Caio Prado mostra que o Brasil é essencialmente moderno e capitalista, mesmo com uns gatos pingados insistindo em dizer que vivemos em um sistema medieval. Uma revolução por aqui, assim como qualquer transformação efetiva, só faria sentido dentro de uma lógica própria da dinâmica da vida nacional.

Na minha opinião, a entrevista de Gullar, só mostra um sujeito que à falta da cartilha soviética para explicar sua realidade, apela para outros modelos aceitos previamente por uma intelectualidade antiguada. Melhor que ele fique mesmo na poesia, onde é uma voz livre desses pressupostos e dá o que pensar sobre as coisas do mundo.

Os mortos


os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
       certas sinfonias
                 algum bater de portas,
       ventanias

           Ausentes
           de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
           se de fato
           quando vivos
           acharam a mesma graça”

De Muitas Vozes (1999)

9 comentários sobre “Realidade de cartilha

  1. Uma coisa que o marxismo vulgar nao entendeu foi a elasticidade do capitalismo. assim, se não for para superar o modo de organização das forças produtivas, melhor incrementaá-las. acho que desse raciocínio canhestro que você fala. Aliás, é um raciocínio que alimenta boa parte da leitura bisonha da história recente. Muita gente na internet ainda vive de falar da superioridade de um capitalismo ideal sobre um socialismo que não existe mais. é um anti-comunismo sem comunismo. Parece que para justificar a bárbarie recente eles se apóiam na bárbarie soviética.
    Bem, muito melhor que essas groselhas é isso aqui:
    http://sequenciasparisienses.blogspot.com/2009/03/uma-conversa-muito-seria.html
    http://sequenciasparisienses.blogspot.com/2009/03/anexo-ao-texto-abaixo-publicado-na.html

  2. Olha, Lula é criticável. Ainda. O repórter lhe perguntou, ele respondeu. E foi direto ao cerne. Porque lúcido.
    Só a idade, a quilometragem, permite isto. E se o velinho diz, melhor por as barbas de molho e investigar. Com equilíbrio. 😉

  3. Caro Sílvio, em primeiro lugar, muito obrigado pela participação.
    Lula não só é criticável como muito criticado né? É só dar uma olhadinha nos jornais, revistas semanais e mesmo no Blog do Guaci.
    Agora, as críticas ao Lula tb são criticáveis e eu posso criticar como bem entender, assim como posso ser criticado por isso. E eu discordo de você, não acho que o Ferreira Gullar vai ao ponto na entrevista não. Reclamar da diluição das tensões sociais é o que, por exemplo? Pedir pros outros se matarem na rua?
    Sinceramente, é de uma bobagem indescritível.
    Tratar um programa social muito bem sucedido (que permitiu uma ascensão social histórica) como um cala a boca para os pobres me parece bem pouco lúcido. E em relação aos banqueirs, é engraçado mas nunca vi nem o Ferreira Gullar e nem ninguém reclamando de um Proer da vida.
    Quanto a experiência de vida, eu duvido que o Ferreira Gullar tenha parado para investigar quando deu essa declaração. Mesmo por que é o tipo de reclamação que qualquer Hebe Camargo (que é mais velha que ele) dá ao vivo em seus programas de TV.
    Respeito idade e acho que experiência conta muito, mas não faz de ninguém bom ou mau, apto ou inapto. O conterrâneo do Ferreira Gullar, o ex-presidente Sarney taí pra provar o que eu falo.
    E essa coisa de pôr as barbas de moilho, por favor né Sílvio (com todo respeito)? Se pede minha investigação, pelo menos, apresente algum dado ou informação me rebatendo. Com equilíbrio.

  4. Se precisa de idade pra mandar uma bravatinha dessas, tô fora. Young till i die! Com equilibrio, é claro.

    Tem um monte de moleque sem barba pra botar de molho que também acham que o Lula tá “dopando” a ralé com umas migalhinhas. É só ver os grupelhos de ultra esquerda por aí.

    E eu até acho que mesmo essa posição dos radicais deve ser discutida. Mas não na Bravo!, numa boa (Boi de piranha, é assim que se fala né?). Sou a última pessoa a desqualificar posições do que o próprio Gullar chamaria de comunismo com doença infantil – e por isso me estranha ele tomar partido dessas posições (desespero político, é assim que fala?).
    Ah, AINDA.

