Quando chegamos do bar do Alemão, todo mundo se meteu no elevador e foi ver como terminariam os jogos. O Israel vinha confiante,  2 a 0 no primeiro tempo não garantia a vitória mas já despertava aquela coceira na mão de partir para as quartas de final da Libertadores da América. Os tropeços de primeiro semestre do ano do centenário não pareciam mais sinais de mau agouro. Agora era esperar acabar o segundo tempo sem nenhum susto. O Leandro, torcedor do Bahia, achava graça, todo estóico diante daquela ansiedade.

Antes de o elevador deixar o primeiro da turma, os flameguistas já comemoravam o gol do Vagner Love.

O Israel foi o último a aparecer para o almoço no dia seguinte. O Idelber apareceu cedo, mas nem falou no terceiro gol do Santos. Passou a manhã lendo o livro do Zé Paulo (que deixou a gente mais cedo, na noite anterior, depois de um tímido lamento de palmeirense doente que não quer nem mais saber de futebol, nunca mais, nunca mais mesmo), sobre a democracia corintiana, o que meio que equilibrava as coisas. Campeonato tem todo ano.

O Rodrigo aprontou um negócio incrível aqui em Curitiba, junto com a Celise e o pessoal todo do SESC Paraná. E eu não fui o único a dizer – mas eu, para falar de futebol? O Idelber, que esqueceu mais sobre futebol do que eu jamais vou saber, também não entendeu o convite no começo. Acho que essa reação só confirmou a sacada do Rodrigo: futebol, como diria o Aristóteles, se diz de muitas maneiras. Larga um microfone na mão de um pessoal que, quando não tem microfone, quase não fala de outra coisa, que com certeza algum papo bom sobre bola aparece. Eu estava na primeira mesa e, tirando a minha participação, que não vi por causa das luzes e do nervosismo, foi uma noite memorável.

A ideia era discutir futebol, as eleições, copa do mundo, política. O Israel tomou conta da mesa, que era o Leandro Fortes, o José Paulo Florenzano e eu. O Leandro explicou por que o jornalismo esportivo e o jornalismo político são tão ruins no Brasil: a passividade profissional, a falta de preparo e o mau gosto assombram as duas áreas. O José Paulo, que carrega na cabeça todo o universo do futebol brasileiro sob a ditadura, lembrou que a cooptação da seleção de 1970 foi apenas mais um ato de arbitrariedade e violência do regime militar: as práticas de liberdade da delegação brasileira espelhavam e reforçavam um movimento subterrâneo idêntico ao de muitos setores da sociedade brasileira, e que culminou com a seleção de 82, numa derrota tão sublime quanto a do movimento das Diretas Já – que não por acaso carregou como símbolo a mesma camisa amarela, o traje de celebração da liberdade e da alegria oficial do país. Eu tentei reclamar da Copa do Mundo como megaevento privado, danoso e contrário à condução democrática do desenvolvimento das cidades.

O encontro ainda segue, hoje e amanhã. A platéia estava cheia de pessoas interessadíssimas, e interessantes: estudantes de jornalismo, jornalistas, escritores, curiosos. Hoje sentam para conversar sobre arte e profissionalismo na era da imagem, sob a batuta do Lauro Mesquita, Francisco Bosco e André Mendes Capraro. Amanhã, depois da mesa sobre a democracia corintiana, a seleção brasileira e a abertura política, com Idelber Avelar, Marcos Guterman e Sócrates Brasileiro Sampaio de Oliveira, o Dr. Sócrates (sob os cuidados do Rodrigo Merheb), José Miguel Wisnik e Sócrates vão arriscar umas músicas sobre futebol. Eu trouxe uma camisa do São Paulo para ver se o Sócrates leva pro Raí assinar.

Hoje chegou um flamenguista, um santista e um dos dois torcedores do América MG da redação do Guaciara.  O Rodrigo foi cuidadoso o suficiente para garantir a representação plural da sociedade brasileira no evento.

