Nosso amigo Walter Hupsel é colunista do Yahoo e já melhorou bem os conteúdos do Guaci, colaborando por aqui. Em uma semana passada tão triste com as mortes de Abdias d Nascimento, Gil Scott Heron e dos ambientalistas Zé Cláudio Ribeiro e sua esposa Maria do Espírito Santo, além da triste e avassaladora derrota do ambientalismo no Congresso Nacional, a Marcha da Liberdade (e pela maconha que não pode ser mencionada) deu um alento ao insistente conservadorismo e interrompeu uma sequência ininterrupta de repressão de Estado às manifestações em São Paulo que já durava mais de 8 anos. A Vice publicou um relato bem divertido e Walter Hupsel traz um outro olhar sobre o que aconteceu da Paulista a República em São Paulo. 

A gente quer inteiro, por Walter Hupsel


Vamos tentar começar com um lide careta: Sábado, dia 21, teve a marcha da maconha em São Paulo. Na calada da noite da sexta-feira anterior, um desembargador resolveu que não curte estas coisas de liberdade e concedeu uma liminar ao Ministério Público proibindo a marcha com base numa parada que é difícil de entender: apologia ao crime.

Bom, podia falar eu que qualquer protesto para a mudança de uma lei é, por definição, fora da lei, e, por isso, seria esta parada aí de “apologia”. Pro tal desembargador é isso mesmo, conforme-se ou apanhe.

Uns abnegados fizeram a marcha assim mesmo. Acharam que pedir mudança nas leis não é crime, e por isso, ao invés de fazer uma passeata pelo direito de tomar um cafezinho na padoca da esquina, foram falar de liberdade.

A polícia também não curtiu muito isso aí. Durante a marcha da maconha, ofendidos com a tal liberdade de expressão, desceram o sarrafo feio na galera. Jogaram bombas, atiraram balas de borracha com armas de calibre 12 (escopeta). Uma polícia eficiente e bem técnica a da tucanolândia. As imagens são chocantes, assim como os relatos dos participantes. Enfim, a ordem pública foi cumprida, com requintes de crueldade, mas foi.

A violência legal do magistrado e a violência brutal dos gambés irritaram uma galera, que resolveu marcara para o Sábado seguinte uma nova marcha, a da liberdade.

Com a marcha marcada, o mesmo Ministério Público entrou novamente com um pedido de liminar para acabar com a nova marcha, a da liberdade. (só eu que acho irônico uma decisão judicial proibir a liberdade?).

O pedido foi julgado procedente por um outro desembargador, que também concedeu a liminar, também na calada da noite da sexta feira (impedindo que qualquer pessoa viesse a questionar a liminar, por falta de tempo hábil). Fã de Tom Cruise e do Minority Report, este brilhante sujeito viu na marcha da liberdade a possibilidade única de criar a figura do crime avant la lettre. A marcha da liberdade estava proibida porque seria uma marcha da maconha disfarçada, e as pessoas iriam lá pro MASP cometer apologia ao crime.

Mais um motivo pra ir, pensei eu, uma brutalidade desta não pode passar.¡No Passarán!

Fui, cheguei cedo, e comecei a ficar assustadíssimo com a quantidade de policial. Já vi clássicos na Fonte Nova com menos polícia. Mas eles tão certos, gente nas ruas pedindo a liberdade é muito, mas muito mais perigoso que um clássico com torcidas rivais.

O MASP tava lindo. Cartazes, flores, música. Gays, héteros, ecologistas, mães com crianças, ciclistas, punks, feministas… tudo e todos, com suas pautas múltiplas, vetoriais. Cada um querendo a sua liberdade de ser e de falar. Só não tinha políticos (eu, pelo menos, vi só dois: Ivan Valente, PSOL, e Eduardo Jorge – Secretário de Alckmin). Mais fantástico ainda. Política não partidarizada.

Enfim. Marcha da liberdade proibida (novamente: só eu me espanto com esta ironia?), clima tenso, policiais com suas câmeras filmando os participantes. Estranho, bizarro. Liberdade com vigilância não é liberdade, mas, enfim, não dá pra esperar coisas diferentes nesta tucanolândia mesmo.

Os policiais isolaram o MASP num cordão de isolamento, deixando claro que não permitiriam que os manifestantes se manifestassem.(Eu passei por isso em 2000, quando a polícia fez a mesma coisa e, depois que um retardado arremessou uma latinha de coca-cola nos gambés, eles invadiram o vão-não-tão-livre, metendo bala e jogando bombas. A galera ficou prensada entre as bombas e o despenhadeiro do MASP – 9 de julho. Pânico total!. Por causa disso, eu estava meio tenso).
Mas veio a boa notícia: Num acordo entre o Comando da PM e os manifestantes, a passeata foi liberada, desde que não cometesse a tal apologia. Alívio geral.

(aliás, impressão minha ou a PM descumpriu a ordem judicial? Ela tinha que proibir a manifestação, não? Ô TJ, mande prendem o comando da PM por descumprimento de ordem judicial, ou por desobediência militar, sei lá! Afinal, leis über alles, né?).

E a marcha (nomezinho feio, mas…) saiu, tomou às ruas. 4.000 pessoas segundo os sites, 10.000 pelos números dos manifestantes. Não existia palavra de ordem, apenas gritos de liberdade. De liberdade para os gays, para os ciclistas, de um mundo com menos ódio, contra o código florestal, pela liberdade de se questionar a ordem e suas instituições… como já disse, gentes difusas, tal como a sociedade. Foi realmente linda e alegre, mas paradoxal, contraditória.

A marcha da liberdade não podia falar de drogas, de maconha. É crime falar, é a tal da apologia. Assim, sem liberdade nenhuma,tutelada e controlada, filmada pelos senhores da ordem, a marcha foi andando. Um aqui, outro acolá, faziam trocadilhos com pamonha, se dizendo macumbeiro, e coisas assim. Alguns gritos no meio da multidão expressavam a rebeldia, e ousavam falar o inominável. Mas eram gritos tensos, medrosos, que anteviam cassetetes.

A marcha da liberdade existiu, foi bem bonita. Mas não foi livre. Foi “permitida” e não conquistada. Foi uma pequena traquinagem, foi pela metade, e não inteira. E liberdade pela metade é uma não-liberdade. Mas foi algo, algo bem melhor que ficar xingando no twitter, nas redes sociais.

Vale muito a pena ler o texto do Bernardo, baixista do Elma, sobre o cancelamento do show da banda dele. Apesar de ser uma história muito particular, diz muito sobre o cenário musical atual e da falsa independência que domina as casas noturnas. O Bernardo é um dos caras mais fera que eu já conheci e seu lance com música sempre foi de uma integridade e uma invetividade cada vez mais raras na música brasileira. Vale a pena conhecer o Elma e todos os seus projetos musicais (o Are You God? foi mecionado no post anterior) e o leitor deve se ligar  contra a postura de quem vive de cover e só coloca a fantasia de independente quando convém. 

Foto de Samuel Esteves

Sobre o não-Show do Elma

Senta que lá vem história.

No final de março de 2011 confirmamos uma apresentação do Elma no Studio SP através da Norópolis, que marca a maior parte dos nossos shows. Esse vinha na esteira de uma série de noites que a agência vinha fechando na casa, de artistas como Bodes e Elefantes, Porto, Hurtmold, Chankas e Lurdez da Luz.

Originalmente tínhamos sido agendados pra tocar no Cedo e Sentado do dia 17 de maio, uma terça. Só explicando, essas noites Cedo e Sentado funcionam assim: a banda que tocar aceita um cachê fixo de 500 reais independentemente do público que comparecer, e esse público entra de graça na casa. Pra algumas bandas isso é vantagem, pra outras prejuízo, mas a curadoria dos artistas quem faz é próprio Studio SP, e fomos selecionados. Pra gente tava bom.

Em paralelo, desde o início do ano tem rolado no Studio as chamadas terças Fora do Eixo, noites nas quais o coletivo Fora do Eixo é quem faz a curadoria. Normalmente o segundo horário das terças é deles, pelo que entendemos. De modo que nosso show seria de certa forma abrindo pra uma atração selecionada pelo Coletivo Fora do Eixo. Pra gente tudo bem também.

No meio tempo entre o show ter sido marcado e ele não acontecer, fui chamado pra uma reunião na Casa Fora do Eixo SP, sede recém inaugurada do coletivo, como parte de uma tentativa deles de aproximação com os artistas da capital que ainda não estavam alinhados ativamente com o projeto deles. Fui lá, conversei com o Felipe Altenfelder e Pablo Capilé, e deixamos a porta aberta para colaborações futuras, já sabendo que dividiríamos a noite do dia 17/5, o que na minha cabeça serviria como um termômetro pro que pudéssemos vir a fazer juntos.

