Para Hélio Gracie, com direito a uma breve (e atípica) patriotada

Hélio Gracie, sem dúvida um dos grandes nomes do esporte no Brasil, morreu ontem aos 95 anos. Hélio foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da luta que ficou conhecida como “jiu-jitsu brasileiro”.

O estilo de Hélio foi herdado por lutadores como Leozinho Vieira e Marco Barbosa, para pegar dois lutadores em atividade. Proporcionalmente leves, esguios – claro, não se encontra mais atletas franzinos no mundo profissional do jiu-jitsu, pela mesma razão que hoje, no futebol, não existem jogadores fumantes ou beberrões assumidos – são ligeiros, extremamente técnicos e eficientes. Lembram um pouco Éder Jofre.

Com certeza, o jiu-jitsu que se desenvolveu posteriormente, com a por assim dizer diáspora da família Gracie, incorporou muitas outras coisas. E isso revela uma das coisas interessantes do jiu-jitsu, e a sua “brasilidade”. Assim como o candomblé e a umbanda, o jiu-jitsu é incompatível com a ortodoxia. Um bom lutador reinventa a técnica constantemente, que é, por assim dizer, “aberta”: existem princípios básicos – alavancas, torções, etc. – que podem ser infinitamente combinados.

Como toda luta, o jiu-jitsu é um exercício de domesticação da violência, e as lutas, assim como no boxe, são rituais de violência socialmente controlada. Apesar da má fama do “lutador de jiu-jitsu” (muitas vezes merecida), nada é mais revelador do espírito dessa luta do que a recusa, no tatame, do apelo a o que é considerado “grosseria”: mão no rosto, defesas ou ataques que impliquem impacto (gestos que são quase chutes ou socos). Apesar da aparência de extrema agressividade, o jiu-jitsu preza a leveza e a elegância.

Um dia alguém ainda vai escrever uma etnografia dos tatames de jiu-jitsu no Brasil, mais ou menos no estilo de Corpo e alma, do sociólogo “gonzo” Loic Wacquant, que registrou o universo das academias de boxe do sul de Chicago. E esse estudo revelaria como a às vezes mal afamada academia de jiu-jitsu é um espaço de sociabilidade profundamente brasileiro. Livre das cerimônias meio fajutas das artes marciais tradicionais, o tatame está antes para um campinho de várzea. Chega-se, cumprimenta-se, fala-se bobagem, corre-se pro corpo se aquecer e, depois de algumas dicas de um companheiro mais graduado, dá-se início ao “rola” (com “o” aberto, claro). E, presente mas invisível, a reprodução, por aprendizagem intuitiva, direta e sem simulação – em um ambiente no qual, assim como nos espaços religiosos, as hierarquias externas são suspensas –  de uma técnica corporal que, pela mistura de esperteza, agilidade e objetividade, só poderia ter se desenvolvido no mesmo país no qual o Garrincha aprendeu a jogar futebol.

13 comentários sobre “Para Hélio Gracie, com direito a uma breve (e atípica) patriotada

  1. Jay, ficou muito bonito. Ontem, vi o comentarista de lutas na ESPN comparar o estilo Gracie no jiu-jitsu à ginga no futebol. Um uso do corpo que incorpora a mobilidade e um jeito de se livrar dos golpes. Muito legal mesmo. Aliás, você poderia nos dar uns depoimentos da sua experiência com a luta. Seria muito bacana.

    Se eu não me engano, o George Plimpton tem uma reportagem sobre as academias de luta também. Ele era aficcionado pelos esportes amadores. Embora fosse um lorde, ia a lugares inimagináveis para um aristocrata. Escreveu desde as ligas amadoras de baseball ao squash.

    Sobre a sua origem social, existe uma anedota do período em que ele treinava boxe com a equipe do Muhamed Ali. Treino vai, teino vem, um dia o seu nariz sangrou. Como ele era o único branco da turma, e estava bem ambientado ao clima da academia, o pessoal começou a brincar com o sangue branco de Plimpton. Mas Ali logo desfez a brincadeira. Disse que o sangue dele não era nem de branco e nem de negro, o sangue dele era azul.

  2. Po, antes de ler seu comentário mudei a ultima frase do post. Transmimento de pensação.

  3. Grande Jay, nosso filósofo da porradaria.

    Eu nunca entendi porque não há nenhum livro interessante sobre o assunto. E mais: sobre essa família tão sui generis que é a Gracie. Medo? Falta de interesse da cultura letrada? Excesso de protecionismo por parte dos criadores do estilo? Preconceito? Porque indústria cultural quer o que dá dinheiro e taí um assunto que venderia livro aqui e no resto do mundo. Depois de futebol e skate, deve ser o esporte que dá mais projeção mundial para atletas brasileiros, não? Texto demais. sempre fui muito fã do Hélio, graças aos ensinamentos do grande mestre Zoeta poinho do Cruspão.

    Texto demais mesmo. Blog do Guaci é isso: uma idéia aqui, um sopapo acolá!

    p.s: a observação sobre o “o” do rola do Jay foi uma piada intencional com a viadagem que muitos enxergam naquele enrosco todo dos lutadores de jiu jitsu?

  4. E minha experiência é modesta. Faixa azul meio duro, viciado em meia-guarda, joguinho no mais das vezes manjado.
    Nos últimos meses, estou treinando em uma academia Gracie. A sensação é ambígua, porque tem muito advogado, policial. Dizem que os Gracie treinaram policiais inclusive na ditadura. Não duvido. Mas tem também muito cara gente fina.

  5. Arthur,
    A piadinha foi pra desrecalcar (e desviar) as mesmas marafonas que adoram homem com camiseta do são paulo, que voce deve conhecer. RA.

  6. Salve Jay,

    Ontem, quando falamos no telefone, imaginei que viria coisa boa desse texto, se você o fizesse. E fez. E ficou ducaralho. Fiquei pensando que isso poderia render uma ótima reportagem-gonzo, ou mesmo um romance meio Malagueta, com os personagens de Jiu-Jitsu substituindo os da sinuca. A pegada desse seu comentário sobre a faixa-azul já aponta para uma linguagem bacana para uma história dessas.

  7. Rodrigão
    valeu, cumpadi. essa reportagem pode entrar pra nossa lista dos “livros que ainda vamos escrever juntos”.
    abração
    J.

  8. Eis uma pessoa que se pode dizer que fez muita coisa na vida; criou um estilo de luta e de vida campeões, foi o patriarca de uma família que ganhou todos os campeonatos que disputou, pai do maior samurai da modernidade, o único sujeito a ter 478 lutas e nenhuma derrota, o outro filho mostrou para os EUA que não precisa ser forte ou grande para vencer outros estilos de lutas nos primórdios do UFC, o que obrigou todos os grandes lutadores a aprenderem, no mínimo, o básico do BJJ. Quando ninguém ousava desafiar os grandes lutadores japoneses, Helio Gracie foi no Japão e venceu o campeão local, ou seja, é realmente uma lenda de nossa época. É uma pena que tenha morrido, mas deixou um grande legado para a humanidade, Bela homenagem, Jay.

  9. que bonito texto jay. sem falar no fato de que o doutor frankstein deve ter criado um dos maiores lutadores de todos os tempos. ou, pelo menos, um dos caras que mais fez macho pedir penico na história da poeira.

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