A crise atual pode virar uma depressão?

"Desempregado, não pare aqui - nós não estamos dando conta nem dos nossos"
O cartaz diz: "Desempregado, não pare aqui - nós não conseguimos dar conta nem dos nossos"

*** No texto abaixo, o economista Marcelo Toledo analisa a crise econômica. ***

A crise financeira norte-americana, européia e internacional (nessa ordem), iniciada em agosto, colocou a atividade econômica em uma espiral negativa. Ela cobrará seu preço como uma recessão mundial inevitável. A pergunta evidente é se ela pode levar a uma depressão econômica como a da década de 1930. A primeira tarefa, então, é retomarmos o que provocou a Grande Depressão. A segunda é averiguar se aquelas condições estão presentes na crise atual.

Não existe uma explicação consensual para a depressão. As três vertentes identificadas por Kindleberger (“The World in Depression 1929-1939”) parecem corresponder ainda hoje ao debate: (1) foi uma seqüência de eventos fortuitos; (2) foi a condução equivocada da política monetária do Federal Reserve e, em menor medida, por outros bancos centrais (a explicação de Friedman, famoso monetarista norte-americano e seus co-autores) e (3) foi um evento internacional, provocado por uma combinação de uma crise financeira com repercussões internacionais e respostas equivocadas de política econômica (a explicação de Kindleberger).

A primeira explicação, de que alguns eventos, como o Crash de 1929, foram se somando e por azar resultaram em uma depressão parece ser pouco convincente (além de não nos ajudar em nada). De fato, existiram diversas crises financeiras (dezenas delas) ao longo da história mundial; mas, via de regra, essas não tiveram tamanho efeito sobre a atividade econômica.

A segunda explicação tem até hoje muita força. De fato, o Fed adotou uma política monetária pouco expansionista frente ao que se fazia necessário. A resposta da política fiscal também foi lenta, com a preocupação sobre o equilíbrio orçamentário do setor público prevalecendo nos anos inicias da crise. Essa tese oferece a explicação que foi uma crise norte-americana que acabou por contaminar o resto do mundo.

A terceira explicação me parece mais próxima da realidade. O colapso do sistema bancário norte-americano não foi isolado e a crise financeira teve caráter internacional. Houve forte queda dos preços de ativos, provocando insolvência no sistema bancário. As dívidas e reparações da I Guerra pesavam sobre os europeus, que ainda mantinham relações não muito amigáveis. O Reino Unido havia perdido seu papel de liderança internacional e os EUA não se dispuseram a ocupar o lugar, o que veio a acontecer muito lentamente. Ao protecionismo norte-americano com o Smoot-Hawley Tariff Act de 1930 seguiu-se uma retaliação internacional, levando a uma retração substancial do comércio internacional. A falta de coordenação internacional de políticas macroeconômicas propagou o jogo de soma negativa com as desvalorizações competitivas. Muitos bancos centrais (como no Reino Unido) mantiveram a ferro e fogo os rígidos regimes de padrão-ouro, tornando a política monetária restritiva. As crises de liquidez e a falta de um emprestador internacional derrubaram o fluxo de capitais internacional e espalharam a crise financeira. A queda de preços de commodities derrubou a atividade nos países da periferia (para ficarmos com um termo mais clássico). Conhecemos bem tais repercussões para o Brasil.

Como dissemos, não há (ainda) explicação vitoriosa para o que ocorreu (veja Eichengreen, “Did International Economic Forces Cause the Great Depression?” para um bom exemplo do confronto das últimas teses). Com essas explicações em mente, vamos à nossa segunda tarefa: a comparação com a crise atual.

O choque inicial parece muito similar àquele que acabou levando à Grande Depressão. No entanto, temos uma notícia reconfortante. Independente de qual seja a explicação correta (com exceção do azar!) de por que aquele choque inicial se transformou em uma depressão, estamos em uma situação bem diferente.

