Se não bastasse a alegria descrita no post abaixo, esse final de semana ainda contou com a apresentação de Ornette Coleman em São Paulo. Fui pra capital paulista única e exclusivamente para assistir os dois shows que ele fez no Sesc  Pinheiros. Sinceramente foi uma das experiências mais ricas que eu já vivi.

O Tiago deve publicar um texto  sobre o show com muito mais propriedade sobre a obra do Ornette. O que eu prefiro falar aqui é sobre a capacidade de se fazer música e de continuar criando, mesmo após 80 anos de idade e quase 50 anos como um dos principais renovadores da música popular americana.

É lógico que o momento em que a banda tocava Peace e a luz acabou no teatro vai permanecer pro resto da vida das pessoas que lotavam o Sesc no domingo. Principalmente pela bela interpretação acústica de Lonely Woman feita pelo quarteto (que ainda contava com seu filho Denardo Coleman na bateria, Tony Falanga no baixo acústico e Albert Mac Dowell num baixo elétrico que parecia emular as guitarras de Bern Nix e Charlie Ellerbee) e da seqüência com a incrível Dancing in your head.

O vídeo desse momento supreendente e de todo o show no domingo pode ser visto no canal do trabalhosujo, também mantido pelo Alexandre Mathias, que escreveu um texto bem legal sobre o show.

Ornette não tem medo de errar e parece compor o tempo todo enquanto toca. Nas citações de suas outras músicas no seu repertório faz questão de nos explicitar como a construção harmolódica tem uma lógica forte de construção musical. É tudo muito bonito, mas como escreveu o Rubens: nada é mais legal do que a alegria de ver o pai, Ornette, e seu filho, Denardo, no palco felizes, criando e tocando com uma vontade impressionante.

No dia mais importante do ano, uma homenagem a quem merece. Só músicas que ela gosta:

Cheguei duas horas antes para poder olhar as obras e o arquivo no prédio do Merce Cunningham Studio. Por todos os lados havia meninas e meninos se esticando com roupas colantes. O elevador subiu mais devagar do que o normal, enquanto a porta pantográfica abria no andar errado, eu parecia ter chegado no meio de uma peça coreografada pelo próprio Cunningham: os dançarinos se mexiam sem olhar uns para os outros. Eram gestos econômicos, mas que não se coordenavam, mas criavam eventos paralelos.

No dia, um dos heróis da música experimental norte americana tocaria lá: Gordon Mumma. A reunião foi marcada nesse dia por isso. O meu amigo Kenny me disse: “será uma inflação do que a cultura dos Estados Unidos produziu de mais radical”. Era mesmo, a melhor pintura de um grande artista sobre o maior coreógrafo do país dele. Mumma, um compositor com a radicalidade de William Carlos Williams, tocaria piano junto com o trombonista, compositor, improvisador e escritor George Lewis. Não podia estar em outro lugar.

Logo encontrei o David Vaughn, o historiador que toma conta do arquivo a quase quarenta anos. O Kenny me avisou: “o sujeito conhece tudo sobre essa cidade”. Muito simpático ele me levou direto à tela que o Andy Warhol fez a partir de movimentos da dança de Cunningham. Só depois ele me mostrou as imagens do Rainforest (1968) espetáculo com música de David Tudor e cenário de Andy Warhol.

Cunningham & Cage

Cunningham & Cage românticos

Com tudo isso, não dava para ser uma visita pouco proveitosa, mas bem depois, já no saguão do salão de dança, onde eu esperava o concerto começar, ficou melhor. Eu estava sozinho, o meu amigo ainda não havia chegado, e muita gente que viveu com personagens da vanguarda novaiorquina dos anos sessenta começou a sair pela porta pantográfica. Era uma homenagem ao recém-falecido Sol LeWitt, um dos artistas mais conhecidos da minimal e responsável pelo termo conceptual art. Empinei e escutei uma porção de histórias. Visões nostálgicas dos grandes artistas americanos, gente que esteve ou teve algum parente no Black Mountain College e muitos depoimentos sobre John Cage, o grande amor da vida de Merce Cunningham.

De repente, Cunningham aparece por detrás de uma porta do estúdio. Já estava muito velho e provavelmente não mexia mais que 20% do corpo. Na sala diziam que o pintor Robert Rauschenberg estava muito mal e dificilmente agüentaria outro ano e ele não agüentou. Todos sabiam que aquele mundo que eles criaram já estava se esvaindo. A saída era criar novas formas de lidar com o que vinha por aí, sem saudade, sem utopia e com muita sede de fazer. Mais que isso, era conviver. Mas, eu confesso, não quis que aquilo fosse passado.

A sensação de morte é aterradora, talvez como a idéia de movimento na tela de Andy Warhol.

