Máfia, neoliberalismo e o luxo

Estou lendo Gomorra, do jornalista italiano Roberto Saviano. Mais do que um relato brutal de como a máfia (Camorra ou o Sistema) se estrutura na Campânia (província de Nápoles), o livro, até agora, é uma excelente maneira de se entender a relação dos grandes conglomerados capitalistas com o crime de hoje.

Logo no começo, o autor relata a maneira como as grifes de luxo fabricam suas roupas. Para fazer um acabamento impecável a preços factíveis, as empresas de alta costura como Versace, Armani, Valentino etc. contratam pequenas fábricas de costureiros na região metropolitana de Nápoles que trabalham até 15 horas por dia para entregar as peças em tempo hábil.

Cada um desses profissionais (na maioria mulheres) não ganham mais do 800 euros por mês. E a fabriqueta só recebe o dinheiro ao entregar o produto. Enquanto não são pagas pelo trabalho, essas fábricas pegam empréstimos com a máfia para garantir a produção.

O sistema de contratação das grandes marcas sempre envolve uma espécie de leilão onde a empresa que se comprometer a fazer mais por menos ganha. No geral, as marcas selecionam de três a cinco fabriquinhas. Dessas, a marca só irá pegar os produtos com uma  (a que entregar o produto mais rápido). O que as marcas da moda não pegam, o sistema de distribuição da Camorra leva para as lojas.

A estrutura empresarial fundada pelas organizações criminosas no Sul da Itália têm muito a ver com o modelo empresarial decentralizado bem parecido com os modelos do neoliberalismo. Os cartéis são separados com “pequenos grupos de boss gestores com centenas de agregados, cada um com responsabilidades precisas”. O objetivo é se se impôr no cenário econômico. “Uma estrutura muito horizontal, muito mais flexível do que a Cosa Nostra (da Sicília) e muito mais permeável a  novas alianças do que as ‘ndragheta (da Calábria), capaz de alimentar-se de novos clãs, de novas estratégias, lançando-se no mercado de vanguarda” (da moda ou da alta tecnologia).

O livro diz que  a máfia aproveitou a rede comercial da Europa, sua capilaridade, as marcas (com sua fama e publicidade) e inseriu nesse sistema o produto pirata (produzido na Itália ou na China) com conteúdo idêntico ao produto original, mas com produção de baixo custo e preços irrisórios.

No espírito da pirataria dos produtos , eu coloco um trecho do livro (a tradução é de Elaine Niccolai):

As grifes da moda italiana só começaram a protestar contra o grande mercado das falsificações, gerido pelos cartéis de Secondigliano, depois que a Antimáfia descobriu todo o mecanismo. Até então, não tinham planejado nem mesmo uma única campanha publicitária contra os clãs, nunca tinham feito denúncias, nem procurado os jornais para revelar os mecanismos de produção paralela. É difícil de compreender por que as grifes nunca se colocaram contra os clãs. Os motivos poderiam ser vários. Denunciar o grande mercado significava a renunciar para sempre à mão de obra barata que utilizavam na Campânia e em Puglia. Os clãs teriam fechado os canais de acesso à área das fábricas têxteis da região metropolitana de Nápoles e dificultado as relações com as fábricas do Leste Europeu e do Oriente. Denunciar teria comprometido milhares de contatos de venda nas lojas, já que muitos pontos comerciais eram administrados diretamente pelos clãs. A distribuição, os agentes, os transportes , em muitas partes são oriundos das famílias. Denunciando, teriam sofrido aumento dos preços na distribuição. Além disso os clãs não cometiam um crime que atentasse contra a imagem das grifes. Exploravam apenas o seu carisma simbólico. Produziam suas roupas sem modificá-las, não reduziam sua qualidade ou modelo. Conseguiam não fazer concorrência simbólica à grife, mas divulgar sempre mais produtos cujos preços de mercado os tinham tornado proibitivos ao grande público. Promoviam a marca. Se ninguém vestir as roupas de grife, se as roupas forem vistas somente nas modelos das passarelas, o mercado mundial diminuirá lentamente e o prestígio enfraquecerá. Além disso, nas fábricas napolitanas eram produzidos vestidos e calças de tamanhos que as grifes, por questão de imagem, não produzem. Os clãs, ao contrário, não se impunham questões de imagem em face da possibilidade de lucro. Os clãs de Secondigliano, por meio de falsificações e do dinheiro do narcotráfico , conseguiram comprar lojas e shopping centers, onde cada vez mais os produtos autênticos e as imitações eram misturados , impedindo qualquer distinção. O Sistema, de alguma forma, tinha sustentado o império da moda legal, não obstante o aumento dos preços e, ao contrário, tirando partido da crise do mercado. O Sistema, ganhando cifras imensas, tinha continuado a promover em todo o mundo o made in Italy.

