A excelente revista +Soma publicou  há uns dois meses a resenha que eu escrevi pro último disco do Mike Watt, hyphenated-man. Sempre fui muito fã do Minutemen e do próprio Watt. O trabalho mais recente foi uma grata surpresa. Nas curtas composições no disco lançado neste ano, o baixista volta a trabalhar com a estética de síntese musical que ele, D. Boon e George Hurley desenvolviam no início dos 80, a partir dos trabalhos do pintor flamenco Hyeronimous Bosch.  

O punk partiu de uma necessidade de refletir e sintetizar de maneira crítica o que até então havia acontecido no rock. O clichê do punk como inimigo do rock progressivo nada mais é do que uma interpretação pouco aprofundada sobre um grupo de pessoas que se afirmou – no final dos anos 70, começo dos 80 – reconhecendo na música popular para rádio uma estética já formada e que não precisava de diálogo com estilos mais consolidados para ser levada a sério, para dialogar com as outras coisas do mundo.

Nenhuma banda foi tão efetiva nesse sentido como o Minutemen. Inspirados pelo Pink Flag, do Wire, partiram para suas longas reflexões sobre a música em composições de pouco mais de sessenta segundos. Coisa que só amigos, obcecados por som poderiam fazer. Ao longo da carreira, começaram a elaborar esses pequenos fragmentos em composições maiores e em outros tipos de canção, sempre refletindo sobre o rock e sobre o impacto da cultura independente na sociedade.

D. Boon, guitarrista do Minutemen, definia o punk, em tradução livre, como qualquer coisa que queremos que assim seja. Após a sua morte, esta noção de liberdade continuou permeando as carreiras dos dois remanescentes da banda de San Pedro. Mike Watt, o baixista,
principalmente.

Sua trajetória errática no cenário independente americano fez com que Watt passasse em formações que vão dos Stooges aos experimentalismos dos Ciccone Youth. Mas em seus trabalhos solo, sempre parecia que o baixista mais influente da música independente americana estava tateando um caminho. Isso até o incrível “hyphenated-man”.

O disco é chamada por Watt de sua terceira ópera, mas não espere a trajetória de protagonistas com começo meio e fim ou uma interpretação roqueira de algum modelo clássico. Inspirado pelo pintor flamenco do século XV, Hyeronimous Bosch, hyphenated-man é composto de 30 pequenos fragmentos musicais (só uma canção tem mais de dois minutos) que soam como se olhássemos para uma tela cheia de personagens caricaturais e situações bizarras. São peças com significados particulares – como os personagens-provérbio de Bosch –, mas que têm um sentido comum entre elas.

É nesse painel que Watt recupera muito do poder de síntese do Minutemen (são só três instrumentos!), dialogando com a estética que o grupo construiu nos anos 80 (as canções foram compostas em uma antiga telecaster de D. Boon) e com muito da música que formou a sua geração – de Captain Beefheart e Credence a Wire, Black Flag, Gang of Four. O resultado é empolgante e esclarecedor para entender um dos personagens que ajudou a dar forma para o rock como nós o conhecemos hoje.

Ninguém fala dessa idade melhor que o rock. São as bicudas dos Undertones, os Buzzcocks aos 16, depois aos 16 de novo, os Beatles tentando pegar na mão da menina, os Ramones sempre meninos e essa música do Big Star que parece falar tudo sobre o que é o rock para mim. Frustrações de um novo tipo de gente: os jovens, um modo de vida que ainda não passa pelo mundo do trabalho mas quer sair das regras da família e, por fim, a vontade de entrar na sacanagem num grau de tensão prestes a explodir as calças.

Agora, sem perder a ternura. Tudo com muita delicadeza. Rock não é música pra gente refinada, metida a besta, de bom gosto professoral, mas também não é coisa de brucutu.

Isso é o Big Star. É a música do cara que não quer ser aceito na academia vienense de música, mas fazer sucesso com as meninas, tornar a vida soporífera da garotada do sul dos estados Unidos mais amorosa. E cantar não poesia, mas a vida, perguntando porque essa vida não podia ser um pouco, só um pouco, diferente.

