Copan, por Carlos Teixeira

Aproveito o pontapé inicial das colaborações e publico um texto do Carlos Teixeira sobre o Copan. O conjunto é um símbolos de São Paulo. Celebramos o aniversário da cidade homenageando o prédio de Oscar Niemeyer.

O autor é arquiteto em Belo Horizonte. Mais conhecido como paisagista, também tem projetos de casas, edifícios e urbanismo. Como intelectual, já escreveu belos ensaios sobre metrópoles, arquitetura, urbanismo, jardins e etc. No ano passado, um de seus projetos de paisagismo foi finalista do concurso internacional Private Plots.

O artigo abaixo foi originalmente publicado na revista francesa L’Architecture d’aujourd’hui e é o resultado de uma conversa de Teixeira com Afonso Prazeres, síndico do Copan . O autor nos autorizou a publicação com muita generosidade. O texto está também na lista de artigos do seu site. Lá é possível ver a produção arquitetônica do seu escritório (Vazio S.A.), ler seus textos e visitar o seu blog.

Certificado no livro Guinness, os números do Edifício Copan são superlativos: maior da América Latina, 5.000 moradores, 1.160 apartamentos, área de apartamentos de 86.500m2 e área total de 115.000m2, 70 lojas que empregam 950 pessoas, folha de pagamento com mais de 100 funcionários, 1.800 linhas de telefone, consumo de energia de 30.000 kW/mês, consumo de água de um milhão de litros/dia e produção de lixo de três toneladas/dia.

História

A comparação é inevitável, mas o Copan (1951) apresenta óbvias similitudes com as mega-estruturas serpenteadas de Le Corbusier, especialmente as ilustradas nos croquis que fez para o Rio de Janeiro e já publicadas ad infinitum. Dentro da obra do próprio Niemeyer, o prédio é um eco da mesma monumentalidade do monolítico Edifício JK (Belo Horizonte, 1950) e, melhor ainda, da fluidez arqueada de seu desconhecido projeto do Hotel Quitandinha (Petrópolis, 1950). Todos aparecem na paisagem urbana tal como lâminas absurdamente grandes e expressam uma incrível indiferença para com seu entorno – quase como uma materialização do Monumento Contínuo do grupo Superestudio.

Mas visto que foram construídos em áreas centrais, o JK e o Copan veriam, mais tarde, seu heroísmo diminuído pelo crescimento urbano descontrolado. Se fotos feitas por volta de 1960 deixam claro a arrogância dessas lâminas, hoje ambas estão imersas numa congestão de prédios anônimos e pouco preocupados com a presença daqueles colossos. Afirmação autoconfiante e tipicamente modernista, o Copan poderia ter passado, em duas décadas, de protagonista a mero coadjuvante de São Paulo, símbolo de uma cidade industrial transformado em apenas mais um elemento de uma urbes quase catastrófica. Cinqüenta e seis anos depois de projetado, o contexto do Copan mudou: hoje sua imagem está menos para a ironia do Monumento Contínuo e mais para o peso de Lilith (1987), tela de Anselm Kiefer onde uma imagem aérea dos prédios do Centro paulistano é ofuscada pela sobreposição de camadas de poeira e terra.

Decadência

A da cidade não, mas a situação do prédio vem mudando. De uma condição que beirava a de um cortiço, com 30% de seus apartamentos desocupados e parte de seus elevadores sucateados, ele é hoje um condomínio cultuado por seus moradores. Seu declínio começou na década de setenta, com o aumento drástico da circulação de veículos, o desaparecimento das áreas verdes do Centro e a mudança do pólo financeiro para regiões menos congestionadas. Adjacente ao Copan, a então elegante Avenida São Luis e seus apartamentos classe alta, pouco a pouco se distanciava de seu elitismo; o filme “antonioniano” Noite Vazia (Walter Hugo Cury, 1964) sendo o principal documento visual da época áurea dessa avenida. Com apartamentos de um a quatro quartos, a mistura de classes patrocinada pelo Copan, ao invés de atenuar o desequilíbrio social do país, provou ser um catalisador de conflitos. Vieram os problemas comuns a todos os grandes conjuntos habitacionais: desavenças entre os condôminos eram freqüentes; prostitutas, traficantes e travestis ocupavam boa parte das quitinetes; brigas entre vizinhos, a administração e a polícia eram comuns. A escritora e moradora Regina Rheda, após lançar um livro de contos baseado em ocorrências reais (Arca sem Noé: histórias do edifício Copan, 1964), foi obrigada a mudar-se do prédio por pressão de vizinhos incomodados pelo tom ácido do livro – dentre eles o dramaturgo Plínio Marcos.

O custo do aluguel do bloco B, superpovoado e quase um cortiço, caía vertiginosamente e suas unidades eram alugadas por seus proprietários a qualquer preço. O lixo se acumulava pelas escadas e pelo terraço, o abastecimento de água era interrompido por dias, cortes no suprimento de luz deixavam o prédio às escuras etc.– até que, por motivos de segurança, a prefeitura exigiu mudanças rápidas ou a interdição do prédio.