Após essa reunião, e aproximadamente um mês antes do não-show do Elma, recebemos um pedido do Studio SP: se aceitaríamos mudar nossa data original pra terça seguinte, 24 de maio, por conta de alguma questão de programação que não foi explicitada. Não vimos problema algum, havia antecedência pra isso, e aceitamos, pra que criar empecilhos de graça? Em breve teríamos um curso grátis.

Pois bem, começa aqui a novelinha. Uma exata semana antes do show ficamos sabendo que a banda que faria a segunda parte da noite seria o Mombojó, como parte da Noite Fora do Eixo SP, tocando com entrada paga (o que não interfere no horário grátis da casa, das 21h as 00h). Honestamente eu tinha a esperança de que fossem parear a gente algum artista que tivesse mais a ver com nosso som, mas ao mesmo tempo tinha simpatia pela banda e achei ok. Porem, junto com essa notícia da escalação, veio outra um pouco mais estranha: estavam perguntando se a gente toparia mudar nossa data novamente. Faltando uma semana pro show, com a divulgação já andando, e já tendo topado uma remarcação anterior, achamos que não era o caso, já tínhamos demonstrado flexibilidade e boa vontade antes, quando ainda havia tempo hábil pra tanto. Aí veio o porquê:

Ao que parecia, o Mombojó havia tido problemas tocando com bandas de abertura no Studio SP, e não aceitavam fazer o show nessas condições, não aceitavam que alguém mexesse em um fio de cabelo sequer do palco deles uma vez que o mesmo fosse montado. Não que a gente estivesse realmente abrindo pra uma banda que só entrou no nosso show quase dois meses depois da gente, mas mesmo assim fica no ar a pergunta: por que colocar o Mombojó justamente numa data em que outra banda já estava marcada pra tocar mais cedo, se isso impossibilita a realização do show deles? Se você quer saber a resposta não perca tempo lendo o resto deste texto pois nunca a recebemos, todas as partes envolvidas (excluindo o Elma e a Norópolis) convenientemente evitaram o ponto central da questão até o amargo fim.

Aqui cabe enumerar quem são as tais partes envolvidas:

1. Nós (Elma), que tivemos nosso show marcado via Norópolis (Fred Finelli), diretamente com o Studio SP

2. O Studio Sp, que agendou nosso show diretamente com a Norópolis, e em paralelo tem o acordo das terças-feiras com o Coletivo Fora do Eixo

3. O Coletivo Fora do Eixo, que cuida das terças Fora do Eixo, e conversava em paralelo com o Elma (como com muitos artistas) a respeito de desenvolver algum tipo de parceria a médio prazo

4. O Mombojó, que escolheu ser representado na negociação pela empresária Katia Cesana, que até o final desta história não irá aparecer pessoalmente em momento algum, pra não expor os meninos.

Recapitulando, o Mombojó colocou que não poderia haver outra banda na mesma noite pois eles não tocam no Studio SP, especificamente, dividindo o palco com ninguém, por problemas passados,

PORÉM

o Elma tem equipamento próprio completo (bateria e amplificadores de guitarra e baixo), o chamado “backline”, e sempre que possível (ou seja, sempre que temos como carregar a tranqueira toda) damos preferência por usar esse backline. Alem disso, nosso palco já é normalmente montado de forma que se encaixe no palco normal da maioria das bandas (inclusive o Mombojó), pois nossa bateria fica montada na frente do palco, e nossos amplificadores ao fundo. Isso significa que seria possível montar simultaneamente o palco do Elma e do Mombojó, sem transtorno pra nenhuma das partes. Logo, este problema estaria solucionado. Não fosse pelo fato de que cada solução oferecida pela gente, já num esforço de boa vontade, seria rebatida com um problema novo e cem por cento inédito pra impossibilitar nosso show.

É aqui que eu lembro que nosso show estava marcado quase dois meses antes do Mombojó sequer aparecer na história?

Mais uma novidade, agora faltando já uns 5 dias pro show: já que o Elma não precisaria mexer no palco do Mombojó, os mesmos tocariam no primeiro horário, as 22h, de graça, e o Elma as 00h. Acompanhou o raciocínio? Quando der me explica, então. Digo, acabamos de apresentar solução pro problema DELES, e logo, arrumaram outro problema. Opa, então o headliner que teria condições de encher a casa cobrando entrada (mesmo que o dinheiro dessa não fosse necessariamente pra mão deles) iria abrir mão disso, só pra não tocar depois do Elma? E se eles tocam antes, isso quer dizer que eles montam o palco deles na lacuna do nosso, cagando toda a montagem de palco preciosa deles? A terra é cônica? Até o final do texto você só vai descobrir a explicação pra uma dessas perguntas. O que eu só fui descobrir dias depois, na conversa que tive com o gerente de palco do Mombojó, é que em nenhum momento houve a verdadeira intenção de deixar o Elma passar o som caso tocássemos no segundo horário. Digo, porque a gente imagina que tá implícito que bandas que se dêem o respeito passam o som. E também que o “segundo horário” seria após o show do Mombojó, que COMEÇARIA a meia-noite, ou seja, queriam na verdade empurrar nosso show pras duas da manhã, no mínimo. Pro pessoal já poder esperar o metrô das 4:15.

Bom, pra quem não é do ramo da dedução, aqui a gente já estava sentindo cheiro do seguinte: isso não tinha cara de atitude de uma banda para com outra banda. Parecia picuinha de produtor medindo forças, intermediários deixando as bandas de peão do JOGUINHO SUJO, e colocando o nome do Mombojó como parte inflexível da história. Apostando nisso, o Fred, nosso produtor, disse ao Studio SP que tendo em vista o impasse em que estávamos entrando (já que o Elma não iria simplesmente ser trocado de horário por um capricho arbitrário de quem quer que fosse), passassem pra gente o contato de qualquer integrante do Mombojó. Ficamos no aguardo.

Continuamos no aguardo.

Mais aguardo.

Vamos lembrar, então: temos uma data no Studio SP marcada com dois meses de antecedência. Uma semana antes da mesma, uma banda aparece pra tocar no segundo horário da noite e começa a fazer exigências. Mais ou menos como imaginamos que pudesse proceder, digamos, um Bon Jovi ou Axl Rose, ou qualquer outra figura digna de piada. Tanto o Studio SP quanto o Coletivo Fora do Eixo em nenhum momento se posicionam de forma concreta (ou seja, ninguém disse que o Mombojó não ia mandar e desmandar na agenda do Studio), e nos vimos obrigados a ir atrás de resolver esse impasse por nós mesmos, por pura vontade de encontrar uma solução simples pra um problema inventado.

Aí já chegamos na segunda feira, 23/5, véspera do show. Mexendo aqui meus pauzinhos (agenda do celular), consigo o telefone do Chiquinho, tecladista do Mombojó, ainda acreditando que, falando com um ser humano como eu, ao invés do equivalente prático de um menu de atendimento ao consumidor, conseguiríamos fazer o bom senso prevalecer e arrumar essa puta bagunça. Uma banda não vai deliberadamente tomar atitudes que vão fuder com a vida de suas bandas semelhantes apenas pra agir em causa própria, certo?

Chiquinho atende o telefone, se mostra confuso com a historia toda, e parece entender meu lado, vendo que a coisa toda não faz sentido nem bem pra ninguém. Diz que vai conversar com a banda dele. Passado um par de horas o Fred fala com ele também pra ver se já temos uma posição, Chiquinho diz novamente que não está a par da história e vai checar com os caras pra resolver tudo da melhor maneira possível.

Bom, foi melhor pra ALGUEM.

Daí pra frente ele se torna incomunicável e não atende mais o telefone.

Em paralelo estou pressionando por email as duas pessoas do Coletivo Fora do Eixo que tinham falado comigo sobre uma parceria com o Elma, mais especificamente Pablo Capilé e Fabio Altenfelder, a respeito de como a tal parceria se iniciaria numa situação dessas, e querendo explicações a respeito de porque havia uma pressão pro Elma não se apresentar na noite do próprio show num suposto e inédito antagonismo com o Mombojó, que mal conhecemos de falar “oi”. O Fora do Eixo coloca que a forma ideal de resolvermos a situação seria uma “reunião presencial”, ou seja, reunião em que os presentes estão todos presentes. Essa reunião idealmente envolveria eu (Bernardo, do Elma) o Fred (Noropolis, agenda de shows) o Felipe Altenfelder e / ou o Pablo Capilé (Fora do Eixo) e o gerente do Studio SP, o Maurício, que até então vinha fazendo a ponte entre o proprietário da casa, Alexandre Youssef, e o Fred. Foi explicitado que a presença da produção do Mombojó na reunião só complicaria as coisas, que eles eram a parte irredutível da negociação (negociação do Mombojó, Studio SP e Fora do Eixo pela desapropriação do show do Elma, mais especificamente).