Esse Alex Chilton era um gênio mesmo.

Won’t you let me walk you home from school
Won’t you let me meet you at the pool
Maybe Friday I can
Get tickets for the dance
And I’ll take you

Won’t you tell your dad to get off my back
Tell him what we said about “Paint it, black”
Rock and roll is here to stay
Come inside where it’s okay
And I’ll shake you

Won’t you tell me what you’re thinking of
Would you be an outlaw for my love
If it’s so well let me know
If it’s no well, I can go
I won’t make you

Se não bastasse a alegria descrita no post abaixo, esse final de semana ainda contou com a apresentação de Ornette Coleman em São Paulo. Fui pra capital paulista única e exclusivamente para assistir os dois shows que ele fez no Sesc  Pinheiros. Sinceramente foi uma das experiências mais ricas que eu já vivi.

O Tiago deve publicar um texto  sobre o show com muito mais propriedade sobre a obra do Ornette. O que eu prefiro falar aqui é sobre a capacidade de se fazer música e de continuar criando, mesmo após 80 anos de idade e quase 50 anos como um dos principais renovadores da música popular americana.

É lógico que o momento em que a banda tocava Peace e a luz acabou no teatro vai permanecer pro resto da vida das pessoas que lotavam o Sesc no domingo. Principalmente pela bela interpretação acústica de Lonely Woman feita pelo quarteto (que ainda contava com seu filho Denardo Coleman na bateria, Tony Falanga no baixo acústico e Albert Mac Dowell num baixo elétrico que parecia emular as guitarras de Bern Nix e Charlie Ellerbee) e da seqüência com a incrível Dancing in your head.

O vídeo desse momento supreendente e de todo o show no domingo pode ser visto no canal do trabalhosujo, também mantido pelo Alexandre Mathias, que escreveu um texto bem legal sobre o show.

Ornette não tem medo de errar e parece compor o tempo todo enquanto toca. Nas citações de suas outras músicas no seu repertório faz questão de nos explicitar como a construção harmolódica tem uma lógica forte de construção musical. É tudo muito bonito, mas como escreveu o Rubens: nada é mais legal do que a alegria de ver o pai, Ornette, e seu filho, Denardo, no palco felizes, criando e tocando com uma vontade impressionante.

GGD no Creators Project

Isso não é bem uma resenha, mas conversa fiada. Aproveito um acontecimento notável na cidade em que vivo pra levantar umas lebres.

Como disse antes, até agora este tem sido um bom ano. Vi muita exposição boa, muita música boa, gostei da Copa e gosto dos rumos do país, mas nada me pegou como a apresentação do Gang Gang Dance na festa Creators Project, da revista Vice, no último 14 de Agosto. Como em outros grandes shows de rock que vi (como Fugazi, Melt Banana, Nudes, Einstüerzende Neubauten), me senti testemunha de que algo novo, jovem, no auge, barulhento e desobediente.

Não foi por eles terem mais importância do que os outros músicos que citei no texto anterior ou por apresentarem inovações mais inovadoras. Não se trata disso. Aliás, danem-se as inovações, as linhas evolutivas o bom gosto, o que interessa aqui é a potência a capacidade de fascinar e incomodar sem tirar o pé do acelerador. Eles me ganharam por algo muito mais imediato e profundo, me pegaram por razões sentimentais. Valores que eu carrego desde menino.

Por isso tudo, achei difícil escrever um texto sobre o show. Tudo o que eu diria pareceria pouco. Não se tratava só da apresentação, mas de compartilhar algo com gente que teve a mesma experiência que eu e que identificou naquilo uma série de valores importantes revigorados. Eu estava com amigos que compartilham disso também.

Gente que — a partir de coisas tão variadas como Tarkovski ou Crass, William Carlos Williams e Paul McCarthy, Willys de Castro e Van Doesburg — acha que a arte, em geral, e  o rock, em particular,  devem ser algo autônomo, que não responde a critérios de bom gosto, a valores da “cultura” e que não se importa pra quem é velho. A música do Gang Gang Dance na dose errada (por isso boa)  trouxe todos esses sentimentos à tona. Não é pra principiantes e nem pra quem espera do rock algo elegante e pacificado. Não consegui um texto coerente, com começo, meio e final, mas reuni algumas impressões entusiasmadas e mal costuradas que a apresentação trouxe.

