Espelho de carne dos prêmios

"Olha só loirinha, o Brasil que eu te desvendo"
"Olha só loirinha, desvendo esse Brasil só pra você"

Já que o Tiago começou a falar de cinema, eu dou continuidade aqui. Nem tanto para discutir autores relevantes. Minha idéia é retomar dois posts que eu tinha escrito anteriormente: sobre política cultural e sentimento de não-pertencimento.

O tema dos cadernos culturais de terça-feira era o recorde de bilheteria do filme Se eu fosse você 2. O sucesso do título nas férias escolares vinha impressionando bastante gente. Já havia um movimento entorno da produção, com uma série de entrevistas com o Daniel Filho e tudo mais.

A principal pergunta que faziam para o diretor era: “Como seu filme fez tanto sucesso?” O sujeito se apresentava como um mestre na mandinga de agradar e emocionar o brasileiro. Além disso, em várias das entrevistas, criticou os outros diretores de fazerem filmes frios ou muito distantes do público brasileiro.

Não assisti ao Se eu fosse você 2, e provavelmente mudarei de canal se estiver passando na TV, mas o Daniel Filho tem alguma razão quando diz que a maioria dos cineastas não faz filme para o público brasileiro: “Vários diretores só querem fazer filmes para festival e com foco em quem já é cinéfilo. Eu, não. Sou um cara que corro atrás e não escondo de ninguém que eu filmo para comer.”

Pois bem, é lógico que a Globofilmes e as leis de incentivo do governo ajudam bastante no almoço e na janta do diretor, mas a verdade é que os tais “filmes para cinéfilo” nada mais são do que filmes para serem exibidos em festivais.

É difícil de saber o que é isso, por que mesmo os festivais de cinema têm perfil muito diferente entre si. Mas, o que me parece, é que boa parte dos diretores brasucas busca é uma fatia do circuito internacional de festivais, inclusive pela dificuldade em distribuir seus filmes em território nacional, mas não só. Para mim, a coisa também esbarra em uma questão de escolhas estéticas.

Há uns dois anos atrás, eu vi uma entrevista com o Godard em que ele criticava o Abbas Kiarostami por ter desistido de sua política de autor após A Vida e Nada Mais e ter embarcado em um modelo de filmes para agradar o público internacional (Juro que procurei essa entrevista na Internet, mas não achei).

Eu não concordo com o Godard e acho que o Kiarostami continua um autor bem interessante. Já a produção de cinema brasileira, com cada vez mais raras e honrosas exceções, renunciou a autoria e segue essa lógica de se encaixar ao gosto do freguês em potencial (e é bom se fixar nessa última palavra).

São filmes subsidiados e palatáveis para a maior parte do público que ainda paga ingresso de cinema. Eles contam com um apelo humanista e uma estética facilitadora “de bom gosto”. E sempre chamam atenção para alguma questão de fundo ou tratam de alguma investigação pequena de linguagem.

Em geral são obras sem muitas dificuldades temáticas ou de linguagem e que exploram – mesmo em cidades hiperexpostas como as capitais do sudeste – algum exotismo sobre o Brasil ou o brasileiro. Não é à-toa que um dos principais temas do cinema nacional é o estrangeiro que visita o Brasil ou brasileiros que saem de seu habitat natural rumo a uma outra situação social.

Essa distância fica clara quando assistimos os filmes. Quando assisti ao Linha de Passe, ao contrário do Daniel Filho, não achei que o filme era frio e até gostei de vários momentos. Agora, para mim, as cenas se passavam no período FHC e lidavam com as dificuldades daquele momento – do alto desemprego, das seguidas recessões etc. Fiquei supreso ao chamarem a minha atenção de que o período negro já tinha passado e os personagens do filme viviam no próspero ano de 2007 (quando o Corinthians caiu pra segundona e a economia cresceu 5,4%).

É uma coisa no mínimo esquisita pra um filme que se pretende realista e que, de certa forma, se apropria do cinema de documentário pra falar do Brasil. Mas para o público bem específico dos festivais do cinema, o filme conquista pela boa atuação da atriz principal, pelos dilemas da pobreza brasileira, pela desesperança do jogador de futebol, pela fila do desemprego, pelos evangélicos sendo batizados na represa, por esse Brasil que não diz respeito a mais ninguém (uma vez que o público que assiste aquilo nunca passou pelos perrengues e o pessoal que tá nos mal bocados da fita do Walter Salles Jr. já vive uma situação histórica muito diferente).

