O crime da Bienal

Escrevi esse texto no começo de dezembro, a publicação é mais para manter o registro

 

Vista Interna da Bienal. Vazio, vazio...
Vista Interna da Bienal. Vazio, vazio...

Os curadores da última Bienal Internacional de São Paulo gastaram milhões de reais para tentar provar que o evento já não cumpre a mesma função de antes. A Bienal se transformou em um espaço para debates especializados, mostra de clippings jornalísticos, de arquivos e de propostas de como uma exposição de arte contemporânea deveria ser. Não se pensou em uma exposição de arte, mas na exposição de um projeto curatorial.

Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen, responsáveis pela curadoria, estabeleceram que o segundo andar do prédio ficasse vazio. O espaço seria uma das formas novas da curadoria lidar com a Bienal. Essa obra dos curadores tornou-se mais vistosa que todas as obras de arte no prédio. Na prática, a Bienal deixou de apresentar ao público parcela forte da produção artística nacional e internacional para exibir uma obra da curadoria.

 

Talvez eles achem que a população que sai de várias cidades do Brasil para conhecer a arte contemporânea já esteja muito bem-servida com o circuito de galerias e museus das grandes cidades. O engano é que tal evento sempre esteve aí pra catalisar o interesse das pessoas que não têm contato com a produção artística. É por meio da Bienal que muita gente (e eu me incluo nessa) conhece as artes visuais e passa a se interessar pelo assunto. No Brasil, a mostra é a maior oportunidade de se encantar pela arte de hoje.

Quando não tem nada pra ver, o melhor é falar que a Bienal não serve pra nada mesmo. Para o grande público, no qual eu me incluo, não serve mesmo. A curadoria da Bienal de 2008 foi responsável pelo evento de arte mais chato que eu já vi. Por lá havia um monte de material de discussão e restolhos de debates, mas quase nada pra ser visto. Nada de impacto visual. As artes visuais foram deixadas de lado. Tratadas como uma discussão tão atraente como as definições orçamentárias de um
clube literário.

Os pichadores que pintaram o prédio, de um forma irônica, seguiram a proposta dos curadores e também questionaram a legitimidade da Bienal. Assim como Ana Paula Cohen e Ivo Mesquita eles se aproveitaram do vazio, mesmo sem receber os pomposos recursos dos artistas globetrotters que fizeram parte do evento. Foram lá e picharam um espaço que não tinha absolutamente nada.

Estive lá no dia seguinte e estava tudo branco de novo. Tudo que havia sobrado era a idéia de que a Bienal era muito mais frágil do que se pensava. A relação deles com a tal participação do público, a conversa de praça pública, tinha limites muito estritos e restritivos. Era um espaço aberto à discussão desde que se topasse o sentido que eles encaminhavam para essa discussão.

Além disso, os organizadores instalaram detectores de metais e um sistema de segurança digno dos incômodos aeroportos. Mais do que a bienal do vazio, o evento de 2008 foi a bienal da suspeição. Gente que suspeita da visualidade, suspeita do gosto das pessoas e suspeita, acima de tudo e de todos que não se encaixam numa concepção bem específica do que é arte.

Eles clamam por participação, desde que seja a participação tutorada por eles, chamam o público para o debate, desde que em concordância com os seus termos, e se uma rapazeada entra lá querendo participar, sem interesse artístico, a Fundação chama a polícia.

Pessoalmente, pichação não me interessa e não acho que façam arte ou nada do tipo. O caso não é esse, mas a resposta que a Fundação Bienal deu ao caso. Acho de uma crueldade sem precedentes manter uma menina na cadeia por mais de 40 dias, só por causa da pichação de um andar inutilizado pela exposição. Sobretudo quando se fala de um dos mais importantes espaços da liberdade de expressão na cidade. Ninguém estragou nada e a exposição ganhou mais do que perdeu com o ato do grupo de pichadores.

Quando a Bienal se preocupou mais em como montar uma exposição do que em que obras trazer, me pareceu esquisito. Obra de arte não é só para alimentar conversa de organizador de exposição.

Depois que Caroline Piveta da Mota foi presa e a Bienal não se pronunciou para soltá-la, percebi, com dor no coração, que o compromisso da Bienal com a difusão da arte é puramente institucional. Eles parecem mais preocupados em prestar contas a um pequeno gupo do meio de arte a dialogar com a sociedade brasileira.

A resposta da Fundação Bienal sobre a prisão de Carolina Piveta da Mota é sintomática. Em um texto gélido, com apropriação arbitrária da legislação, eles lavam as mãos e se omitem quando o assunto é a libertação da garota. Para a instituição, parece que tanto faz. Para ela, não.

6 comentários sobre “O crime da Bienal

  1. parabéns pelo texto.

    Disse muito do que penso sobre essa bienal.

    A figura do curador se impõe como “artista” e protagonista no circuito de arte.

  2. Muito obrigado Ronaldo. E é engraçado que eles discutem o modelo da falência das grandes exposições de arte, levando ela de vez para a bancarrota. No final, parece que esse pessoal não gosta é de nada mesmo.

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