Rafael Campos

um projeto de escultura pública para bairro boêmio
Caçar em dupla é muito mais divertido e rentável: um projeto de escultura pública em bairro boêmio

Rafael Campos faz o que dá na telha. Sua carreira como artista plástico é das mais tortuosas. Ele foi de um lado para outro. Essa insatisfação com os meios expressivos dá o tom de sua obra. Ele está  mais preocupado com uma estrutura narrativa do que com o aprofundamento técnico em uma linguagem.  Mais preocupado em pensar como articular os materiais do que em escolher os materiais. Mas nem sempre foi assim.

Quando conheci o seu trabalho, ele fazia pinturas com formas geométricas. Nessa época, participava do grupo Olho Seco. O grupo revelou ótimos artistas, como Wagner Malta Tavares, Ana Paula Oliveira, Felipe Cohen, Tatiana Ferraz, Wagner Morales e Renata Lucas. O seu campo pictórico era sólido, regular, mas assim que o artista inseria uma pequena forma, com a cor mais rarefeita, essa superfície parecia se desfazer. Uma forma menor  no meio da pintura diluía o plano pintado.

Muitas vezes, essse retângulo menor se parecia com a fresta de fumaça que sai dos fornos de olaria. Seu uso da cor, ao invés de revelar brilho por trás da superfície opaca, tentava de enfraquecer a determinação da forma. A cor que tomava conta da tela perdia a solidez e os gestos se apresentavam como um esforço inútil para manter uma unidade que já anunciava o seu ocaso.

Não sei se isso o agradava, mas ele seguiu outra direção. Manteve a geometria, manteve o plano pictórico, mas tentou fazer isso com elementos mais sólidos e objetivos. Aquela imagem que sumia, era engolida por uma superfície sem graça, não estava mais em seu horizonte. Campos partiu para a sobreposição de materiais. Colocava telha, papel, tijolo, madeira , plástico e etc. um sobre o outro. O resultado era um plano decorativo em que os materiais se distinguiam muito um do outro. Apesar de ter algo em comum com as superfícies de Pedro Cabrita Reis, aqui a colagem dos materiais parecia precária e frágil. Era uma pintura que revelava mais o que os materiais utilizados tinha de discrepante do que lhes aproximava.

Quanto mais ele rezava, mais assombração aparecia. Se antes a sua obra tinha algo de diáfana e parecia se desfazer como naftalina, agora ela era desestruturada, como uma arquitetura pouco determinada, de peças que não se juntavam muito bem. Era uma forma de estabelecer relações construtivas que não parava em pé. Aquelas coisas meio ordinárias não seguiam plano nenhum. Pareciam mais tentar ser um plano rigoroso do que eles eram. No fim se tornva uma imagem esquisita, amontoada.

Acho que foi aí que ele notou que a relação indeterminada com os materiais dava samba, samba figurativo. Ele resolveu tirar proveito do fato de que cada uma das coisas, se dispostas da forma correta, pode assumir vários significados. Começou a tratar os elementos visuais como se eles fossem coringas. Os seus materiais, com pátina ou sem pátina, começaram a assumir papéis.

Não é à toa que logo depois ele fez uma de suas melhores peças: Duelo. Onde duas pecinhas de ferro amassarocadas se colocavam uma de frente a outra sobre uma viga comprida, elevada por um cavalete. Uma de frente para a outra fingiam ser uma cena clichê dos filme de faroeste. Mas não era isso. Continuava a ser dois trequinhos, cada um numa extremidade. Mas a idéia era essa. Uma idéia de fantasia. Parecia mais com dois moleques, um diante do outro, vestidos com calção e camiseta brincando de bangue-bangue. Em Barricada, os objetos também  figuram uma cena sem se tornar o personagem nem o cenário que eles desenham.

Embora o título sugira uma cena ilustrada por aqueles trecos, nada indicava isso. Talvez só a vontade de atribuir um sentido épico a elementos que por si só pareciam meio autistas, anônimos e sem lirismo nenhum. Nas fotografias, o artista interveio discretamente na paisagem e nos motivos retratados. Quem trabalha ali não é a lente, mas os objetos pictóricos que ele coloca no que é fotografado. Coisas bobas e anônimas tentam modificar aqueles cenários da vida de todo o dia. O artista transforma o mundo em cenário para as suas peças brincarem sozinhas.

Do mesmo modo que Joseph Beuys e José Resende, o artista atribuía significados aos objetos que eles não possuíam. Diferente do artista alemão, que viu uma pedra pendurada se tornar um raio de luz em uma instalação com alto teor místico, ele não tenta criar um clima espíritual com esse tipo de figuração. Não se trata de uma ressignificação das coisas, uma reenergização. É mais simples, são pedaços de ferro que almejam ser caubóis. Também diferente de Resende, não imagino aqueles materiais assumindo desenhos complexos, que os aproxima de figuras como a Primavera de Botticelli. Sua história é mais direta.

Talvez por isso, os quadrinhos tenham caído como uma luva para Campos. Ele gosta de gibi antes de se tornar artista. Conhece a linguagem, mas a pensa a partir de questões das artes plásticas. A seqüência regular de desenhos para ele não enfatiza a mudança, mas a repetição. Não se trata de uma história, mas uma série, em que o tempo é imutável, onde pouco acontece. Mas nesses atos meio inúteis e sem graça, o artista enuncia algum dilema dramático a partir dos seus textos . Como em suas fotos e em suas leituras hilárias de blockbusters holywodianos, são coisas bobas que querem se mostrar como parte de uma narrativa. Querem entrar na história.

Seguem duas dessas histórias

O artista ilustra o último número da revista Novos Estudos e colaborará no Blog do Guaciara regularmente.

Coelho
Coelho

Homens morrem
Homens morrem

6 comentários sobre “Rafael Campos

  1. o rafa é foda no tarô também. mas poxa, os quadrinhos também estão demais!

  2. Pra ser o Will Eisner, tinha que ser da cabala né? Rá!

    P.S: falando em Will Eisner, o Frank Miller “novo neocon” conseguiu destruir o Spirit no cinema.

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