Gosto muito do grupo, muito mesmo. Os escutei pela primeira vez em uma coletânea do pessoal do Excepter e nunca mais deixei de acompanhá-los. A cada disco eles melhoram, e a considerar pelas músicas inéditas que tocaram, acho que o próximo disco será ainda mais legal. O show foi ainda melhor do que eu esperava. Sempre gostei de rock, mas quando era mais novo pensava o  gênero como o Julio Bressane pensa o cinema brasileiro: ou se é radical, ou não é nada. No rock isso não é apenas uma questão formal. Muitas vezes a radicalidade está em trabalhar o formato mais básico possível, em fazer algo de mau gosto, em tocar o puteiro.

O Gang Gang Dance fez tudo isso. Começaram enquanto o DJ ainda botava e mixava as músicas. Ele não abandonava o palco. Tratava-se de um evento. Daqueles com lista na porta, quase-famosos e gente importante. Como é de se esperar, muita gente pinta por lá para curtir um ver e ser visto, para a festinha ou, como preferem, balada (palavra horrorosa quando não é usada para a música lenta, diga-se de passagem). O pessoal queria continuar dançando os mastermixes. O GGD também queria festa, mas algo mais profundo, menos mundano. Surgiram no palco armando um batuque lascado em cima das batidas que saiam dos toca-discos.

A música mecânica e o baticum continuou. Foi se transformando em algo muito primitivo, muito primário, agressivamente primário, como o Bo Didley. Eis que disso eles começaram a tocar House Jam. Aí pronto, o jogo virou. Não se tratava mais de música chique, bem feita pro pessoal dançar gostoso. Mas uma música muito rítmica, ruidosa e feita de contrapontos entre uma melodia orientalizada e um som processado que parecia alheio a tudo o que era feito.

Tenho a impressão que esses novos grupos de NY retiram muito de sua música da violência do Throbbing Gristle. Aquilo se confirmou no show, no entanto, não era algo violento, mas uma espécie de transe coletivo, de algo mais informal que um show. Não por acaso, a banda trouxe a tiracolo um sujeito com cara de filipino que cumpria a mesma função que o Bez do Happy Mondays. Dançava no palco e dava um certo pulso pro show. Só que ele dançava e balançava uma bandeira preta que nos lembrava do anarquismo, mas era feita com um saco de lixo.

Parecia anedota, mas não era só isso. É que a banda indica  uma inversão do fluxo de informações que percorre uma picada criada pelos Sun City Girls. Explico melhor, no final do século passado, a banda de Charles Gocher, Alan e Richard Bishop passou a tratar a música pop de matriz americana como uma música étnica, com a suposta universalidade da mercadoria, mas que de fato, como toda universalidade, se revelava um matiz local. Assim, começaram a olhar antropologicamente pra própria música e produzir como se o que eles fizessem fosse subalterno às composições do terceiro mundo. Já falamos sobre isso no Guaciara. Vale a pena correr atrás dos Sun City Girls.

O Gang Gang Dance atua da mesma maneira. As melodias são muito orientais e as harmonias tem algo de uma combinação suja de elementos que parecem decepados de outros raciocínios da música que não o rock. Mas eles fazem rock. Só não é o rock bem comportado dos indies e nem tão formalizado em gêneros. Parece feito em transe, mas não o transe psicodélico, mas uma espécie de imersão na confusão. Como se a arte não apontasse mais para uma direção, mas nos fizesse perder por aí. O barulho aumentou, o balanço também. O público deu uma raleada, mas quem queria festa estava lá, não no agito para as fotos. Durou menos do que eu gostaria, mas o suficiente para eu sair de lá otimista.