Ascensão


A mudança começou em 1993, ano em que o ex-subprefeito de São Paulo, Affonso Prazeres, iniciou sua gestão como síndico. Morador desde 1963, hoje Prazeres planeja construir os elementos inconclusos do projeto original (veja abaixo) e instalar uma nova torre externa de elevadores, projeto do arquiteto Ciro Pirondi. A proximidade do síndico com o ex-prefeito de São Paulo facilitou o processo de recuperação: multas passaram a ser aplicadas para evitar ações predatórias e condôminos inadimplentes foram retirados. As dívidas do prédio com a prefeitura e a previdência social foram negociadas e a política municipal de recuperação do Centro, apesar de muito lenta, tem conseguido revitalizar alguns dos principais edifícios públicos centrais.

Mutilações

A história do Copan é perdulária. No início, tudo foi sucesso: suas quitinetes classe média-baixa, algo então inexistente, preencheram uma lacuna no mercado imobiliário de uma cidade que acolhia milhares de migrantes, estudantes e profissionais liberais – solteiros em busca de habitação central e barata. Os apartamentos foram vendidos “que nem pão quente” e mesmo os empreendedores não esperavam uma demanda tão reprimida e inesperadamente aquecida.

Problemas administrativos vieram, entretanto. Com todos os apartamentos vendidos a preço de custo (sendo os lucros provenientes apenas da taxa de administração da construção), mais de uma empresa foi à falência por improbidade administrava. Iniciada por uma sociedade anônima da qual participava, indiretamente, a companhia aérea americana Pan-American World Airways (Pan-Am), a obra passou de mão em mão por cinco anos até que, em 1957, o Bradesco, maior banco privado do país, assumiu sua incorporação e construção.

Conjunto dispare, o Copan deveria abrigar, além do edifício residencial, um hotel de 600 apartamentos num prédio vizinho de linguagem arquitetônica oposta (a curva em S sobreposta a um paralelepípedo neutro e mais baixo). O Bradesco decidiu mudar o programa do prédio, que de hotel passou a ser a sede do banco. Tivesse sido um hotel, dele sairia um enorme terraço-jardim com salões, restaurantes, áreas verdes e um teatro para 500 pessoas que uniria os dois prédios – elemento de ligação fundamental para dar sentido ao conjunto. O principal acesso ao hotel dar-se-ia pelo terraço, o que reforçaria a fluidez de movimentos entre os dois prédios e incrementaria o uso das facilidades públicas do hotel e do edifício residencial.

Conjunto multifuncional voltado para a escala da cidade, a plataforma que ligaria os dois prédios não foi construída – o banco é totalmente ensimesmado – e hoje é impossível saber que ambos formam o conjunto (o projeto do banco foi desenvolvido não por Niemeyer, mas por Carlos Lemos, quem manteve a volumetria do projeto original). Sem os eloqüentes espaços com e sem programas do terraço, o ponto de diálogo foi perdido. Concebido para “recuperar o chão” (Niemeyer), o terraço tem hoje apenas o gigantesco cinema de 3.500 lugares que, ainda assim, virou igreja (destino de todos os grandes cinemas).

planta
planta

Quase pior foi a alteração das plantas dos apartamentos, com número de quartos variável conforme os seis blocos do prédio. Temendo o atrito social patrocinado por essa variedade e apostando no novo filão de apartamentos pequenos, o banco mudou as plantas dos blocos E e F (quatro quartos) que então foram re-divididas como desajeitadas quitinetes. A garagem foi alterada: das 500 vagas do projeto original, a construída oferece apenas 221, e o segundo subsolo não foi construído.

Plástica

O prédio demonstra temas recorrentes na arquitetura de Niemeyer já bem analisados: antítese barroco/funcionalismo, iconografia pré-expressa em croquis, oposição reta/curva, separação entre técnica e forma, transgressão da ortodoxia do modernismo. Características que a distanciam dos pressupostos do CIAM, impregnando-a com o conceito de imagem e simbolismo que fizeram de Niemeyer um arquiteto tão criticado quanto admirado por sua liberdade formal. Como sabemos, em algumas obras ele é figurativo (o Congresso de Brasília, obra que quase antecipa o pós-modernismo de Venturi, como disse o poeta Décio Pignatari); em outras, é iconográfico (especialmente em sua última fase); e em algumas, como disse o crítico Marco do Valle, ele é barroco sem ser propriamente barroco.

