Trilha sonora do já vai tarde

"Rock é bom por que não pega nada"
"Rock é bom por que não pega nada"

Mesmo apagado pela onda Obama-  que tomou conta do Pólo Norte ao Chuí -, o ódio a George W. Bush foi um dos motores da criatividade musical americana nos últimos oito anos. O ex-presidente hoje é um cachorro morto, mas não foi sempre assim. Por isso, dá pra dizer que os músicos tentaram eliminar ele no berro, mesmo quando o republicano ainda era bem avaliado e queridinho da reaçolândia internacional.

O nosso consultor informal André Maleronka deu a dica do ótimo texto escrito pelo jornalista musical inglês Dorian Lynksey, onde ele revela o impacto de W. Bush no cancioneiro norte-americano. E o pouco efeito que essas composições tiveram nos Estados Unidos (a reeleição de Bush em 2004 é exemplo dessa ineficácia) . Nesse contexto, ele procura levantar algumas razões do pouco impacto da antes influente canção de protesto nos EUA.

A galera do Guaci traduz alguns trechinhos, mas vale muito mais a pena ler o texto na íntegra.

(…) se você precisa de uma trilha sonora do “já vai tarde” para George W. Bush o que não faltam são gravações. Entre a fala da Dixie Chick Natalie Maines que “tinha vergonha do presidente dos EUA ser do Texas” (em Londres, em 2003) e a declaração feita por Kanye West de que Bush “não se importava com os pretos”  – em um programa beneficente às vítimas do Katrina, em 2005 -,  a taxa de aprovação do então presidente minguou e o que era apenas uma goteira de canções críticas se tornou uma enxurrada. É possível construir um box-set bem decente de músicas anti-Bush – Songs in the Key of W, talvez – que passam de Bright Eyes a Eminem, Pink a Public Enemy, Jay-Z a Elbow. Nem Nixon ou Ronald Reagan atraíram tão consistente ou variada gama de insultos.

(…)

E ainda assim, embora não falem exemplos, não nos parece que tenhamos vivido um boom de músicas de protesto. Um pouco disso se deve ao fato de nenhuma dessas canções estarem inseridas em um movimento cultural mais persuasivo e significante. Mas também é importante observar que só “American Idiot” e a suavemente contra a guerra “Where Is the Love”, do Black Eyed Peas, foram grandes sucessos nos EUA.

Os dois comentários musicais mais significantes sobre a administração Bush não eram canções mas as falas de Natalie Maines e de Kanye West.

Rob Tannenbaum, editor da revista musical americana Blender vê algo significante nisso: “Eles encontraram uma mídia diferente do que colocar uma música no rádio. Não há muita razão para se escrever uma música de protesto uma vez que a [rede gigante de rádios] Clear Channel não vai tocar a música e nem a MTV vai exibir os vídeos. Você precisa de algo mais viral, mais guerrilheiro.  Eu também acho que há um descrédito da canção de protesto tradicional”.

A falta de crédito deve-se, entre outras coisa à fragmentação cultural da era dos computadores. “Se você quisesse atingir pessoas alienadas em 1968, era só colocar uma canção no rádio e elas todos iriam te ouvir na mesma semana. Agora não há uma estação em que todos estão sintonizados e quando eu digo isso não quero dizer só estação de radio, não há nenhuma estação de mídia onde todos estão sintonizados.”

Nesse sentido, acho que fica a pergunta de qual o potencial contracultural da canção popular nos dias de hoje? Por onde ela pode atacar e ter influência como agente de mudança?