Eu e Fred ainda apostamos que fazia mais sentido falar diretamente com a banda de seres humanos Mombojó, ao invés da parede de produção que cerca os meninos (mais sobre meninos em breve), e seguramos essa reunião enquanto não desistíamos desse caminho. Continuei insistindo e consegui falar brevemente com o Felipe S, vocalista da banda, me utilizando do brilhante expediente de ADICIONAR NO FEICE. Batata, ele estava online no CHAT e me passou o email dele pra eu explicar tudo melhor. Mandei uma mensagem contando tudo em detalhes, e o que eu pensava disso. Ao mesmo tempo o Fred, já na madrugada de segunda pra terça, recebia do Studio SP um telefonema e um email comunicando nada mais nada menos que o cancelamento do show do Elma. O Fred se posicionou dizendo que não aceitaríamos a situação.

Recapitulando: em março o Elma marcou show pras 22h de uma terça feira de maio; quase dois meses depois Mombojó é colocado pra tocar mais tarde na mesma noite e solicita que o Elma não toque; Studio SP e Fora do Eixo obedecem após leve resistência. VALEU, ABRAÇO!

Acordamos hoje, na terça feira do show em questão, com a vida toda fodida, mas surge uma esperança: Felipe S leu meu email da noite anterior e respondeu, dizendo que achava isso tudo uma merda, mal tinha sido informado do próprio show, que foi marcado de última hora (ao contrário do nosso que foi com DOIS MESES DE ANTECEDÊNCIA), que assim como ele estávamos no dia a dia da música (única aparição da palavra em todas as conversas dessa história) e que ele faria o possível pra colocar a gente pra tocar antes (vulgo “não expulsar a gente do nosso próprio show”), e aqui cito verbatim: “mesmo porque não faz sentido ser diferente.” Claro que não entendemos isso como resolução de nada, e sim como uma abertura por parte do Mombojó, pela primeira vez, de não atropelar nosso show.

Coisa linda de viver. Assim que vi a mensagem comuniquei o Fred e ele falou com o Studio SP, que por intermédio do Maurício imediatamente reverteu o cancelamento do show do Elma, que estava começando a ser divulgado nas redes sociais (totalmente a nossa revelia). Mas enfim, faltando umas cinco horas pra passagem de som, e emails indo e voltando entre eu e Felipe S, músico, partimos pros finalmentes práticos da situação, e pedimos a ele que o Mombojó passasse o som a partir das 17h, como é praxe no Studio SP, pra que nós, a banda do primeiro horário, tivéssemos tempo de fazer a nossa própria passagem de som das 19h as 21h, horário também de praxe da casa e PREVIAMENTE COMUNICADO PELO STUDIO SP para esta ocasião em especial também. Daí pra frente recebi um email breve do Felipe dizendo que ele estava super enrolado com mil coisas de projetos X e Y, e que o problema todo era justamente A PASSAGEM DE SOM DO MOMBOJO, que já havia sido problema no Studio antes, etc, e que o diretor de palco deles estava muito preocupado com essa situação. Imediatamente respondi dizendo que eu falaria diretamente com o diretor de palco deles, pois trabalho no mesmo ramo, lido com esse tipo de coisa quase diariamente e sabia que conseguiríamos desenrolar esse nó em 5 minutos, ainda mais o palco do Elma sendo tão simples quanto é.

É aqui que o Felipe S some e não aparece mais. Nem pra PASSAR O SOM DO MOMBOJÓ. A mesma passagem de som que era o ponto central da picuinha, digo, negociação.

Quando vi que o menino tinha tomado chá de nem me viu apelei pra agenda do celular de novo e por a + b cheguei no telefone do diretor de palco do Mombojó, o Brigídio.

Liguei pro Brigídio.

Você está achando esse texto grande? Dê graças a deus que eu não vou transcrever a ligação que se seguiu. O Brigídio falou ininterruptamente por 15 a 30 minutos (consegui enfiar umas palavras no meio, só pra constar), me explicando repetidas vezes como é impossível o Mombojó dividir palco com outra banda no Studio SP, e me contando da situação traumática que tinha vivido na mesma casa numa ocasião anterior. Daquela vez ele tinha tentado ajudar uma banda de abertura que tinha aparecido de última hora (mais ou menos como o Mombojó apareceu na nossa noite), se viu vitima de inúmeras precariedades técnicas da casa e ao fim da noite, em face a vários problemas de som se viu desrespeitado como profissional, numa situação em que estava apenas tentando ser prestativo. Consegui perfeitamente imaginar a situação dele, digo, consegui me imaginar na mesma roubada como técnico de som (poucos dias antes tinha perdido bastante tempo ajudando uma banda de abertura da Holanda num show no Sesc e eles não hesitaram em prejudicar a gente logo na seqüência, por exemplo), e de qualquer forma era inútil tentar o diálogo, pois para o mesmo é preciso momentos de silêncio para que o interlocutor possa se pronunciar, e evidentemente eu não teria essa cortesia. Lamentando que não havia mais tempo pra tentarmos solucionar a situação antes de que todas as partes se encontrassem na própria casa de show (faltava uma hora e pouco pro soundcheck), fomos pra ultima etapa dessa via crucis ridícula. Ah, o Brigídio deixou também escapar que tinha ficado sabendo desse show apenas um dia antes. Desse show que iria provocar o cancelamento do nosso próprio show, marcado DOIS MESES ANTES. O Brigídio falou também que era uma pena que a gente não tivesse se conhecido em uma outra circunstância, em que todos poderíamos ser amigos e se dar muito bem. Como se a tremenda cagada que estava acontecendo fosse fruto de uma força da natureza, uma coisa inexorável, e não conseqüência de decisões de adultos plenamente conscientes dos efeitos de suas ações.

Nesse ponto tanto eu como Fred entendemos que tínhamos esgotado todas as possibilidades de solucionar o problema (que não era nosso) de um jeito que não fosse ficar feio pra ninguém. É por isso que você está lendo isto.

Chegando no Studio SP encontramos parte da equipe do Mombojó montando o palco, o Felipe Altenfelder, do Fora do Eixo, o gerente do Studio, Maurício, e a produtora Marta, que representava a produtora Kátia, que por sua vez representava o Mombojó. Isso, três graus de separação entre o mundo hostil e o Mombojó.

Num momento inicial da conversa ali, pude ouvir uma das coisas mais incríveis que já tive o privilégio de escutar: que era um absurdo que se tivesse permitido que nós, do Elma, tivéssemos entrado em contato direto com os integrantes do Mombojó, pois isso iria “expor os meninos da banda”, e “expor os meninos da banda” é inaceitável, essa era uma questão de produção. Sendo um homem que está acostumado a ser obrigado a resolver os próprios problemas, entendi perfeitamente a utilização muito feliz do termo “meninos”, que precisam de uma parede de duas produtoras, uma presente apenas por telefone, para que se possa agir do jeito que for em nome da banda sem que eles precisem sentir o cheiro escroto das conseqüências das suas decisões pessoalmente, nem olhar nos olhos das pessoas que se fodem por conta deles. E acredite, ninguém teve a cara de aparecer pra olhar na cara da gente. Nem em nome da PASSAGEM DE SOM DO MOMBOJÓ.

O resumo da conversa que se seguiu é: após um tanto de fala-fala e diz-não-diz, a produtora da produtora da banda, o representante do Fora do Eixo e o gerente do Studio sumiram pra dentro da casa. Voltam Mauricio e Felipe com a notícia: fica ao Elma a opção de montar o palco após a apresentação do Mombojó (que começaria as 00h) pra tocar, ou cancelar o show. Foi também explicitado o porque da preferência pelo Mombojó (aqui você pode fingir que ainda não sabia): eles tem bem mais público, logo, eles podem mexer e remexer na vida dos outros, com a conivência do Studio SP e do Coletivo Fora do Eixo. Bom, a gente não ia se prestar ao ridículo de tocar lá pras duas e meia da manhã, depois de montar o palco na frente de uma casa cheia de gente, sendo que as pessoas que iam ver a gente chegariam pra um show as 22h, como estava previamente acordado e divulgado.

Nossa banda estava tendo o show sumariamente tesourado, e a grande preocupação era não “expor os meninos” do Mombojó. Faz sentido.

Aqui fica claro, então, que:

- o Mombojó iria simplesmente prosseguir com o plano inicial de excluir o Elma da noite, sendo que desta vez estava claro que a banda inteira estava ciente das conseqüências da atitude deles, já que tinham se reunido mais cedo, como ficamos sabendo, pra decidir o que fazer

- o Studio SP não honraria o que foi marcado em março com o Elma, dando prioridade aos caprichos da banda que entrou pra tocar na mesma noite em outro horário, várias semanas mais tarde

- o Coletivo Fora do Eixo iniciaria sua frutífera parceria com o Elma permitindo o cancelamento do nosso show em prol de um artista mais popular

Pois bem, nosso show foi cancelado na nossa cara. Fazer o que? Arrumar briga? Ia resolver muita coisa.

