Robert Wilson em 1980

Steve Buscemi nos VOOM Portraits de Robert Wilson
Steve Buscemi nos VOOM Portraits de Robert Wilson

No fim do ano passado, o criador de ópera e teatro Robert Wilson trouxe ao SESC Pinheiros, em São Paulo, a exposição de vídeos Voom Portraits . Os trabalhos feitos em vídeo de alta definição, pareciam fotografias, retratos parados. Eram imagens irreais, com alto tratamento cenográfico e atuação sutil, mas concentrada. Os movimentos eram mecânicos e delicados. Muitas imagens são reconstruções de ícones do imaginario popular, do cinema comercial, do teatro e da melhor pintura do ocidente.

Embora as mini-cenas fossem interpretadas por gente muito famosa, logo logo os atores se desfiguravam e pouco se distinguiam dos personagens. Eles se moviam de forma lenta e repetitiva. A cena era exibida em looping em uma tevê de altíssima definição. Essas imagens me fizeram pensar nos Screen Tests de Warhol. Em ambas, as imagens paradas se movem e observamos uma figura que olha em nossa direção.

Nas duas séries de trabalho, a imagem é discreta. O fotografado não parece sair do repouso. Mas me interessei,  sobretudo, pelo que os trabalhos dos diferentes artistas tinham de diferente.

No cinema de Warhol, a deifinição das imagens é baixa, a interpretação de quem está diante da câmera é próxima de zero e a cenografia inexiste. Os retratados não fazem parte de uma cena que se junta outra para formar um filme. Eles ficam diante de uma câmera parada como ficariam diante de um espelho. Só que lá, ninguém vê a sua imagem refletida. Os fotografados esperam, esperam e a imagem não aparece. Em um desses filmes, Susan Sontag parece procurar seu reflexo. Não encontra, se resigna e faz cara de satisfeita.

Ela olha para um lado, para outro ajeita o cabelo e nada. O que ela sabe é que aquele momento sobreviverá. A imagem em Warhol é um momento de vida que passa, mas fica registrado. É algo imune à passagem do tempo, para bem e para mal. As imagens não sofrem com a decadência física e nem com as doenças, mas não saem de onde estão. São como espectros, fantasmas que ficam na terra, não conseguem deixar a vida que levavam assim que morreram.

Como Dorian Gray, os filmados tentam manter uma imagem que resista ao tempo. Diferente do personagem de Oscar Wilde, no entanto, essa imagem é que se mantém a mesma, a entropia da vida é inexorável.

O filme se torna um registro dessa imagem. Esses screen tests são filmes solitários. Descolados de uma vida normal. São um momento de espera, onde os filmados só aguardam.  Aquele resíduo de vida vira uma imagem definitiva. Um retrato. Diferente do retrato tradicional, não se incorporam sentidos ao retratado.

Dita Von Teese balança mas não cai nos VOOM Prtraits,
Nos VOOM Prtraits, Dita Von Teese balança mas não cai

Nos filmes de Robert Wilson, os atores entram em personagens muito caracterizados. O figurino é impecável e carregado. O cenário, a maquiagem e o tratamento eletrônico não deixam a menor dúvida que aquilo é falso, mas é falso com uma definição de imagem que assusta.

Dentro do personagem, os atores não precisam fazer muita coisa. Eles tentam reconstituir cenas ou clichês conhecidos que ficaram conhecidos como imóveis, no entanto, o artista incorpora movimentos, como se aquela encenação colocasse algo da vida na imagem perfeita. Assim, aquelas imagens ficam vivas.

Inclusive, penso que nessa operação a série de Wilson guarde semelhanças com os filmes de Mathew Barney. Ambos parecem encontrar algo por detrás dos ícones. Uma vida secreta das figuras que sempre vimos como inanimadas.

Nos Cremaster, essa vida secreta é uma pulsão sexual da relação com as máquinas, são resíduos animais que se escondem atrás dessa carcaça. Esses desejos são sujos, emporcalhados e cheios de libido. Nos Voom Portraits, a imagem não esconde nada, não há um mundo emporcalhado de traumas.

O artista constrói um teatro sutil, em que os atores tentam encenar a vida das figuras paradas. Não por acaso ele usa imagens reconhecíveis  que nós conhecemos. É possível ver aqueles atores em outdoors, pôsteres de filme, fotografias de jornais, revistas etc.

Como em uma música de Laurie Anderson, as figuras das imagens têm uma vida como a nossa. Os objetos inanimados nos fitam, como nós os observamos. O artista registra esses ícones enquanto eles tentam se manter como personagens inanimados. Eles são de carne e osso, ou quase isso, por isso se movem um pouco, fazem brincadeiras, piscam o olho e nos desafiam. Esperam enquanto o tempo não passa.

Até essa exposição, só conhecia Robert Wilson por Einstein on the Beach, ópera que ele fez com o compositor Philip Glass.  Escuto muito o disco e já vi um vídeo da peça. Sabia também que ele fez algumas das montagens mais importantes de um grande ídolo meu: o dramaturgo Heiner Müller.

A partir da exposição me interessei muito pela obra de Wilson. A mostra teve um forte impacto. Olhei tudo que podia sobre o trabalho de Wilson. Li textos de sua pena e de outros, mas não tive tempo para bolar alguma coisa e escrever. Ainda não existia esse site, portanto nem as impressões iniciais ficaram registradas. Um dia eu retomo e tento entender como ele faz tanto com recursos tão econômicos.

Nos VOOM portraits, Winona Ryder é Winnie, personagem de Beckett em Dias felizes.
Nos VOOM portraits, Winona Ryder é Winnie, personagem de Beckett em Dias felizes.

Por enquanto, posto um trecho curto da peça Deafman Glance, de 1980. Robert Wilson montou essa peça para a televisão.

ATUALIZAÇÃO: Por falar em imagens cruéis, encontrei no Bookforum uma resenha muito boa do livro de escritos do grande fotógrafo Jeff Wall. A quem possa interessar, a imagem do cabeçalho do blogue é dele.

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