11 comentários sobre “Trilha sonora do já vai tarde

  1. convém lembrar uma coisa. Em 68 com todo aquele ambiente , o Nixon foi eleito do mesmo jeito. Tá certo que a guerra estava sendo tocada pelos democratas e que o único candidato com um discurso anti-Vietnã tinha sido assasssinado,mas o Nixon era uma opção claramente conservadora. E nenhuma canção explicitamente anti-guerra ou xingando o presidente foi um sucesso nas rádios. O vietnã só acabou seis anos depois e em 72, o Dick Vigarista foi reeleito ganhando em todos os estados, menos um. O que aquele movimento e o atual anti-Bush ajudaram a fomentar foi um sentimento generalizado de indignação que teve ressonância especialmente na forma como a história dos conflitos é avaliada. Hoje o mesmo sentimento generalizado de que o Vietnã foi um erro, se repete nas análises sobre a Guerra do Iraque. Nese sentido toda a moviimentação anti-Bush ao meu ver foi extrememamente bem sucedida.

  2. Boa Rodrigo, talvez o ponto seja até que ponto a canção de protesto influencia as pessoas? Mas de qualquer forma, eu acho que elas (mesmo sem grandes vendagens ) tinham uma influência maior na produção cultural do final dos 60 e começo dos 70 (haja visto Bob Dylan, Marvin Gaye, Stevie Wonder, MC 5, Jefferson Airplane etc.).
    De qualquer forma, em um dos trechos não traduzidos da matéria, tem uma declaração do Wayne Coyne (vocalista do Flamming Lips) interessante nesse sentido: “My older brothers, God love ‘em, think that the Beatles ended the Vietnam war,” says Coyne. “And they split up in 1970! So maybe,” he adds with a smile, “in 20 years’ time people will say the Flaming Lips recorded The Yeah Yeah Song and then Barack Obama was elected.”

  3. Fala Lauro! Ótimo texto e grande sacada do Rob Tannenbaum (o que é curioso, já que a Blender não ter crédito nenhum como revista séria). Só acho que precisa separar contracultura de canção de protesto. Boa parte da contracultura dos anos 1960/70 não tinha sentido direto de protestar, mas mesmo assim (e, no meu entender, principalmente por isso, já que a minha arte preferida da época não era necessariamente de protesto) significaram um marco de resistência e afirmação de valores elevados, em todos os níveis. Desnecessário dizer, hoje vivemos um contexto completamente diferente, em que a cultura underground ou alternativa adquiriu status bem mais high-profile – o que muitas vezes borra a linha entre assimilação pelo establishment e potencial real de transformação – mas ao mesmo tempo perdeu poder de influência de massa, no sentido que um Bob Dylan ou um Marvin Gaye tinham. Acredito também que houve uma despolitização necessária da música – até mesmo para fins de renovação -, mas momentos como o que vivemos hoje comprovam que ainda há muita gente disposta a se envolver politicamente para transformar as coisas, ainda que mantendo o teor apolítico das letras intocado.

    O que você acha?

  4. Oi Mateus, legal vc por aqui. A opinião é muito boa e esse assunto merece um monte de poréns como o seu.
    Eu nem conhecia essa revista Blender, mas seriedade em revista de música é uma coisa cada vez mais complicada né? Então quando eu falo em potencial contracultural é exatamente um pouco da capacidade que a cultura jovem tinha de colocar valores (políticos, sociais, sexuais, de costumes) em cheque e de transformar as pessoas. Hoje é tudo muito mais pulverizado mesmo e é difícil identificar a força de uma canção mesmo em um grupo pequeno de pessoas.
    Quanto essa coisa da despolitização, eu nem sei te falar se é boa ou não, só sei que é um fenômeno cada vez mais comum da música pop em geral. Acho que a falta de espaço comercial (em rádios e TV) é uma chave boa pra entender isso. Não sei como isso funciona levando-se Internet e celulares em conta. Acho que é uma coisa a se debater mesmo.

  5. Lauro, acho que a música de protesto tem um poder catalizador sim, mas ela pega algo já disseminado na sociedade e alavanca o processo. Sozinha ela não consegue nada. Quanto a essa despolitização eu discordo. Acho que a internet hoje criou um mecanismo de mobilização global sobre determinados temas que facilita a afirmação de determinadas agendas políticas.O que não existe , diferente daquela época, é a urgência de se criar uma revolução. Havia uma grande terapia social em curso em praticamente todo o ocidente. Agora, voce avança pontualmente temas de interesse específico em torno de dedeterminados grupos,mas não vejo falta de mobilização não.

