Darwin rende muito mais, por Gilson Alves

Gilson é um grande amigo nosso, além de um cara muito porreta e sempre ligado nas questões ambientais.  A turma do Guaci convidou ele para mostrar que o debate dos 200 anos do Darwin pode render muito mais do que papinho de igreja. Leiam só:

"Darwin: o senhor é o meu pastor, e nada me faltará"
"Darwin: o senhor é o meu pastor, e nada me faltará"

No espírito de prestar uma homenagem ao cientista responsável por uma das obras de maior impacto na biologia em todos os tempos, trago esta contribuição singela ao Guaci (com muito prazer e alegria).

A Teoria da Evolução de Darwin é responsável por compilar, coletar e sistematizar observações sobre o mecanismo de diferenciação e transformação das espécies de seres vivos. A apresentação deste mecanismo causou grande furor à época de sua publicação, conforme tem sido amplamente divulgado na comemoração dos 200 anos do autor de A Origem das Espécies.

Um fato a se lamentar dentro dessas comemorações é que, mesmo com um trabalho de titânica envergadura, o aspecto mais evidenciado pelos grandes veículos da imprensa brasileira é a sua dificuldade em ser aceito por grupos fundamentalistas religiosos . A ironia disso tudo é que o próprio Darwin era um ferrenho religioso e tinha consciência do impacto de sua obra. Mesmo assim não mudou suas crenças após as descobertas que publicou.

Isso porque a ideia, já na época questionada, de uma realidade estática- o famigerado criacionismo – no que tange a origem do seres vivos, sofreu um golpe mortal com as teorias darwinianas.

As primeiras desconfianças sobre o mecanismo de evolução das espécies, ao que parece, surgiram com o avô de Darwin, Erasmus, segundo pesquisei preguiçosamente na Wikipédia. Anos depois, Lamarck apresentou sua teoria da evolução por meio da herança das características adquiridas, mais tarde suplantada pela evolução darwiniana.

Uma inferência direta e imediata da teoria de Darwin é a árvore da vida, na realidade um conceito que pode ser representado espacialmente como uma árvore, indicando os parentescos entre os seres ao longo do tempo, agrupando-os em setores semelhantes. Um uso consagrado dessa representação são as recorrentes “árvores do rock”.

Uma das primeiras experiência “taxonômicas” que se tem notícia foi feita por Aristóteles, contudo, trabalhando com caracteres morfológicos.  A classificação aristotélica, por exemplo, começava com “animais sem sangue” e “animais com sangue”. Em classificações desse tipo seria plausível que as baleias fossem agrupadas junto com os tubarões na categoria dos “animais marinhos”.

Com Darwin, os agrupamentos passam a se orientar pela sua origem genética, embora ainda haja muita influência da morfologia (ante a inexistência de métodos modernos de análise cladística) .

Outra questão que é trazida pela Evolução é a necessidade de explicar de que forma as informações são transmitidas de um indivíduo para o seu sucessor, garantindo a conectividade dentre os itens da “árvore”. O parentesco óbvio entre muitas espécies já era uma forte evidência disso, sendo esta a peça central do trabalho de Darwin. A sua demonstração veio depois com o padre – e cultivador de ervilhas – Gregor Mendel inicialmente e complementarmente com a dupla Watson e Crick, que demonstraram a existência do DNA.

A teoria da evolução ainda apresenta questões referentes à extinção de espécies no passado e no presente, que abrem as portas para o nascimento da ecologia. Esta por sua vez é uma das mães da geomorfologia de Lovelock, que ganha destaque a cada dia . Isso tudo sem falar da estruturação que o conceito propiciou à biologia, que trabalha com os conceitos até hoje.

Outra mostra da “força” da teoria é que nenhuma tese cientificamente aceita se opõe à ela, aliás, muito pelo contrário, como se tem visto na geologia, paleontologia, climatologia etc., desde seu advento.

Como visto em uma postagem anterior aqui mesmo no Guaci, a transferência de dados pode até se dar de forma “horizontal” (entre espécies diferentes) na árvore da vida, mas contudo, a transferência vertical permanece sendo o mecanismo mais proeminente para mais de 99% da informação genética.

Transferência vertical seria o feijão com arroz, com cruzamentos intraespecíficos, ou seja, dentro da mesma espécie, embora estudos recentes tenham apresentado indícios de que os genes podem ser transferidos de uma espécie para a outra (forget about égua barranqueira). Tais processos seriam mais comuns em animais unicelulares, porém existem evidências de transporte de material genético de bactérias para indivíduos multicelulares, em situações mais específicas.

Mesmo o tal design inteligente , um lobo religioso vestido em pele de ovelha científica (dá-lhe maniqueísmo!) é uma mostra de que, como não tem jeito, os caras resolveram pegar uma carona no bonde de Darwin (claro que na aula de RELIGIÃO), empurrar ele pra um culto.

Ainda no campo das propostas menos heterodoxas temos os campos mórficos de Rupert Sheldrake ou o neolamarckismo que podem ser abraçadas, se forem tomadas como mecanismos complementares à evolução pela seleção natural darwiniana. O fato é que Darwin ainda rende, como se falou muito nesses dias no meio científico, seu trabalho ainda inspira um monte de trabalho que existe ainda por fazer.

Gilson é agrônomo e um dos melhores amigos do mundo

10 comentários sobre “Darwin rende muito mais, por Gilson Alves

  1. Tô com o Gílson e não abro. Como ele mesmo disse, até mesmo os focos mais resistentes e críticos à imprensa tradicional ainda agem muito pautados pelos veículos mais poderosos. A grandiosidade da obra do Darwin extrapola as ciências naturais e ainda merece e merecerá muito debate.

  2. Fiquei feliz com esse texto. em primeiro lugar porque sempre gosto de ler meu chapa. Depois porque essas discussões que envolvem o ranço anticientificista não parecem apontar para lugar nenhum. eu vou lá perder o meu tempo com criacionismo?
    Por isso, queria saber as controvérsias dentro do darwinismo mesmo. Parece que hoje existem modelos matemáticos que tntam refazer alguns passos da evolução dos mamíferos e entender os processos de mutação. Você sabe disso Gilson?

  3. Rapaziada, valeu demais pela guarida. Quanto à questão matemática, Tiago, é o lance da cladística mesmo. Quando se sai da avaliação morfológica e se parte pra matrizes mais complicadas, envolvendo outros componentes (como genética, graus de parentesco, geografia e outros), torna-se necessário lançar mão de ferramentas matemáticas mais eleboradas.
    Não sou o mais indicado pra falar sobre o “estado da arte” desse assunto; mas me parece que existem desconfianças de que o modelo de mutações aleatórias também pode ser complementado por outros elementos. Estas desconfianças são baseadas em períodos históricos com grande aumento no número de espécies.

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