A revista Mais Soma publicou esse texto, resultado de um primeiro contato com o trabalho dessas duas artistas. No fim, não sei se ele ficou a altura da qualidade da revista. Mesmo assim, depois de um longo intervalo, resolvi publicá-lo no blog. Acho que merece. Primeiro, porque tapa o buraco. Nos últimos tempos, estou muito ocupado  e a coisa aqui está devagar. Além disso, um pouco depois de entregar o texto, escrevi um parágrafo que estava fora da versão original e incluí aqui. O escrito ficou mais longo, com um degrau a mais. 

Jessica Jane Barlow

Muitos conheceram lugares distantes através da arte. Por exemplo, é bem provável que a maioria dos jovens falantes de língua alemã do começo do século XX tenha tido seu primeiro contato com o Oriente Médio através das estereotipadas aventuras de Hadji Alef Omar (Bin Hadji Abul Abbas, ibn Hadji Dawul Dalgossara), da série de romances iniciada com “Através do Deserto”, de Karl May (o mesmo de Winetou).

Fico a pensar no impacto que os relatos de Marco Polo ou as pinturas de Rugendas tiveram para construir a visão europeia sobre o extremo oriente chinês e a floresta tropical brasileira. O curioso é que a maior parte dos relatos foi feito por gente que nunca tirou os pés de seus domínios. Gente que inventava esses espaços distantes ou que imaginava como sua terra natal havia sido décadas atrás, séculos atrás.

Esse uso da imagem, da imaginação, para recriar lugares onde nunca se esteve é muito antigo. A arte lida com isso desde que não tinha esse nome. Criar passados ideais, futuros assustadores e terras distantes. Muitas vezes se tratava apenas de uma oposição destinada a exaltar o lugar onde se vivia, depreciar as pessoas que vinham de fora ou expor acontecimento poucos elogiáveis da história de determinado local. Nesse caso, o uso de Gauguin de imagens da vida do dia a dia da Polinésia parece ser exemplar.

Mas, se até algumas décadas atrás o recurso servia para atiçar a curiosidade dos lugares desconhecidos, hoje não parece ter a mesma função. A arte contemporânea continua a recriar lugares distantes, sobretudo lugares distantes que nunca estiveram em lugar nenhum, nem na história e nem na cartografia. No entanto, hoje essa criação não aponta para formas de vida que neguem as formas de organização da sociedade.

No ano passado, em Londres, pude conhecer duas artistas inglesas muito jovens que tentam, a partir de sua produção visual, reinventar um lugar distante no tempo e no espaço daquilo que elas imaginam que seja Londres. Uma faz isso no tempo, a outra, no espaço. Uma inventa o que seria uma arte contemporânea brasileira, e a outra, o que seria a produção gráfica de décadas atrás.

Gabrielle Sellen inventa um Brasil mítico em suas esculturas, penetráveis e instalações. Já Jessica Jane Barlow não parece interessada em fazer a arte de outro país em sua terra natal, mas recria uma estética a partir da precariedade da linguagem de fanzineiros que publicaram seus trabalhos antes que ela nascesse. Sua estética parte das deficiências técnicas das artes gráficas da cultura xerográfica do punk hardcore da década de 1980. Assim, uma trabalha como se fizesse arte de um outro país, e a outra ilustra como um artista de outra época. Porém, esse uso de elementos de outros lugares aqui se assemelha mais a uma fantasia do que à recriação de outro lugar, o que me parece muito interessante.

Gabrielle Sellen

Gabrielle tem razões íntimas para refazer as experiências sensoriais do Brasil em sua obra. Filha de uma brasileira, só conheceu o país há bem pouco tempo. Conhecia as histórias e os sabores nacionais através da mãe, nascida no interior de Minas Gerais. Assim, antes de começar o curso de artes plásticas em Camberwell, pesquisou a cultura brasileira e se deliciava com a pronúncia de uma língua tão macia como o português do Brasil.

Gabrielle se identificou com a arte sensorial produzida pelos neoconcretos e seus herdeiros. A obra de Hélio Oiticica dos anos 60 seria seu totem, mas ela associaria essa produção (sobretudo a instalação Tropicália, exposta na Tate) às obras de outros artistas contemporâneos brasileiros, como Ernesto Neto, Laura Lima, Cildo Meireles e Beatriz Milhazes.

Mas Hélio Oiticica e as ações terapêuticas de Lygia Clark eram o que ela queria fazer. Interessava-se pelo uso de materiais baratos e a soma de sensações visuais, táteis, corporais. Ou seja, de um uso da arte como forma de atiçar todos os sentidos. No Brasil, se encantou com os tecidos de chita, e a escultura passa a ser algo para vestir e para entrar, para ter uma experiência mais íntima que a do olhar distanciado.

