O Rafael, mais uma vez, nos presenteia com sua crônica esportiva. Dessa vez o tema é o embate entre Real Madrid e Barcelona e a pose de pavão macho-alfa do técnico Mourinho. O texto está ótimo:

Só mesmo Mourinho pra escalar alguém que conseguiu bater no Felipe Melo. É o mesmo que contratar um segurança que foi demitido pelo César Maluco pelo uso desnecessário da força, ou um cientista que foi considerado antiético pelo Mengele. Na primeira parte do campeonato espanhol, Pepe, depois de cometer um pênalti em Casquero (Getafe), o chutou duas vezes no chão, de forma acintosa, e depois de expulso, resolveu que talvez inutilizar o atleta para o resto de sua vida profissional seria de bom tom, pisando assim em suas duas pernas (gesto repetido pelo lateral Marcelo, por sorte pela metade, no clássico contra o Barcelona). Mas tudo bem. O futebol é resultado. È guerra. Vamos quebrar o Zidane, porque humilhou a seleção brasileira, vamos arrebentar o Maradona, vamos invadir o Peru, porque não podemos mais explorar seu petróleo por um terço do preço, vamos maltratar todo mundo que não torça pro nosso time, que não vote em nosso partido, que não goste de nossos amigos imbecis!

Tenho uma teoria sobre a admiração homossexual que todos os macho-alfa que conheço têm pelo Mourinho, que é exatamente essa: tesão homossexual. Bonitão, no estilo bofe de meia-idade, caucasiano, arrogante, europeu, “vencedor”, pragmático. Mourinho é o próprio papaizinho dos filmes de foda, o doutor House, o Grisson do C.S.I, o Eastwood em que todo fracassado como eu e você podemos nos espelhar na fantasia. Tudo dá certo pra ele. Ele tem a grana e contrata os mais badalados metrossexuais do futebol, incluindo o protótipo mundial do gênero: Cristiano Ronaldo (de resto grande jogador, e preferido entre os detratores do baixinho, sem-graça, terceiro mundista e, pior que tudo, discreto, Messi).

Mourinho também é a própria imagem da imagem capitalista, seu arquétipo totalitário e totalizante, sua fantasia como Reino. Futebolisticamente, Mourinho atua no clichê do técnico retranqueiro do segundo milênio. Coloca  jogadores talentosos como meias-fazem-tudo, o que, numa vitória, leva o nome do técnico ao topo e, numa derrota, ressalta as dificuldades de marcação de um Ozil, por exemplo. Foi assim com a Inter, quando o espetacular Sneijeder e o incrível Eto’o ficaram reduzidos a volante de contenção e lateral-esquerdo, respectivamente. A vitória, como frisei, passa para o gênio-alquimista capaz de transformar talento e espontaneidade em obediência e robotização, e nunca para o novo robô, que obedece para garantir, pelo menos, o seu lugar no time titular, tendo em vista que o que ele fez, outro faria. Pior, mas faria. Já disputar a artilharia por 10 anos em diferentes países da Europa, só o Eto’o mesmo. Os reservas, no futebol, fazem às vezes do exército de desempregados mantidos pelo capitalismo na sociedade laboral. Sua presença pressiona e submete quem fica no cargo.

Enfim, é dessa coisificação e serialização da alteridade que vem a admiração que Mourinho desperta nos medíocres resignados: a demolição à resistência ao fundamentalismo capitalista. Isso sem falar no marketing esportivo. No meu tempo, era defeito ser marqueteiro. Hoje em dia todo mundo acha graça em falar mal por intermédio da imprensa e encher o real com a própria imagem. Eu acho feio, mas estou meio sozinho nessa.

Evidentemente, Mourinho não é burro. seu uso do animal Pepe, que de resto sabe o que fazer com a bola (quando não está preocupado em desabilitar fisicamente adversários), é bastante original: como os meias jogam bem abertos e tem que marcar os laterais, o marcador Pepe aparece pelo meio depois dos laterais e, portanto, dos meias ofensivos, marcando exatamente no meio do campo, e não na sobra dos zagueiros.

Berra pequeno Mouro

Berra pequeno Mouro

Colocados os jogadores, homens-do-corpo no seu devido lugar, o homem-cérebro ateniense ocupa o trono que sempre lhe foi destinado, e torna-se a um só tempo, autor e ator, e assume os ares histriônicos de um Felipe Scolari e de José Mourinho. O atual técnico palmeirense, antes de ganhar facilmente a pior copa do mundo da história do futebol com dois dos maiores atacantes dessa mesma história, era uma figura ainda posta em dúvida, principalmente pela truculência apregoada em campo (quem não se lembra do gesto de “quebra”, contra o ponta flamenguista Sávio, quando ainda era técnico do Grêmio?). Luis Felipe, como Mourinho, também nunca foi bobo, e em um dós-de-peito psicológico impressionante, conseguiu manter atiçados uma dupla tão díspar como o ciclotímico Rivaldo e o egoísta patológico (futebolísticamente falando) Ronaldo, no ataque da competição. Ronaldo, aliás, que se transformou no próprio marketing que o destruiu como jogador concreto e o criou como imagem. Muita gente acha simpático o twiteiro-mor do futebol brasileiro ser uma máquina de dinheiro ligada à CBF, à Globo, ao Faustão, aos cartolas do futebol. Eu tenho saudade de quando ele era uma máquina sem nenhum carisma, que destroçava os adversários porque o seu corpo calava a própria História.