  6. Bem, acho que são dois asuntos diferentes, ambos me interessam muito. O primeiro é sobre a eficácia da obra de arte, o outro curioso nas formas mais recentes de mobilização e atuação política. Acho que o melhor da canção de protesto ou qualquer coisa que o valha, em primeiro lugar, é o seu valor artístico.Só assim ela convence, faz com que a forma artística vire assunto e contamine a cabeça do ouvinte. Para pensar nomes clássicos, como woody guthrie, Archie Sheep, Liberation Music Orchestra, Pete Seeger, last poets, public enemy e dead kennedys, acredito que sua forma de intervenção não foi a de arregimentar nomes para a causa, mas de fazer pensar sobre o assunto. Eles tiveram sucesso, tanto que sua obra de arte foi copiada e fez que aparecessem novos artistas. Sua influência é uma prova da eficácia.

    Os três criaram narrativas sobre os Estados Unidos, apresentaram ao povo americano um país que eles não conheciam, dentro de uma forma sedutora e carregada de sentidos ficcionais. Sem querer comparar, os evangelhos convencem da mesma maneira. A força é incontestável. Tanto que um batalhão de artistas quis fazer igual. Isso não é pouco. Assim, para mim, a eficácia da arte não é arregimentar gente para causa, mas criar desconforto, apresentar formas sensíveis de se pensar o mundo e, sobretudo, fazer arte boa. Isso os artistas bons conseguem fazer.

    Talvez o que esteja em jogo não seja a ineficácia das obras de protesto e o desinteresse do público no mundo, mas a qualidade das obras de arte. Talvez nenhuma obra musical tenha qualidade suficiente para participar do debate. Nenhuma conquiste o público, além da dificuldade de alguns trabalhos chegarem ao ouvinte. Aliás, muitos músicos americanos falaram para mim que ninguém tinha feito nada contundente ainda. Acho inclusive que o susto que o pessoal do Brooklin (como Gang Gang Dance e o DJ Rupture fizeram ao assumir uma narrativa meio Al Qaeda ainda vai provocar muito o ambiente musical americano). Bem, isso é um ponto.

    O outro é a mobilização ou não das pessoas. é evidente que ela ocorre. Talvez muito institucionalizada, mas ocorre. O Obama nos Estados Unidos e o Lula no Brasil ganharam por conta da mobilização popular. O que não existe, aliás, não existe desde os anos setenta (e, para mim, as guerrilhas são um sinal evidente disso), é a idéia de transformação da sociedade. O admirável mundo novo sumiu mesmo do horizonte. Hoje a atuação política não tem uma forma social transformada projetada no futuro. O que existe são melhorias. Não sei se é bom ou se é ruim, mas sempre acho bom que as coisas mudem.

  7. Oi Rodrigo, Tiago e Matheus, a discussão aqui tá boa. Só pra esclarecer bem rapidinho. Não acredito que exista despolitização da sociedade nem nada disso e acho que a Internet tá aí como espaço de debate, reflexão e mobilização mesmo.
    A eleição do Obama mesmo é um reflexo disso.
    Eu só acho que na música pop (no Brasil tb), o debate político era mais presente e hoje (com exceções) ele é mais raro que em outros momentos recentes. Não sei justificar por que e nem tenho nenhuma prova, mas a minha observação é que, na música popular mais comercial, o interesse pela seara política diminuiu demais.

  8. Não sei se já foi falado, mas é bom lembrar que o bom e velho Neil Young compôs um disco inteiro pedindo o impeachment de Bush.

  9. Além de “American Idiot”, teve aquela da Madonna também né? A “American Life”. Essa foi bem pop e o clipe até foi proibido na MTV gringa (enquanto a brasileira ficou passando de hora em hora na programação aqui).

  10. Andaram dizendo na mídia, em geral, que “Bush foi o pior presidente americano”. Isso me parece um sentimento geral hoje. Será verdade? Qual foi o presidente pior que George W. Bush?

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