O curioso é que, ao contrário do que ocorre com Oiticica, por exemplo, não se trata de uma experiência de enfrentamento, mas do uso de materiais e formas bastante codificadas que emulem uma experiência de “brasilidade”. O risco de resvalar no estereótipo é tão grande como os dos europeus que fizeram dos desertos asiáticos um lugar “exótico”.

De forma distinta, Jessica Jane Barlow se vale da produção punk DIY, cujo aspecto formal é o alvo de seu interesse. A artista tem como linguagem principal a produção de impressos, aos quais associa imagens improváveis. Um desenho feioso (os desenhos são a pior parte de sua produção) passa a atribuir sentido a uma foto misteriosa. Somos surpreendidos ao descobrir que a artista está reconstruindo narrativas da literatura contemporânea usando um expediente que parece precário e provisório.

Ela se vale do modo de compor dos fanzines. É muito interessante observar, através de seu trabalho, como o punk agora se tornou um discurso completamente incorporado à cultura dos jovens ingleses. Não é mais feio, nem agressivo, mas um modo de reunir materiais.

Jessica cria ilustrações e as associa ao texto como se fosse a editora de um fanzine que líamos (nós com mais ou menos 30 e 40 anos) quando adolescentes. Não vemos mais a linguagem como uma deficiência, ou fragilidade, mas como estilo.

Assim, suas composições monstruosas e com forte comentário social acabam pensando o punk como somente mais um capítulo da história da arte. Curiosamente, é essa a versão que domina o pensamento crítico inglês hoje. Uma maneira de recriar o punk como uma forma estética como qualquer outra, que não parece ir contra nada, apenas o mau gosto. Acho inclusive que críticos como Simon Reynolds são responsáveis por essa associação entre a podreira e o bom gosto. Entendo que tal recriação do punk como estilo e não mais como uma forma crítica de pensar tem seus limites, mas isso fica para outro dia.

Mas incomoda, pro bem e pro mal, o modo como essas duas meninas façam de realidades que pouco conhecem, lugares para tentar se diferenciar quem as circunda. Claro que o papo é entre gente honesta. Mesmo assim, mostra uma nova e, ao meu ver menos interessante, relação que a arte e a subjetividade parecem ter no início do século. Vamos depois pro que parece valer mais a pena.

Porque voltas de que lei (Amália Rodrigues e Mário Pacheco)

Porque voltas? De que lei?
Vem este sentir profundo
Por te saber como sei
Me sinto dona do mundo

Porque espada? De que rei?
Meu amor é fogo posto
És tanto de quanto amei
Que és tudo de quanto gosto

Por este amor que te tenho
Por ser assim como sou
És inferno de onde venho
És o céu para onde vou

Por que voltas? De que lei?
És tudo de quanto gosto
Me perdi e me encontrei
Nas voltas que tem teu rosto

Por que voltas? De que rei?
Em meu peito teu desenho
És tanto de quanto amei
Que és todo o mundo que tenho

E de tão rica que estou
Nunca tão pobre fiquei
Por ser assim como sou
E te saber como sei …

só música recente e variada. A última é pra quem bobeou e perdeu a apresentação do quarteto na semana passada.

 

É pra valer:  tornei-me um blogueiro picareta. Não consigo postar o que quero, não arranjo tempo pra atualizar essa bagaça e agora vou aderir até ao recorte e cola para ver se não decepciono quem insiste em freqüentar esse espaço minguado.

Casa de Wittgenstein e Engelmann (1926)

Mas antes, queria fazer só alguns comentários. Pelo que notei, a enfática tomada de posição da ministra da cultura contra algumas premissas da reforma da Lei de Direitos Autorais (LDA) confunde mais que esclarece. Não sei se é ignorância ou má fé, mas parece que a ministra não conhece as discussões que envolvem a modificação da legislação. Não lembro de nenhuma proposta que apontasse pra isso.

Aliás, na discussão maior  se questionava o papel monopolista dos escritórios privados de arrecadação. Eles  têm poder muito maior que os autores. Bem, como sei pouco sobre o assunto, seguem endereços na internet mais informados.

O texto do diretor de cinema Jorge Furtado é um primor, serve para entendermos a loucura burocrática do ECAD. Nem Kleist e nem Kafka dariam conta. O jurista Ronaldo Lemos destrincha outras contradições do Ecad e Pablo Ortellado vê o que está por trás da patriotada alegórica contra o Creative Commons.