O que se chama de filme para festival, também vale – dentro de outros critérios – nas categorias banda para festivais de verão internacionais, livro para prêmio e obra de arte para bienais. À esta altura, vale lembrar que nenhum desses critérios define se a obra é ruim ou não, mas logicamente define a predisposição de se encaixar a um formato estabelecido pelo circuito internacional de cinema.

O problema é que em todas essas formas de arte é tudo no meio do caminho. Composto dentro de um gênero reconhecível pelo público e sem nenhuma afronta ao “bom gosto” da platéia. Quando isso existe é sempre no limite do folclórico.

E daí temos uma série de produtos made in Brazil feitos só pra confirmar expectativas que pouco tem a ver com o fazer artístico. Tudo moldado por esse espelho de carne do desejo por prêmios e por reconhecimento externo.

11 comentários sobre “Espelho de carne dos prêmios

  1. Uma certa inversão de prioridades tomou conta do cinema brasileiro, como em outros meios de arte, com maior ou menor força. Já existiu quem pensava isso como uma forma de afetar a vida do espectador ou de produzir aqui uma reflexão forte sobre a arte.
    Nesse tipo de filme, não se faz algo para agradar um público determnado. Cria-se público, cria-se uma reflexão e deixa a vida mais legal. Esse cinema nacional cosmético atende prerrogativas prévias. Os filmes parecem saídos de uma cartilha.

    Mesmo assim, acho que no Brasil, tanto no cinema mais comercial como no menos um pouco acho que existem muitas coisas boas. Só parafalr de gente nova, gosto especialmente dos filme do Karim Ainouz. Mas já vi coisas do Marcelo Gomes legais, do Cláudio Assis, do João Sales e outros documentaristas. Os filmes do Jorge Furtado são muito legais. São entrenimento de primeira. Falam muito do Brasil, e não são nem repetições boçais desses filmes para tevê americana e nem das novelas brasileiras.

  2. Sete anos atrás, publiquei um artigo no jornal português O público sobre umas dificuldades do meio de arte daqui. Com algumas mudanças, esse artigo foi republicado na revista número e está on-line. Ainda sinto falta dos comentários que fazia no texto à tenebrosa Bienal dos 50 anos. Mas aco que vale. Aliás, com a última bienal, tão tenebrosa quanto essa dos 50 anos, a coisa mudou um pouco, mas isso é outra conversa. Vai o link:
    http://www.forumpermanente.org/.rede/numero/rev-numero3/trestiagomesq/?searchterm=Tiago%20Mesquita

  3. Relendo o texto que eu deixei o link aí, tive duas impressões. A primeira: como eu era inocente e verde. Não sei se melhorei, mas hoje esse texto seria um pouco diferente. Depois, parodiando o Mano Brown (que tem uma citação para tudo nessa vida), você sai da Escola de sociologiapaulista, mas a escola de sociologia paulista não sai de você. Nem com creolina.

  4. estou curioso para ver o menino da porteira que é uma das raras tentativas de se produzir um cinema popular nos últimos tempos, inclusive pelo próprio currículo do diretor. Esse quase desaparecimento de um cinema popular se explica em grande parte pelo sistema de circuíto de exibição que vigora no Brasil atualmente. As salas estão em sua maioria concentradas nos shoppings de classe média que tem pavor de cinema brasileiro a não ser aqueles realizados pelo assépticos Walter Sales, Breno não sei que lá e Fernando Meireles e alguns outros poucos. Já houve uma vertente do cinema brasileiro genuinamente popular que se nunca obteve a excelência da produção mexicana, expôs as muitas contradições, conflitos de classe e desigualdades do Brasil profundo sem o didatismo e sem o filtro moral desses diretores que fazem cartão postal as avessas.

  5. Um caso típico desse cartão postal as avessas é esse filme era uma vez do Breno Silveira que também dirigiu dois filhos de francisco. O filme em tese é um romeu e julieta nascido do choque entre o asfalto e o morro. A mensagem é que as pessoas de classe média não conseguem superar a névoa do preconceito social e as aparências~são o vetor das relações sociais. Perfeito. Ocorre que os conflitos acontecem sempre na ponta mais fraca da corda. O burguês pai da menina rapidamente decide deixar pra trás suas objeções e apoiar o romance. Enquanto isso, o Romeu é boa gente mas tem um irmão metido com o tráfico que pra saldar suas dívidas resolve sequestrar a mocinha. A mensagem do filme é esta: fique longe de problemas, pois mesmo que seu pai seja um burguês compreensivo e seu namorado favelado um cara legal ele certamente vai ter um irmão ou primo que vai te envolver numa quizumba e voce vai terminar amarrada e amordaçada num barraco qualquer. Ora,um romance dese tipo é muito mais simples de dar errado pela rede de proteção social que cerca essa Julieta do que por algum sequestro. Mas esse é apenas um exemplo. Dá pra citar uma lista de distorções que acontecem quando Ipanema sobe a favela com uma camera na mão.