O pilotis e mezanino do prédio têm traços característicos do autor: curvas serpenteadas que comporiam, parafraseando K. Frampton, “um caminho arquitetônico de música e dança” (como na Casa do Baile); além de pilares livres (graças a uma enorme viga de transição, como na Unidade de Habitação de Le Corbusier), e independência entre planta e cobertura (como na Casa das Canoas). Contanto, no Copan as mudanças do projeto enfraqueceram a independência entre as curvas assim como a vascularidade entre os níveis das lojas do pilotis. O mais grave problema que ainda persiste no prédio – a ociosidade e abandono das sobrelojas – parece ser conseqüência da circulação vertical deficiente, escultórica no projeto e inexistente no prédio construído. Todos os principais elementos dessa circulação não foram executados: as escadas rolantes entre lojas e sobrelojas, e a grande rampa espiralada que convidaria os pedestres a subir da rua para o terraço (substituída por uma escada elegante, porém tímida). A cúpula do cinema também teve sua forma côncava deturpada e, como o corte nos informa, estaria construída espetacularmente sobre o teatro, também não construído.

Os descaminhos da construção do Copan foram muitos, mas na verdade ele resistiu bem às alterações e ao tempo. Apesar das mudanças na fachada posterior, as duas elevações mantiveram-se como duas superfícies complementares: a lisa e fluida, com os brises em balanço desenvolvendo-se livremente; e outra, estriada, modulada por pilares e vigas. Sua forma em S aberto ainda é aquela com maior presença plástica na cidade, sugerindo-o como um prédio carioca em um contexto paulistano. O organicismo e a maleabilidade de Niemeyer aqui prenunciaram a paisagem dura e desgovernada de São Paulo: não é difícil enxergar, no homofônico hotel do conjunto (o atual edifício-sede do banco), um precursor do que é hoje a congestão vertical que assola a cidade. Acirrada pelo seu importante vizinho de quarteirão, o edifício Itália (Franz Heep, 1953), a importância do Copan parece crescer com densificação do Centro: quanto mais afogado em prédios, melhor. As linhas retas que o escondem por todos os lados parecem enaltecer suas formas sinuosas e, no nível do pedestre, essa obstrução só aumenta o senso de surpresa causado por esse edifício.

8 comentários sobre “Copan, por Carlos Teixeira

  1. Este blog tá repleto de celebridades!!! Eu sou fã do Carlos, sem vacilo!

    Que pena que não rolou o teatro no COPAN!

  2. Carlos,
    Não caia no conto do Afonso, é muita propaganda ‘oficiosa’…
    Neste microcosmo da ditadura, nem te conto do que se tratou exatamente a ‘moralização’ do Copan.
    Só morando aqui pra saber do que se trata, 17 anos de manipulação e autoritarismo com direito a ameaças e tudo.
    O prédio é lindo sim, afinal de contas é o traço de Niemeyer, mas estamos cada vez mais longe dos ideais humanistas desse grande Arquiteto.
    LC

  3. Carlos,
    esse Liso e Estriado que vc usa no seu texto é uma alusão a Deleuze e seu conceito de máquinas de guerra? Se a resposta for positiva, gostaria que me explicasse um pouco mais essa relação. Tenho muito interesse nas aplicações de Deleuze na arquitetura. No Copan principalmente, vejo estes conceitos, mas não na fachada. Abraço, Mila

  4. Olá Mila,
    Desculpa por esta resposta demorada, só ontem a vi por que o Tiago me a encaminhou. Na verdade, nunca li Deleuze. Em 2001, comecei a fazer um curso de mestrado onde uma das disciplinas era baseada em uma comparação, apresentada como seminários semanais pelos mestrandos, entre um projeto de S,M,L,XL do Koolhaas, e um capítulo de O que é filosofia, do Deleuze. Larguei essa disciplina (e depois, o mestrado todo) logo no início: minha apresentação ficou sofrível e todas as outras também pq, na minha opinião, a forma como arquitetos aplicam Deleuze em seus discursos é sempre forçada e equivocada. Nos anos noventa a situação era muito pior (Bernard Tschumi e Peter Eisenman trabalhando com Derrida), mas ainda vemos Patrick Schumacker e Zaha Hadid insistindo em alguma teoria para justificar formalismos arquitetônicos que na verdade não tem um embasamento conceitual mais sólido. Às vezes acho que essa teoria buscada por arquitetos intelectualizados em muitos casos não é necessária, e vários bons arquitetos seriam melhores ainda se não escrevessem. Mas independente disso, qualquer dia leio Mil Platôs (tenho honestamente esse interesse) – desde que ele não me sirva como instrumento para escrever memorial descritivo de um projeto de arquitetura. Acho, enfim, que o pensamento de um projeto deve estar no próprio projeto, e não em discurso tomado emprestado.
    Abraços,
    Carlos

  5. Oi Luciano,
    Quando estava escrevendo esse texto, tentei visitar um dos apartamentos e conversar com um dos moradores, mas senti que a pessoa, indicada pelo Tiago, tava meio que sem paciência para essas coisas. Mas vou re-publicar o texto num site no Brasil; e aí eu queria revisitar o Copan em setembro pra tirar umas fotos e, eventualmente, incluir mais coisas no texto. Vc mora ou já morou lá? Seria um prazer conversarmos.
    Abraço,
    CArlos

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