Decidimos que iríamos simplesmente ficar ali e assistir a preciosa PASSAGEM DE SOM DE TRÊS HORAS DO MOMBOJÓ, na esperança de ao menos olhar na cara do Felipe S e do Chiquinho, e ver que cara tem a pessoa que faz uma coisa que não se faz. Descobrimos a resposta: cara nenhuma. O único integrante da banda que compareceu a passagem de som foi o baterista, faltando uns vinte minutos pra abertura da casa. Os outros meninos simplesmente não foram, certamente ocupados com o dever de casa. A gente deixou de tocar e passar o som pra que pudesse ser feita com todo o cuidado uma passagem de som de três horas no Studio SP na qual nem os próprios integrantes da banda se deram ao trabalho de ir, deixando um roadie, um diretor de palco e um técnico de PA pra resolver tudo. Eu olhei no meu relógio, já tinham se passado duas horas e quarenta de passagem de som quando finalmente ouvimos o som de um contrabaixo. As guitarras ficaram prós cinco minutos finais.

Pra não dizer que ficou tudo absolutamente no ar, foi explicitado pelo Pablo Capilé e pelo Mauricio, do Studio, que a produtora Katia Cesana sabia de antemão que a noite não era somente do Mombojó. Originalmente além do Elma tocaria também o Slim Rimografia. A produtora teria então solicitado o rider de ambas as bandas, pra ver como adaptar tecnicamente a situação. Daí pra frente ela teria, segundo Pablo e Maurício, ficado em silêncio a respeito da questão toda, deixando chegar a véspera da data pra fazer que não sabia que havia outras bandas e que era inaceitável que houvesse, que havia sido combinado que a noite seria exclusiva do Mombojó. Não temos como averiguar isso, e o mais importante, estamos pouco nos fudendo. Fica aí o que o Pablo e Maurício disseram.

A gente se viu no meio de um jogo de forças ridículo e fomos refens da completa falta de atitude das pessoas que tinham tratado com a gente desde o início. Por questões políticas e comerciais basicamente deixaram a gente tomar no cu, mesmo sabendo que tínhamos a razão (e repetindo que sabiam que a gente tava certo o tempo todo!). Tem coisa mais típica da caricatura de um político do que alguém olhando no seu rosto e dizendo “você é o cara”, enquanto acende o pavio da bomba que vai explodir o seu saco e as suas bolas?

Cada parte envolvida escolheu o papel que queria fazer, a todo tempo deixamos claro que contaríamos a história no final e aqui está ela, cheia de nomes próprios, pra você entender como quiser. Não coloquei o texto dos emails que foram trocados ao longo da negociação pra não estender ainda mais o texto, mas é só pedir que vão pro ar, dão um colorido especial a essa palhaçada. Acredito porem que todos os envolvidos sabem o que disseram e o que deixaram de dizer, e que isso não será necessário.

A propósito: a terra é plana.

Joseph Kosuth: "Arte Como ideia"

Este é o primeiro texto que pretendo escrever sobre a temporada de arte. Ainda quero fazer algo sobre o trabalho de Rodrigo Andrade e resenhar o livro de Francis Alÿs e mais, mas cada coisa em sua hora. Vontade sobra pra falar  de mais coisas.

Muita gente boa fala sobre a obsolescência deste tipo de exposição. Não são palermas que acham que sabem onde começa e onde termina a arte, mas gente que entende o circuito muito melhor do que eu. Os argumentos são ótimos.

Mesmo assim, não posso evitar, gosto muito de época de Bienal. A cidade fica repleta de boas exposições e discussões sobre arte. Um público que não dá tanta bola para a produção contemporânea presta atenção no assunto e uma garotada começa a cultivar o gosto pelas linguagens visuais.

Estive duas vezes nesta Bienal, na quarta-feira da semana passada (24 de setembro) e na abertura. Ainda falta muito, muito mesmo, pra ver, mas o que vi já foi o suficiente pra me deixar animado. Mais do que a ideia da exposição, é muito trabalho bom. Só o que pude testemunhar de Tatiana Blass, Nuno Ramos, Rodrigo Andrade, Anri Sala, Francis Alÿs, Steve McQueen, Cinthia Marcelle, Sara Ramo, Mateus Rocha Pitta, Moshekwa Langa, Joseph Kosuth, Nan Goldin, fora o terreiro de Carlos Teixeira e obras históricas de Antonio Manoel, Oswaldo Goeldi, Carlos Vergara, Antonio Dias, Hélio Oiticica e dos grupos de arquitetos Archigram e Superstudio é pra encher os olhos e ficar feliz.

Além disso, a cidade está pegando fogo. Exposições de primeira estão em cartaz, como a retrospectiva do Antonio Dias na Pinacoteca, a obra de Thomas Hirschhorn na Escola São Paulo, a Paralela (que é sempre legal de ver), mostras de Tunga, Sérgio Sister, Arthur Lescher, Raymundo Colares, Mauro Restiffe, Zerbini (que eu ainda não vi), do Ernesto Neto (que também não vi) e coletivas como a da Galeria Mendes Wood, a da Baró/EmmaThomas, do Instituto Tomie Ohtake e a excelente da galeria Luísa Strina (organizada pelo grande Rodrigo Moura). Aliás, quase me esqueço, o MASP parece mudar de ares. Abriu uma mostra só com a pintura contemporânea alemã, com nomões como Albert Oehlen, Neo Rauch e, sobretudo, Gerhardt Richter (goste-se ou não, ele é um dos maiores artistas vivos).

Só a oportunidade de ver duas belas mostras do Fred Sandback e uma retrospectiva do Sérgio Camargo, aliás, já era motivo de alegria há menos de um mês atrás. Olhem, ainda não sai de São Paulo.

Joseph Kosuth: "Arte"

Quem se interessa, como eu, pelo esforço de se aproximar ou distanciar vida e arte, a cidade também está um prato cheio. A começar pela obra de Hirshhorn. Tenho a impressão que um dos artistas mais militantes do século XXI vai na contramão de boa parte da arte contemporânea. Sua obra, cada vez mais, toma distância da vida para pensá-la criticamente. Trata das ideias de participação, de obra militante e de forma mesmo. Tem muitas outras exposições sobre o assunto na cidade. Acho que as melhores obras contemporâneas sobre o assunto são as que levam adiante esses limites da militância. Sobretudo as que questionam obras de arte que se pretendem politizadas mas só falam do meio de arte e do circuito.

Agora, a discussão é levada a sério na mostra de Joseph Beuys no SESC Pompéia. A maior parte da exposição é feita de documentos do período em que ele deixou de ser artista no sentido tradicional e se tornou escultor social, um militante. Para ilustrar isso, existe uma anedota. Dizem que durante a Documenta de Kassel que ele expôs junto com Richard Serra, perguntaram a ele o que ele achava do grande escultor. ele teria respondido: “É ótimo, mas é arte”.

Aliás, o assunto me faz pensar as últimas três reações conservadoras às obras da Bienal. Por conta de motivos extra-artísticos setores diferentes da sociedade quiseram embargar três obras. Independente da qualidade das obras, acho que o gesto é inadmissível.

Tudo começou por uma ação da OAB – SP, encabeçada pelo famigerado D’Urso. Além de ter um sobrenome legal, o devogado foi protagonista do já esquecido movimento cansei. E sua pena pediu para censurar os desenhos do artista pernambucano Gil Vicente. Nos trabalhos o artista se retrata torturando e assassinando figuras políticas importantes como o presidente Lula, o ex-sociólogo Fernando Henrique Cardoso, Kofi Annan, Ahmadjinejad, Jarbas Vasconcelos e outros. Não é o melhor trabalho do artista, mas é engraçado e parece um gibi. Daquelas obras que são típicas da Bienal de SP.

Agora, por razões morais, o nobre doutor acha que o trabalho deve ficar longe dos olhos do público. Segundo o infeliz, traria ideias perigosas aos visitantes. Convenhamos, nem uma ostra raciocinaria coisa tão primária.

Depois, parece que a justiça eleitoral pediu a retirada da intervenção El Alma Nunca Piensa Sin Imagen, do argentino Roberto Jacoby. Lá, ele reuniu um grupo para fazer, explicitamente, campanha para Dilma Roussef nos pavilhões da Bienal. Sou eleitor da Dilma e fiquei satisfeito em ver as madames torcerem o nariz para a obra na abertura. Mas não acho que isso seja boa arte. É uma bobagem.