Seguem histórias do nosso ídolo inspiradas no gato que morava com ele: Pantera.

Rafa está de volta com o fanzine “agora é o Sudão n° 4.720“. Como ele mesmo explica:

nesse número: Deus (essa gostosa), gibis que ficaram ultrapassados para a publlicação nos jornais (não tenho mais gato) e ainda servem para meios arcaicos com a internete e coisas publicadas no jornal que vcs não viram porque não compraram (o jornal, digo).”

Como sempre vale muito a pena. E nesse período em que a insistente burritzia nazi-brasileira insiste que um racismozinho aqui ou ali não faz mal nenhum, um herói dedicado aos bem-humorados sinhozinhos de engenho de M… do Leblon.

 

Segue um trecho do brilhante especial de natal do grande Rafael Campos Roha. Deixo o arquivo todo para baixar depois dos quadrinhos.

Com muito amor todos do Guaciara desejam o melhor natal a todos os leitores e amigos do blog.

o especial na íntegra

Wesley Sneijeder é um gênio do futebol. Como sabemos que o futebol – como a arte e a filosofia – é uma atividade corporal, o primeiro item de sua genialidade é a sua excepcional capacidade física. Sneijeder é ambidestro, podendo fazer lançamentos precisos com os dois pés. Se ele pudesse, como podem inúmeros craques, tudo bem. Mas Sneijder realiza lançamentos precisos com os dois pés, quase sempre assistências para gols, em quase todos os jogos que você puder assistir dele. Só isso já o torna o mais efetivo meio-campista que eu vi desde Zidane.

Além disso, o holandês é excelente driblador e chutador. O que significa que quando dribla, Wesley está buscando espaço para o arremate, e não somente praticando “futebol-moleque”, essa praga midiática que ocupa nossos instantes preciosos nos estádios e em frente às nossas televisões. Outra característica do holandês que me entusiasma é o número de vezes que Sneijeder consegue roubar a bola dos adversários quando dá o bote. Sempre me desespero com jogadores ofensivos marcando, porque a única coisa que conseguem, geralmente, é derrubar o adversário ainda no campo de defesa. Quando não tomam o amarelo, irritados por tentarem tirar a bola, sem sucesso, de um jogador inferior tecnicamente. Além do que, em geral os craques do ataque não obedecem – e não estão acostumados a obedecer – esquemas táticos rígidos. O esquema tático de ataque rígido acaba por destruir a principal e mais eficiente característica do ataque, que é a surpresa. E sabemos, a essa altura do campeonato, que se um sistema de defesa não comete erros, dificilmente um atacante, por mais talentoso que seja, pode penetrá-lo. Afinal, para destruir uma jogada basta um bico pra frente. É um trabalho delicado o de ataque, que pode dar errado com qualquer suspiro. O defensor também não pode errar, mas não precisa criar.

Criação e precisão são duas coisas muito difíceis de serem colocadas juntas. Daí a raridade de homens como Ronaldo e Eto`o no futebol mundial.  Enfim, criar sem um esquema rígido que o sustente é o que faz o futebol superior à pintura, por exemplo. Isso no caso do meio de campo pra frente, já que, como dissemos, os sistemas de coberturas dos zagueiros ou mesmo de marcação da zaga devem mais ou menos rígidos, justamente para diminuir a margem de atuação dos atacantes e meiocampistas ofensivos.

 

Wesley Benjamin Sneijder (1984)

Voltando ao nosso herói, perder a bola pra Sneijeder é um perigo, porque sua primeira providência não é verificar o penteado no telão ou estufar o peito para ouvir o aleluia da platéia. Sua primeira providência é despachar Eto`o ou Robben para correr em direção ao gol adversário. É verdade que o meia nunca mais foi o goleador e driblador agressivo do Ajax, e não somente por ter passado pelo túmulo de craques Real Madrid. Afinal, é cada vez mais difícil repetir feitos de um ano no seguinte, no futebol mega-informado da atualidade. Os jogadores de ataque são destrinchados até a alma pelos adversários. Além, é claro, do Real ter a estranha característica de fazer desaparecer jogadores estupendos como Kaká. Não é tão estranho, na verdade. O Real foi campeão com Sneijeder, se não me engano.

