Nuno Ramos : Crisálida

nuno-barcos

Nuno Ramos é um dos maiores nomes da arte contemporânea e um dos artistas mais densos e ativos que esse país já produziu.O sujeito é de uma energia invejável. Faz pintura, escultura, instalações, escreve bem pra burro e ainda compõe música popular com o  Romulo Fróes. Hoje, ele abre uma exposição ambiciosa na galeria Anita Schwarz, no Rio de Janeiro.

Mostra, entre outras coisas, uma escultura gigante em que une dois barcos com uma camada de sabão. Além dessa pele esquisita, a peça tem caixas de som de onde uma voz lê um texto do artista chamado Mar morto. Não sei se o texto guarda alguma relação com os Manuscritos do Mar Morto, com o livro do Jorge Amado ou com a porção de água no oriente médio, mas deve ser bom.

O trabalho parece guardar características em comum com uma série de esculturas que o artista fez a partir de 2006. Neles ele reunia chapas de desenho elegante feitas do mesmo material . No ano em que esses trabalhos apareceram, eu escrevi um texto sobre uma exposição de Nuno Ramos em Vitória.

Nem sei se essa é a versão final, mas foi a que sobrou do meu computador de antes. Aproveito o ensejo e republico aqui:

  • Crisálida (2006)

Tomie Ohtake, 2006 (fotografia Eduardo Ortega)
Tomie Ohtake, 2006. Foto: Eduardo Ortega

Na obra de Nuno Ramos, nunca se viram esculturas tão limpas, estruturadas e bem desenhadas como essas mais recentes. O artista lida com chapas de pedra ou de vidro lisas. Não há tensão entre os materiais e a forma atribuída a eles. Desenho e matéria parecem ter nascido um para o outro.

Como os mármores de Brancusi, aquelas chapas nunca se sentiram melhor do que se sentem agora, basta ver o modo como se acomodam ao recorte que o artista deu a eles. Os materiais perderam a presença que tinham antes. Passaram para o segundo plano, dando lugar para o desenho de uma forma íntegra.

As peças tridimensionais são feitas a partir da junção de duas dessas formas, unidas por dobradiças de metal. Talvez por isso, tenham algo dos bichos de Lygia Clark. Mas o parentesco pára aí. As faces não são articuladas, uma se apóia na outra para ficar de pé. Têm um formato elegante que combina os mesmos elementos: linhas retas e curvas sinuosas. No entanto, a distribuição dos elementos na peça é completamente diferente em cada uma das faces. Tomando uma analogia do reino animal, são figuras que pertencem ao mesmo gênero, mas não são da mesma espécie. O que garante o equilíbrio entre elas, porém, é essa assimetria. Como se naturezas distintas formassem um corpo só. Além disso, elas são contornadas e atravessadas por tubos por onde líquidos circulam e se misturam.

Tomie Ohtake, 2006 (fotografia Eduardo Ortega)
Tomie Ohtake, 2006. Foto: Eduardo Ortega

Apesar de muitas esculturas terem nome de borboleta, sua aparência é antes de crisálida, o estado em que o bicho já deixou de ser lagarta, entrou em seu período ninfal e ainda não se tornou o inseto lepidóptero. Os formatos, quando reunidos, têm um aspecto híbrido, que não é uma coisa nem outra, mas algo no intervalo entre essas formas.

A associação de elementos distintos já estava presente nas pinturas e esculturas de Nuno Ramos desde a década de noventa. Em boa parte dessas obras o artista acentuava a convivência entre materiais díspares. Como melhor explicou o crítico de arte Alberto Tassinari, tratava-se de unificar “o que, sem a arte, permaneceria desunido”.

Diferente de suas pinturas, por exemplo, essas esculturas não revelam um interior que parece transbordar do plano. Em seus desenhos e pinturas era muito comum o artista revestir sua superfície com faixas metálicas pregadas na madeira e fazer com que as substâncias transbordassem no intervalo entre uma faixa horizontal e outra. De lá, escorrria cera, pigmentos e toda sorte de líquidos viscosos.

Em uma pintura grande da mesma época, folhas que caíram de uma árvore eram coladas na superfície apareciam como se escorressem de lá.  Atrás das pelúcias, escapava uma grande quantidade de tinta e estopa que revelava algo que estava detrás da epiderme da pintura. Era como se as entranhas de um corpo se colocassem na frente das costelas.

