Sala especial

Embalos alucinantes
Embalos alucinantes

Existe ainda quem considere a pornografia uma infâmia e não são só os conservadores mais empedernidos. Gente sabida, proclamadamente progressista, muitas vezes manifesta indignação diante do que eles consideram uma vulgaridade aviltante. Por isso, o assunto seria indigno de ser abordado com gosto e avaliação crítica. Seria melhor que tudo fosse para a lata de lixo.

Felizmente, alguns espaços na internet parecem desmentir essa condenação irrestrita. Algumas pessoas estão pensando a produção de entretenimento adulto do ponto de vista do gosto. Graças a André Maleronka, nosso consultor, entrei em contato com algumas páginas da internet onde a sacanagem é avaliada de modo crítico e entusiasmado.

Não conheço bem a produção pornô, mas  gostei da entrevista com o diretor de filmes adultos e professor de filosofia Valter José (um kantiano da sacanagem), no blogue da produtora X-Plastic. Do ponto de vista de alguém do meio, ele fala muito bem sobre alguns significados do filme de sacanagem, problemas estéticos do gênero e também sobre especificidades produção audiovisual brasileira.

Além disso, o blogue Boteco Sujo oferece informações e análises muito bem fundamenadas sobre o assunto. O site é escrito pelo jornalista Fausto Salvadori e trata de vários assuntos, mas o carro chefe é a indústria do prazer. Goste-se ou não de pornografia, acho que temos muito o que aprender com esses especialistas na sacanagem. Como no Documento especial e nos filmes pornô, esse pessoal nos ensina o que existe de melhor e pior no Brasil e o no tempo em que vivemos.

34 comentários sobre “Sala especial

  1. Vale destacar ainda a entrevista com a atriz Sasha Grey, quando do lançamento do seu single musical, feita pelo próprio consultor e ginecoreógrafo André Maleronka ( http://www.rollingstone.com.br/secoes/novas/noticias/4282/ ).

    Quanto a mistura crucifixo e piriquita, acho que isso rolou no filme brasileiro “Oh! Rebuceteio”, do diretor Cláudio Cunha, não tenho certeza. Abraços molhados, tigrada!

    “Heliodora 2009, retiro e renúncia!”

  2. Tiago, existe uma espécie de sensibilidade definida entre formadores de opinião que estabelece não o que é bom ou ruim, mas o que nerece ou não ser estudado, visto ou criticado. Mesmo quem não acha graça em Pedro Almodovar ou Woody Allen vai achar normal que seu vizinho goste. O problema é quando se rompe este bloqueio do que é aceitável, quando tem que haver o confronto com aquilo que desafia todas as regras do bom gosto. Existem sérios estudos que ligam os chamados filmes trash com a arte de vanguarda( até recomendo sobre esse assunto o livro Cutting Edge- art horror and the horrific avant garde de Joan Hawkins) como produtos que subvertem o gosto burguês, o encontro entre low brow e high brow, mas o curioso é que nesse segmento a categorização é ainda mais estrita. Em resumo,estudar Mojica ou Mario Bava, é ok. Se debruçar sobre os sextas feira 13 é o fim. A pornografia é subordinada a um preconceito semelhante.
    Também não sou um conhecedor mas recomendo Behind The Green Door com a Marylin Chambers, a melhor que eu já vi. No
    Brasil, recomendo A Prisão do Osvaldo de Oliveira, grande figura do cinema da boca.

  3. Eu também gostei muito do atrás da porta verde. Agora, sobre o Osvaldo de Oliveira, sabia que o Sganzerla o achava o melhor diretor de fotografia do brasil?
    abração rodrigo e muito obrigaod pelos comentários ceará e arthur

  4. não sabia mas o Reichembach falou que aprendeu a operar câmera com ele…

  5. meus caros, recomendo tb o chamado alt-porn (de alternativo), são filmes com pessoas moderninhas tatuadas fetiches diferentes trilha sonora radical, uma das atrizes mais famosas é a Belladonna, o universo é grande, mas como tudo decepcionante e limitado (muito agressivo). Recomendo tb para quem não viu o filme da Lucélia Santos sobre Timor Leste abordando a indústria clandestina de filmes de guerra e estupro e atrocidades e não gosto nem de pensar.

