A micareta do Obama

obama_lincoln_021

Obama toma posse amanhã. As festas começaram ontem lá no Lincoln Memorial em Washington com um festival cheio de cantores pop e estrelas de Hollywood. Apesar de alguns momentos bonitos – é legal ver o Pete Seeger mandando aquela mensagem pra classe trabalhadora e ouvir que o Stevie Wonder é bom até do lado da Shakira -, no final ficou aquela cara de Grammy/Oscar/Emmy em versão parada militar.

Eu acabei pensando o quanto o brasileiro é diferente do americano. Existe uma série de paralelos entre a eleição do Obama e a eleição do Lula em 2002. Os dois são candidatos com origens bem diferentes do establishment político tradicional, militaram em movimentos populares, ambos venceram com um discurso de esperança, a mobilização da campanha petista e democrata levava em conta a construção de um grande arco de representação política e o envolvimento de uma enorme parcela da sociedade organizada (movimentos sociais, movimento pelos direitos fundamentais, empresários etc.)

As diferenças também são muitas. Obama era uma novidade para o povo americano, veio da militância universitária, calcou sua carreira no parlamento e Lula e o PT foram construindo o nome dele como possibilidade ao longo de anos.

Mas o que importa nesse texto é falar sobre o sentimento de mobilização e pertencimento que ambas as campanhas geraram. E na festa de ontem, que é onde muita gente divide esse sentimento. Assim como Lula em 2002, Obama colocou o eleitor como o centro da mudança.

Mas tem um lance dos eventos populares americanos em que todo mundo fica paradinho vendo as estrelas brilharem que eu acho meio esquisito. Tudo é uma demonstração de poder e de “mostrar a que veio”, isso não vem só de quem está no palco, mas também da platéia e até do telespectador na telinha. O crítico Lorenzo Mammi já havia escrito sobre isso no genial artigo “O projeto Utópico da Bossa Nova” (só pra assinantes).

Ao comparar jazz e bossa nova, ele escreve:

“Deste ponto de vista, a música brasileira fala de uma experiência diferente da dos Estados Unidos, onde a vida particular é sempre uma forma de treino para a vida pública. A peça que os músicos (de jazz)  improvisam depois do concerto é experimento para a próxima apresentação, e até uma canção executada numa festa de aniversário tende a ser apresentada como num show profissional. Um concerto de João Gilberto, ao contrário, mesmo num estádio, mantém algo de uma reunião de apartamento, em que se pede ao convidado uma canção (com o risco, inclusive, de que não cante). (…) Se o jazz é vontade de potência, a bossa nova é promessa de felicidade.”

A comemoração da vitória de Lula também se assemelhava a isso, com a multidão que se acotovelava para abraçar o presidente recém-eleito (como se fosse para dar parabéns a um aniversariante); os empolgadões que tranformavam o espelho d’água do palácio presidencial em piscina; o pessoal que fez a Praça dos Três Poderes de casa ao longo de toda temporada de posse e mais um monte de exemplos. O mais interessante da posse do Lula estava na reação do público com o “momento histórico”, com o local da festa. O mais chamativo, interessante e divertido era a curtição de quem estava lá.

Na festa do Obama (que ainda não foi a posse), a história parece se fazer mais no palco do que na platéia, os eleitores reagem ao que se faz ao lado das cadeirinhas das famílias Obama, Biden e dos convidados. A comemoração no Lincoln Memorial se parecia mais com uma premiação de final de ano. Eu fiquei até esperando alguém aparecer com um envelope e anunciar algum “Melhor qualquer coisa”. Certamente, o frio de Washington em janeiro deve ter algo a ver com a reação comportada.

Quero deixar claro aqui que a idéia não é realizar um concurso da festa de posse mais legal, é sim ressaltar particularidades bastante específicas que falam muito dos dois países pro bem e pro mal.

