Os bichos, os vivos e os mortos

Os fantasmas rondam as idéias que eu me aproximo. Faz um bom tempo que me interesso por fantasmagorias. Elas aparecem nos meus estudos, nas histórias que conto e que escuto. Gosto muito de criadores como Machado de Assis, Karl Marx, Manet, Goya, Andy Warhol e Andrei Tarkovski, que sempre estiveram rodeados de espectros. No trabalho que tenho preparado, sobre Warhol, os espíritos aparecem toda hora. Por vezes, tenho a impressão que eles querem tomar conta do meu texto. Pode parecer uma obsessão, mas acho que não.

The Kiss (Bela Lugosi), c.1963
Andy Warhol: The Kiss (Bela Lugosi), c.1963

Em uma conversa recente com o artista plástico José Bento, sua esposa Marina e a minha namorada Juliana, a idéia de fantasmagoria ficou mais clara. Aconteceu enquanto eu escutava a descrição de um projeto lindo que ele irá fazer. A escultura, ainda no papel, parecia se comportar tal como os fantasmas. Fiquei mais entusiasmado do que já estava com as figuras que vivem depois de morrer. Aliás, tanto, que ainda vou escrever sobre isso e sobre a produção recente do artista, mas não agora. O caso é que o que eu aprendi com os meus interlocutores, no ateliê do , me deixou ainda mais curioso. Por isso, resolvi parar e seguir a trilha das almas penadas.

Estudei ciências sociais na graduação. Naquela época, os fantasmas já me intrigavam. Lembro de ler para uma aula de Antropologia IV – com o conteúdo de etnologia ameríndia – um ensaio em que o brilhante Eduardo Viveiros de Castro falava de uma tipologia da cosmologia dos povos que ocupavam a América do Sul, antes que ela sonhasse em existir. Essa classificação, em miúdos, dividia os seres que habitavam o mundo em animais, espíritos e humanos. Claro que isso não era o centro do artigo, mas ganhou minha curiosidade. As formas em que as diferentes reflexões em torno da classificação assumiam, ao incorporar e dissociar diferentes vivos de uma categoria e outra, era como uma luva para as questões com que quero trabalhar no texto sobre o Warhol. Como eu não tenho mais a revista com o ensaio e emprestei a coletânea de textos do antropólogo para uma amiga de Manaus, saí à caça de informações, enquanto não compro outra cópia da Inconstância da alma selvagem.

Felizmente, encontrei uma entrevista muito esclarecedora do antropólogo no site Trópico. A conversa, muito bem conduzida pelo sociólogo e crítico Flávio Moura, entusiasma qualquer um. Através dela temos uma pequena amostra da reviravolta que o pensamento de Viveiros de Castro causa e ainda causará na produção de conhecimento daqui e de qualquer lugar. Sem sombra de dúvida, ele é um dos grandes intelectuais vivos. Mais tarde, merecerá mais postagens aqui. Por agora, fico na picaretagem. Surrupiei um trecho daquela entrevista e colei aqui. Soube que ela já foi impressa, está no volume dedicado ao pensador na ótima coleção Encontros, de livros de entrevista, da Azougue Editorial.

Os índios no plural, de Flavio Moura:

No trabalho de antropólogos como Darcy Ribeiro e Roberto DaMatta percebe-se a necessidade de se extrair uma noção de brasilidade. O seu trabalho examina as sociedades indígenas por um enfoque que não passa pela questão nacional. Qual seria o seu enfoque e em que medida ele se distancia das referidas interpretações do Brasil?

Eduardo Viveiros de Castro: O que me interessa não é a “questão nacional”, ou qualquer “teoria do Brasil”. O que me interessa não é, tampouco, a “questão indígena”, nome do problema que a existência passada, presente e futura dos povos indígenas significa para a classe e a etnia dominantes no país. O que me interessa são as questões indígenas, no plural -entenda-se, as questões que as culturas indígenas se põem elas próprias e que as constituem como culturas distintas da cultura dominante.

Digamos então que o que me interessa não são os índios enquanto parte do Brasil, mas os índios sem mais; para mim, se algo é parte de algo, é o “Brasil” que é parte do contexto das culturas indígenas, e não o contrário. Entre as questões indígenas encontra-se, naturalmente, e já lá vão 500 anos, a “questão dos brancos”, ou seja, o problema que o “Brasil” oferece para os povos indígenas que aqui vivem. Mas o “Brasil” é apenas um desses problemas práticos e teóricos que se oferecem aos índios, pois os brancos são apenas mais uma dentre as várias espécies (embora uma espécie particularmente problemática) de Outros com quem cada sociedade indígena deve se haver: os animais, os espíritos, os outros povos indígenas…

Uma das construções teóricas mais difundidas do seu trabalho é a noção de “perspectivismo ameríndio”. Em linhas gerais, o senhor poderia explicar em que consiste essa idéia?