  6. eu também gosto muito do Karim Ainouz, acho um ótimo diretor que, sem deixar de enfrentar os problemas citados aqui, ou talvez justamente por isso, passa longe dos defeitos dessa maioria.

  7. Boa a lembrança do Jorge Furtado. Esse daí faz cinemão para geral muito bem feito. E o tom de fundo de todos seus filmes é sempre de uma crítica feroz ao neoliberalismo como um todo que é de dar gosto. E dentro de um escopo eminentemente popular. O Karim e o Cláudio Assis são pedra 90 também. Mas já trabalham em outra esfera de cinema, ao meu ver.

    Essas entrevistas do Daniel Filho são realmente curiosas. E grande texto, Laurão. O que tô mais curtindo aqui do Guaguá é que os papos rendem um cunversê demais aqui nos comentários. Bem ao estilão das reuniões da galera.

  8. Am,ei esse blog Estranho Encontro. Quanta coisa bacana pra achar por aí!

  9. É isso aí Arthur, trocar idéia é sempre muito bom. E eu queria dizer que o Guaci está aberto pras pautas e pros textos de todos os excelentes comentaristas que sempre pintam por aqui.

    Nesse sentido, é muito interessante o que o Rodrigo chama atenção para o cinema popular. Por que renderia mais uma série de posts e um tantão de conversa aqui na caixa de comentários (vamo lá Rodrigão!).

    Na minha opinião, essa exclusão dos pobres extrapola as salas de cinema. Nesse sentido, as políticas públicas e o comportamento das elites (como bem exemplificou o Rodrigo com “Era uma vez”, e é por isso que eu coloquei a foto desse filme na ilustração da matéria) excluem as classes mais pobres de tudo que é espaço público no Brasil.

    Isso vai das bibliotecas públicas ao planejamento urbano automobilista e de cidades com grandes complexos de diversão vetados à maioria da população brasileira (os links sobre o urbanismo do Jay e alguns texto sobre cidades dele mostram isso bem claramente).

    A política pública de fomento ao cinema nacional também passa por isso. Ela atende a um grupo muito pequeno da população. Já conversei muito sobre isso e me questiono, já que se gasta tanto dinheiro na produção de filmes nacionais, por que o governo não investe em cinemões populares onde esses filmes brasileiros seriam exibidos a preços módicos. Equipamentos públicos voltados a exibição de cinema nacional.

    Os direitos de exibição seriam uma concessão obrigatória a quem foi financiado por renúncia fiscal da Lei Rouanet, por exemplo: “Quer dinheiro que iria pro caixa federal? Então terá de ser exibido no circuito popular”. O tempo de exibição nesse circuito poderia ser de uma ou duas semanas de exibição para cada filme e os cinemas ficariam em regiões mais pobres da cidade (um modelo para isso são os CEUs em SP). Isso sim seria uma política com espírito público para o Brasil. E acho que isso poderia ser replicado para as outras manifestações artísticas (o Tiago com certeza pode falar melhor sobre isso).

    Os filmes brasileiros circulariam em um circuito muito maior e o governo com isso criaria uma cultura de interesse pelo cinema e seria o primeiro passo pra se constituir um cinema brasileiro que faria sentido no Brasil.

    Sobre o cinema popular, mando mais essa entrevista que eu e o André (a do Karim Ainouz está ótima) fizemos com o Davi Cardoso é bem interessante (http://eleela.terra.com.br/htdocs/index.php?id_pg=43&id_txt=236)

  10. Concordo com isso Lauro. Acho que se investe muito na produção e pouco nos equipamentos culturais. A maior virtude da política cultural da Marta Suplicy foi animar o circuito. Não se pagava disco para os músicos, mas eles tocavam na cidade inteira e ainda ganhavam uma grana para isso. O prêmio de fomento ao teatro ia para grupos com pesquisa artística e que se apresentavam para a cidade inteira. Assim, fazia a produção circular e encorajava linguagens mais ousadas.
    Ao comentário do Lauro eu só acrescentaria uma coisa: deve se exibir os filmes que não circulam, filmes mais ousados e uma produção com público menor. Isso forma público e encoraja outros tipos de arte. Com isso, não quero dizer que o Se eu fosse você não deve passar, mas acho que esse circuito, como o Ceu na época da Marta, logo logo será disputado a tapa.

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