Pois os reaças estão sempre errados

3144857445_bb87224055Se tem uma coisa que me deixa muito puto no papo pró-massacre é a tal “inevitabilidade do ataque” contra Gaza. O discurso tem sempre um mesmo começo e aproveita a onda pra citar o futuro presidente dos EUA Barack Obama, que em visita a Israel teria dito: “Se mísseis estivessem caindo onde minhas duas filhas estivessem dormindo, eu faria tudo para acabar com isso”.

Com essa citação do democrata, pessoas que há uns dias atrás defendiam com unhas e dentes a candidatura de John McCain (queeeem?) e empilhavam adjetivos dignos da guerra fria em Obama  passaram a ter argumento para autorizar a carnificina. O engraçado que não faz nem um mês e alguns desses que se esgoelam em defesa do ataque israelense diziam  que o agora presidente Obama não era americano e que tinha chances enormes de ser um agente infiltrado da Al Qaeda na Casa Branca.

É bom lembrar que o Obama mesmo ainda não abriu o bico sobre o assunto, não oficialmente pelo menos. No máximo, discursou de maneira genérica sobre a paz.

Se não teve chancela do novo executivo, o velho legislativo (já de maioria democrata) mandou um sonoro “yes, you can” para Israel, liberando o exército de Ehud Olmert para cometer a atrocidade que lhe apetecer, mesmo que a ofensiva inclua armas ilegais.

Em primeiro lugar, essa história de que o ataque é uma retaliação contra os mísseis enviados por Gaza vai se mostrando uma mentira cada vez mais estrondosa (também em português). A bizarra argumentação em favor do massacre não pára aí. Existe o eterno discurso dos escudos humanos, que joga a responsabilidade das mortes para os palestinos. Ou seja, eu pego um tanque e fuzilo uma escola cheia de crianças. Se elas morrem no ataque, a culpa é dos pais que deixaram elas freqüentar uma vizinhança tão barra pesada.

O mais impressionante é que apareceu argumento pior agora.

Em meio ao ataque, que já havia matado 1.025 palestinos até quarta-feira às 23h40, surgiu uma das conversas mais bizarras que eu já ouvi na minha vida. O argumento,  digno da racionalidade do Bin Laden, diz que os civis palestinos não podem mesmo se queixar uma vez que elegeram o Hamas e estariam pagando alto pelas suas escolhas. Ou seja, se o sujeito votou no Hamas, ele é alvo (e nem adianta ninguém me pedir pra linkar no papo dos reaças por que eu não mando ninguém pra roubada).

Com isso, a direitona institucionaliza que nenhuma eleição é legítima e que grupo político algum tem legitimidade. Por essa lógica bizarra, qualquer grupo político eleito seja nos EUA, seja em Israel, está sujeito a um justo ataque palestino (uma vez que os representantes da população desses países autorizaram a carnificina sem restrições).

O mais patético é que se trata daquela mesma galera que insistia nas armas de destruição de massa no Iraque e que acreditava que a invasão dos EUA na terra do Saddam era a verdadeira redenção da democracia, do estado de direito. É gente que bate no peito pra se dizer liberal ou qualquer besteira que eles lêem em sites neoconservadores do Colorado ou do Alabama.

Depois de não acharem nem um estalinho atômico entre os rios Tigre e Eufrates e do escândalo de Abu Ghraib, esse mesmo pessoal fica espezinhando o sexo do vizinho de baixo ou procurando algum material didático para dizer que é ideológico, uma peça de propaganda comunista. Agora, apareceu mais uma guerra pra eles se divertirem. Lá vai a rapa conservadora se lambuzar no sangue alheio e bem distante.

Nessa hora, eles vão correndo escrever e opinar no blog dos amiguinhos (porque pra rua, graças a Darwin, nenhum desses otários vai), dão as mãos até pra deputado democrata e se juntam no “bom senso do massacre”.

Enquanto isso, a contagem de corpos não pára e o desastre humanitário continua…

** Não percam o site da Al Jazeera que reúne vídeos do ataque israelense contra o povo de Gaza. O material conta com licença Creative Commons, o que permite seu uso e disseminação. (a dica é do Idelber).

*** A imagem acima também é do excelente Mazen Kerbaj.

11 comentários sobre “Pois os reaças estão sempre errados

  1. Oie Laurose,
    muito legal o blog, vou continuar visitando – fica um pouquinho do gosto de tê-los por perto.

    Foi conversando com uma amiga outro dia que descobri (já desconfiando) este papo pró-Israel no Brasil. Quando fui direto ao assunto (sim, é completamente sem motivos, ou os tais “motivos” são resultado de uma série de pataquadas políticas das quais a Palestina é uma grande vítima), ouvi uma série de argumentos – ainda que não tão confidentes (aí seria ridículo)- de que não é tão simples assim, que o tal do “TERROR” precisa ser combatido e lá, lá, lá.