  6. Mas a Belladonna é uma atriz, já old school até, do pornô tradicional. Já trabalhava com Rocco na década de 90. Ela pode ter sido recrutada por esse pessoal pelo fato de ser bastante ousada, tatuata, radical, quase uma lenda, etc. Da mesma forma, Ron Jeremy, certa época, começou a aparecer em diversos clipes de banda de rock californiano. Você tá falando dessas produtoras tipo Suicide Girls ou Razor Dolls?

  7. eu vejo assim também, a Bella é, na real um grande inspiração por causa do tipo físico e das práticas dela em frente às câmeras. meu problema com o alt porn é que até agora confiou muito de trívia. aí quando o resultado fica bom é a mesma coisa de superproduções das “majors” como Digital Playground e Vivid, sexo consensual, quente e tal. Fora o padrão estético e humor indie, não apresentou alternativa nenhuma, até agora, do pouco que eu conheço, pelo menos.

  8. Trecho de uma entrevista antiga com o coletivo italiano de escritores Wu Ming, sobre pornô:

    Contravenção: Vocês podem falar um pouco sobre o livro Lasciate che i Bimbi? Do que se trata, exatamente? Vocês disponibilizaram também esta obra na internet? Há interesse de republicá-lo de alguma forma?

    WM1: Nós não podemos relançá-lo porque é ilegal. O livro foi confiscado pela polícia, por ordem do magistrado, após um processo de difamação de um promotor público que nós atacamos no livro. Nós o disponibilizamos na internet, ele está num servidor de Taiwan, onde a justiça italiana não pode chegar. O livro fala da histeria ligada à pedofilia que eclodiu na Itália e no resto da Europa entre 1996 e 1998. A mída, a Igreja e os políticos começaram uma verdadeira caça às bruxas usando o risco de circular pornografia infantil para fechar websites, apertar o cerco sobre a liberdade de expressão, encontrar bodes expiatórios em cada cidade e mandar pessoas inocentes para a cadeia. Nós (por “nós” eu quero dizer a seção de Bolonha do Projeto Luther Blissett) utilizamos muita contra-informação sobre o tema, e até ajudamos a tirar alumas pessoas inocentes da prisão. Nós contamos essa história no livro, e o poder judiciário de Bolonha se vingou proibindo-o. Você pode encontrá-lo no seguinte endereço, tem até uma animação em Flash retomando toda a história.

    Contravenção: Sobre pornografia: durante o Renascimento italiano, a pornografia funcionou como um agente de poder político e eclesiástico, durante o século XVIII foi responsável pela propagação de idéias ligadas ao Iluminismo e, na França , incitou a renovação da literatura. Hoje temos o “pornô industrial”, a criação de mitos pop pornográficos (como o compatriota de vocês, Rocco Siffredi) e uma suposta exploração da imagem feminina nos filmes de sexo. Afinal, qual função ainda resta para a pornografia?

    O site do Matt HardcoreWM1: Creio que a pornografia é apenas um dos muitos campos da expressão humana. Eu não a vejo como um setor separado ou uma esfera autônoma, ela tem uma influência subterrânea sobre toda a cultura. Por exemplo, durante os anos 90, um fenômeno cinematográfico importante como o Dogma 95, de Lars Von Trier, não seria possível sem o experimentalismo dos filmes pornôs dos anos anteriores. Realmente, as questões de simplicidade, integridade e espontaneidade levantadas por cineastas do fenômeno “Dogma” já eram comuns em sub-gêneros do pornô como os “filmes gonzo”.
    Muitas coisas vêm acontecendo na pornografia nos últimos dez anos. Dez anos atrás, uma feminista radical americana, Nadine Strossen, escreveu um livro intitulado Defending Pornography [Defendendo a pornografia]. Ela diz que a pornografia lida com o “infinito do desejo”, e é verdade. Os “pornógrafos” estão sempre experimentando, estão sempre à procura de novas formas de expressão, porque os gostos e preferências sexuais continuam mudando, são criados novos sub-gêneros, como “bukkake”. Há filmes onde a única coisa que se pode ver é o esperma derramado sobre os pés de uma mulher (ou de um homem), e outros onde todas as atrizes usam óculos, e assim por diante.
    Se assistir a um filme pornô dos anos 1970, você vai entender como as coisas mudaram. Hoje em dia seria considerado chato ver uma garota fazer uma chupeta com os olhos fechados. As atrizes têm que ficar olhando direto para a câmera, porque quem assiste quer ter o contato visual virtual o tempo todo, especialmente durante o gôzo, quando o esperma é engolido ou partilhado (duas ou mais atrizes cuspindo e derramando o esperma na boca da outra). Quanto ao Rocco Siffredi, ele esgotou suas idéias e fica repetindo a mesma coisa o tempo todo. Os filmes são muito ruins e acho que há muita “selvageria” neles. Não existe mais prazer ou divertimento. A série Rocco – Animal Trainer é um dos artefatos culturais mais deprimentes desde a morte de Heinrich Goebbels. Outra coisa interessante da pornografia são seus fãs. Existe uma rede de amadores que lidam com a pornografia de uma maneira divertida e verbal. Eu sugiro que você visite o site http://www.matthardcore.com. Esse italiano é um desenhista da Bonelli Edizioni (ele é o desenhista de quadrinhos populares como Nathan Never), mas é famoso por ser o maior fã ativista do pornô italiano na internet. Ele conduz um fórum, plageia DVDs, procura vídeos grátis na internet, resenha (e até dirige) filmes, comparece a todos os eventos do ramo escrevendo divertidas reportagens. Ele se tornou uma referência importante para todos os amantes do pornô.