Andy Warhol, "Merce" (1963)

Andy Warhol, “Merce” (1963)

dar um tempo copia

De quebra, segue a página da ótima Royal Improvisers Orchestra, fundada em Haia, na Holanda, pelo amigo Yedo Gibson. O grupo é uma das coisas mais cheias de vida e de novidade que eu escutei recentemente. Estou muito animado mesmo. A razão para o entusiasmo é a alegria da música deles e o seu aspecto anticonvencional. Eles não se rendem nem ao bom gosto moderno de algumas formações da improvisação. Tocam como se vivessem no reino da abundância. Um dos instrumentistas é um ídolo antigo: o Renato Ferreira, também integrante do Abaetetuba, formação musical  criada pelo percussionista Antonio Panda Gianfratti que um dia ainda terá uma postagem especial.

Uma música de grandes domingos feita por um ídolo maior :

Matching Mole, “O Caroline” (Dave Sinclair and Robert Wyatt)

David’s on piano, and I may play on a drum
And we’ll try to make the music work, we’ll try to have some fun
But I just can’t help thinking that if you were here with me
I’d get all my thoughts in focus and play more excitingly
I love you still – Caroline
I want you still – Caroline
I need you still – Caroline

If you call this sentimental crap you’ll make me mad
Cause you know that I would not sing about some passing fad
And if my attempts at rhyming aren’t convincing to your ear
Then memories betray you through the passing of the year
I love you still – Caroline
I want you still – Caroline
I need you still – Caroline

You must think it doubtful that I mean the words I sing
Or that all attempts to reach you this way could not mean a thing
But you must admit we both thought we’d be man and wife
And that I could make you happy for the best part of your life
I love you still – Caroline
I love you still – Caroline

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Wyatt e a cana

Esse é a primeira de uma série de postagens sobre o Wyatt ao longo dos anos…

believer

Toda sexta eu coloco uma música aqui. Como o fim de semana é das mulheres, eu deixo o Rei falar por mim — em espanhol…

“Mas o homem que sabe o que quer
E se apaixona por uma mulher
Ele faz desse amor sua vida
A comida, a bebida
Na justa medida…”

A coreografia de Pina Bausch a partir da música dos irmãos Gerswhin é muito bonita. Na gag, Lutz Förster dança a gravação da cantora Sophie Tucker com muito humor. O vídeo é um trecho pequeno do espetáculo Nelken, de 1982. Mais Pina Bausch aqui, aqui e aqui.

Bom carnaval!

Os fantasmas rondam as idéias que eu me aproximo. Faz um bom tempo que me interesso por fantasmagorias. Elas aparecem nos meus estudos, nas histórias que conto e que escuto. Gosto muito de criadores como Machado de Assis, Karl Marx, Manet, Goya, Andy Warhol e Andrei Tarkovski, que sempre estiveram rodeados de espectros. No trabalho que tenho preparado, sobre Warhol, os espíritos aparecem toda hora. Por vezes, tenho a impressão que eles querem tomar conta do meu texto. Pode parecer uma obsessão, mas acho que não.

The Kiss (Bela Lugosi), c.1963

Andy Warhol: The Kiss (Bela Lugosi), c.1963

Em uma conversa recente com o artista plástico José Bento, sua esposa Marina e a minha namorada Juliana, a idéia de fantasmagoria ficou mais clara. Aconteceu enquanto eu escutava a descrição de um projeto lindo que ele irá fazer. A escultura, ainda no papel, parecia se comportar tal como os fantasmas. Fiquei mais entusiasmado do que já estava com as figuras que vivem depois de morrer. Aliás, tanto, que ainda vou escrever sobre isso e sobre a produção recente do artista, mas não agora. O caso é que o que eu aprendi com os meus interlocutores, no ateliê do , me deixou ainda mais curioso. Por isso, resolvi parar e seguir a trilha das almas penadas.

Estudei ciências sociais na graduação. Naquela época, os fantasmas já me intrigavam. Lembro de ler para uma aula de Antropologia IV – com o conteúdo de etnologia ameríndia – um ensaio em que o brilhante Eduardo Viveiros de Castro falava de uma tipologia da cosmologia dos povos que ocupavam a América do Sul, antes que ela sonhasse em existir. Essa classificação, em miúdos, dividia os seres que habitavam o mundo em animais, espíritos e humanos. Claro que isso não era o centro do artigo, mas ganhou minha curiosidade. As formas em que as diferentes reflexões em torno da classificação assumiam, ao incorporar e dissociar diferentes vivos de uma categoria e outra, era como uma luva para as questões com que quero trabalhar no texto sobre o Warhol. Como eu não tenho mais a revista com o ensaio e emprestei a coletânea de textos do antropólogo para uma amiga de Manaus, saí à caça de informações, enquanto não compro outra cópia da Inconstância da alma selvagem.

Felizmente, encontrei uma entrevista muito esclarecedora do antropólogo no site Trópico. A conversa, muito bem conduzida pelo sociólogo e crítico Flávio Moura, entusiasma qualquer um. Através dela temos uma pequena amostra da reviravolta que o pensamento de Viveiros de Castro causa e ainda causará na produção de conhecimento daqui e de qualquer lugar. Sem sombra de dúvida, ele é um dos grandes intelectuais vivos. Mais tarde, merecerá mais postagens aqui. Por agora, fico na picaretagem. Surrupiei um trecho daquela entrevista e colei aqui. Soube que ela já foi impressa, está no volume dedicado ao pensador na ótima coleção Encontros, de livros de entrevista, da Azougue Editorial.