I want discipline (enquanto a cartilagem lateja)


O Throbbing Gristle é extremo. O frontman é o Genesis P. Orridge, que além de ter feito um ótimo dicionário de arte contemporânea nos anos setenta, trabalhou durante toda a década de noventa e no começo deste milênio em um projeto estético. Foi onde vida e arte mais se confundiram. Ele e sua esposa (falecida em 2007) trocavam de gênero. Enquanto ele se tornava mulher, ela se masculinizava. Hoje ele se parece uma senhora respeitável, daquelas que teimam em não envelhecer, uma travesti velha.

O TG ele fez com sua ex-esposa Cosey Fanni Tutti, que depois casou com outro membro da banda, Chris Carter. Cosey ganhou fama antes da banda. em 1976, protagonizou a famosa exposição Prostitution, no ICA de Londres.

Vi este vídeo pela primeira vez em uma coletânea da Mute Records, no início dos anos 90. Lembro ter assistido logo depois de outra reunião de vídeos da Alternative Tentacles. Depois que vi o Z’ev e esse povo, a arrogância adolescente se escondeu alguns dias, e vi que eu não sabia de nada.



Aproveito o meu espaço no blog para homenagear as jovens trabalhadoras que vi hoje no metrô. Elas saiam do jogo e dos festejos ligados a ele e voltavam apressadamente para o trabalho. Pegariam no batente às seis da tarde, mas mantinham o sorriso de quem ganhou de três a zero e a categoria de quem quer ficar bonita mesmo torcedora.

Muitas estavam de verde e amarelo, compondo visuais diferentes. Muitas com a camisa da seleção e todas as suas variações. Algumas recortaram a camiseta e colocaram debaixo de uma outra blusa, outras vestiam uma camiseta de manga verde sob uma sem manga amarela, bem, as combinações eram infinitas e faziam elas ficarem ainda mais bonitas. Mesmo as combinações mais feinhas.

Esta música do Richard Thompson canta os momentos de alegria inversos ao que descrevi. Não se trata das meninas vestidas pra festa que voltam para o trabalho, mas quem sai do trabalho para a festa, pois no dia seguinte ela pode dormir até tarde. Aí faz uma crônica de cenas da noite britânica que qualquer um que já pisou em qualquer parte daquela ilha já viu.

I’m so tired of working everyday

Now the weekend’s come I’m gonna throw my troubles away

If you’ve got the cab fare mister you’ll do alright.
I want to see the bright lights tonight

Meet me at the station don’t be late
I need to spend some money and it just won’t wait
Take me to the dance and hold me tight
I want to see the bright lights tonight

There’s crazy people running all over town
There’s a silver band just marching up and down
And the big boys are all spoiling for a fight
I want to see the bright lights tonight

Meet me at the station don’t be late
I need to spend some money and it just won’t wait
Take me to the dance and hold me tight
I want to see the bright lights tonight

A couple of drunken nights rolling on the floor
Is just the kind of mess I’m looking for.
I’m gonna dream ’till Monday comes in sight
I want to see the bright lights tonight

Meet me at the station don’t be late
I need to spend some money and it just won’t wait
Take me to the dance and hold me tight
I want to see the bright lights tonight

Take me to the dance and hold me tight
I want to see the bright lights tonight

Como não tenho tempo para postar nada melhor, insiro o vídeo de dois conjuntos completamente diferentes. Os dois são estrangeiros, mas um delicado e outro ruidoso e todo truncado. Um chama-se Spires That in the Sunset Rise, como uma epifania cafona (onde já se viu falar de campanário, badalar dos sinos, poetas franceses, pôr-do-sol em banda de rock. Só se for gótico e doom metal, que eu estou fora), e o outro Seven Minutes of Nausea, só pra curtir.

O primeiro grupo é muito melhor que o nome dele. Aliás, é muito bom mesmo. Como parte dos melhores grupos da primeira década de 2000, carrega forte influência do Sun City Girls, Climax Golden Twins e Caroliner. Suas músicas poderiam estar entre os discos do selo Table of the Elements. Os vídeos são Party Favors in the Snow e Pouring Mind In The Snow. As músicas são excelentes. Com intervalos da música japonesa do século XIX, Debussy, essas coisas.

Depois um Seven Minutes of Nausea, só pra matar a saudade. Hoje resolvi voltar a escutar o melhor do Grindcore. Não lembrava como eles eram bons e originais.

1979

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