    Bom, vamos lá: quem é o TERROR? O TERROR é árabe, com certeza. Porque quando Israel bombardeia e mata mais de 1000 civis, quando Israel ataca uma escola da ONU, não é TERROR. O que é eu não sei, deve ser “direito de acabar com o Terror”. Que terrorismo é esse que só vale de um lado?

    Robert Fisk tem um artigo bom (http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fisk-why-do-they-hate-the-west-so-much-we-will-ask-1230046.html) no Independent, onde se faz a mesma pergunta:

    “For that is what we would call this atrocity if it had been committed by Hamas. So a war crime, I’m afraid, it was. After covering so many mass murders by the armies of the Middle East – by Syrian troops, by Iraqi troops, by Iranian troops, by Israeli troops – I suppose cynicism should be my reaction. But Israel claims it is fighting our war against “international terror”. The Israelis claim they are fighting in Gaza for us, for our Western ideals, for our security, for our safety, by our standards.”

    Aqui na Noruega, a mídia toda (ou a maior parte dela) é pró-Palestina. Manifestações de 20.000 pessoas (é muito na Noruega, tá? humpf!) foram feitas na semana passada. Os únicos médicos do “ocidente” (odeio esta separação, mas enfim) eram noruegueses. Então fomos poupados das manchetes “Gaza *ataca* Israel”, com os poucos palestinos jogando pedras.

    No mundo ideal, seria possível que todos conseguissem viver sua vida em paz, coabitar o mesmo espaço. Somos adultos, afinal. ha-ha. O que acontece em Gaza é de novo, o apartheid. Enquanto os palestinos continuarem a serem vistos como cidadãos de segunda classe pelos israelenses, tudo isso continua. Eu me preocupo com a facilidade de que os seres humanos conseguem repetir os mesmos erros.

    Este site é legal, de uma jornalista de Gaza, mãe de 2 meninos. Beijos pra vocês.
    http://www.a-mother-from-gaza.blogspot.com/

  2. Oi Renata, bom é ter você aqui direto da Noruega. Ainda mais indicando esse monte de coisa legal. Vou ler agora. De qualquer forma, segue uma resportagem muito boa que está no You Tube (http://www.youtube.com/watch?v=FABqq_jjRRo) em que alguns apoiadores de Israel esboçam sua “compaixão humanista” da melhor maneira.
    O repórter é um cara muito bom chamado Max Blumenthal (http://www.alternet.org/authors/6621/). Vale a pena assistir.
    Beijo enorme e tô com saudades viu.

  3. Inclusive, Blumenthal é um repórter judeu muito preocupado com Israel. Isso prova que a questão não é ser contra os israelenses, mas contra a barbárie.

  4. E cito mais um fator que “contamina” essas análises as quais você se refere. Ao ser “a favor” de Israel (ou contra os “terroristas”) os caras julgam ainda que estão se posicionando contra o PT e o governo Lula.

  5. Aí Gilson, mas daí eu vou te falar. Tá bom pro Lula viu. Se a propaganda da oposição for o massacre em Gaza, a Dilma já é a próxima presidente do Brasil.

  6. Não que a coisa se reflita na campanha, esse assunto passa longe. Mas motiva os reaças de certa forma. Um “plus a mais”, como se diz.

  7. Olha, muito boa essa crítica. Alimentada por bons links. Nada me tira da idéia que esses ataques rolaram pra aproveitar os últimos dias da era Bush, ou os dias da Casa Branca “terra de ninguém”. Sair bombardeando cidades densamente populadas não pode ser estratégia militar, só pode ser limpeza étnica mesmo.

  8. Valeu Danilo. Quanto a Israel, é retaliação militar da mais bizarra que pode existir. E daí neguinho pode fazer a barbaridade que quiser por que eles estão combatendo “o terror” e vale tudo contra o “terror” (que como a Renata escreveu, ao ver do establishment ocidental, é sempre muçulmano). Essa era Bush logrou uma política de morticínio e um argumento de violência gratuita patrocinada pelo Estado que vai ser difícil de superar.
    A reação do Congresso americano (que já é predominante democrata, é sempre bom lembrar) à chacina em Gaza me tirou muito da esperança que eu tinha com a chegada dos democratas ao governo nos EUA. As coisas devem melhorar um pouquinho. Mas eu acho que esse discurso anti-terror e essa virulência verbal contra tudo que questiona o american way deve continuar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s