Vestígios do dia

Essa interpretação dos trabalhos de Morales foi publicada na revista +Soma número 09 de um outro jeito. Aqui , o texto sai em sua versão final.

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Wagner Morales ficou conhecido por sua série Vídeos de cinema. Lá, ele trabalha sobre gêneros muito codificados de filme: aqueles que separam os títulos na prateleira das locadoras e classificam os clichês da produção hollywoodiana. Com imagens pouco usuais, ele fez vídeos com temas como roadie-movie, filme de guerra, filme de sacanagem, ficção científica, horror etc.

Nas fotos recentes, o cinema continua a ser a matéria prima do artista, mas aqui, ao invés dele desconstruir uma linguagem, ele usa os clichês, ícones e a linguagem do filme como objetos a serem dispostos em um quadro. Vale-se de um princípio muito sintético de elaboração dos trabalhos: escolhe fotogramas de filmes conhecidos – uns mais e outros menos –, congela a cena, a recorta e projeta em um espaço real escolhido. A projeção é fotografada e se torna a obra do artista.

Deslocados de sua função, os frames colados em um espaço real sugerem que as personagens fotografadas realizam ações cotidianas nos ambientes. Assim, personagens de Rainer Fassbinder saem da tensão do filme e, na imagem, passeiam pelos cômodos de uma casa. Os carrões do filme Death Proof, de Quentin Tarantino, ficam estacionados na garagem de prédios paulistanos e mulheres são vistas em cenas íntimas, como se flagradas por um voyeur.

Essa série foi exposta pela primeira vez na mostra Homevideo, na Galeria Virgílio. De lá pra cá, foi desdobrada em um trabalho de parede exposto na Galeria Vermelho e em um lambe-lambe, exibido na mostra coletiva Paralela, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, que deu escala real aos trabalhos de Morales.

A passagem da cena de um tipo de imagem para outro (do cinema para a fotografia) evidentemente altera o sentido da ação. Por exemplo, personagens de filmes de Hitchcock e Fassbinder saem de contextos tensos ou dramaticamente carregados e aparecem em quartos, cozinhas, banheiros e garagens, a fazer atividades rotineiras, do dia-a-dia. O perigo deixa de espreitar Janet Leigh na cena do chuveiro de Psicose (1960). Retira-se o crime de cena e ela pode tomar um banho demorado e relaxado. Sem se dar conta da passagem do tempo, sem facada, sem música tensa.

O artista dá férias às personagens. Elas não estão realizando coisas importantes para um filme. Seus atos são sem sentido e sem importância. Como em seus filmes, Morales suspende a dramaticidade das imagens, tira sua carga emocional. Por isso, nessas fotografias, as ações retratadas são banais. Não respondem ao que se segue no próximo fotograma. Representam algo que não é digno de nota. São figuras onde os retratados fazem o que qualquer um pode fazer todos os dias.

Na série de filmes Vídeo de cinema, Morales já trabalhou com a suspensão da ação e a distorção das convenções dos gêneros do cinema. Em Solitária, pobre, embrutecida e curta, filme de guerra, de 2004, por exemplo, usava imagens que em nada se pareciam com uma batalha. As pessoas vagavam por lugares vazios e a câmera, de tocaia, esperava por algum acontecimento. Nada acontecia. A guerra era sugerida por meio de diálogos de outros filmes sobrepostos à imagem e pela maneira de posicionar a câmera – que muitas vezes olhava de longe. O que se via, no entanto, era uma rotina lenta, modorrenta.

Não havia dramatização do combate e o cheiro de pólvora trocada não era percebido no vídeo. Não eram vistos tiros, cadáveres, tropas e nem inimigos se digladiando. O filme fala de coisas laterais ao esquema dos filmes de guerra, do que não cabe na estrutura dos filmes hollywoodianos. A luta era percebida pela espera tediosa, o olhar de espreita da câmera, em uma vida que corre com alguma normalidade, apesar do conflito.