Fred Sandback: esse sabia das coisas

É claro que o sentido político é mais efetivo do que de gente que discute o cubo branco, mas é pouco. Agora, independente da qualidade, ajoelhou tem que rezar. Mantenham os caras lá. Eles se aproveitam da estrutura pra veicular uma causa. Tal como os artistas que se ligam em meio ambiente, minorias, direitos dos animais, se trata de oportunistas, mas esse é o meio de arte. Nesse caso, entretanto, parece existir um problema legal. Como se trata de um prédio público, é proibido fazer campanha eleitoral. Mas seria legal sustentar um trabalho, mesmo que ruim, até o final.

Este  é só mais um daqueles trabalhos típicos de Bienal. Obras engraçadas de artistas não tão relevantes mas que nos fazem dar risadas e lembrar das histórias anos depois. Isso é outra boa notícia dessa exposição: os trabalhos rídiculos estão de volta. Cabeças de bicho do horóscopo chinês, lutador gay de luta livre, gente namorando desenhada em spray, muita coisa divertida. Prefiro este ridículo do que o bom gosto de discussões de departamento sobre arte e o seu circuito.

Por fim, soube da nova tentativa de censura hoje. Querem fechar agora o belíssimo trabalho de Nuno Ramos no vão do edifício do Ibirapuera. A obra é composta de peças monumentais de areia queimada que formam um espaço de edifícios fechados e abandonados. A cor os envelhece e o fato de não se abrirem para o seu entorno tornam-lhes assombrosos. Em si, já é bastante aterrador. Sobre a obra caixas de som emitem músicas como Carcará, Boi da Cara Preta e outra que eu não me lembro. São exemplos dessa narrativa associada ao pessimismo e uma tristeza constitutiva da nação. Lembra-me as obras de Oswaldo Goeldi, alguns poemas do Drummond e os desfechos do Machado de Assis.

O caso é que urubus sobrevoam os volumes e pousam sobre eles. Com as melhores intenções militantes em favor dos bichos quiseram interditar a obra. A censura se fez presente de novo. Acho que qualquer reivindicação legítima, mas tenho certeza que a obra cumpre as designações legais associada ao cativeiro dos bichos. Acho que esse precedente pode ser muito perigoso. Se começam a proibir todas as obras que ofendem concepções morais de determinados grupos a liuberdade de criação ficaria muito restrita. A arte ficaria chata como os desenhos animados. Hoje os personagens não podem fumar, bater em bichos e ficarem doidões nos desenhos infantis.

Tenho certeza que esses limites tornaram essa linguagem muito chata. Acho que essas restrições violentas à criação podem fazer o mesmo com as ideias no Brasil. Assim, mais que as loucuras da oposição ao governo federal, o autoritarismo mora aí. Fora que, como já nos ensinou de forma muito esclarecedora um sujeito que comentou aqui no blogue, o moralismo é o melhor refúgio dos canalhas.

PS: Saiu no Brasil um dos filmes mais emocionantes que já vi: Step Across the Border, de Nicholas Humbert e Werner Penzel. Aqui no Brasil ele recebeu um nome engraçado: Conexões desconexas. É sobre um dos meus ídolos, o guitarrista e compositor Fred Frith. No filme ele trata sobretudo de uma ética dele que associa sua posição frente ao mundo às suas discussões sobre a música popular e a música de vanguarda. Comovente.

PS2: Amanhã o Joseph Kosuth fala na Bienal, não dá pra perder.

Joé Pasta

Não estarei em São Paulo, mas bem que gostaria. É que nesse sábado, dia 3 de julho, será relançado o livro O Trabalho de Brecht, de José Antonio Pasta.O livro tem muito a ver com um período importante da minha vida. Logo que cheguei em São Paulo, me interessei muito por teatro e, principalmente, pelo dramaturgo e diretor alemão.

Trabalhei uns poucos anos com a Companhia do Latão. Quer dizer, o correto é dizer que aprendi muito com o grupo teatral paulistano (e ainda aprendo) e vivi um período mais intenso em que essa  estágio informal era remunerado. Foi de 1999 a 2000.

No ano passado, assisti ao experimento cênico do grupo chamado Entre o Céu e a Terra. O trabalho colocava lado a lado projeções de vídeo, leituras de texto e música em um diálogo cênico muito poderoso e sugestivo.

A vontade permanente de pensar a situação brasileira de um forte ponto de vista estético é que faz o Latão uma das coisas mais sérias do teatro e da arte no Brasil. O trabalho deles ainda é mal-entendido, principalmente na crítica fácil dos grandes veículos de comunicação, por causa de uma de suas maiores qualidades: o posicionamento político. É o comunismo que atormenta a rapeize.

Muito além de uma mensagem, tão comum ao teatro panfletário, o que está ali é um convite à reflexão e às maneiras de se enxergar e de se posicionar no mundo. Essa dialética permanente dá uma riqueza absurda para o trabalho do Latão.

Como se pode ler abaixo, muito disso se deve ao professor e crítico literário José Antonio Pasta, que irá relançar do seu livro O Trabalho de Brecht.

Pasta tem uma bibliografia pequena em livro comparada ao tamanho de seu conhecimento sobre literatura e sua importância nos estudos literários. Pelo tanto que seus diversos alunos do curso de letras da USP devem ao mestre nascido no município de Ariranha (SP), uma estante inteira seria pouco.

Publico aqui o texto de divulgação do lançamento dessa que foi sua primeira grande obra e que o levou – em um caminho bem consistente – a uma profunda investigação sobre Machado de Assis, Raul Pompéia, Guimarães Rosa, a cultura popular, Clarice Lispector e o país. O evento vai ser muito legal e irá reunir um elenco significativo do teatro político em São Paulo. Vale apena.

Lançamento do livro de José Antonio Pasta terá apresentação de 05 grupos teatrais e fala do autor.

por Roberta Carbone

Será lançada no dia 03 de julho, sábado, às 19 horas, no Estúdio do Latão, a nova edição do livro Trabalho de Brecht, de José Antonio Pasta, professor de literatura brasileira da USP, pela Editora 34.

A comemoração contará com a participação dos grupos teatrais Companhia do Latão, Companhia do Feijão, Teatro de Narradores, Companhia Ocamorana e Grupo Folias D’arte.

Na ocasião, haverá um coquetel e fala do autor sobre a obra.

LIVRO TORNOU-SE UMA REFERÊNCIA NOS ESTUDOS SOBRE BRECHT

Lançado originalmente em 1985, Trabalho de Brecht é dos mais importantes estudos sobre o autor alemão publicados em português. Escrito como dissertação de mestrado, o livro discute as várias dimensões e sentidos do projeto clássico de Brecht.

A primeira edição, esgotada há muitos anos, influenciou a pesquisa artística de muitos grupos teatrais de São Paulo, que participam agora da homenagem ao autor.

A obra passa a integrar a mais respeitada coleção da editora, a Espírito Crítico.

A CLASSICIDADE CONTEMPORÂNEA DE PASTA

Em Trabalho de Brecht: breve introdução ao estudo de uma classicidade contemporânea, José Antonio Pasta estuda a produção da obra madura de Brecht em seu contexto contemporâneo. Não começa pelas primícias do autor mas, sim, pelos momentos decisivos em que a experiência literária do jovem escritor alemão chega a seus embates frontais com a indústria cultural — isto é, com a forma-mercadoria, com o nazismo, o exílio e a guerra.

Da experiência dessa situação extrema vê-se então emergir, na obra de Brecht, um projeto estético e político que, da perspectiva deste estudo, terá como fio condutor a constituição de uma classicidade contemporânea, estratégica e de combate.

Tal projeto supõe, da parte de Brecht, um acerto de contas radical com o destino da Alemanha e sua herança cultural, e, no limite, com a própria modernidade, considerada em seus pressupostos e promessas. Nesse sentido, a análise de José Antonio Pasta se orienta pela leitura de Marx feita por Brecht, assim como sua retomada das bases hegelianas da dialética.

O AUTOR É PROFESSOR DA USP

José Antonio Pasta é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Realizou estágio pós-doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris em 1995/1996. Desde 1984 é professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas das USP. Foi também professor-associado na Universidade de Paris III — Sorbonne Nouvelle, em 2001/2002.

ESTÚDIO DO LATÃO

Rua Harmonia, 931 (próximo ao metro Vila Madalena), São Paulo -SP

Dia 03 de julho às 19 horas

Informações: (11) 38141905

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E como política e criação são o tema no post, impossível esquecer o evento que chacoalha corações e mentes na capital brasileira da cinefilia, Belo Horizonte. Estão abertas as inscrições para o melhor festival de cinema do País, o forumdoc.bh.2010.

Quem nunca foi, guarde o final do ano e vá para a capital mineira por que vale muito a pena essa imersão no que há de melhor na produção desse cinema que bebe do documentário e da etnologia, mas não só. Muito do melhor que eu vi na vida foi nessas sessões no cine Humberto Mauro. Só coisa boa. Inscrevam-se.