Está sendo duca. Quem está em Curitiba e não veio precisa vir. O serviço está no post logo aí embaixo.

Javier Alberto Morales e John Michael Boling montaram este vídeo a partir de cenas de um programa do apresentador norte-americano Phil Donahue. A trilha é um pedaço da música de Jerry Goldsmith para Profecia.

Pegue o filme aqui

via http://twitter.com/tiagolyra

Clique na imagem e a amplie

Deus

Antes de tudo uma imagem assimilável

Antes de tudo uma imagem assimilável

Muita gente se escandaliza com o fato do velório do Michael Jackson ter se tornado um grande evento midiático. Eu também não gostaria de ter um caixão de um amigo ou de um ente querido cercado de outdoors no estádio, uma multidão aflita, imagens icônicas, patrocinadores e coisas do tipo, mas  nada faz tanto sentido nesse caso quanto um espetáculo bizarro.

Gostava das músicas do garoto de Gary, Indiana, mas nunca fui grande fã, daqueles que sabem detalhes da carreira. Como qualquer um que cresceu na frente de uma TV nos anos 80, eu conheço de cabeça um carrilhão de músicas e imagens produzidas pelo ex-garoto-prodígio da Motown.

Também me maravilhava com sua excelência como bailarino e pela maneira como Michael continuava a trajetória de James Brown como um criador e ídolo solitário de uma cultura negra e essencialmente americana de música, dança e entretenimento.

Lembro como eu – garoto ou mais velho – achava legal os monstros do Thriller, as tretas do Bad ou os efeitos especiais do Black or White. Também fiquei todo interessado com a gravação do They don’t care about us no Brasil,  as negociações com o tráfico, o interesse pelo Brasil, por mais besta e pueril que tenha sido. Parecia que a gente se tornava parte do cenário dessa fábula bizarra e sem fim, que teve final trágico.

Por uma dessas conjunções astrais inexplicáveis, Michael Jackson morreu justamente um dia antes da defesa de mestrado do  Tiago Mesquita, meu irmão gêmeo e velho conhecido de todos os que lêem o Guaciara. A curiosidade aqui é porque as investigações que o Tiago apresentava sobre a transição de Andy Warhol da pintura tradicional para a feita em serigrafia em muito têm a ver com  a tragédia e a tristeza do que foi a carreira e a vida do Michael.

E é na criação desses ícones e na construção de um personagem também icônico ( e no caso do Michael, constantemente modificado) que moram as semelhanças dele com alguma das coisas faladas sobre o Andy Warhol. Michael Jackson não era pra ser conhecido em um show e nem na radiola. O esquema dele era se apresentar a mim e a você pela televisão, pelo cinema ou por coisa que o valha,  a linguagem era eletrônica e em 2D, mesmo nos shows. Era a imagem sem passagem do tempo e sem endereço.

Por isso assim como os habitantes da ilha de A invenção de Morel ou os ícones de Andy Warhol, já explicados aqui, aqui e aqui,  Michael há muito tempo se tornou uma série de fantasmas que povoavam TVs, telas de computador. Uma série de personagens de fantasia. Ele era seu próprio Walt Disney que fazia de si mesmo Mickey Mouse, O Rei Leão, Branca de Neve etc.

Ao vê-lo mais uma vez, agora pela Internet, fiquei convencido disso. Levado por essa curiosidade enlutada que carrega o mundo inteiro, eu fui assistir ao videoclipe do Thriller há uns dias atrás. É engraçado como o filme diz muito sobre um mundo novo, que nascia ali. Em diversos sentidos Michael Jackson é arauto desse tipo de linguagem.