  9. Eu acho o Sady Baby, ou até mesmo o Max Hardcore, muito mais alt-porn do que os Razor Dolls da vida, que na verdade acabam sendo uma outra espécie de Vivid.

  10. é, concordo contigo, Kowalsky. e acho a sacada do Valter José de que o cinema adulto está, em sua imensa maioria, dominado pela “estética neo-liberal dos bissexuais misóginos” é certeira. ele também levanta uma bola sobre o Max Hardcore que faz pensar… não gosto nem um pouco do trabalho do HC, mas mesmo assim trinco com a opinião da Susannah Breslin, vale a pena ver o que ela escreveu a respeito.

  11. Como disse o André, e apropriando do que o Valter José, parece que essa estética do machão bi está arraigada. Ele acha que um narcisismo masculino misógino e raivoso tem tomado conta do pornô. Quando ele fala do problema dos bissexuais eu não sei se o acompanho, mas acho convincente esse domínio de uma masculinidade que quer competir com a mulher dentro dos tipos de cuidado físico feminino.

    Isso que parece o incomodar. Uma estética em que a força física masculina é mostrada como destaque principal dos filmes.

  12. to contigo, Tiago. outra: é louco observar como esse sexo circense influencia a produção brasileira atual: vc assiste os filmes da maiores produtoras sempre dá a impressão que os câmeras e diretores estão fixados em uma estética gay, privilegiando os performers masculinos. o resultado é bem diferente dos gringos misóginos, mas igualmente decepcionante.

  13. Uma atriz que, na minha opinião, trouxe alguma coisa old school de volta pro pornô… digamos, alguma “interpretação” (ha ha ha) é a sensacional, e minha mais nova musa pornô, Stoya. Ela até faz cenas pra esses supostos alt-porn, tipo razor dolls e as cenas dela tem baixo índice de hardcore. Mas… enfim, eu acho que ela retomou algo que eu não via há muuuuito tempo.

  14. E só macho comentando.

    Só um adendo: a EleEla desse mês tá muito boa. A revista tá redondinha, e dentro desse espírito do post, funciona quase como um manifesto. Sem contar que tá muito evidente o contraponto à caretice de publicações como a Playboy e a Sexy.

  15. Que isso André, só macho nada. Meu nome é Vlerena Kowalsky, sou uma atriz pornô oriunda do leste europeu! 🙂

    Onde acho a EleEla pra comprar aqui em BH? Qualquer banca?

  16. Valeu! Agora, as mulheres que conheço que gostam de discutir o assunto preferem fazê-lo ao vivo – mais uma prova da genialidade feminina. Não sei da distribuição, mas acredito que seja bem possível encontrar a revista em BH sim, deveria ser pelo menos. Avisa se não achar e tento descobrir pra tu. Abs

  17. tá começando, o primeiro número sai em breve. ainda não sei onde vai ter, mas eu aviso, podexá! abs!

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