O que acontece é a maldição do “Dream Team”, das super estrelas midiáticas que não conseguem exercer sua profissão em paz devido à caterva midiática (mais mídia!) que paira ao seu redor. Aconteceu com o Real de Zidane e Beckham e com o selecionado brasileiro de 2006. Mas aconteceu realmente algo estranho com Sneijeder na Copa do Mundo. E com toda seleção holandesa. Seu vistoso e agressivo futebol das vésperas foi substituído por um pragmatismo triste, porque baseado na catimba e na violência de um Van Bommel, de longe o mais detestável futebolista da atualidade. Mas isso tudo já foi explicado com maestria por Tostão, o Lorenzo Mammì da nossa imprensa esportiva.

Parte 2

Apesar do seu incrível talento, Sneijder não é o maior meio-campista da atualidade, no meu entendimento. Esse é Xavi Hernándes. Campeão cinco vezes pela liga, três pela Supercopa, duas pela Champions e um Título Mundial de Clubes. Isso só pelo Barcelona. Xavi também deve ser o mais importante jogador da história da Espanha, com um Mundial Sub-20, Prata nas Olimpíadas de 2000, uma Eurocopa e o último mundial da FIFA. Seu estilo preciso e austero lembra o de seu sucessor no Barcelona e atual técnico, Pepe Guardiola, um cracasso de bola que, juntamente com Romário, StoichkovLaudrup fizeram não somente esse cronista, mas todo mundo que gostava de bola e conseguia sintonizar a Bandeirantes a torcer pelo Barcelona do início dos anos 90.

 

Xavier Hernández Creus (1980)

Xavi combina a obediência cega à marcação a uma saída de bola rápida e precisa ( mesmo que não pareça rápida. Na verdade é rápida porque é precisa). Tem um drible fácil e elegante, sem os malabarismos e exibicionismos que tanto exasperam esse crítico diletante. Se é possível para Xavi, arrisca lançamentos em profundidade, sempre rasteiros, e nunca de longuíssima distância (uma preciosidade dos tempos de Gerson que hoje só é cometida por zagueiros quando seu time não tem meio-campistas).

Xavi é muito pequeno, mas protege a bola com perfeição, e dificilmente, aliás, raramente, a perde para um adversário. Esse seu lado zagueiro e estruturador, deixou-o um pouco fora dos holofotes na época áurea de Ronaldinho Gaúcho, que parecia ser um camisa dez capaz de levar a bola pela lateral do campo e aplicar elásticos e fazer gols de bicicleta. Um mal-entendido que foi superado pela escalação de Gaúcho como atacante recuado por Felipão e pela lucidez de Zagallo, que declarou a ausência de “pulmão” para que Ronaldinho pudesse ser realmente um meio-campista.

Mesmo assim, e apesar de uma série de contusões longas nos tornozelos e outros alvos de volantes adversários, Xavi deve, ao final de sua carreira, ser considerado o jogador mais importante de um dos mais importantes clubes do século. A não ser que Messi continue sua média – algo anos 60 – de fazer 1 gol por jogo. Aí realmente não há Estrutura Histórica que aguente.

 

Na campanha eleitoral, até o Belzebu apareceu. Os tucanos colocaram Satã no centro do debate eleitoral. Discutiram uma suposta amizade dele com o Michel Temer e tentaram associar o único partido com base do Brasil ao coisa ruim. Na falta de vínculos factuais, ficou rídiculo. Bem, pior pra eles, melhor pro Brasil.

Na melhor tradição etnográfica, Rafael Campos Rocha nos mostra que mais que nos posicionar diante da criatura infernal, precisamos entendê-lo. Só assim, perceberemos que Lucifer não é  isso tudo que falam dele.

Por fim, o blog tem a honra de publicar uma das histórias mais engraçadas já produzidas pelo nosso sócio Rafael Campos Rocha.

O quadrinho foi publicado originalmente na Ilustríssima (que está cada vez melhor), editada pelo grande Paulo Werneck. Por falar na exposição e no caderno, leiam aqui os dois bons textos que eles publicaram  no fim de semana passado, sobre o qui pro quó em torno da obra do Nuno Ramos.

Publicado no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo

Aliás, ainda estou a dever textos sobre a temporada de arte em São Paulo. Ontem mesmo, revi o vídeo do Marcellvs L. na Paralela. O artista, que mora na Alemaha, é um dos artistas brasileiros mais consistentes. Nunca escrevi nada sobre ele, já passou da hora…

PS: Perdemos um grande colaborador, mas ganhamos um blog de primeira. Pablo Pires, conhecido de quem acompanha esse espaço eletrônico, toca uma página excelente: Longes. É dedicada à política internacional e supimpa.

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