A parábola do shopping center (II), de Alexander Cockburn

Continuação do post anterior, tradução de texto publicado originalmente aqui (para assinantes).

Nos últimos quarenta anos cerca de 200 cidades construíram shoppings para pedestres. Hoje, restam apenas 30. Dirija através de qualquer cidade e você poderá ver “strip malls” [centros comerciais ao longo de vias expressas] no mesmo estado de decadência, os estacionamentos quase vazios, janelas tapadas com tábuas nas fachadas do varejo lembrando bocas que estão perdendo seus dentes, enquanto as luzes de Circuit City se apagam e Linens ‘n Things, Zales, Ann Taylor e Sharper Image [varejistas americanos] se retraem ou colapsam.

Da crise vêm as oportunidades, que têm sido discutidas por alguns anos por movimentos como os Novos Urbanistas e defensores da restruturação da paisagem urbana americana tais como James Howard Kunstler, autor de Geografia de lugar nenhum. Shoppings podem ser demolidos, como o Belle Promenade na margem oeste do rio Mississipi, perto de Nova Orleans. Eureka é uma cidade muito pobre para tanto. Mas shoppings também podem ser remodelados e transformados em pequenos quartiers, com a vantagem do estacionamento fácil.

Os shoppings decadentes ou falidos de hoje podem virar espaços de uso misto, com residências, espaços públicos e funções sociais construtivas. Já é possível ver, hoje, grupos de deficientes serem trazidos para passeios no Bayshore Mall, um lugar que é coberto, fisicamente seguro e dotado de banheiros, e com um belo espaço com cadeiras e bancos onde eles podem relaxar. Pode-se imaginar que em diversas cidades conselhos enérgicos e fontes de financiamento bem fornidas poderiam oferecer aos administradores de shopping enrascados boas propostas e tirar as propriedades de suas mãos, transformando os shoppings em equipamentos públicos.

Você talvez pense que essa beleza é Paris, mas é ali mesmo na Barra da Tijuca
Você talvez pense que essa beleza é Paris, mas é ali mesmo na Barra da Tijuca

Na frente econômica mais ampla, essa engenharia reconstrutiva dos bens púbicos é vital, por mais que os banqueiros de Wall Street, mais Timothy Geithner, Larry Summers e o presidente Obama insistam na importância de se preservar a arquitetura do capitalismo de “iniciativa privada”. Estamos no estágio que Thurman Arnold retratou de forma tão sagaz no seu livro O folclore do capitalismo, de 1937. Arnold descreveu com um humor vívido a tenacidade com a qual os defensores da “iniciativa privada” descontrolada se agarravam a crenças cujos princípios haviam gerado a Grande Depressão. Ele os comparou à insistência da Universidade de Paris, durante o século XVII, de que a sangria era o melhor tratamento para a malária, apesar de o uso de quinino, defendido pelos jesuítas do Peru, parecer ser um remédio mais eficiente. “O remédio para a febre”, escreveu Arnold, “era a arte de sangrar para livrar o corpo daqueles vapores e humores maléficos que eram a raíz da doença. Claro, os pacientes ficavam ainda piores e morriam no processo, mas estavam morrendo em nome de um princípio da medicina”.

Existe melhor descrição para a oposição “de princípios” dos Republicanos ao plano de estímulo ou de Geithner seguramente proclamando sua preocupação em preservar o sistema bancário conforme presentemente constituído?

A oportunidade está aí, para ser arrancada das presas dos fracassos retumbantes do capitalismo. Essa chance é ainda mais rica do que aquela oferecida e perdida em meados da década de 1970. As circunstâncias muito provavelmente puxarão o governo de Obama para a esquerda, assim como fizeram com FDR quando a ortodoxia falhou. A esquerda não deveria ficar tímida de encarar esse desafio por conta da preocupação de preservar um consenso progressista bem- educado. Dos shoppings às alturas do comando da economia, que tenha início a Reconquista.

3 comentários sobre “A parábola do shopping center (II), de Alexander Cockburn

  1. Para James Howard Kunstler, não só os ex-shoppings estão em decadência. Todo o modelo urbanístico dos “subúrbios” americanos, que se viabilizaram com o festim do petróleo das últimas quatro ou cinco décadas, está condenado:
    “These days, an awful lot of people — the production builders, the realtors — are waiting for the “bottom” in the real-estate industry with hopes that the suburban house-building orgy will resume. They are waiting in vain. The project of suburbia is over. We will build no more of it. Now we’re stuck with what’s there. Sometimes whole societies make unfortunate decisions or go down tragic pathways. Suburbia was ours.”

  2. J, estava pensando nesse fenômeno aqui no Brasil. Porque aquele shopping cidade jardim guarda características semelhantes com coisas que o Cockburn fala. O que você acha?

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