Elementos de uma convivência mais desavergonhada dos astros da música pop com a publicidade estão lá. A letra da música é uma lista de chavões dos filmes de terror. Descreve uma serie de sensações que o espectador pode sentir ao assistir um filme de terror:

‘Cause this is thriller
Thriller night
And no one’s gonna save you
From the beast about to strike
You know it’s thriller
Thriller night
You’re fighting for your life
Inside a killer
Thriller tonight, yeah”

A canção, de certa forma, é uma versão atualizada para Hollywood das platitudes repetidas pelo Kraftwerk. Se o nascente hip hop se encantava, com as batidas e os sintetizadores dos alemães, o Michael usava a temática quase industrial (que já tinha voga também na Motown).

Mas se o Kraftwerk descrevia a calculadora de bolso de uma maneira que ela se tornava quase um objeto bizarro – como o futuro dos filmes vagabundos de ficção científica da década de 50 – , ainda mais no contexto de uma canção pop, Michael fazia questão de arrastar o ouvinte pro universo dele, levava milhões de pessoas pra uma fantasia cada vez mais demencial.

E é nessas que dá pra entender o seu fascínio com filmes de terror. O barato do Michael Jackson era produzir fantasias em série em que ele era o personagem principal. A sua vida era um blockbuster permanente. É por isso que ele vivia de acordo com a expectativa do público. Na minha opinião,é daí que vem a sua obsessão com as mudanças físicas.

Antes da morte do ídolo, o crítico de arte Rodrigo Naves falou desse projeto com muito mais clareza e propósito:

Todo o projeto de Michael Jackson (que inclui o sítio “Neverland” -Terra do Nunca-, onde ele criou uma realidade permeada pela eterna infância) pressupõe, segundo Naves, “um mundo convertido em imagem”. Só assim “se pode conceber o próprio rosto como algo sem espessura, sem nenhuma resistência, algo escaneável, transformado em informação sobre a qual se pode operar qualquer mudança”. (…)

“Assim como Cristo morreu pra salvar os cristãos e produz a imagética da Pietà na pintura, assim como Marat morreu pra salvar os revolucionários franceses e produz aquele quadro maravilhoso de David, Michael Jackson teria na face algo correspondente”.

Em um desses vários especiais exibidos pela TV, ele falava que um dos momentos mais duros de sua vida foi quando uma passageira de avião – ainda na época do Jackson Five – não o reconheceu como o pequeno e belo Michael da época de ABC ou da parceria dos irmãos com Diana Ross.

Ele já era um negão adolescente, grande e cheio de espinhas no rosto. Estava longe da imagem angelical amada pelo público americano. Além disso, sofria muito com a maneira como seu rosto perdia o valor (e o pai dele não o deixava esquecer disso). A partir daí o fera nunca mais deixou de mudar.

Seu rosto e seu corpo se tornou uma mercadoria pós industrial, em permanente alteração. Nesse sentido Michael também foi um arauto, um arauto de um tempo em que o corpo pode ser modificado de acordo com a necessidade da pessoa. A travestização do mundo.

Michael em certo limite virou só uma idéia de alteração constante. Não havia matéria sobre ele que não mostrasse as suas várias faces ao longo dos anos. O mundo precisava conviver com todas elas antes de encontrar com a atual.

Era sozinho uma série de personagens holográficos, que viviam no imaginário e nas telas de TV, do cinema e dos computadores. Assim como a música que sai do rádio, a imagem do Michael também ganhou uma etereidade. Por isso que o seu enterro parece uma coisa tão impessoal, para a maior parte das pessoas é muito mais parecido com a hipotética falência da Disneyworld (ou da GM) do que com um funeral de uma pessoa querida.

Michael era importante enquanto entidade imaterial e pouco importava às pessoas. Sua vida era contada como um enredo de um filme esquisito. Era como se fosse mesmo um fantasma que aparecia de quando em quando para um culto assombroso de imagens.

Conversa sobre Deus e a origem das coisas sempre rende assunto por aqui. Às vezes traz também ótimas surpresas. O texto do Rafael Campos que o Guaci publicou ontem estimulou a Lucimara Carvalho a tirar um texto da gaveta em que ela entre em detalhes na história de Eva e Adão, da serpente e da maçã.