Nuno Ramos - Sem titulo, 321 x 663 x 235 cm, 1994. Foto: Eduardo Eckenfels

Essa junção de coisas que nã se juntam permanece nas esculturas de 2006, mas de maneira muito diferente. As peças são polidas e partem de um esquema bastante simples: Formas geométricas intrincadas, irregulares, que se utilizam sempre dos mesmos elementos: duas linhas retas e duas curvas que se apóiam juntam e se equilibram umas nas outras.

Com o acabamento que elas têm, são incapazes de potencializar qualquer materialidade dos elementos. O desenho de duas peças diferentes em um corpo só que dá o aspecto de reunião de perfis incompatíveis. Uma parte se funde à outra mas não homogeneiza nem uma forma e nem a outra em um bicho sem simetria. Não é por acaso que a primeira série exposta dessas peças se chamava Entre (2006). O título define o estado dos trabalhos,que parecem estacionados, parados em um intervalo.

Os tubos que contornam a peça complicam ainda mais essa química.  As mangueiras saem de recipientes escritos com o nome do líquido que circulou dentro delas. O material passa por cima e do lado das esculturas. Dentro dos canais eles se misturam. Substâncias que deveriam se estranhar viram uma outra coisa, que não é nem uma e nem outra.

Os materiais misturados não guardam relação um com o outro. São produtos industriais misturados com elementos da natureza. Juntos formam substâncias inúteis e desconhecidas, em um híbrido que não se parece com nada reconhecível.  Num deles, circula a água do mar e o vinagre; no outro, glicose e petróleo e em um terceiro petróleo e coca-cola. Depois de misturados eles ficam como os perfis que formam a escultura, partes de algo que não é de um nem de outro, mas uma terceira coisa estranha a ambas as partes.

o que ele chama de desenho

Por isso, não se trata da junção anômala de coisas que não combinam umas com as outras. É antes a acomodação de naturezas distintas em uma solução esquisita que as mantém em um mesmo corpo. A ficção científica e o cinema B exploraram bem esses temas – nos apresentaram a um mundo onde homens se tornavam moscas antropomorfizadas e onde um Doutor Moreau experimentava com os humanos para dar origem a todas as criaturas da sua ilha.

As criações mostradas aqui não são aberrações. Aliás, são bonitas, têm elegância e estão equilibradas. Seu aspecto assimétrico indica uma indefinição que sua forma quer manter. Pois, assim, garante que possamos vislumbrar um tempo onde suspeitamos da homogeneidade das coisas e a rigidez das definições. Aqui nada é definitivo e as coisas não precisam ser o que qualquer juízo mais determinado estipulou ao seu respeito. São peças que não ousamos dizer o nome.

Em geral, a literatura e o cinema fantástico nos mostravam aquelas figuras monstruosas como algo assustador, a ser temido. Mas aqui não. Esse estado que Nuno dá às peças faz com que elas estejam em um movimento que as faça inapreensíveis.

Este, inclusive, é um sentido da materialidade dos seus trabalhos. Mesmo quando trabalha com formas transparentes em materiais brilhantes e achatados, idéia e matéria parecem sempre correr um atrás do rabo do outro. Não que a matéria seja irredutível de descrição ou que fuja dela, o movimento do pensamento é o inverso. O conceito não qeur ser um fundamento para a matéria se encaixar, mas uma forma de se falar como podemos lidar com uma história em que nada se fixa e todo o esforço resulta em conseqüências imprevistas de antemão. aceitar esse caráter insondável e inapreensível, sem abrir mão de agir é o esforço de Nuno Ramos.

Assim, os seus objetos que não podem ser programados, planejados e nem viver de forma previsível. Por isso, olham para nós como crisálidas, como se nos perguntassem se precisam mesmo se tornar borboletas.

3 comentários sobre “Nuno Ramos : Crisálida

  1. Eu sou grande fã do Nuno. Acho que poucos artistas no mundo conseguem fazer obras com um impacto visual tão grande e com uma capacidade de dar conta de tantos assuntos. Fiquei afim de ir ver essa exposição no Rio.

    A arte que mais me chama atenção, na verdade,tem muito a ver com esse impacto visual. Essas formas absolutamente diferentes que te pegam pela retina e parecem dizer: chega aqui que eu quero te dizer algo.

    O Nuno é desses artistas. E ver as coisas deles é sempre se deparar com um assunto novo e fascinante.

  2. Quer saber como ele faz os seus trabalhos? Os procedimentos? Não sei se seria capaz de descrevê-los um a um. Mas é uma obra tão diversa e tão densa que a mera descrição de procedimento parece insuficiente. Acho que os procedimentos são reveladores, mas precisamos ter em mente o que os anima, na falta de palavra melhor, de uma poética.

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