Vou repetir o que já disse, mas acho que vale a pena. Não sei dirigir. Assim uso ônibus e metrô quase todos os dias. Embora não more longe do meu trabalho, preciso pegar duas conduções até lá e andar oito quarteirões depois que desembarco. Não é sempre que eu faço isso, afinal, uma vez por semana dou aula em uma unidade que fica no ponto final do meu ônibus, sobre uma estação de metrô. Quando a aula é lá, se saio na hora apropriada, um ônibus resolve.

Mas desde então, consegui uma ótima medida dos horários de circulação nesse pequeno pedaço da cidade. Sei o tempo que leva de Perdizes a Vila Mariana em todos os horários do dia em diferentes meios de transporte. Repetindo novamente o que eu já disse e que milhões dizem todos os dias em lugares diferentes: tá difícil. Isso não é novidade pra ninguém, mesmo quem nunca entrou em um coletivo daqui sabe disso; mesmo quem não mora na cidade sabe disso.

Aliás, em geral, a dificuldade de locomoção é a primeira recordação que os forasteiros guardam daqui. Nestes anos em que faço esse trajeto estive em outras cidades com certa freqüência.

As pessoas que conheci pelo caminho sempre me perguntavam sobre o tráfego e contavam de suas dificuldades de locomoção em São Paulo. Gente de todos os lados, hemisférios, gêneros, etnias, orientações sexuais e classes sociais. No entanto, em outras partes do país, muitas vezes a anedota era acompanhada por uma ressalva: a qualidade do metrô. Aqui, a ressalva também aparecia em diversos comentários. Tanto que o veículo deixou de ser algo que ameniza a situação crítica da cidade e se tornou uma promessa. assim, muitos amigos-que-andam-de-carro-por-todo-lado me diziam que quando houverem estações cobrindo todo o perímetro urbano a cidade terá jeito.

Não sei se é um tanto de pessimismo, mas o metrô nunca me pareceu essa maravilha. A empresa é boa o serviço também, mas nunca me pareceu um senão na rede atabalhoada de transportes da cidade. Antes, quando os meus amigos de fora de São Paulo me falavam : “pelo menos o metrô funciona”, eu apenas afirmava que achava que as linhas eram pequenas e a cobertura insuficiente. . Também falava do que não sabia e afirmava que achava o traçado irracional. Embora eu não saiba nada de transporte, não via muito sentido em duas linhas retas grandes que se cruzavam com tão poucas linhas menores. Hoje em dia, não sei se pelo uso freqüente ou se por quê a situação se agravou, minha opinião mudou.

Civilização Urbana: Mais de um século sem se mover

Civilização Urbana: Mais de um século sem se mover

Como disse antes, não sou engenheiro e nem arquiteto. Também não tenho nada que dê lastro à minha opinião, somente a experiência. Mesmo assim, acho que babou: o metrô não resolverá o problema da locomoção na cidade. A panaceia que era associada ao aumento do número de estações parece falsa. Com isso não quero dizer que elas não devam ser construídas. Elas devem, mas me parece que essa rede também já precisa de uma alternativa que eu ainda não sei qual é.

Para ilustrar essa frustração mal-ajambrada e irrefletida conto dois casos pra vocês. Uma em um dia extraordinário outra em um dia normal do funcionamento. São apenas a notícias de um usuário.

Em fevereiro o mundo caiu na cidade. Chovia muito todos os dias.  Para ir para aula, sempre saia com muita antecedência da minha casa. Não andava até o metrô e a Avenida Sumaré seguia a passos lentos. Ainda na primeira semana, foi tanta água que a estação Jardim São Paulo se inundou. Nas outras estações a coisa também não estava boa.

Mesmo ao lado de Santa Cecilia, não quis me arriscar em fazer a baldeação na estação Sé. Minha experiência por lá já não era das mais animadoras e eu não tinha uma hora para ir da roleta até o trem. Subi a Consolação a pé e peguei o trem na Paulista. Na estação consolação, levei meia hora até o trem. até aí, não era muito diferente de sempre neste horário.

O problema foi quando eu quis sair do metrô na estação Ana Rosa. Não consegui sair do trem a tempo. Uma tropa desceu na estação Chácara Klabin e retornou. Dessa vez saímos, mas ficamos presos ao piso do metrô por bons quinze minutos. depois que toda a manada conseguiu subir a escada e descer próxima escada, o meu horário de aula já havia começado. Bem, cheguei atrasado, como, aliás, a maioria dos outros professores e dos alunos.

No entanto, o agravante foi o que vivi na semana passada. Com tudo tranqüilo, algumas aulas já tendo se encerrado. Sofri um sufoco semelhante para trocar de trem na estação Ana Rosa. Estava impossível descer do pavimento onde ficam as catracas e descer ao espaço onde circulam os trens da linha azul. Sai de lá e fui a pé até o trabalho, que não é longe, sete ou oito quarteirões abaixo da estação Santa Cruz . Embora o trânsito não fosse dos piores, me pareceu a decisão mais racional.

No caminho pensei se agora não precisaríamos de um outro transporte alternativo ao metrô e ao ônibus. Estou convicto que só metrô engarrafado não resolve.

Hoje em dia, parece renascer uma aposta na civilização e sua associação com o progresso. Será que o pessoal mantém suas convicções depois de quarenta minutos para percorrer 100 metros em uma estação de trem?

Outros episódios: 1 , 2 , 3

PS: Esse Domenech é um palhaço mesmo

No fim de 2008 comecei a usar, eventualmente, a bicicleta como meio de transporte aqui em São Paulo. Uma idéia bastante estúpida, considerando que a cidade – como o Tiago vem relatando na série “Congestão” – é um caos completo, e seu trânsito agressivo e violento desanimam até algumas pessoas a aprender a dirigir: preferem não correr o risco de transformar suas vidas num inferno ainda mais completo, como naquele desenho animado clássico do Pateta.

De lá pra cá, passei a usar a bicicleta com certa freqüência, primeiro num estilo ultra-urbano de lazer – pedalada na hora do rush, quando a cidade fica completamente parada e os corredores entre os carros formam uma pista estreita mas livre – e, mais recentemente, para ir trabalhar. Faço diariamente, ou quase, o trajeto Pinheiros-Vila Mariana-Pinheiros, o que me permite passar por dentro do parque do Ibirapuera a caminho do trabalho. Muito bom poder usar um parque como local de passagem – um lugar mais silencioso, calmo, arborizado e bonito do que as avenidas que o contornam.

No domingo passado, resolvi ir conferir a Ciclovia do Rio Pinheiros, um projeto do governo do estado e da prefeitura. É tão bizarro que tenho muito pouco a dizer.

Em primeiro lugar, é uma gambiarra que aproveita a pista de manutenção entre o rio e a linha de trem. Passaram uma mão de tinta, instalaram uma cerca super frágil para impedir que alguém caia dentro o rio e meteram uns banheiros químicos a cada tantos quilômetros. Pronto: um equipamento de lazer feito no improviso, o que é sempre sinal de má vontade.

Em segundo lugar, a tal da ciclovia liga o nada a lugar algum. É uma faixa de 14km com saídas apenas nas pontas, e que termina – o punchline de mais essa piada macabra que o demotucanato  nos aprontou  - no aterro sanitário de Santo Amaro.

Em terceiro lugar, e ligado ao segundo, a ciclovia é só para lazer, e todo mundo sabe que a bicicleta precisa passar a ser seriamente levada em conta como parte da solução para o problema da mobilidade na cidade de São Paulo. Dizem que nas reuniões que a prefeitura promove sobre o tema jamais comparecem representantes da pasta de transportes, apenas o pessoal de lazer e cultura.

Em quarto lugar – a ciclovia, em toda sua extensão, margeia o que deve ser o maior esgoto a céu aberto do planeta. O cheiro é podre, fétido, nauseante, mistura de resíduo industrial e toneladas de dejetos humanos. O ponto de acesso da Vila Olímpia dá na Usina de Traição, onde a água é mais podre ainda, porque quase parada. Todo o passeio é temperado com um cheiro espesso de merda humana.

O que me leva ao quinto lugar – cadê o projeto de despoluição dos rios Pinheiros e Tietê, com grana japonesa e o caraglio, em torno do qual o Alckmin, quando governador, fez tanto estardalhaço? Um projeto sério como esse é colocado na gaveta, e esse factóide político o substitui.

Até as capivaras do rio Pinheiros sabem que o Serra e o Kassab não fazem o que deviam fazer

Acho que esse poderia ser um dos grandes emblemas do estilo de governar do demotucanato. Improvisada, a ciclovia satisfaz um eleitor que não sabe, nem nunca vai saber, quando está sendo feito de idiota. A inauguração da ciclovia serviu de palco para a velha e a nova direita de São Paulo – Serra, Kassab e Soninha Francine. Recebeu apoio do pessoal militante que, de tanta boa vontade, vira vítima muito facilmente.