Em Secondigliano tinham entendido que a rede internacional de pontos de venda era o seu business mais exclusivo, não secundário ao da droga. Através dos canais de escoamento das peças de vestuário movia-se também o narcotráfico.”

O livro deu origem a um longa-metragem que ganhou a Palma de Ouro  em Cannes no ano passado. O filme é legal, mas acaba ficando mais nas histórias de violência o que o afasta da novidade desse livro que é mostrar uma máfia como  uma pequena célula da globalização, que usa violência e todo tipo de ilegalidade e se aproveita de brechas do capitalismo para se tornar multi-milionária.

14 comentários sobre “Máfia, neoliberalismo e o luxo

  1. Laurão,
    engraçado, mas eu tinha gostado do filme exatamente por esse lance que voce diz que falta a ele, em comparação com o livro. nao li o livro, mas gostei do filme por causa exatamente da capacidade de desmascarar a ilusão da entrada da italia – e, de tabela, da propria sociedade ocidental – nesse suposto novo mundo maravilhoso da integração economica, do fim das fronteiras, da unificação politica e financeira da europa. acho aquela cena do mafioso de alto escalão na estrada com o sujeito que nao quer mais entrar naquele esquema muito significativa. o recado é: aquela violencia toda (fisica, economica, ambiental) é desse mundo mesmo, e não de um mundo que ficou pra trás.
    massa demais o post.
    J.

  2. Então Jay, eu gosto do filme tb, mas acho que o roteiro pulveriza tudo demais e fica difícil de extrair o contexto das histórias. Só aquela histórias das fábricas de costura rendia um filme. A do lixo dava outro. Mas é lógico que o filme é uma pancada mortal para entender em que tipo de exploração é calcada a gloobalização da economia. A cena do lixo é foda demais. A coisa da periferia do Sul da Itália ser a lixão de tudo quanto é porcaria da Europa por que não há estado, não participação das pessoas e tudo é mediado pelo crime organizado.

  3. Eu curti o filme também. Um bom documentário sobre o tema, de forma muito mais virulenta e tendo os Estados Unidos como estudo de caso é o A Corporação. Aqui dá para vê-lo http://video.google.com/videoplay?docid=1536249927801582119

    O livro da Naomi Klein, Sem Logo, que foi muito atacado na época, como ingênuo blablabla, me parece a cada olhadela que dou nele mais atual e pertinente. Tem por aí para baixar também, fácil.

    Falando em Klein e corporações, me parece que a agenda política (tanto a propositiva quanto à crítica) de toda aquela movimentação anticapitalista (que a imprensa chamou de antiglobalização e a academia de altermundista) me parece tomar cada vez mais um papel frontal no eswboço de uma nova teoria crítica ao capitalismo. Mas isso é papo de boteco.

  4. arthur
    falando nisso:
    http://www.counterpunch.org/harvey03132009.html
    eu sinceramente tenho (tinha, sei lá) meus bodes com o pessoal do “altermundismo”, principalmente pelo lado meio auto-congratulatório desse meio. mas no fim das contas, esse pessoal da nova-nova esquerda (cabei de inventar, acho que isso nem existe) sacou muita coisa antes de a bucha estourar. e só a perspectiva de que as demandas são anti-sistêmicas (algumas acho meio conservadoras), de reconhecimento de formas de vida não integradas ao mainstream das coisas, já faz desses movimentos os mais atuais.
    que bom seria se, em vez da destruição do capitalismo, a gente pudesse deixá-lo, sei la, pra nova york, londres e tóquio, e ir ser feliz no nosso canto. talvez em heliodora.
    de quebra, um texto novo e bem classe do david harvey
    http://www.counterpunch.org/harvey03132009.html

  5. Caralho Jay, acho que é esse o novo drop out brasa: Vou-me embora pra Heliodora!

    O lado mais difícil de sustentar e que gerava muita desconfiança era o loance auto celebratório mesmo. Mas quer saber de uma coisa? Atualmente, até essa parte eu tenho compreendido melhor e curtido mais. Usando um jargão bem upa lelê, saudando o grande Zé Celso e a caixa de DVDs do Oficina (i um dos filmes ontem e tô emocionado ainda) essa faceta dionísiaca do “movimento de movimentos” faz muito eco pela contramão aos tempos que vivemos.

