great black music

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George Lewis, Muhal Richard Abrams (o presidente da AACM) e Roscoe Mitchell

Os músicos saídos da música negra de vanguarda de Chicago não se referem a eles como músicos de jazz, de free jazz, de música erudita ou qualquer coisa. Embora tenham, de maneira geral, uma formação no jazz ou na música moderna, preferem dar uma dimensão mais ampla ao que fazem.

A produção deles tem um sentido existencial, político e poético. Através de novas convenções musicais, eles não buscam só formas modernas de se relacionar com o som, mas um jeito revolucionário de se abordar a idéia de civilização. É um projeto ambicioso, que se contrapõe ao mito branco da civilização ocidental. Grosso modo, dá para falar que é algo entre John Cage, Charles Mingus e Frantz Fannon. Tudo isso de um jeito desafiador e entusiasmado, em busca do que, no século passado, nós chamávamos de “o novo”.

Saídos das lutas de emancipação dos afro-americanos, eles dizem fazer a grande (e grandiosa) música negra. Reunidos em torno de uma associação chamada AACM, esses músicos são um dos acontecimentos mais importantes da música do século XX e da cultura dos Estados Unidos. O ambiente combativo dessa associação de músicos tem muito em comum com o meio político que levou Obama à Casa Branca. São diferentes resultados da mesma intelectualidade negra de Chicago que fez o presidente senador. Algumas dessas consonâncias são abordadas na história da AACM que George Lewis conta em seu último livro .

A idéia daqueles compositores-improvisadores é criar música nova tendo por base as tradições mais diversas. Tratando a arte radical como não só um produto dos colonizadores euopeus, mas um diálogo alegre entre as formas de pensar o som ao redor do mundo. No ano passado, o Art Ensemble of Chicago tocou em uma temporada por aqui. Quem assistiu sabe da força que eu estou falando.

No vídeo abaixo, tocam três figuras chave desse ambiente musical: Roscoe Mitchell, Muhal Richard Abrams e George Lewis.  São instrumentistas e compositores de temperamento e trajetórias muito diferentes.  Embora todos tenham saído do mesmo solo cultural, cada um levou a história para um canto. Mas a conversa entre eles deu tão certo que eles tocaram em 2007, na Bienal de Veneza, e depois lançaram um disco lindo. Essa cena é um exemplo dessa concisão.

7 comentários sobre “great black music

  1. É impressionante como toda a criação da música dos negros dos Estados Unidos tem ligações com a história e com a proposta de um novo país. E isso vai da Motown e seu envolvimento com as políticas de afirmação, de inserção dos pretos na economia dos EUA ao desencanto (e posterior absorção) com o período neoliberal e agora a eleição do Obama. Na minha opinião essa geração de músicos de vanguarda é quem vai mais longe nesse sentido. Demais o post Tiago.

  2. Só vou voltar a ler essa joça a hora que o grande Mescas tiver espaço aqui para explicar toda a genialidade e complexidade do Lulu Santos. Os Mesquitinhas só falam de som que ninguém conhece e não sacam 1% de som que o Mesquitão saca.

    Tá lançado o desafio!

  3. Tiagão,

    Eu vi o Art Ensemble of Chicago há anos atrás, no Free Jazz Festival, creio que em 2000. Foi no palco club, um espaço para o “jazz de verdade”, bem ao sabor da elite cultural paulistana (os preços desse pico eram evidentemente 5 vezes maiores do que os praticados nas outras salas do festival). Parei lá dentro sabendo muito pouco dos caras, tinha ouvido uma ou outra coisa, mas fui porque sobrara um ingresso. Foi uma das melhores coisas que já vi na minha vida. De uma força, uma intensidade. Na época, os caras também faziam uso de máscaras tribais africanas, creio. Era como se eles estivessem construindo no palco a trilha sonora do armagedon, manja? Tudo poderia ruir depois daquilo. Todos os valores, paradigmas, conceitos…Não é fácil enfrentar isso…mas é necessário.

  4. Nessa apresentação eu não fui, não consegui comprar o ingresso. O Lauro foi. A lembrança dele também é muito forte. Quando eu o encontrei depois do show ele também disse que tinha sido uma das melhores coisas que ele havia visto na vida. Aliás, disse muitas outras vezes depois. Se brincar ele foi a pessoa que eu conheço que mais viu o Art ensemble (olha que eu tenho amigos em Chicago). De resto, obrigado pela visita Rodrigo

  5. O Tutu me lança um desafio difícil pela exiguidade de espaço de um blog. Uma análise da genialidade do Lulu, exemplar fenomenal da música pop, é uma tarefa para muitas páginas, para que não reste nenhuma dúvida. Grande fera.

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