Eu não tirei a foto, mas vou descrevê-la aqui para fechar o post: uma mulher, com seu marido, lá pela casa dos 40, bicicletas novas, cara de moradores do Itaim e eleitores do Serra e do Kassab, pedalando na ciclovia num domingo ensolarado, respirando merda e sorrindo. Tem monumento melhor ao estilo paulistano de ser idiota? Não tem.

Depravação e sadismo: "O ciclo da merda", segunda parte de Saló, de Pier Paolo Pasolini, inspira as políticas públicas paulistas e ilustra a complexa psicologia dos eleitores do estado

De casa para o trabalho, na linha azul do metrô, quinta feira, dezoito horas e vinte minutos, sentido Jabaquara. O fanho do falante anuncia: “Próxima estação, São Joaquim”. O trem para. Ninguém entra e ninguém sai. Diante das portas, usuários se amontoam e olham impacientes para quem está apinhado dentro do vagão. Não cabe nem mais uma alma. Vagas? Só na estação Paraíso.

Desde a Barra Funda, a TV Minuto nos pergunta a nacionalidade de Maria Ester Bueno, testa nossos conhecimentos sobre o dopping de Ben Johnson e nos ensina a altura do Pico da Neblina. Depois, exibe um slide show com cenas das obras no metrô. Esse é velho e os passageiros conhecem desde junho. Agora, a emissora estreou o seu programa especializado. O show tortura os que esperam sua vez de sair do trem.

Por detrás de um ombro e de meia cabeça, a tela mostra imagens das praias de Ubatuba, das maravilhas do Rio de Janeiro e da Chapada Diamantina. Sob cada foto, um letreiro em vermelho e preto sugere de forma inconclusa: “preferia estar…”

Depois do primeiro apito, segundo apito, terceiro apito, quarto apito e quinto apito, o fanho nos lembra: “Estação Santa Cruz”. A turma segue apressada rumo à escada rolante.

Com força e persistência, a chuva cai da porta do Shopping até a sala dos professores.

Mais uma vez, começo uma série aqui no blog. Diferente da outra, aqui não farei episódios independentes, mas aproveito um texto que ficou comprido demais para um post só e o desmembro em um folhetim. Nos últimos meses, tenho vivido situações que negam a promessa da cidade a toda hora. Resolvi reunir algumas delas. Penso muito a partir das análises do crítico e historiador pacifista Lewis Mumford, por isso, falo dele agora, depois conto os casos.

Andreas Gursky "99 Cents I"

Um dos maiores americanos do século XX foi Lewis Mumford. Atuou como um intelectual profundo e combativo. Entre a década de 1950 e 1960, desenvolveu as idéias de aglomeração e congestão urbana. São algumas das noções mais ricas para pensarmos momentos em que temos certeza que as cidades entrarão em colapso.

Recentemente vi um barranco deslizar na rua de casa. Ele cresceu por um mês e permanece impedindo o tráfego por dois. As estruturas das casas lá no alto se mostram de modo obsceno a quem anda na rua. O asfalto está enlameado e mal se vê cimento nas crateras da calçada. Como os bichos querem sobreviver, abriram mal do matagal e estão aqui, convivendo conosco e tentando escapar da nossa fúria e do nosso nojo.

Nessas horas, fica evidente a catástrofe da urbanização. Se na história ocidental, as cidades sempre foram um lugar para se melhorar a vida; hoje, São Paulo parece mais um sistema irracional de investimento que, pelo jeito, não melhora nem os lucros.

Mas Mumford já havia matado a charada da interversão da promessa da cidade. No livro A cidade na história, o autor trabalha com a demografia, com o urbanismo e com a circulação de mercadorias. Faz das formações urbanas, resultado de disputas e de ideais em tensão irresoluta.

Não sobra para ninguém. Ele crítica os americanos, soviéticos, europeus, a acumulação e a burocratização. Em certo sentido, lembra a sociologia de Wright Mills, o pensamento de Murray Bookchin, Herbert Marcuse e – por que não?— Ralph Waldo Emerson.

Quando começa a falar das cidades modernas, volta ao tema do uso extenuado da malha urbana. Diferente dos malthusianos, os conceitos de congestão e de aglomeração não estão associados ao crescimento da taxa de natalidade. Mas a uma forma de lógica da cidade onde todas as relações são reguladas para o trabalho e para a produção de lucro. Os deslocamentos passam a atender uma lógica de investimento, o tempo livre e até a idéia de sucesso e fracasso.

Ele fala das formas de urbanização sem limites, da indistinção, inclusive, entre campo e cidade. O lugar da natureza passa a ser o que as funções do trabalho determinam a ela. Não se trata mais de uma área não urbanizada, mas de um trecho entre cidades.

Sul de Manhattan em Nova York, em foto pintada de 1906

Daí ele desce o sarrafo nos funcionalistas e no utilitarismo. Pensa que a lógica da utilidade, de se atribuir uma função a cada espaço, na verdade é a lógica da exploração irrestrita do terreno e dos meios de circulação. Ele defende uma arquitetura e um urbanismo que não colonizem as atividades vitais e desvinculadas da produção como “tempo livre”, ou lunch time.

Quando fala dos utilitaristas do século XVIII, por exemplo, Mumford é categórico:

A liberdade pedida pelos utilitaristas era, na realidade, a liberdade de terem ganhos irrestritos e crescimento privado. Lucros e rendas teriam de limitar-se apenas pelo que o tráfego pudesse suportar: aluguéis costumeiros aceitáveis e preço justo estavam fora de cogitação. Somente a fome, a penúria e a pobreza podiam compelir as classes inferiores a aceitar os horrores do mar e do campo de batalha [no século XVIII e XIX]; e somente aqueles mesmo úteis estímulos os haveriam de incitar e induzir a trabalhar nas fábricas

Mas na definição das idéias de congestão e aglomeração ele é mais preciso. Os conceitos revelam algo desse raciocínio proto-natureba do Mumford.

Segundo ele:

o congestionamento verifica-se naturalmente quando um número demasiado de pessoas começa a competir por um número limitado de apartamentos e quartos; e quando um proletariado industrial começou a afluir em massa para as grandes capitais da Europa no século XVI tais condições se tornam crônicas. (…) Os fatos do congestionamento metropolitano são inegáveis; são visíveis em todas as fases da vida de uma cidade. Encontra-se congestionamento nos constantes engarrafamentos do tráfego, resultantes da acumulação de veículos em centros onde só se pode manter o movimento livre pela a utilização das pernas. Encontramo-lo no apinhado do elevador do escritório ou no ainda mais densamente amontoado metrô. Falta de espaço para escritórios, falta de espaços para escolas, falta de espaço para as habitações, até mesmo falta de espaço nos cemitérios, para os mortos. A forma que a metrópole alcança é a forma da multidão: a praia de banhos, enxameante, à beira-mar, ou o corpo de espectadores no ginásio de boxe ou estádio de futebol. (…) No ato de tornar acessível o núcleo de metrópole, os planejadores do congestionamento quase a tornaram inabitável

É claro que existe no argumento um romantismo de fundo, mas um idealismo democratizante. Que acredita que o controle local e a inversão de prioridade do desenho urbano dissolveriam algumas das contradições apontadas. Esse romantismo que origina um ponto de vista meia oito, no entanto, parece demonstrar não as soluções, mas algumas razões da crise. Os interesses empresariais parecem ter conseqüências negativas inclusive na vida de quem controla essas empresas.

É triste que essas idéias pareçam velhas e que os liberais de plantão insistam em uma cartilha ideológica onde os interesses empresariais parecem não exercer pressão política alguma. Como esse liberalismo, renovado nas últimas décadas do século passado, foi para as cucuias, acabaram-se as soluções mágicas. Aliás, mesmo a promessa igualitária de Mumford, retomada , entre outros, pelo grande Mike Davis, parece distante. Mas os problemas que ele vislumbra ainda são muito reais.

Todos nós identificamos nas notícias e nos dados algo que confirma essa discrepância entre a prioridade alienada das cidades (quase como entidades burocráticas automáticas) e a vida de cada um. Os consultórios psiquiátricos dão uma boa medida disso.  No entanto, uma coisa é ter notícia, outra é viver situações que, de tão exemplares, parecem caricatas. Aí fica preocupante. Em janeiro e fevereiro, tenho vivido essas experiências sistematicamente, mas isso fica para depois.

O meu primeiro emprego em São Paulo foi em uma revistasobre problemas urbanos, a Urbs. A revista era parte da Associação Viva o Centro, bancada pelos bancos do Centro de São Paulo e era uma espécie de think thank para se pensar as questões do Centro da cidade.

