A parábola do shopping center (I), de Alexander Cockburn

O blog do Guaciara tem a pachorra traduzir, sem permissão, esse texto do grande jornalista americano Alexander Cockburn, que saiu no último número da revista The Nation. Além de sua coluna “Beat the devil”, quinzenal, esse blog recomenda o site do fera, Counterpunch.org.

Nesse texto, que publicarei em partes, Cockburn reflete sobre a decadência de uma certa forma de urbanismo e de arquitetura que marcou as últimas décadas e simbolizou o otimismo, que hoje soa ingênuo, infantil (e de mau gosto), com os rumos da economia capitalista contemporânea e o tipo de vida que ela, por um breve tempo, possibilitou.

Dos desfechos das guerras, sejam eles vividos na forma de vitória ou de derrota, brotam as oportunidades para a mudança. O século vinte está repleto de exemplos, da Revolução Russa ao ímpeto criativo nos EUA depois da batida em retirada do Vietnã.

Por natureza, o capitalismo é guerra, e os reveses selvagens do capitalismo, as feridas abertas em suas pretensões, são os traços mais salientes do mundo de hoje. Seja no colapso do sistema bancario ocidental, nas agonias das economias pós-soviéticas como os Balcãs e algumas repúblicas do leste europeu, ou nos destroços das políticas neoliberais indianas, o mantra economico de toda uma geração está se desfazendo no ar como fumaça. Para a esquerda, deve ser uma época de oportunidades sem igual.

Tome como exemplo o shopping center, que transformou a paisagem americana no espaço de uma geração. A esquerda, no geral, nunca gostou muito de shoppings. Eles representavam a privatização do espaço, o colapso do âmbito público e das liberdades – de associação e de protesto público – teoricamente protegidas no espaço público. Shoppings, sejam eles abertos ou cobertos, simbolizam a conversão dos cidadãos em consumidores, a morte da Rua Central, a redução da arquitetura à extrema banalidade, sem ao menos a graça que levou Venturi, Bronw e Izenour a escreverem Aprendendo com Las Vegas em 1972.

Depois da paisagens pós-industriais, as paisagens pós-suburbia+sociedade de consumo
Depois das paisagens pós-industriais, as paisagens pós-sociedade de consumo

Hoje, espelhando as aflições da nau capitânia do capitalismo, as colônias e assentamentos da economia de varejo estão em decadência. Considere, por exemplo, o Bayshore Mall na minha cidade, Eureka, Califórnia, uma arcada coberta para pedestres inaugurada nos anos 1980, pertencente à General Growth Properties, baseada em Chicago. Localizado à beira da Baía de Humoldt, embora voltada para a outra direção, nosso shopping era um lugar otimista nos primeiros tempos. As pessoas se arrumavam para ir até lá. Toda garota bonita do condado de Humboldt queria trabalhar lá, para ver e ser vista. As pessoas dirigiam por três horas pelo sertão de Yolla Bolly, desde Redding no Vale Central, para saborear as suas glórias. Havia concertos elegantes em sua ampla praça de alimentação.

O Bayshore Mall está em declínio, incorporando a má sorte da General Growth – o segundo maior proprietário de shoppings nos Estados Unidos – cujas ações estão sendo vendidas a cinco centavos de dólar, para onde cairam do alto de 44 dólares desde maio passado. Algumas grandes cadeias de varejo, como a Polo Ralph Lauren, deixaram o Bayshore há muito tempo. Ande em direção sul ao longo de uma das arcadas e você vai chegar a uma parede de madeirite, atrás da qual jaz o espaço desolado que já foi a Mervyns, uma rede de lojas de departamento que declarou falência. As pequenas lojas em torno têm um ar sombrio, como pessoas obrigadas a viver à sombra gelada de uma funerária. A praça de alimentação, ocupada por seis ou sete restaurantes de fast food, está se tornando um santuário para os pobres, que compram minúsculas refeições e se sentam em suas mesas.

(continua)

2 comentários sobre “A parábola do shopping center (I), de Alexander Cockburn

  1. Muito legal o texto, e engraçado se o shopping center era a face luxuosa dessa era de consumo extrapolado, o Wal Mart era a versão classe C e D, com preços muito baratos e uma capilaridade incrível.
    Mesmo com a crise, eles continuam com uma expansão gigantesca, principalmente nos Brics (só no Brasil devem abrir 90 lojas em 2009).
    O curioso é que eles são os campeões do lobby comercial pró-China, contra a regulação trabalhista e tudo mais. Acho interessante pensar qual pode ser o resultado da chegada desses supermercados blockbuster para a economia local.
    Outra coisa interessante é pensar como a crise econômica pode ter influência no mercado de luxo brasileiro.
    Vou ficar esperando os próximos capítulos da novela ansiosamente aqui.

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