Vale muito a pena ler. Lucimara sabe de tudo e um pouco mais além de tudo é representante incondicional do movimento “garrafa cheia eu não quero ver sobrar” e é uma das melhores conversas do Brasil. Já era fã de carteirinha da escritora, agora sou da escrita também.

A primeira

Eva no fim da pasmaceira

Eva no fim da pasmaceira, em pintura de William Blake

O processo da criação do mundo, pelo que se pode entender do texto escrito por Moisés, não foi muito complicado. Bastou que Deus dissesse umas poucas palavras para que céus e mares e terras e tudo o mais aparecesse miraculosamente — como era de se esperar.

Embora a criação não lhe causasse desgaste físico, Deus não se dispôs a fazer tudo de uma vez só. Depois de se ocupar durante cinco dias com a natureza, dedicou-se, no sexto, à criação do homem. Diante do desafio, usou um processo diferente: esculpiu em barro uma figurinha com forma idêntica à sua e, assistido por uma imensa platéia de anjos — já sabedores do poder do chefe, mas ainda assim espantados com a proeza da criação —, soprou o boneco de barro, que imediatamente começou a se mexer e a dar nome às coisas.

Parece que o dia a dia do primeiro homem não era muito estimulante: andar daqui prali no paraíso papeando com o Pai, que lhe ensinava uma única coisa o tempo todo. Deus ficou um pouco chateado em perceber que tudo o que tinha feito não era suficiente para a felicidade do homem e, não tendo outra saída, voltou à prancheta a fim de rever o projeto. Inteligente como é, viu logo onde estava o erro. A idéia inicial sofreu, então, mudanças consideráveis. E de grandes consequências.

Não há maiores detalhes no texto, e ficamos sabendo apenas que Deus, usando uma costela de Adão, fez pra ele uma companheira, que tinha a inexplicável capacidade de fazer ela mesma, dentro de si, com uma pequena contribuição de Adão, outros iguais a ela e a ele, que no resumo eram iguais ao próprio Deus.

Depois disso, um pouco melindrado e talvez um pouco arrependido do poder que concedera à mulher, Deus inventou a serpente, dona de uma conversa muito animada e interessante.

Bíblia I

mosaíco do século XII

mosaíco do século XII

Bom, no começo eram as trevas e a face de Deus pairava sobre o Abismo, o que é um começo do caramba, vocês hão de convir. Aí Ele mandou vir a Luz, separou a terra dos oceanos, criou os peixes, os animais terrestres, as aves… mais ou menos nessa ordem. Domingão criou os gols da rodada, a cerveja e os pés pra cima. Segundona, na falta de companhia pra comentar a féria, Deus criou O cara. Não, não era o Romário. Era um tal de Adão, que não era besta nem nada e pediu pro Homem companhia, que Deus, que era fera, tirou da cartola, ou melhor da costela do marmanjo, na forma de um pitéu novinho em folha. Finalmente Adão tinha companhia pra tomar banhinho de riacho, dormir juntinho na moita, comer graviola no pé, uma beleza. Entretanto, por inexperiência ou falta de gosto, Adão achava que Eva era boa companhia dar nomes aos animais ao invés de dar nomes aos bois e ficavam num embaço que exasperou até uma cobra grande que dava um bonde por ali. Foi preciso o bicho dar um 71 no escutador de samba da Eva, que gostou do esporte e foi continuar o bem-bolado com a serpente do songo-mongo do Adão. E de troco comer o fruto proibido e ficar com vergonhinha das partes e pular na moitinha pra botar folhinha de parreira, que foi o que, compreensivamente, irritou O Velho. Frescura essa agora! Terminou essa história com Deus mandando o Homem trabalhar, perder a vida imortal e sair de casa. Ou seja, Adão se fodeu. E pra mostrar que Deus sabia castigar, além de trabalhar Adão e Eva pariram e alimentaram duas pestes nada católicas, já que um rachou a cachola do outro na disputa de quem era mais puxa-saco do Vovô. Daí em diante a Terra virou a bela bosta que é.