Os índios no plural, de Flavio Moura:

No trabalho de antropólogos como Darcy Ribeiro e Roberto DaMatta percebe-se a necessidade de se extrair uma noção de brasilidade. O seu trabalho examina as sociedades indígenas por um enfoque que não passa pela questão nacional. Qual seria o seu enfoque e em que medida ele se distancia das referidas interpretações do Brasil?

Eduardo Viveiros de Castro: O que me interessa não é a “questão nacional”, ou qualquer “teoria do Brasil”. O que me interessa não é, tampouco, a “questão indígena”, nome do problema que a existência passada, presente e futura dos povos indígenas significa para a classe e a etnia dominantes no país. O que me interessa são as questões indígenas, no plural -entenda-se, as questões que as culturas indígenas se põem elas próprias e que as constituem como culturas distintas da cultura dominante.

Digamos então que o que me interessa não são os índios enquanto parte do Brasil, mas os índios sem mais; para mim, se algo é parte de algo, é o “Brasil” que é parte do contexto das culturas indígenas, e não o contrário. Entre as questões indígenas encontra-se, naturalmente, e já lá vão 500 anos, a “questão dos brancos”, ou seja, o problema que o “Brasil” oferece para os povos indígenas que aqui vivem. Mas o “Brasil” é apenas um desses problemas práticos e teóricos que se oferecem aos índios, pois os brancos são apenas mais uma dentre as várias espécies (embora uma espécie particularmente problemática) de Outros com quem cada sociedade indígena deve se haver: os animais, os espíritos, os outros povos indígenas…

Uma das construções teóricas mais difundidas do seu trabalho é a noção de “perspectivismo ameríndio”. Em linhas gerais, o senhor poderia explicar em que consiste essa idéia?

Viveiros de Castro: “Perspectivismo” foi um rótulo que tomei emprestado ao vocabulário filosófico moderno para qualificar um aspecto muito característico de várias, senão todas, as cosmologias ameríndias. Trata-se da noção de que, em primeiro lugar, o mundo é povoado de muitas espécies de seres (além dos humanos propriamente ditos) dotados de consciência e de cultura e, em segundo lugar, de que cada uma dessas espécies vê a si mesma e às demais espécies de modo bastante singular: cada uma se vê como humana, vendo todas as demais como não-humanas, isto é, como espécies de animais ou de espíritos.

Assim, por exemplo, as onças se vêem como gente, vendo ainda vários elementos de seu universo como se consistissem de objetos culturais: o sangue dos animais que matam é visto pelas onças como cerveja de mandioca etc. Em contrapartida, as onças não nos vêem, a nós humanos (que naturalmente nos vemos como humanos), como humanos, mas sim como animais de presa: porcos selvagens, por exemplo. É por isso que as onças nos atacam e devoram. Quanto aos porcos selvagens (isto é, aqueles seres que vemos como porcos selvagens), estes se também se vêem como humanos, vendo, por exemplo, as frutas silvestres que comem como se fossem plantas cultivadas -mas vêem a nós humanos como se fôssemos espíritos canibais (pois os caçamos e comemos).

Há vários desdobramentos e implicações desse complexo de idéias: por exemplo, que a forma corporal de cada espécie é uma roupa ou invólucro que oculta uma forma interna humanóide; ou, ainda, que os xamãs são os únicos indivíduos capazes de assumir o ponto de vista de mais de uma espécie além da sua própria; ou, ainda, que, dada a humanidade reflexiva de cada espécie, a caça e o consumo de carne animal são empresas metafisicamente problemáticas, jamais livres de conotações canibais. Tudo isso assenta em um pressuposto fundamental, o de que o fundo comum da humanidade e da animalidade não é, como para nós, a animalidade, mas a humanidade.

Os mitos indígenas descrevem uma situação originária onde todos os seres eram humanos, e a perda (relativa) dessa condição humana pelos seres que vieram a se tornar os animais de hoje. Ou seja, se para nós os humanos “foram” apenas animais e se tornaram humanos, para os índios os animais “foram” humanos e se tornaram animais.

Nós pensamos, é claro, que os humanos fomos animais e continuamos a sê-lo, por baixo da “roupa” sublimadora da civilização; os índios, em troca, pensam que os animais, tendo sido humanos como nós, continuam a sê-lo, por baixo de sua roupa animal. Por isso, a interação entre humanos propriamente ditos e as outras espécies animais é, do ponto de vista indígena, uma relação social, ou seja, uma relação entre sujeitos.

Entre as conseqüências filosóficas mais interessantes dessa doutrina perspectivista indígena está uma concepção das relações entre “Natureza” e “Cultura” radicalmente distinta daquela que vigora, em versões historicamente variáveis, na tradição ocidental, desde o par phusis/nomos da Grécia antiga ao par nature/société do Iluminismo.

Clique aqui e leia toda a entrevista.

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