Esta página reúne diversos textos sobre a reforma. E Túlio Vianna também crítica a proposta de reforma, mas porque considera ainda um tanto tímida. Nessa postagem, o professor Túlio fez uma compilação do que já produziu sobre o tema. Aprende-se muito.

Por enquanto, fecho o capítulo dos direitos autorais e abro a das dúvidas editoriais. Atualmente, a prática do assédio moral é amplamente discutida. Nomeia-se a violência dos covarde de Bullying, entendido como o sofrimento de quem atura valentões.

Será que para língua portuguesa não seria legal adotar o buli (ou bule), saber que eles bulem os meninos. Em termos de vó, como disse o grande Mateus Potumati: Pare de bulir com o seu irmão.

Dito isso, queria compartilhar com vocês trechos do Cultura e Valor, volume póstumo de manuscritos de Wittgenstein lançado bem depois de sua morte. Eles foram reunidos Georg Henrik Von Wright e têm um tom mais livre que os outros textos do autor. Ele se permite a fazer juízos, mesmo entendendo quão indefinitivos eles são. Aprendi e me diverti muito.

 

pato é coelho

Seguem dois trechos. Em um, de 1914, ele fala sobre cultura e em outro, de 1930, fala sobre arte da forma mais fantasmagórica possível. No último, aliás, ele se refere ao seu grande amigo Paul Engelmann. Além de ser um dos seus maiores correspondentes, Engelmann foi o arquiteto ajudou Wittgenstein a fazer a sua casa. Era um arquiteto moderno, que trabalhou com Loos e que nos faz aproximar as vanguardas desse pensador tão ousado. Seguem os trechos, cultura e arte

1914

Temos tendência para confundir a fala de um chinês com um gorgolejo inarticulado. Alguém que compreenda o chinês reco­nhecerá, no que ouve, a língua. Muitas vezes, não consigo, ana­logamente, distinguir num homem a humanidade.

1930

Engelmann disse-me que em casa, ao remexer uma gaveta cheia de manuscritos seus, estes lhe parecem tão excelentes que pensa que valeria a pena dá-los a conhecer a outras pessoas. (Diz que o mesmo se passa ao ler cartas dos seus parentes já falecidos.) Mas quando pensa em publicar uma selecção desses manuscritos, as coisas perdem o seu encanto e valor, o projecto toma-se impos­sível. Eu disse que tal se assemelhava ao caso seguinte: nada há de mais extraordinário do que ver um homem, que pensa não estar a ser observado, a levar a cabo uma actividade vulgar e muito sim­ples. Imaginemos um teatro; o pano sobe e vemos um homem sozi­nho num quarto, a andar para a frente e para trás a um ci a sentar-se, etc., de modo que, subitamente, estamos a observar um ser humano do extenor, de um modo como, normal­mente, nunca podemos observar-nos a nós mesmos; seria como observar com com os nossos próprios olhos um capítulo de uma biografia — isto poderia, sem dúvida, ser ao mesmo tempo inquietante e maravilhoso. Estaríamos a observar algo mais admirável do quê qualquer coisa que um dramaturgo pudesse arranjar para ser representado ou dito num palco: a própria vida. – Mas isso é o que vemos todos os dias, sem que tal nos provoque a mais ligeira impressão! Sim, mas não o vemos nessa perspectiva. - Bem, quando Engelmann olha para o que escreveu e o acha extraordi­nário (embora não se preocupe com a publicação de qualquer dos seus escritos), vê a sua vida como uma obra de arte feita por Deus e, como tal, merecendo decerto ser contemplada assim como qual­quer vida e tudo o mais. Mas só o artista é capaz de apresentar assim uma coisa individual de modo que ela nos apareça como uma obra de arte; é verdade que esses manuscritos perderiam o seu valor  se fossem examinados um a um e, especialmente, se fossem olha­dos desinteressadamente, isto é, por alguém que não sente por eles, à partida, qualquer entusiasmo. A obra de arte obriga-nos ­assim dizer - a vê-Ia da perspectiva correcta; mas na ausência da arte, o objecto é apenas um fragmento da natureza, como ou qualquer; podemos enaltecê-lo com o nosso entusiasmo, mas is não dá a ninguém o direito de com ele nos confrontar. (Continue a pensar num desses insípidos instantâneos fotográficos de um fragmento de paisagem que tem interesse para quem os tirou por­que estava lá e sentiu algo; mas qualquer pessoa olhará para eles com frieza de um modo inteiramente justificado, até ao ponto em que é justificável olhar friamente para uma coisa.)

Mas parece-me também que há outra maneira de apreender o mundo sub specie aeterni, para além do trabalho do artista. É o caminho do pensamento que, por assim dizer, voa sobre o mundo e o deixa tal como é – observando-o de cima, em voo.

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