    O Harvey deu uma entrevista para o último Le Monde muito bacana. Aliás, lembrei de um livro de artigos curtos da Naomi muito bacana também: Cercas e Janelas.

  6. Laurão, tou com o Jay nessa, muito embora vc não tenha dito que “falta”, antes que o filme “fica mais” focado num outro elemento. E, pensando bem, às vezes a violência funciona como um chamariz, como um foguete sinalizador no meio do mar: se não houvesse violência, se os negócios fossem conduzidos como uma cerimônia japonesa do chá, será que teríamos essa história? É muito provável que jornalistas policiais ou criminais tenham se deparado com algo mto maior ao investigar casos de violência. Além disso, “violência” é uma dessas formas que a vida toma que mais despertam e atraem as pessoas. Não é à toa que as pessoas se ligam em violência: violência é um dos elementos mais fundamentais da experiência humana, do parto à morte, passando pelos ciúmes e pela loucura… Enfim, parece que eu tou saindo do assunto, mas não: se o esquema FHC-Dantas-Mendes produzisse violência, talvez a sociedade estivesse mais ligada, porque tá ficando claro que o esquema tucano era um esquema de crimes financeiros na esteira da globalização dos sistemas mundiais de capitais, que também era um esquema que se aproveitava das brechas “históricas” do KAPITALIZMUZ para tornar um círculo multimilionário…

  7. Daniel,

    Cada vez abomino peças com linguagens distantes ou herméticas ao meio ao qual são direcionadas. Abaixo o elitismo intelectual. Ok.

    Mas pautar a forma por esse despertar fácil, aí eu não tô com você (e não é claro pra mim que a violência seja tão atraente por decisão da recepção; como se houvesse essa “natureza humana”).

    Também não concordo com essa de misturar todas as violências (de parto a tiro, ô loco). Isso me lembra aquela de fazer heavy metal porque os adolescentes preferem metal.

    Por fim, se é pra politizar ou educar o espectador, como você sugere, eu espero que seja com a sutileza de cerimônia do chá mesmo. Você mata dois capetas com um tiro só. E eu sei que você sabe bem que dá uma história danada sem violência, ora! Pirou? Vamos trocar por pornografia? 🙂

    Já a crítica aos demo-tucanos é sempre bem-vinda! 😛

    Abração!

  8. nunca mais encomendarei meus vestidos na versacee na armani mas o valentino é irrestível. Onde o senhor realmente quer
    chegar com isso, Lauro Mesquita!!!!

