É a geopolítica, camarada!

por Joaquim Toledo Jr.

Vai brincando com os dois, vai...
Vai brincando com os dois, vai...

Moscou (Rússia) e Kiev (Ucrânia) chegaram a um acordo que deve normalizar o fornecimento de gás natural à Europa. O desfecho era previsível; como em um filme de gênero, os espectadores minimamente familiarizados podiam ver os sinais usuais da trama, e antever o final da história.
Como na maior parte dos conflitos de larga escala, o controle sobre a exposição na mídia é crucial, e funciona, como se diz, como uma cortina de fumaça. As acusações de ambos os lados acabam fazendo a história parecer algo circunstancial, uma crise isolada.
E não é. A história tem dois aspectos, por assim dizer, de “longa duração”. Em primeiro lugar, esse tipo de pressão – suposta cobrança de dívidas, corte no fornecimento, a batata quente a respeito de a quem cabe a culpa do corte aos demais países que dependem do gasoduto ucraniano para receber gás da Gazprom (a gigante russa do setor) – é recorrente. Entra o inverno e os russos resolvem que talvez seja um belo período para renegociar preços. Não é a primeira vez; desde pelo menos 2006 a Gazprom – sob orientação do Kremlin – tem fechado a torneirinha dos ucranianos, como um sinal de vontade de negociar.
Vale uma notinha sobre a relação entre a Gazprom e o Kremlin. Um dos pilares do projeto de Putin para a recuperação da Rússia – econômica, mas principalmente política – foi a reordenação da bagunça deixada pelas privatizações de Yeltsin. Putin decidiu que na Rússia haveria dois tipo de empresários: os dispostos a trabalhar sob a tutela do Kremlin, e os que teriam de pegar os seus banquinhos e irem, de mansinho, se exilar em Londres. Recomprou a participação do estado russo nas grandes empresas e passou a usá-las como forma de consolidar sua popularidade para dentro, e como forma de retomar um controle regional, para fora. Boris Beresovsky, conquistando a antipatia de Putin, se viu rebaixado a dono do Corinthians, e Oleg Deripaska, que gostou dos planos, está hoje à frente da gigante russa de alumínio Rusal e, de quebra, é quase dono de Montenegro, que funciona hoje como posto avançado russo no Mediterrâneo.
Assim, a Gazprom cuida mais do que de seus interesses econômicos. Quando aperta os ucranianos, não é só de rublos que estão atrás. Moscou não engole até hoje a “revolução laranja” de Youshenko, muito menos as pretensões ucranianas de fazer parte da OTAN. Nos últimos anos, o governo russo tem emitido passaportes para os ucranianos descendentes de russos – quase 90% da população –talvez antevendo a necessidade de, em um futuro próximo, agir para defender os seus cidadãos, como tem feito recorrentemente em território georgiano.
Isso quanto à relação Rússia-Ucrânia. De um ponto de vista mais amplo, esse malcomportamento da Gazprom é um sinal de que o gás natural já é e será, nas próximas décadas, um elemento geopolítico fundamental. O gás natural é a segunda fonte de energia mais importante dos países industrializados. Quase todo o aquecimento doméstico da Europa, EUA e Japão depende dele. E, assim como no caso do petróleo, a produção de gás natural está concentrada nas mãos de nem meia dúzia de países: Rússia, Irã, Catar, Arábia Saudita e os Emirados Árabes concentram hoje 67% da produção.
Do ponto de vista europeu, pelo menos, a questão do gás natural passa principalmente pela Rússia e pelo Irã – dois países que, nos últimos tempos, têm corrido por fora e estão prontos para chegar babando no cangote do cavalo velho e arrebentado que Barack Obama montará pelos próximos quatro ou oito anos.

A geopolítica do gás natural na The Nation

Também na The Nation, os vínculos entre McCain e o Kremlin.


2 comentários sobre “É a geopolítica, camarada!

  1. Valeu Rafa, queremos é historinhas pra publicar tb hein. Abração.

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