Quem mora no Distrito Federal sabe que a campanha aqui tem um componente de pura bizarrice no programa eleitoral televisivo. O componente atende pelo nome de Weslian Roriz que já prometeu: cancelar todas as multas dos eleitores brasilienses, levar o Papai Noel (azul, lógico) para as cidades-satélite e criar estações de metrô em cidades que nem existem.
Quando eu era criança, meu pai falava sobre um antigo candidato à prefeitura de BH que prometa levar o mar pra capital mineira e que iria acabar com as subidas. Depois desse ídolo infantil do período eleitoral, só ia ter descida.
O engraçado é que essa conjunção de promessas absurdas tomou conta da campanha do Serra também, a ponto de, em Minas Gerais, ele ter dificuldade de mobilizar prefeitos também por causa da dificuldade que ele impõe a eles ao aumentar o mínimo para R$600.
Serra prometeu obras do PAC que já existem; o tal 13º do Bolsa-Família, mudanças nas cobranças dos Royalties do petróleo que são impraticáveis; e outras bizarrices de um candidato disposto a rifar até a mãe.
O sub-editor de Economia da revista Carta Capital, André Siqueira, decidiu fazer algumas contas e demonstrou objetivamente que o candidato do PSDB não tem como cumprir as promessas que vem fazendo.
Como mostra o site Carta Maior, mesmo se ele fizesse um corte de 30% nos gastos (o que implicaria em fim de contratações para o setor público e diminuição de bolsas e de editais públicos), Serra não teria o dinheiro necessário. Vamos ao texto no site:
Consta no Orçamento de 2011 a proposta de elevar o salário mínimo para 538,14 reais. Serra propõe desembolsar 61,86 reais a mais por assalariado, para atingir os 600 reais. Apenas essa promessa de campanha custaria, portanto, 12,3 bilhões de reais. O montante é próximo ao orçamento total do programa Bolsa Família, atualmente em 13,7 bilhões de reais. Aliás, criar uma parcela a mais para o programa acrescentaria 1,14 bilhão de reais ao cálculo – em valores correntes. Finalmente, há o reajuste dos benefícios da Seguridade Social. Nesse caso, apelo ao cálculo do economista do Ipea, Marcelo Caetano, que avaliou em 6,2 bilhões de reais o esforço adicional exigido pelo presente oferecido pelo tucano aos aposentados e pensionistas.
No total, assinala o jornalista da Carta Capital, as promessas de Serra custariam cerca de 19,6 bilhões de reais aos cofres públicos. André Siqueira consultou, então, o especialista em contas públicas, Amir Khair, ex-secretário de Finanças de São Paulo, para indagar sobre a viabilidade das promessas de Serra, que batem de frente, sempre é bom lembrar, com as críticas que o próprio candidato e seu partido fazem ao que consideram ser “excesso de gastos” do governo Lula. Em primeiro lugar, Khair lembra que o gasto federal corresponde a uma parcela de 43% dos desembolsos totais do setor público. O restante fica a cargo das prefeituras e estados. Em segundo, assinala, cerca de 80% do orçamento federal está legalmente engessado com salários e outras obrigações constitucionais.
Considerando a pouca margem de manobra que resta ao Executivo, Khair imagina que um “choque de gestão”, – a receita preferida do PSDB – permitiria um corte de aproximadamente 30%. Seria um “sacrifício extraordinário”, diz o economista, e equivaleria a 2,58% do gasto público nacional, algo em torno de 9,9 bilhões de reais. Ou seja, mesmo se fizesse isso, Serra estaria conseguindo apenas a metade dos recursos necessários para cumprir suas promessas de aumentar o salário mínimo para 600 reais, de reajustar em 10% as aposentadorias e de conceder um 13° pagamento ao Bolsa Família. “E ele continua a criticar o endividamento público. Ao mesmo tempo em que promete elevar gastos sociais, ampliar investimentos e cortar impostos. Como, José?”, indaga o jornalista
Ou seja, para além do conservadorismo em relação aos direitos de minorias e a guinada em direção à religião, será um governo nascido ou na base do estelionato eleitoral (assim como o malfadado FHC de 98) ou na base de um arrocho que tornará mandatos federal, estaduais e municipais impraticáveis.
Nesse sentido, no ato com os ambientalistas, Dilma Rousseff ganhou a convicção do meu voto (até então votava nela por seu trabalho no governo Lula) ao argumentar com os manifestantes do Greenpeace por que não assinaria o compromisso pelo desmatamento zero:
Não faço leilão político para receber apoio. Eu faço propostas que eu sei que são viáveis. Cada um de nós aqui quer o desmatamento zero, mas há uma diferença entre querer e fazer, há todo um processo. Hoje o que nós assumimos é [redução do] desmatamento de 80% [na Amazônia] de tolerância zero com o desmatamento em qualquer bioma.”
Pode até soar antipático, mas sinceramente, só se governa conhecendo e admitindo os limites do estado brasileiro. Quando a candidata do PT defende a expansão do papel do Estado com base na viabilidade econômica das propostas, ela está de fato agindo como uma postulante ao governo brasileiro e não como uma apresentadora de programa de auditório eleitoral.
Atualização: Propostas de Serra criam gasto de R$ 46 bilhões