Viveiros de Castro: “Perspectivismo” foi um rótulo que tomei emprestado ao vocabulário filosófico moderno para qualificar um aspecto muito característico de várias, senão todas, as cosmologias ameríndias. Trata-se da noção de que, em primeiro lugar, o mundo é povoado de muitas espécies de seres (além dos humanos propriamente ditos) dotados de consciência e de cultura e, em segundo lugar, de que cada uma dessas espécies vê a si mesma e às demais espécies de modo bastante singular: cada uma se vê como humana, vendo todas as demais como não-humanas, isto é, como espécies de animais ou de espíritos.

Assim, por exemplo, as onças se vêem como gente, vendo ainda vários elementos de seu universo como se consistissem de objetos culturais: o sangue dos animais que matam é visto pelas onças como cerveja de mandioca etc. Em contrapartida, as onças não nos vêem, a nós humanos (que naturalmente nos vemos como humanos), como humanos, mas sim como animais de presa: porcos selvagens, por exemplo. É por isso que as onças nos atacam e devoram. Quanto aos porcos selvagens (isto é, aqueles seres que vemos como porcos selvagens), estes se também se vêem como humanos, vendo, por exemplo, as frutas silvestres que comem como se fossem plantas cultivadas -mas vêem a nós humanos como se fôssemos espíritos canibais (pois os caçamos e comemos).

Há vários desdobramentos e implicações desse complexo de idéias: por exemplo, que a forma corporal de cada espécie é uma roupa ou invólucro que oculta uma forma interna humanóide; ou, ainda, que os xamãs são os únicos indivíduos capazes de assumir o ponto de vista de mais de uma espécie além da sua própria; ou, ainda, que, dada a humanidade reflexiva de cada espécie, a caça e o consumo de carne animal são empresas metafisicamente problemáticas, jamais livres de conotações canibais. Tudo isso assenta em um pressuposto fundamental, o de que o fundo comum da humanidade e da animalidade não é, como para nós, a animalidade, mas a humanidade.

Os mitos indígenas descrevem uma situação originária onde todos os seres eram humanos, e a perda (relativa) dessa condição humana pelos seres que vieram a se tornar os animais de hoje. Ou seja, se para nós os humanos “foram” apenas animais e se tornaram humanos, para os índios os animais “foram” humanos e se tornaram animais.

Nós pensamos, é claro, que os humanos fomos animais e continuamos a sê-lo, por baixo da “roupa” sublimadora da civilização; os índios, em troca, pensam que os animais, tendo sido humanos como nós, continuam a sê-lo, por baixo de sua roupa animal. Por isso, a interação entre humanos propriamente ditos e as outras espécies animais é, do ponto de vista indígena, uma relação social, ou seja, uma relação entre sujeitos.

Entre as conseqüências filosóficas mais interessantes dessa doutrina perspectivista indígena está uma concepção das relações entre “Natureza” e “Cultura” radicalmente distinta daquela que vigora, em versões historicamente variáveis, na tradição ocidental, desde o par phusis/nomos da Grécia antiga ao par nature/société do Iluminismo.

Clique aqui e leia toda a entrevista.

13 comentários sobre “Os bichos, os vivos e os mortos

  1. Gostei dessa história de fantasmas. Esse texto do Viveiros de Castro é um show, hein?
    Abraços aos blogueiros

  2. O Tiago é a versão adulta do menininho “i see dead people”. Uma versão adulta e brasileira, meio pornochanchada.

    Texto bacanaço. Despertou meus instintos mais primitivos.

  3. 5: Aparece algumas vezes no Novo Testamento a palavra “legião” para tratar de conjunto de espíritos (sempre são espíritos maus, claro, haja vista a interpretação bíblica-cristã para o fenômeno).

  4. Nossa Gilson, que transmissão de pensamento. eu procurava resposta para a minha pergunta agora! na hora do meu recreio
    muito obrigado pela informação
    abração

  5. Negão: na real quem deu o serviço foi um colega (espírita) aqui do serviço… Só pra dar os créditos. Mas a questão ficou me espezinhando desde a semana passada.

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