O ano Mira Schendel

Pintura sem título, 1964
Pintura sem título, 1964

2009 é o ano de Mira Schendel e amanhã começam  os trabalhos. Quem abre é a  Galeria Millan, em São Paulo, que montou uma exposição com os desenhos que a artista chamava de Monotipias (a discussão técnica é longa, mas penso neles como desenhos). Em abril, é a vez do MoMA, de Nova York, receber trabalhos da artista. É a primeira grande exposição de Mira nos Estados Unidos e uma manifestação de reconhecimento pelos nativos de lá. Depois disso, acredito que o seu nome se consagrará em outros países. Saberão lá no norte o que sempre soubemos: Mira foi uma das artistas mais importantes da produção contemporânea. Do lado de cá do Equador faz tempo que  essa pedra é cantada.

Em 2006, tive a honra de ser curador da mostra de inauguração Instituto de Arte Contemporânea, junto com o grande crítico de arte Rodrigo Naves. O IAC foi criado para expôr, preservar, pesquisar e divulgar alguns dos principais nomes da arte brasileira: Sérgio Camargo, Amilcar de Castro, Willys de Castro e Mira Schendel — alguns dos meus artistas favoritos.

Trabalhos dos quatro foram reunidos na mostra em que trabalhei. Escolhemos o que seria mostrado e escrevemos sobre isso.

A exposição ficou muito bonita e eu tenho muito orgulho desse trabalho.

Em homenagem à Mira, publico aqui alguns trechos do meu ensaio:

MIRA SCHENDEL

Objeto Gráfico
Objeto Gráfico

Os primeiros quadros de Mira Schendel já têm a aridez que ela procurou nos materiais mais neutros e insuspeitos. Na mão dela tudo fica meio indefinido. Mesmo o que tinha a transparência de uma idéia torna-se um monte de areia no deserto, que se modifica a qualquer sopro de vento.

1954
1954

No início de sua carreira, seus trabalhos têm cor de barro, cor de terra, a cor dos minerais. São encardidos e se apresentam em suportes rústicos que criam lugares escuros. Talvez por isso, elas têm um aspecto artesanal. Ms de um artesanal sem muito esmero. Os objetos e figuras geométricas têm as marcas que existem em um pote queimado, de cerâmica que ficou mais tempo que devia no forno.

1960
1960

A partir dessas telas, Mira começou a criar formas amplas e bem contornadas; preenchidas apenas com cor, matéria ou superfície crua. Progressivamente, as áreas vazias tornaram-se mais importantes do que as partes em que ela figurava objetos. E essas áreas indefinidas começaram a lhe atiçar a curiosidade. Os trabalhos eram feitos a partir dessas áreas e sobre a sua indefinição.

Sua poética dependia menos da insistência em formatos e técnicas do que em uma maneira de lidar com questões artísticas. A artista passa da pintura para o desenho, desse para a instalação e para os objetos tridimensionais. Muito bem preparada, ela talvez seja a que expandiu seu pensamento em um maior número de modalidades visuais, usando como tema, inclusive, as letras e símbolos gráficos.

Por essa diversidade, acredito que Mira tenha uma imagem de artista experimental e inquieta. Aliás, ela investigava a sua poética à exaustão.

SARRAFOS E OBJETOS GRÁFICOS

A justaposição de dois elementos simples nos sarrafos de Mira Schendel, também consegue modificar nossa apreensão de um e de outro. Essa série de trabalhos foi a última que a artista terminou. Feitos em 1987, eles causaram profunda impressão em Sérgio Camargo, só pra mencionar um vínculo factual entre os artistas. Tratava-se da justaposição de dois elementos objetivos e aparentemente neutros: uma superfície branca feita de têmpera e gesso e um barrote de madeira pintado de preto. Sozinho seria apenas um anteparo branco e um ângulo preto e grosso que não se diferenciaria de outros pedaços de madeira pintada.

Sarrafo, 1987
Sarrafo, 1987

No entanto, quando a artista sobrepõe um sobre o outro, o contraste torna-se muito evidente. O corpo branco deixa de ser visto como uma superfície anônima na parede. Passa a ser um objeto que segura outro. Ao mesmo tempo, eles se convertem em uma pintura. Quando o ângulo preto se volta para dentro da superfície branca, ela parece aprofundar esse plano. Quando aponta pra fora, torna-se relevo, e aparenta-se com uma tromba de Sergio Camargo. O interessante é que, como nas monotipias de Mira, essa intervenção também nos chama a atenção para a superfície, tornando-a um campo muito mais vasto que a sua presença física e ordinária poderia nos fazer imaginar.

mira-sarrafo3-1987
Sarrafo, 1987

Nos chamados Objetos gráficos, essa indeterminação do plano é ainda maior. De volta aos cubistas, lembramos que eles, para chamar a atenção do plano e mostrar uma certa distinção entre as áreas ilusórias e as áreas superficiais da pintura, chegaram a imprimir letras sobre a tela. Assim, marcavam espaços distintos da pintura. Uma zona de desenho que insinuava volume e representação e outra totalmente plana. A idéia era reunir essas partes e elas estruturariam, juntas, o sentido do trabalho.

O uso das letras na obra de Mira Schendel tem um sentido quase oposto. Em um arranjo de papel-arroz transparente e montado em uma estrutura acrílica, ela insere letras, escritos e outros sinais gráficos de tamanhos, formas e natureza diferente. Os trabalhos são montados para que possamos enxergar frente e verso. Só que o olhar não distingue em que lado está cada coisa. Ele parece enunciar um espaço indefinido sem frente nem costas, sem raso nem fundo.

Assim, temos idéias de profundidade distintas de parte a parte. As coisas parecem estar boiando, sem conseguir estabelecer uma relação precisa com a outra. O interesse, aliás, vem daí, da tentativa de se constituir um espaço onde nenhuma técnica consegue dominar. Mais do que isso, constituir relações formais aí.

Isso parece diferir completamente de certos destinos recentes da colagem, sobretudo nas culturas anglo-saxônicas. Em trabalhos como do americano Jeff Koons, a feitura de uma escultura kitsch em um lugar dedicado à mal nomeada “arte séria” poderia ser pensada como colagem. No entanto, aqui ele não busca modos novos de se lidar com os elementos que ele tem disponível. A colagem aqui funciona como uma gag. A inserção de um nome feio numa frase da Bíblia. Embora as vezes seja engraçado, é de uma ambição mais miúda do que a da Mira , que procura indeterminação mesmo no que foi chamado de óbvio.

Mira, 1964
Mira, 1964
Monotipia (este é um desenho gostoso), 1965
Monotipia (este é um desenho gostoso), 1965

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Droguinha, 1966
Droguinha, 1966

3 comentários sobre “O ano Mira Schendel

  1. O texto é lindo e os trabalhos dela são fantásticos. Oferece pra +Soma publicar algo teu sobre, pô.

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