Conversa sobre Deus e a origem das coisas sempre rende assunto por aqui. Às vezes traz também ótimas surpresas. O texto do Rafael Campos que o Guaci publicou ontem estimulou a Lucimara Carvalho a tirar um texto da gaveta em que ela entre em detalhes na história de Eva e Adão, da serpente e da maçã.
Vale muito a pena ler. Lucimara sabe de tudo e um pouco mais além de tudo é representante incondicional do movimento “garrafa cheia eu não quero ver sobrar” e é uma das melhores conversas do Brasil. Já era fã de carteirinha da escritora, agora sou da escrita também.
A primeira

Eva no fim da pasmaceira, em pintura de William Blake
O processo da criação do mundo, pelo que se pode entender do texto escrito por Moisés, não foi muito complicado. Bastou que Deus dissesse umas poucas palavras para que céus e mares e terras e tudo o mais aparecesse miraculosamente — como era de se esperar.
Embora a criação não lhe causasse desgaste físico, Deus não se dispôs a fazer tudo de uma vez só. Depois de se ocupar durante cinco dias com a natureza, dedicou-se, no sexto, à criação do homem. Diante do desafio, usou um processo diferente: esculpiu em barro uma figurinha com forma idêntica à sua e, assistido por uma imensa platéia de anjos — já sabedores do poder do chefe, mas ainda assim espantados com a proeza da criação —, soprou o boneco de barro, que imediatamente começou a se mexer e a dar nome às coisas.
Parece que o dia a dia do primeiro homem não era muito estimulante: andar daqui prali no paraíso papeando com o Pai, que lhe ensinava uma única coisa o tempo todo. Deus ficou um pouco chateado em perceber que tudo o que tinha feito não era suficiente para a felicidade do homem e, não tendo outra saída, voltou à prancheta a fim de rever o projeto. Inteligente como é, viu logo onde estava o erro. A idéia inicial sofreu, então, mudanças consideráveis. E de grandes consequências.
Não há maiores detalhes no texto, e ficamos sabendo apenas que Deus, usando uma costela de Adão, fez pra ele uma companheira, que tinha a inexplicável capacidade de fazer ela mesma, dentro de si, com uma pequena contribuição de Adão, outros iguais a ela e a ele, que no resumo eram iguais ao próprio Deus.
Depois disso, um pouco melindrado e talvez um pouco arrependido do poder que concedera à mulher, Deus inventou a serpente, dona de uma conversa muito animada e interessante.