  9. Valeu, Cearax! Vc deixou claro que não fui claro. Beleza: vamos lá!
    Eu não quis fazer nenhum discurso de valor da forma e nem da linguagem do filme – este, “Gomorra”, em particular – e, por extensão, tampouco das formas e linguagens cinematográficas. Pelo que entendi, pareceu a ti que eu contrastava algo mais intelectual com coisas mais fáceis de digerir, e que isso da facilidade teria alguma coisa a ver com violência. Vou dizer então que não era o caso – inclusive, no “Gomorra – o filme”, acho que a violência é distanciadora – não é espetacular e os violentos não são charmosos nem necessariamente viris. São pessoas que cometem atos que paralisam e enrigelam os mais sensíveis, os que se vêem como parte de uma comunidade ou que ainda têm escrúpulos. E se eu me afasto para olhar o cinema à distância, vejo que há muita violência no cinema japonês clássico e novo, por exemplo, e nem por isso eles são mais vistos.
    Eu pensei em violência como forma, mesmo. Como um fenômeno que pode ter muitos pontos de partida e muitas faces. Pensei na violência que é parte do cotidiano, que dá forma a grandes lugares comuns da experiência humana: amor, ódio, júbilo, dor, morte. Tentei pensar numa ampla acepção de violência: da violência da barreira (física, política, social) à violência das guerras fratricidas. Violência também como manifestação e linguagem – às vezes articulada, às vezes como coisa bruta.
    Acho que não é mesmo o caso de pensar na “atração” da violência. Antes, acho que é mais um fundo comum de humanidade partilhado por todos.
    Sugeri apenas que a violência cometida pela Camorra pudesse ter sido o início da linha que levou jornalistas e investigadores à descoberta dos esquemas produtivos exploratórios. Daí eu ter falado em forma, porque se digo “crime”, acredito que as primeiras relações que se formarão na cabeça do meu interlocutor serão com “morte” ou “sangue” ou violência ligada necessariamente a estes desfechos/imagens. Dificilmente se pensará primeiro em crime de colarinho branco ou crimes financeiros, fiscais ou trabalhistas. Sugeri, portanto, que a violência dos crimes violentos pode ter chamado a atenção da sociedade italiana para um fato mais complexo que um “simples” atentado à vida, ainda que tal atentado possa ter sido o ponto de partida de muitos para a percepção do quadro maior. E sugeri, além disso, que as imprensas tendam a dar mais ênfase nos crimes de morte, uma vez que os crimes de colarinho branco e conexos são mais complicados de narrar e podem implicar gente da classe do narrador.
    E é por isso que citei o esquema Dantas-FHC-Mendes. Não tanto por crítica partidária, mas porque vejo aí justamente uma dificuldade da sociedade brasileira em chamar de crime o crime e de criminoso o criminoso. E fica tudo ainda mais fácil de escamotear porque não há “um morto”. Sabemos eu e você que há, mas não há um corpo marcado no chão. Além disso, é razoavelmente complexo dizer por onde esse morto sangra, além de exigir do interlocutor uma dose razoável de tempo, paciência e conhecimento… Acho esse um grande nó da nossa sociedade: dizer em alto e bom som que é CRIME (ou seja, alargar a base do que seja entendido como crime). Acho que talvez até dê para se ter uma idéia da quantidade de brasileiros que têm essa leitura a partir dos números de circulação da “Carta Capital”: segundo a Wiki, 73.400 pessoas. Ainda há um bom chão pela frente…

  10. Acabei de ver o filme e gostei viu. Ele mostra como um país, no lugar mais desenvolvido do mundo (a Europa), está na merda. Mais que isso, a ordem capitalista recente só parece viável com o crime organizado nas costas.

    Aliás, o filme me trouxe a impressão que a economia italiana depende da máfia. O sistema não é só do crime, mas da cadeia produtiva. Eles limpam o que não pode ser limpo, financiam o que não se paga e ainda mantém um achatamento salarial que permite um preço razoável. O combate à bandidagem seria uma medida anti-cíclica. Não li o livro, mas o filme, como o Dante, pede para deixarmos as esperanças na porta.

    Na faculdade, conversávamos muito sobre o que era e o que não era sistêmico no capitalismo. Ou seja, o que mantinha um ciclo normal e o que nção era na história da sociedade produtora de mercadorias pensada em uma longa duração. Além disso, a bibliografia falava muito da diferença entre práticas sociais e estruturas.

    Uma estrutura em algumas interpretações se reproduzia sozinha. Os sujeitos agiam como peões em um leque de escolhas dado e limitado. Não sei se o livro pensa assim, mas esse destino trágico me parece evidente no filme. As escolhas em não colaborar têm pouco efeito. A tragédia está feita . O personagem que se choca com o horror da distribuição lixo tóxico não pode fazer nada diante do problema.

    Tendo a não concordar com raciocínios tão estruturais, mas acho que esse caráter “funcional” das atividades ilícitas numa economia como a economia européia é um ponto forte para entender a realidade contemporãnea.

  11. Muito bom (http://maierovitch.blog.terra.com.br/2009/03/23/falsificar-viagra-rende-2-000-vezes-mais-que-trafico-de-cocaina-e-heroina/)

    “A criminalidade organizada, – que conta com velocidade superior a das polícias e como já se afirmou prefere muito mais o mouse à metralhadora -, descobriu, na sua permanente busca de lucro, que falsificar “viagra” e congêneres rende 2.000 vezes mais do que traficar drogas proibidas, como cocaína, heroína, etc. Só não rende mais do que a maconha.”

    “A Alemanha já percebeu, – e o Brasil e os EUA ainda não -, que a criminalidade de matriz mafiosa só busca o lucro. Por isso, atacar a economia que essa criminalidade movimenta é a única maneira de golpeá-la com sucesso, em especial por cortar o seu poder corruptor.”

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