Geografia radical

Acho que não seria exagero dizer que, assim como os biólogos têm sido a ponta de lança da pesquisa em ciências naturais nas últimas décadas (e, como mostrou o post do Laurão aqui no Guaciara, suas teorias têm sido um campo de batalha ideológico bastante movimentado), alguns geógrafos estão produzindo hoje as reflexões críticas mais instrutivas no campo das ciências humanas.

Entre os geógrafos que passei a ler recorrentemente estão Mike Davis, David Harvey e Neil Smith. Todos os três têm em comum a perspetiva de adicionar, à crítica marxista mais tradicional, a dimensão geográfica, espacial. Suas abordagens desfazem a ilusão da “virtualização” do capitalismo contemporâneo, e mostram que as formas tradicionais de exploração e dominação (uso da terra nos espaços urbanos, colonização direta por ocupação militar) convivem com as tais formas novas, “invisíveis”.

Acima de tudo, esses caras têm puxado a crítica social de volta à terra (literalmente). Confesso que nunca tive muita paciência para a retórica radical da biopolítica, crítica teológico-política do poder (ahn?!) e coisas afins. Sempre me cheirou a conversa radical chique, sofisticação gratuita colocada no lugar do bom senso.

É possível ler algumas coisas desses geógrafos aqui (“Gentrificação, a fronteira e a reestruturação do espaço urbano”, de Neil Smith), aqui (de David Harvey, “El neoliberalismo como destrucción criativa”, valeu Tedéia!) e aqui (entrevista com Mike Davis).

Ainda, é sempre bom checar o site da Antipode, revista de geografia radical que completa quarenta anos em 2009.

9 comentários sobre “Geografia radical

  1. Acho o Mike Davis o grande crítico da sociedade americana. Sem preconceito, ele falatanto das mudanças climáticas em San Diego como de suas lembranças entusiasmadas da cultura dos hot-rods além das riots por conta dos clubes hippies de LA. Valeu pelo post.

  2. li vários lances do Harvey na faculdade, uma das melhores coisas que aconteceram por lá foi isso. o Davis, apesar da insistência do Tiago, ainda não não fui atrás. valeu as dicas! abs

  3. meninos inteligentes,
    ajudem-me nessa se puderem…baixei o pdf mas ainda não li, mas ouvi falar de uma escola francesa da geografia que atende também pelo nome de Geografia cultural:
    “Geografia Cutural que é a herança da escola francesa e que pode ser um caminho muito interessante de sua busca:

    Os três livros, Geografia Cultural: Um Século, (1), (2) e (3) foram publicados, os dois primeiros em 2000 e o terceiro em 2002. Trata-se de um esforço em reunir textos que possam reconstituir momentos cruciais da história da geografia cultural: o primeiro deles reporta-se à Escola de Berkeley, com um pouco acessível texto de Sauer escrito em 1927, no qual o autor procura resgatar a história do pensamento geográfico desde a segunda metade do século XIX. Seguem-se outro texto de Sauer, publicado em 1931 e, finalmente, a longa e elucidativa introdução que Philip Wagner e Marvin Mikesell fizeram para apresentar em 1962 o já clássico Readings in Cultural Geography.

    O segundo apresenta textos relacionados à denominada nova geografia cultural, tendo sido publicados nas décadas de 1980 e 1990. Denis Cosgrove, Peter Jackson, James Duncan, nomes chaves da nova geografia cultural assinam três dos quatro textos do segundo volume. Referem-se eles às novas perspectivas que à época abriam-se à geografia cultural. O último texto, de autoria de Marvin Mikesell, sugere que os debates entre geógrafos da Escola de Berkeley e os novos geógrafos culturais estão encerrados.

    O terceiro livro da trilogia refere-se à geografia cultural francesa. Inicia-se com as reflexões de Max Sorre sobre o valor atual dos gêneros de vida, um tema clássico da geografia vidaliana. Segue-se o texto de Jean Gallais sobre o espaço vivido nas sociedades primitivas do mundo tropical. Jöel Bonnemaison brinda o leitor com o relevante Viagem em Torno do Território, no qual a geografia cultural francesa é apresentada ao leitor. Encerrando o livro Paul Claval sugere caminhos a serem trilhados pelo geógrafo cultural.”

    como estou no começo da pesquisa pergunto: bom caminho, grande bobagem ou terceira opção a sua escolha?

  4. Querida: pra sacar o o imbroglio de Sauer, Vidal, Claval, e principalmente o Sorre (grande clássico, modos de vida) numa náice, tem esse livreto http://www.travessa.com.br/GEOGRAFIA_PEQUENA_HISTORIA_CRITICA/artigo/1be76168-9915-4658-9b78-fd1b3b5914c6. É curtinho e divertido, vale a pena, dá um panorama legal. Eu sei que tem gente boa trabalhando nessa área, se não me engano o Cláudio (IML), amigo do pessoal, tava nessa, inclusive usando a obra do escritor meu rei melhor de todos João Antônio junto, mas posso estar enganado, e ainda não saquei os resultados. Enquanto isso, vai na fé nas indicações do Jay que a curtição é garantida.

  5. Oi Renata, em primeiro lugar, que bom você por aqui. Indo ao assunto, pelo que eu falei com o pessoal da teoria aqui no Guaci eles não conhecem muito bem essa turma aí da França não. O André estudou geografia e talvez possa te ajudar melhor. Mas mande-nos dicas que a gente sempre se interessa. Bjs.

  6. Nossa Renata, nesse departamento eu sou uma nulidade. Mas muito obrigado por visitar-nos e se quiser nos mandar alguma coisa, por favor, a casa é sua.
    Lembrei de dois autores que não são geógrafos mas lidam com a articulação entre a cultura e os espaços. Um é o Henry Lefébvre, que foi professor de uma porção de gente (inclusive o Guy Debord) e tem uma obra muito importante sobre o assunto.
    Aqui vão alguns links sobre a produção do fera:
    http://www.henrilefebvre.org/
    http://www.arquitetura.uema.br/arquivos/material/burnett/urbanizacao_e_industrializacao.pdf
    http://www.rizoma.net/interna.php?id=138&secao=potlatch
    http://www.geografia.fflch.usp.br/publicacoes/RDG/RDG_14/RDG14_Resenha_Lefebvre.pdf
    http://www.newsandletters.org/Issues/2003/October/Lefebvre%C2%AD_Oct03.htm

    O outro é o sociólogo inglês Mike Featherstone. aprendi muito com um livrinho desse autor. Divirta-se:

    http://www.ntu.ac.uk/research/school_research/hum/staff/58118gp.html
    http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/mike.html

    http://www.virginia.edu/iasc/HHR_Archives/Identity/1.1JFeatherstone.pdf

    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/catalogo/busca.asp?tipo_pesq=autor&palavra=mike+featherstone&topo=livro&sid=18125224911210657453053825&k5=2BA2DE6C&uid=&lastreg=&parceiro=155150

    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=66754&sid=18125224911210657453053825&k5=28288659&uid=

  7. Ainda, acho que vale, nessa linha que o Tiago indicou (vida social e espaço) trabalhos sobre a questão urbana:
    “Sociedade de esquina”, Do W. Foot Whyte
    “Vida e morte das grandes cidades”, Jane Jacobs
    “A cidade na história”, do Lewis Mumford

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