De resto, depois de oito anos desastrosos a entrada de Barack Obama enche a gente de esperança e deixa feliz todo mundo que acredita em um mundo mais democrático e igualitário. É uma oportunidade excelente de dar adeus ao conservadorismo mais tacanho que nega a ciência, o multilateralismo e qualquer possibilidade de dissenso ao mercado.

Dado o adeus aos lamentáveis neocons, é hora de esperar se o dia seguinte será bom e se o governo americano está preparado a ter uma nova relação com os outros países e com as propostas divergentes de mundo.

11 comentários sobre “A micareta do Obama

  1. rapazes, parabéns pelo blog. Laurão, o que me chamou atenção nestas eleições foi o fato de que o Obama ganhou de levada nos chamados estados azuis onde vive a classe média mais afluente: Nova York, Chicago, Los Angeles, Boston, o que seria o correspondente econômico ao Sudeste brasileiro. Enquanto a nossa classe média fez uma tenebrosa inflexão à direita, foi exatamente esse segmento um dos grandes celeiros eleitorais do Obama e dos democratas em geral. É uma tendência progressista do eleitorado americano que vem se desenhando desde os anos 90. Abração.

  2. e eu gostei do cara falando da bossa…. ummmm puuuuta ritmo complexo, meu….

  3. Oi Rodrigão que massa você aqui. Bem que vc podia escrever umas coisas pra cá de vez em quando hein? Mas como vc tava falando, é surpreendente como os movimentos da classe média brasileira se aproximam da direita. E cada vez mais virulenta e menos preocupada com o restante da sociedade.
    Mas acho que esse movimento à esquerda dos americanos têrm muito mais a ver com uma reação à situação econômica e à guerra no Iraque. A tal crise no subprime bateu fundo no discurso econômico liberal e as torturas e trapalhadas no Iraque mostraram que esses neocon estão sempre errados e que só se movem por interesse. Fora isso, esse punhado de escandâlos corporativos e tudo mais fez com que os americanos começassem a desconfiar desse bom senso direitista vendido pelas Fox News e USA Today da vida.
    Antes disso, no entanto, toda mídia e parte da população americana ainda se movia com força pra direita seja pelo medo do Bin Laden, seja pela roubalheira de eleições na Florida. Vê se aparece aqui em BH. Eu moro aqui agora …

  4. demais cara, é impressionante a empolgação das globos, só falta chorar de joelho dobrado

  5. Oi Bugrão, beleza? A galera não se agüenta de emoção. Choram mesmo.

  6. Tô sabendo de você ai, Lauro. E em breve vou pra Bh, com certeza. Na verdade, a tendência progressista dessa fatia do eleitorado vem se desenhando faz tempo. O mapa eleitoral de 2000 pra 2004 permaneceu inalterado mesmo após o onze de setembro. A novidade dessa eleição são os democratas avançando sobre alguns estados vermelhos e ganhando os estados pêndulos (Ohio, Florida). O apoio as políticas do Bush duraram pouco tempo e era uma situação de exceção, o páis tinha vivido um ataque. Acredito que a menos que haja um desastre essa tendência deve se confirmar, pelo crescimento do eleitorado latino e outras minorias. Meu ponto é que , de uma forma geral, a classe média urbana americana é mais progressista no voto que seu equivalente brasuca.

  7. Oi Rodrigo eu acho que nessa eleição, a classe média americana foi muito mais progressista mesmo, não só na escolha de Obama para presidente como também na votação no senado e na câmara dos deputados. No entanto, a minha opinião é que essas coisas têm muito a ver com o momento histórico e não necessariamente com uma postura rígida. Com certeza, houve um movimento forte dos americanos para a esquerda, mas isso tem muito a ver com um desgaste do governo Bush e também com uma campanha absolutamente nova e bem conduzida como a do Obama.

    Acho que uma boa fonte de informação nesse sentido é o texto do Idelber Avelar sobre o assunto. No blog dele, inclusive, há um arquivo precioso de informações sobre toda a trajetória dessa eleição histórica e empolgante. Abração.

    Não sei te dizer qual classe média é mais progressista

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s