Raymond Pettibon: "Dont fuck with the Apocalipse"

Raymond Pettibon: "Dont fuck with the Apocalipse"

Bíblia II: Evolution

E Deus afogou, mandou praga de sei-lá-o-que, transformou em estátua de sal e ninguém se tocava. Foi aí que ele mandou o próprio Filho dar um jeito na quizumba. Mas sem autoridade e fazendo carinha de dodói pra tudo que é desaforo, Jésus deixou a desejar na função e Deus mandou voltar. Não sem antes dar uma multa de umas trocentas chibatadas, uma crucificação e um cutuco federal que vazou o mano, que ainda agonizou um dia inteiro antes de poder dar a baixa. Obrigou a hora extra, vai vendo. Mas parece que isso foi o suficiente pra nos salvar, já que agora a gente pode viajar com o dinheiro do erário que nem praga de gafanhoto cola mais. Ou será que a gripe palmeirense é um presságio?

por falar em deus:

pecados

Como George Bush, o ainda presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad é um típico representante do Partido de Deus. Conservador, apegado a valores antigos e cheio de verdades pra distribuir. Religião pra mim sempre foi uma questão de escolha, um tema íntimo. Política não, diz respeito a todo mundo. Até quando o sujeito quer distância da política, ele está se expressando politicamente por alguma coisa.

Agora, quando se aplica a razão religiosa quase sempre o que sai daí não é boa coisa. Deus nunca é o melhor conselheiro para quem vota. E pelo jeito a “busca espiritual” se tornou a melhor conselheira das farsas eleitorais e do comportamento agressivo de governos. O novo episódio dessa história acontece agora no Irã,

A treta começou quando o Ministério do Interior do Irã divulgou a reeleição de  Ahmadinejad. Segundo os números oficiais o atual presidente teria obtido 62,6% dos votos, contra 33,8% de Mir-Houssein Mousavi. O candidato de oposição automaticamente entrou com reclamação de fraude e pediu recontagem e votos.

De acordo com apurações da oposição e com documento apresentado pela quadrinista Marjane Satrapi e pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf no parlamento euopeu:

O documento estabelece o número de votos para Mussavi, 19.075.723, para (Mehdi) Karubi, 13.387.104, e para Ahmadinejad 5.698.000: isto é tudo.”

Os números não são oficiais e os pró-Ahmadinejad podem dizer que Marjane é uma dissidente crítica do regime dos Aiatolás, e Makhmalbaf um inimigo de Ahmadinejad que acusa o Irã de estar se tornando uma república fascista. Não estariam errados, mas estariam omitindo fatos importantes sobre os dois artistas.

De qualquer forma, muita gente na Internet como o Pedro Doria (que vem feito uma cobertura bastante extensa da situação no Irã) e o conservador Daily Telegraph confirmam os argumentos dos oposicionistas iranianos e apontam que há fraude mesmo. O sistema eleitoral iraniano é bastante complicado e mudanças com a bola rolando são uma praxe pra legitimar as vontades dos aiatolás.

O que não tira o mérito de uma transformação que está acontecendo agora no país. Uma geração de jovens está se mostrando descontente e cansada por viver de acordo com regras religiosas em grandes protestos de rua. E a mudança está sendo feita por um grupo novo e eleitores que , como escreve Pedro Doria, não viveu nem a queda do Xá e nem a guerra Irã -Iraque. O mais interessante é que as tais ferramentas da Internet 2.0 é que permitem que a gente acompanhe isso minuto a minuto.

