Sem conversa

O blogue Biscoito Fino e a Massa é um dos meus favoritos. Seu autor, Idelber Avelar, escreve bem e discorre sobre uma gama muito variada de temas. Fala de futebol, de política, da cultura do heavy metal, cidades que ele visita, as universidades do continente americano, intelectuais argentinos e por aí vai. Essa versatilidade, combinada a um alltíssimo nível intelectual, permitiu que esse professor mineiro residente nos Estados Unidos escrevesse um dos melhores livros que eu já li sobre as ditaduras na América do Sul.

Hoje, Idelber postou uma entrevista que os jornalistas Rodrigo Savazoni, André Deak e Jorge Conterrâneo fizeram com ele. O tema é a ocupação israelense na Palestina (um dos temas principais do site). O debate por lá ficou animado. Muita gente falando de jornalistas e o racismo, sobre como informar e tomar posição, sobre a parcialidade ou não da conversa e sobre uma solução possível para a tragédia.

Eu, conciliador como sou, fiquei mais interessado nas soluções. Sem ver muita luz no fim do túnel, publiquei esse comentário e, por sugestão do meu irmão, resolvi colocar aqui no Guaciara.

 

Jerusalém, Al Aqsa e a treta
Jerusalém, Al Aqsa e a treta

Ontem, o Estadão publicou um artigo de Amós Oz em que ele condena o ataque israelense à Palestina. Mais animado do que eu esperava, o escritor também vê uma solução iminente para o conflito. Até aí, tudo bem, sonhar não custa nada. Mas quando ele começa a explicar como tudo aconteceu e as maneiras de se conquistar a paz a coisa fica mais complicada. Aliás, barato, para um escritor da envergadura dele.

Oz afirma que o massacre foi causado por radicais de ambos os lados. Seriam esses extremistas que perturbariam a paz e lucrariam com isso. Os maiores vencedores do massacre seriam os fanáticos israelenses e o Hamas. Os atores desse xadrez construiriam o infindável ciclo do ódio. Eu nem discordo disso, embora ache que o buraco é mais embaixo, tanto para os palestinos quanto para os israelenses. Além disso, parece estranho falar de qualquer lucro fora do território israelense diante do número de baixas de militares e civis. No entanto, as coisas começam a ficar estranhas quando ele começa a justificar as decisões do premiê Ehud Barak como acertadas e até moderadas.

Segundo ele, que foi ativista do que no passado chamaram de campo da paz, não dá para conviver com o Hamas. Esse grupo, que foi eleito de forma legítima, precisa ser retirado do poder e do mundo dos vivos. Só assim o que o escritor chama de “acerto iminente” acontecerá. Sem a eliminação dos militantes, as bombas devem continuar a cair. Aí mora o primeiro erro.

Acredito na boa vontade de Oz na busca da paz e da convivência entre os povos daquele pedaço do mundo, mas não acho que, para seguir o seu raciocínio, a intolerância ao que ele considera os intolerantes resolva o problema. Nem que o massacre seja uma resposta para alguma coisa. Do jeito em que as coisas são colocadas, parece que ele pede que a vida política palestina seja tutorada por Israel. Os partidos legais seriam escolhidos pela força estrangeira em uma ocupação infindável. Mas não é só isso.

Obviamente, ele fala em ataque desproporcional e de forças retrógradas dentro de Israel, mas não dá o nome aos bois. Diz que eles foram responsáveis pelo massacre, mas não diz que esses genocidas ocupam, de fato, as cadeiras mais importantes do governo israelense. Seria o caso de saber se existe algum grupo com chance de ocupar o poder em Israel que não pertença a um desses grupos fanáticos que Oz fala. Será que algum partido israelense no poder não é fanático no sentido que ele afirma?

Pelo o que eu entendi, a paz virá se os palestinos abrirem mão do seu direito de escolha e aceitarem os limites que os israelenses querem dar a eles. Se for assim, essa luz no fim do túnel é trágica.

Pensando no fim do Apartheid, só foi possível reconduzir o país depois de um longo processo de distensão das animosidades. Claro que o processo não se arraigou por toda a sociedade, mas, ao menos, curou algumas feridas que impediriam qualquer retomada de uma normalidade institucional.

Uma das medidas importantes foram os tribunais do perdão, com confissões de culpa, acerto de contas e perdão. Esse processo foi levado a cabo pela Comissão Truth and reconciliation. Assumia-se que um crime fora cometido. Mesmo que não castigado, essa medida, de certa forma, foi eficaz. Isso entrou para a jurisprudência sul-africana e tais atrocidades estavam proibidas de acontecer.

As similaridades entre a políica de Israel e o apartheid sulafricano são notadas por diversas fontes. Inclusive, alguns anos atrás, o Guardian publicou uma matéria sobre a relação entre os dois países. Pelo resultado das últimas eleições israelenses, a reconciliação está muito distante. Os eleitores aplaudiram de pé o massacre. Assim não existe a possibilidade do grupo dominante no imbróglio assumir qualquer tipo de erro. Do lado israelense, se existe alguma culpa pelos massacres é porque eles não mataram mais.

Gente como Amós Oz não está em melhor posição. No texto em que ele escreve, confunde autodeterminação dos palestinos com servidão voluntária. Enquanto a idéia de paz vier desse campo fica difícil qualquer “acerto”.

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