Nas cenas acontece o que está por trás da cena, por trás das câmeras. Atos cometidos enquanto as personagens levam a sua vida sem graça, depois que o papel a ser desempenhado por elas acabou e as cortinas foram fechadas.

Ao deslocar as imagens nas fotografias, o artista joga o holofote nas ações sem importância teatral, cenas de todos os dias, que se repetem e não constituem grande coisa. Não por acaso, em sua última exposição na Galeria Virgílio, as imagens estão paradas, são momentos em que a vida não passa, ou melhor, passa diante de nós, enquanto ficamos parados.

Também não é à toa que, nas fotos, as imagens de cinema se parecem com fantasmagorias. Os espectros são seres que estão sempre por lá, que nós nem notamos, passamos batido. Eles, os fantasmas, retomam as suas vidas do ponto em que elas pararam. Como se vivessem sempre um pouco antes do seu ocaso depois de seu ocaso. Por isso, tocam a vida depois da morte, em um tempo de presente perpétuo, que eles não podem mudar. Ficam por aí, a vagar. Não trocam de roupa, não têm casa e não fazem nada para o futuro. Suas vidas já acabaram e agora elas só se repetem. Os personagens também fazem o que sempre fizeram naqueles filmes. Alguns nos fitam, como se nós não pudéssemos vê-los.

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Esse aspecto sempre presente, fantasmagórico, é o que existe de mais bonito na instalação que Wagner Morales mostrou junto com as fotos na galeria Virgílio. Lá, ele dá forma à repetição ad eternum das coisas da vida no cinema. Sobretudo a deliciosa repetição dos filmes de sacanagem. Assim, duas cenas de sexo oral são projetadas na parede da galeria e registradas à tinta. Depois que se tornam uma pintura no espaço, Morales as banha com a luz do projetor, que lhes assemelha a um filme, mas um filme parado.

O artista já havia brincado com as convenções desse gênero em seu Filme de foda (2007). Nesse vídeo, ele se aproveita da estrutura convencional dos vídeos eróticos, mas os mostra de outra forma, onde, mais uma vez, as coisas acontecem porque nada acontece. Dentro de regras estritas do gênero, Morales cria um clima erótico sem que ninguém se encoste. Não se trata apenas de mostrar uma estrutura prévia e impessoal, mas mostrar que nessa estrutura as coisas acontecem. Por isso, o filme acaba rendendo uma homenagem à pornografia e às relações sexuais fortuitas, impessoais e promíscuas. Como um papo apimentado, a coisa acontece sem nenhuma epopéia e nem acontecimento marcante. Na instalação, a coisa vai ainda mais longe, trata-se de uma presença que não se modifica, de um ato que poderia estar em qualquer filme. Por isso, a imagem se desprende do seu referente e se torna algo que existe sozinho.

Essa repetição da vida cotidiana – seja no cinema, seja na vida, que o trabalho de Wagner Morales parece falar. A vida é muito pouco, está cansada de aventura. Não por acaso, ele utilizou cenas de felação que poderiam ser retiradas de qualquer filme pornô. Visto assim, o trabalho parece triste, descendente do que Andy Warhol tem de trágico. No entanto, a série não é exatamente triste.

As imagens das fotografias são de cuidados com o corpo, de convivência branda entre os personagens. Esses prazeres repetitivos são o remédio de uma vida dura. Por isso, mesmo que se pareça com gestos automáticos, repetitivos, muitas vezes elas têm algo de um porto seguro, de um abrigo contra as atribulações da vida do trabalho, das obrigações. São momentos em que cuidamos, de forma muito parecida, de nossas vidas, nossos gostos e prazeres íntimos, sem dar muita satisfação a quem está de fora.

Assim, esperar o previsível, o rotineiro, não é reiterar o que é maçante, mas contar com o que é sempre bom. Só não sabe isso quem nunca aguardou o fim do dia para receber o carinho da pessoa amada.

Mais informações no site do Wagner Morales.

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