Na semana passada o blog da Petrobras era saudado no no Brasil por ter furado o bloqueio ilusionista de uma imprensa excessivamente ideológica nos julgamentos e pouco cautelosa na reprodução de declarações. Uma nova maneira de se informar. No caso iraniano é o twitter que se mosra como uma ferramenta mais do que útil para furar a censura do país e se informar sobre os protestos oposicionistas. Até o momento a fonte de informação mais atualizada são a dos seguintes canais do twitter #IranElection, #Tehran, #Iranians, #Iran9.

É com IPs falsos que a oposição do Irã invadiu a Internet com microtextos, fotos e vídeos escritos a partir de telefones celulares. Dessa forma, a população do Irã criou uma verdadeira rede de informações. Além de usar textos, fotos e vídeos que vão para os sites colaborativos. Discursos, palavras de ordem e material de oposição é distribuído pelas passeatas via Bluetooth. Reproduzo aqui um trecho de um post no blog da Nation sobre o assunto (a tradução livre e tosca é de minha inteira (ir) responsabilidade):

Esqueça a CNN ou qualquer uma das maiores redes de notícia americanas. Se você quer a última notícia sobre os protestos da oposição o Irã, você devia estar lendo blogs, assistindo o YouTube ou seguindo as atualizações do Twitter feitas em Teerã minuto a minuto.”

A Al Jazeera também já se ligou do fenômeno e colocou uma boa matéria sobre o assunto no ar:

O curioso, como mostra a Al Jazeera é que para tirar as transmissões via twitter do ar, as autoridades teriam que suspender toda telefonia celular do país do ar. Uma tarefa para lá de difícil em um lugar grande e com uma economia tão complexa como o Irã. Por isso, assim como os discursos do Obama são pensados para impactar o mundo inteiro via YouTube, as manifestações e cenas feitas no Irã também parecem feitas para colocar pressão internacional sob o resultado eleitoral.

Há quem diga que o barulho em torno da divulgação via twitter é excessivamente mistificado pelos entusiastas da tecnologia. Que tudo o que acontece por lá aconteceria com ou sem a ferramenta, mas sem dúvida a chegada do twitter e a possibilidade de cada pessoa produzir e divulgar conteúdo (escrevendo, filmando e tirando fotos) vai dificultar muito a vida de qualquer governo autoritário e de qualquer bloqueio ideológico, seja da grande imprensa, seja de governos autoritários.

Mike Westbrook musicou esse poema de William Blake. O gravou em 1981 com a sua Brass Band no Paris Album. A música é tocada por:

Mike Westbrook: piano e tuba
Kate Westbrook: Flautas e vocal
Phil Minton: Voz e trompete
Chris Biscoe: Saxofones e piccolo
Alan Wakeman: Saxofones
Dave Barry: Percussão
O poeta Adrian Mitchell que inventou essa história. Mitchell foi um dos grandes poetas militantes do século XX  britânico.

Graças a ele, podemos escutar o grande Phil Minton cantando Blake mais uma vez.



Long John Brown and Little Mary Bell (William Blake)

Little Mary Bell had a Fairy in a nut,
Long John Brown had the Devil in his gut;
Long John Brown lov’d little Mary Bell,
And the Fairy drew the Devil into the nutshell.

Then the Fairy skipp’d out of the old nutshell,
And woe and alack for pretty Mary Bell!
For the Devil crept in when the Fairy skipp’d out,
And there goes Miss Bell with her fusty old nut

Her Fairy skipp’d out and her Fairy skipp’d in;
He laugh’d at the Devil, saying `Love is a sin.’
The Devil he raged, and the Devil he was wroth,
And the Devil enter’d into the young man’s broth.

He was soon in the gut of the loving young swain,
For John ate and drank to drive away love’s pain;
But all he could do he grew thinner and thinner,
Tho’ he ate and drank as much as ten men for his dinner.

Some said he had a wolf in his stomach day and night,
Some said he had the Devil, and they guess’d right;
The Fairy skipp’d about in his glory, joy and pride,
And he laugh’d at the Devil till poor John Brown died.

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