Pode até não parecer, mas a Associação e a revista eram compostos por um núcleo bastante hetereogêneo de pessoas e idéias. Uma delas era a Luciana Travassos, que na época ainda estudava arquitetura e acabou se especializando na relação dos rios com a urbanização caótica de São Paulo.

Hoje ela é funcionária concursada da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Com esse período de, chuvas, enchentes e catástrofes humanitárias, a turma do Guaci encomendou um texto para ela que esclarece e dá pano pra manga pra uma ótima discussão sobre o tema. Ah, os links são culpa minha.

São Paulo e as águas: a limitação das soluções estruturais na drenagem urbana

Luciana Travassos

Difícil de dar o recado no Jardim Pantanal

Difícil de dar o recado no Jardim Pantanal

Desde o começo do século XX, a forma primordial de lidar com a questão da drenagem urbana em São Paulo foi a construção de grandes estruturas e a intervenção radical no sistema de águas superficiais – rios e córregos.

Nas décadas de 1920 e 1930, o interesse de companhias energéticas e empreendedores imobiliários deu respaldo a um determinado modelo de construção de cidade, encabeçado pelo engenheiro Francisco Prestes Maia, um modelo bastante pautado na estruturação viária e na utilização do nascente transporte individual. Sua aplicação sobre o território da capital, dada a sua topografia acidentada, ensejava a implantação de vias lindeiras aos rios e córregos – sistema que deu suporte a seu Plano de Avenidas.

Essa história é bastante conhecida, mas o que importa nela é que a partir de então o binômio – canalização de córregos e construção de avenidas de fundo de vale – se tornou um paradigma dos diversos órgãos públicos de intervenção urbana, sob diversos governos, a ponto dessas obras passarem a integrar programas de melhoria e não mais planos urbanos: onde houvesse um córrego esse seria canalizado e uma avenida seria construída em suas margens drenadas. Foi na década de 1970 que esses planos e projetos começaram a sair do papel, financiados primeiramente pelo Planasa e posteriormente pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Do ponto de vista hidráulico, os córregos canalizados têm o objetivo de escoar rapidamente a água precipitada para jusante, ou para baixo. Para tanto os rios principais precisavam ter suas calhas ampliadas para receber uma quantidade crescente de água: a mancha urbana crescia e nesse processo as áreas impermeáveis aumentavam brutalmente e mais córregos eram canalizados resultando em paisagens urbanas com bacias e várzeas totalmente ocupadas

Alguns questionamentos a essa prática eram feitos, principalmente nos meios acadêmicos e nos órgãos de Planejamento, notadamente pela Emplasa, mas também pela Secretaria Municipal de Planejamento nas gestões de Mário Covas e, principalmente, na de Erundina. No entanto, a lógica – política e técnica – incrustada nos órgãos responsáveis pelas obras continuou ditando o processo.

No final da década de 1990 o paradigma hidráulico começou a ser alterado, a partir da elaboração do Plano Diretor de Macrodrenagem do Alto Tietê. A idéia contida nesse é de segurar a água da chuva onde essa se precipitou, ou em sua proximidade, diminuindo a pressão sobre os sistemas à jusante. A implantação ou não das diversas diretrizes desse Plano, no entanto, seguiu a lógica já estabelecida, somente as diretrizes relacionadas às obras estruturais são realizadas. Demais diretrizes como, planejamento do uso do solo na região a montante da Barragem da Penha (onde se encontram os diversos bairros que vêm submergindo nesse verão), outorga do direito de impermeabilização e controle de desmatamento e ocupação em áreas com tendência à erosão, educação ambiental, não vislumbraram grande sucesso nem nas instâncias estaduais, nem nas municipais envolvidas.

Do Plano Diretor de Macrodrenagem do Alto Tietê obteve sucesso a implementação de piscinões, imediatamente absorvida dentro da lógica das grandes obras, quase sempre associada à tradicional canalização dos córregos, criando certo paradoxo na medida: os canais expulsam as águas, enquanto os piscinões as retêm.

Foto de Sérgio Neves, para o Estadão, mostra o drama no Jardim Romano

Com relação às inundações é preciso trabalhar com uma premissa básica, embora antipática: a única certeza possível sobre as áreas de várzea é que um dia, independente das obras de drenagem executadas, elas alagarão. Qualquer outra consideração original é leviana. Assim, é inadmissível que o poder público legitime, anistie ou crie ocupação nessas áreas.

A partir daí é essencial enfatizar dois tipos de política pública. A primeira é a de remoção dos usos incompatíveis com inundações nos locais onde essas são mais freqüentes e a destinação dessas áreas para parques urbanos. Essa medida enfrenta um principal problema que é a, ainda, baixa capacidade do poder público em intervir no preço da terra urbana e em sua destinação, ou porque os instrumentos do estatuto da cidade adotados nos planos diretores não foram regulamentados ou porque são insuficientes. Por outro lado é será que é caro demais fazer diferente? É preciso contabilizar, inserindo variáveis de justiça social e ambiental: quanto custa a continuidade das medidas adotadas até agora? Quanto custa construir e manter um piscinão ou um canal de rio? Quanto custa a remoção de moradores dos condomínios construídos pelo poder público? E, principalmente, quanto custa tudo isso em contraposição à criação de parques lineares e à construção de moradias em locais adequados? Ou seja, estamos falando de restrições financeiras ou de priorização inadequada no uso dos recursos públicos?

Já a segunda política pública necessária é a disseminação de práticas preventivas dentro do escopo de defesa civil. Nessa deve-se priorizar a minoração do dado ao invés de sua remediação. Residem nessa diretriz tanto a construção de um sistema de alertas – para evitar a perda de vidas, quanto a implantação de infra-estrutura adequada para lidar com eventos mais freqüentes e até a criação de um fundo de auxílio para ressarcir os danos. Esse fundo pode inclusive funcionar por sub-bacia, a partir de subsídios cruzados e incentivos para a adoção de práticas de retenção de água – desde reservatórios no lote (para os quais há legislação no Município de São Paulo) até a criação de áreas permeáveis.

Assim, para conviver com os recorrentes problemas de inundação no município de São Paulo e em sua Região Metropolitana, é imprescindível estabelecer um conjunto amplo e diversificado de ações, que conte com amplo conhecimento e participação da sociedade. Nesse, as obras de drenagem ainda serão necessárias, porém certamente não serão mais as protagonistas.

Vou só levantar a bola, porque legal mesmo nesse blog são os textos do Lauro sobre música e os textos do Tiago sobre arte (o daí de baixo é imperdível, pelo texto e pelos trabalhos da Ana) e os comentários dos amigos-leitores. Sério mesmo: o lance é disparar conversa.

Essa cassação em massa da base de apoio do Kassab na Câmara dos Vereadores do município de São Paulo é o maior escândalo político do ano. Sem alarde – não sei de vocês, mas a notícia me pegou de surpresa – a justiça cassou o mandato e tornou inelegível por três anos 13 vereadores, entre eles seis do PSDB e quatro do DEM (e do PV, PTB e PP, um de cada). Segundo as investigações, todos receberam doações irregulares da mesma entidade, a Associação Imobiliária Brasileira (AIB) que, segundo o juiz responsável pelo processo, Aloisio Sérgio Resende Silveira, é uma “fraude”. Todo mundo sabe que a relação entre prefeituras e o setor imobiliário nas grandes capitais brasileiras é digna de filme noir americano, estilo Chinatown. Muita história esquisita, muita grana. Gostaria de entender como anda sendo utilizado por essa gestão o instrumento, elaborado na gestão da Marta Suplicy, da “Operação urbana”. A próxima será na Vila Sônia, e, eu que passo por ali várias vezes por semana, já começo a cheirar especulação imobiliária e gentrificação no entorno da futura estação final da linha amarela do metrô.

Pacto sinistro

Pacto sinistro

Acho que vocês lembram, também, que o Kassab meteu na secretaria responsável pela fiscalização de obras na cidade um conselheiro “licenciado” do Secovi (“sindicato” do setor imobiliário), Orlando de Almeida Filho. Então o que o prefeito bunda mole anda fazendo nos últimos anos é simplesmente vender a cidade aos pouquinhos. É um moleirão, garoto de recados dos construtores interessados em levantar prédios horrorosos e caríssimos por todos os bairros com alguma infraestrutura na cidade.

Eu consideraria, se nada mais acontecer, que essa é a pá de cal nessa aliança sinistra que diz ter projeto para o país. Todos lembram que o Kassab herdou a prefeitura do seu chefe José Serra. Gostaria agora de vê-los  levantar a bandeira da democracia, da gestão técnica independente e da honestidade. É, seguramente, um evento sem precedentes.

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