O choque inicial é muito parecido: o estouro de uma (ou mais) bolha especulativa (como no caso dos mercados imobiliário de EUA, Reino Unido e Espanha, só para citar alguns casos); uma crise bancária concentrada em alguns países e que se torna internacional; um colapso das linhas de financiamento externo; uma rápida, intensa e global reversão de expectativas e um conseqüente colapso da demanda interna nos EUA e em outros países, retraindo o comércio internacional e os preços de commodities de forma brutal. O choque pode ser medido pela perda de valor de ativos (imóveis, ações e crédito), do lado do sistema financeiro, e pela queda abrupta da produção industrial absolutamente coordenada em todos os países economicamente relevantes, do lado da atividade econômica.

O choque, portanto, parece ser muito parecido. A grande, importante e crucial diferença com relação aos eventos da década de 30 é a resposta da política econômica, tanto nos EUA (epicentro da crise) como no resto do mundo. Primeiro, uma rápida e cavalar injeção de liquidez no sistema bancário ao redor do mundo; socorro aos bancos (com nacionalização em alguns casos) e provisão de linhas de financiamento internacionais (os swaps do Fed com outros bancos centrais e empréstimos do FMI). Houve um afrouxamento generalizado da política monetária em praticamente todos os países. Ou seja, se a explicação de Friedman estiver correta, vamos nos salvar da depressão. Além disso, diferente do grande endividamento dos subdesenvolvidos da década de 30, os emergentes estão bem abastecidos de reservas e com posições iniciais de endividamento externo bem mais confortáveis. Ou seja, seus próprios governos podem fornecer liquidez em linhas externas para o setor privado (como fez o Banco Central do Brasil). Segundo, o adequado funcionamento dos regimes de câmbio flexível, ao contrário da camisa-de-força do padrão-ouro. Até o momento (e rezemos para que continue assim) nenhum movimento de protecionismo no comércio exterior. Em quarto lugar, a resposta da política fiscal, que tentará compensar a queda de demanda do setor privado (tanto a retração do consumo, principalmente de duráveis devido às restrições de crédito, quanto do investimento, reação de empresas desesperadamente defensivas para não serem engolidas pela crise). Não cabe aqui discutir os detalhes, mas o efeito da política fiscal é lento e ela não é um substituto perfeito para a demanda privada. Portanto, ainda que seja uma resposta diferente daquela verificada nos anos iniciais da Grande Depressão, não devemos jogar  todas as fichas nela. A soma disso também nos diz que se a explicação de Kindleberger estiver correta, também não estamos no caminho de uma depressão.

A conclusão, portanto, é que o choque inicial, é bastante similar ao de outras grandes crises financeiras e, em particular, à crise do início da década de 30. Não existe um consenso que explique as razões pela quais aquela crise se transformou em uma depressão, mas a reação atual ao redor do mundo da política econômica ataca todas elas. O brutal choque detonou uma espiral negativa que já atingiu o maior retro-alimentador de uma crise: o emprego. Não escaparemos da recessão, com as tristes conseqüências sociais, mas evitaremos a depressão (a não ser por muito azar!).

O principal desafio da política econômica é quebrar a espiral negativa demanda-produção-emprego-demanda

Está instalada uma espiral queda de demanda-queda de produção-redução de emprego-queda de demanda. A queda inicial da demanda foi provocada principalmente pelo aperto de crédito– por conta do sobre-endividamento das famílias e empresas em diversos países—, perda de riqueza e deterioração das expectativas. As famílias tiveram seu crédito cortado e, ainda mais importante, passaram do desejado de tomar emprestado para o desejo de fazer uma poupança precaucional. Ou seja, simultaneamente houve uma queda abrupta da oferta e demanda por crédito. O colapso do financiamento do comércio internacional também provocou boa parte da queda da demanda inter-industrial. A renda e o emprego não mudaram praticamente nada nessa fase inicial da crise. Contudo, a manutenção da demanda em um patamar significativamente inferior ao anterior será provocada pelo comportamento efetivo do emprego e da renda. Até o momento, as famílias encontram respaldo nos fatos para seus temores e sua conseqüente retração. Acredito que o principal desafio da política econômica seja quebrar essa espiral. A pergunta é como? Como fazer a roda voltar a girar?

O que fazer para quebrar a espiral negativa de atividade?

