John Updike (1932 – 2009)

Fiquei chateado com a morte do escritor John Updike.  Li pouca coisa dele, mas sempre me diverti com a sua abordagem bem-humorada dos encantos e esquisitices da nova e afluente sociedade  dos Estados Unidos. Com delicadeza , ele mostrava as graças e estranhezas daqueles que nasceram e viveram em um conforto antes inimaginável. Personagens que fugiram das grandes cidades e foram viver uma vida middle brow, nos subúrbios.

Embora seja romancista, seus livros são muito teatrais. Pelo humor das situações que criava e pela temática dos seus livro, ele teve muito sucesso. Tornou-se inspiração para outras linguagens artísticas, inclusive. Como tinha um olhar interessado nas artes visuais, era muito comum alguns dos assuntos e cacoetes do meio de arte aparecerem nos seus livros. Convivo cotidianamente com esses dilemas e manias, acho que foi por aí que ele me fisgou. Gostei muito dos livros do Rabbit, mas, o último livro dele que eu li foi o Busca o meu rosto, um livro sobre arte.

A história tenta recriar um panorama do meio artístico de Nova York depois da Segunda guerra mundial. A transformação da cidade em epicentro mundial da arte.

Agora, o romance é mais que isso. Talvez seja sobre o descompasso que acontece quando as imagens míticas e desmistificadoras encontram uma personagem viva desse mito. A artista Hope Chafetz é entrevistada por uma jovem pesquisadora . Mostra-se muito desconfiada e com uma ponta de amargura, pois pensa que a entrevistadora só quer saber dos seus ex-maridos. Aos poucos, a imagem da biografia e a dos mitos se chocam, elas vão se sobrepondo, em uma imagem que parece desaparecer, como as telas de Hope, descritas por Updike. Os assuntos passam a girar em torno de promessas que não se cumpriram e das obras como testemunhas dessas promessas.

Os ex-maridos são personagens centrais da história da arte americana. Aliás, são episódios da história da arte no ocidente. Claramente, Zack McCoy, o primeiro marido, é Jackson Pollock, por exemplo. Guy Holloway, o segundo marido de Hope,  é o melhor da Pop art em um sujeito só. Mais que isso, é um sujeito com um tipo de masculinidade nova, típica das crises dos anos sessenta. É um momento de transformação na arte e na sociedade, em um sujeito só.

O mais curioso do romance é isso: a transformação de angústias da arte em conflitos da vida do dia a dia, da vida cotidiana. Outras figuras incorporam vários personagens históricos e momentos disruptivos da história norte-americana. Hope Chafetz, mesmo,é uma em cada momento do livro. Na maior parte do tempo é Lee Krasner (ex-mulher de Pollock), mas não deixa de ser um pouco Joan Mitchell,Grace Hartigan, Helen Frakhentaller e até Lee Bontecou. O livro se torna um desequilíbrio entre uma imagem construída por uma mitologia dos artistas, e outra, da vivência das obras e das pessoas envolvidas pela mitologia.

Updike, faz um retrato da ansiedade da arte daquela época. Mas faz com a leveza de uma conversa, as vezes amarga, as vezes não. Em alguns momentos ele constrói imagens muito bonitas, como a que segue:

Quando criança, ficava intrigada pensando aonde iria seu reflexo quando ela se afastava do espelho; nas paredes da casa de Germantown havia espelhos que eram como pinturas sempre a se modificar. Os anos 60 a libertaram do batom e daqueles permanentes das duas décadas anteriores, bem como das cintas e ligas; Hope deixou o cabelo ficar comprido, caído sobre as costas, prendendo-o rapidamente num rabo-de-cavalo para pintar ou fazer trabalhos domésticos, tinha toda uma coleção de prendedores engenhosos e travessas redondas, de tartaruga, de marfim, no tempo em que a extinção dos elefantes ainda não era uma  questão política. O fantasma grisalho desse rabo-de-cavalo pende neste momento da base de seu crânio, preso por um daqueles elásticos de cores vivas, cores de balas, que estão à venda na loja de dez centavos de Montpelier (uma das poucas lojas desse tipo que ainda existem no país, aliás nem se usa mais a expressão “loja de dez centavos”, só as pessoas mais velhas ainda a usam, hoje em dia não se compra mais nada por dez centavos), e os pés estão calçados em meias grossas cinzentas e confortáveis sandálias Birkenstock, também coisa de velho. Os anos 60 foram para ela uma libertação bem-vinda, uma felicidade, embora ela já tivesse quase quarenta anos quando a década iniciou. Preocupações de dinheiro, preocupações matrimoniais — tudo isso havia ficado para trás, agora ela era uma nova-iorquina, proprietária de um haras em Connecticut, casada com Guy Holloway, o menino-prodígio extremamente bem-sucedido da pop art, e, mais curioso ainda, mãe de três filhos pequenos, a empurrar, com sua minissaia de jeans e sua franja arruivada, um carrinho de supermercado com a pequena Dot sentada na frente, de macacão de veludo cotelê (no bolso um ursinho de pelúcia ou um canário de olhos redondos), e os dois meninos atrás dela, pedindo isso e mais aquilo, nos corredores do Gristede’s da Lexington Avenue, todas aquelas cores consumistas sob o teto de luz fria, cores tão desinibidas, tons fosforescentes de laranja e verde, uma década de arco-íris vívidos, de tons de ouro e prata nas pinturas, de viagens psicodélicas. No entanto, esses entrevistadores sempre lhe perguntavam sobre os anos 40 e 50, aquelas décadas enfadonhas e amedrontadas, a primeira cinza-chumbo e a segunda daquele tom de azul de esmalte que a gente vê nos filmes desbotados que passam na televisão.”

A tradução é de Paulo Henriques Britto.

Atualização: Leia o obituário do escritor no Guardian e no New York Times.

5 comentários sobre “John Updike (1932 – 2009)

  1. Além de “American Idiot”, teve aquela da Madonna também né? A “American Life”. Essa foi bem pop e o clipe até foi proibido na MTV gringa (enquanto a brasileira ficou passando de hora em hora na programação aqui).

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