  5. Não entendo esse pessoal que desce a lenha no bolsa família…

    É um programa social que consome menos de 2% do PIB, menos do que o governo gasta com a manutenção (?) do sistema prisonal, por exemplo. Além do que é um programa social que visa atender às necessidades de uma população que está numa situação emergencial de pobreza e não pode esperar por investimentos a médio e longo prazo em infra-estrutura e geração de empregos.

    A verdade é que, apesar dos pesares, os programas assistenciais são sim formas válidas de melhorar a distribuição de renda. Gostaria de entender o raciocinio de quem acha o contrário…

  6. Pois é André, eu também gostaria mesmo, mas é difícil esse pessoal sair da bravata anti-Lula.
    O pior é quando dizem que ninguém quer trabalhar por causa do Bolsa Família. Só esquecem de dizer que ninguém quer desembolsar um sal´rio decente e nem prover condições de trabalho que satisfaçam os beneficiados pelo programa. Vou te falar viu…

  7. 8 = 42
    4 = 22
    Lauro, obrigado pela acolhida.

    Diante do aburguesamento da nossa sociedade por força de movimentos políticos anteriores aos da atual administração, porém aprimorado incontestavelmente por Luiz Inácio em seu governo, uma pessoa mais experiente, mais vivida, com um quadro de referências muito mais amplo, tem serenidade e distanciamento para pontuar suas questões. Enfim, ela PODE detectar com mais êxito a luz de certas intenções que a paixão as vezes não permite enxergar.

    Isto posto, é lícito supor que político algum merece receber gratuitamente atestado de idoneidade do cidadão. Principalmente quando em cargo executivo, onde o lema deve ser trabalhar mais e falar menos.

    Eu acredito que Lula é um homem moral. Mas é inegável que também trabalha para que times e claques continuem docemente formados, em favor da hegemonia que o modelo instituído por seu grupo representa. Basta olhar dona Dilma. Desde o segundo dia do atual mandato de Lulla, esta mineira tem sido fornida, recauchutada, oferecida aos quatro cantos. Ao lado dele.

    Presidente no mandato deve sentar o traseiro na cadeira e trabalhar. Mas quando a carreata, o palanque, o jogo pra platéia determina a pauta de ações, muitas vezes em favor de interesses não manifestos, não carece um pouco de prudência de nossa parte. Porém, se o elevam a ídolo, ao nível do ser supremo, de um pai, melhor deixar pra lá, né? Filho educado não pode contestar o seu provedor.

    Eu prefiro ser matuto e alisar minha barba. Vai que chove? 😉

  8. Esse tipo de crítica de esquerda é realmente muito egoísta. E vaidosa. Ressaltando que a crítica de cunho estritamente direitista, oligárquica, costuma ser pior e, quase sempre, dissimulada.
    Eu acho que é possível dizer que, no mundo de hoje, e provavelmente no mundo dos próximos anos, qualquer nação precisa encontrar o caminho do meio, o equilíbrio entre as forças políticas e sociais, para que seja alcançado algo próximo do que se entende por “bem comum”. Ou seja, melhoria da qualidade de vida, diminuição da pobreza.
    Isso que o Gullar disse, eu ouço gente nova dizendo. Me parece muito mais com um devaneio, uma fantasia, que tem mais a ver com fé e crença, e que tem seu ápice no prazer em sonhar com manifestos esquerdistas virando realidade e com todos os acumuladores de capital ajoelhados, pedindo perdão pelos pecados. Ora bolas, os acumuladores de capital representam a produção e é papel de qualquer estado tornar interessante que haja produção juntamente com melhorias sociais.
    Como isso seria possível com a instituição de uma administração radical, que mandasse os empresários irem tomar no cu e aumentasse o salário mínimo pra 3.000 reais, a fim de glorificar os trabalhadores?
    Não sei se todo mundo conhece aquela fábula do boi velho e do boi novo:
    boi novo: vamos correr até o vale e foder algumas vacas!
    boi velho: vamos andar até lá e foder todas elas.
    Medidas radicais funcionam bem para indivíduos com objetivos claros: emagrecer, economizar dinheiro, ter disciplina para estudar, etc. Um estado tem objetivos difusos e só recorre a medidas radicais em situações igualmente radicais e extremas. A melhoria de vida de um povo, no dia-a-dia, no emprego, na lida com o patrão, usando o transporte público, vivendo com saneamento básico, tendo escola e casa pra morar, tem a ver com fazer o melhor com aquilo que está posto e tentar melhorar o que está por vir. Não tem nada a ver com a vaidade esquerdista ressentida do Gullar.

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