Quando penso na queda de demanda, me vem à cabeça o problema do alto forno que faz aço: se algo dá errado, o concerto tem  que ser muito rápido, senão o aço solidifica dentro das câmaras e aí você tem uma bela estátua de aço e não mais um alto forno. Como fazer a roda voltar a girar? Como fazer com que cada um tenha segurança de que pode gastar porque vai também conseguir vender seu produto (quer dizer, para quase todo mundo, vender seu trabalho)?

Antes de saber o que fazer, talvez seja bom pensarmos no que não deve ser feito. Alguma regra que proíba demissões ou eleve o custo dessas demissões parece que só agravaria a posição desconfortável das empresas, que enfrentam uma substancial queda da demanda e, portanto, de seu faturamento. Pode implicar que um número maior de empresas quebrará ou terá seu crédito cortado pelo medo de que elas não possam se ajustar a uma possível nova realidade. Pode, assim, ser contraproducente.

E o que fazer?

Duas frentes devem ser atacadas: (1) recuperar a demanda e (2) reduzir o custo do emprego (as empresas devem desejar empregar mais para um mesmo nível de demanda). Ainda estamos nas proposições genéricas; precisamos de soluções práticas.

A solução clássica (mais antiga que o keynesianismo e o Keynes – que são coisas diferentes diga-se de passagem) é política fiscal: substitui a demanda do setor privado por demanda do setor público. É uma solução bastante imperfeita, contudo. Pense no caso do Brasil. A demanda que mais caiu foi do setor automobilístico. Seria ingenuidade pensar que podemos recuperar aquele nível de demanda (até mesmo porque aquilo parecia mais uma “mania” do que demanda sustentável). O que a política fiscal vai fazer? O governo vai sair comprando carros? Pode até comprar alguns para equipar a polícia, por exemplo, mas vai ser muito pouco. Pode gastar em infra-estrutura. Não ajuda o setor automotivo, mas ajuda as siderúrgicas e etc. Mas então, caímos no segundo problema. Quanto tempo demora até que a política fiscal seja efetivada?

No Brasil, o investimento público demora pelo menos 12 meses (sendo muito generoso). A política fiscal rápida é a de transferências e gastos de custeio. Para o país, estruturalmente temos um tamanho de transferências enorme (previdências privada e, principalmente, pública e outras). O número de funcionários públicos já é adequado (alguns diriam mais do que adequado). Não dá para fazer política temporária distorcendo ainda mais a estrutura fiscal.

Parece que ficamos com algumas opções para gastar mais: gastos de custeio e transferências do seguro desemprego, com aumento da fiscalização, porque há muitos casos de falsas demissões. Do lado da arrecadação, redução de impostos indiretos (que são os mais nocivos no Brasil) e subsídios ao investimento. Claro, alguns diriam que o melhor seria acelerar os investimentos. Não acredito que alguém consiga, mas podem tentar. Aumentar os gastos de custeio pode significar desperdício (ou seja, gasta mais e mantém o mesmo nível de provisão dos serviços públicos) ou aumentar efetivamente a quantidade de serviços públicos. Não sei muito bem o que seria isso. Talvez seja comprar mais equipamentos para os hospitais e escolas. Reequipar algumas áreas do setor público com computadores, móveis e etc. Aumentar os gastos com custeio só com muito, mas muito critério.

Para elevar o nível desejado de emprego, acho que redução dos impostos sobre o trabalho seria o caminho consensual.

Então, chegamos ao nosso ponto: se reduz, temporariamente (ou permanentemente que seria melhor ,cortando outros gastos antes), os impostos distorcivos sobre o trabalho (nada de mudar 13º, por exemplo, que isso é salário!), aumentam-se os gastos com seguro-desemprego (elevando o nível de fiscalização), são reduzidos os impostos indiretos e os impostos sobre o investimento (o aumento do subsídio ao investimento através do BNDES já está sendo efetivado).

9 comentários sobre “A crise atual pode virar uma depressão?

  1. Um artigo muitissimo claro e que conseguiu reunir diversos fatores econômicos, históricos e políticos servindo uma análise senão completa, muito solidamente embasada. Uma pseudo_quase_economista como eu, indico.

  2. Grande Marcelo!

    Parabéns pela iniciativa de escrever esse texto muito bem escrito.

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