Cada dia me interesso em quem faz da música algo tão sério quanto a própria vida e sabe que o ato de tocar pode ser confundido com o próprio viver. O Joe McPhee é um desses caras.

Recomendado pra quem ainda acha que as discussões sobre distribuição e impacto mercadológico a são menos importantes que a criação.

A excelente revista +Soma publicou  há uns dois meses a resenha que eu escrevi pro último disco do Mike Watt, hyphenated-man. Sempre fui muito fã do Minutemen e do próprio Watt. O trabalho mais recente foi uma grata surpresa. Nas curtas composições no disco lançado neste ano, o baixista volta a trabalhar com a estética de síntese musical que ele, D. Boon e George Hurley desenvolviam no início dos 80, a partir dos trabalhos do pintor flamenco Hyeronimous Bosch.  

O punk partiu de uma necessidade de refletir e sintetizar de maneira crítica o que até então havia acontecido no rock. O clichê do punk como inimigo do rock progressivo nada mais é do que uma interpretação pouco aprofundada sobre um grupo de pessoas que se afirmou – no final dos anos 70, começo dos 80 – reconhecendo na música popular para rádio uma estética já formada e que não precisava de diálogo com estilos mais consolidados para ser levada a sério, para dialogar com as outras coisas do mundo.

Nenhuma banda foi tão efetiva nesse sentido como o Minutemen. Inspirados pelo Pink Flag, do Wire, partiram para suas longas reflexões sobre a música em composições de pouco mais de sessenta segundos. Coisa que só amigos, obcecados por som poderiam fazer. Ao longo da carreira, começaram a elaborar esses pequenos fragmentos em composições maiores e em outros tipos de canção, sempre refletindo sobre o rock e sobre o impacto da cultura independente na sociedade.

D. Boon, guitarrista do Minutemen, definia o punk, em tradução livre, como qualquer coisa que queremos que assim seja. Após a sua morte, esta noção de liberdade continuou permeando as carreiras dos dois remanescentes da banda de San Pedro. Mike Watt, o baixista,
principalmente.

Sua trajetória errática no cenário independente americano fez com que Watt passasse em formações que vão dos Stooges aos experimentalismos dos Ciccone Youth. Mas em seus trabalhos solo, sempre parecia que o baixista mais influente da música independente americana estava tateando um caminho. Isso até o incrível “hyphenated-man”.

O disco é chamada por Watt de sua terceira ópera, mas não espere a trajetória de protagonistas com começo meio e fim ou uma interpretação roqueira de algum modelo clássico. Inspirado pelo pintor flamenco do século XV, Hyeronimous Bosch, hyphenated-man é composto de 30 pequenos fragmentos musicais (só uma canção tem mais de dois minutos) que soam como se olhássemos para uma tela cheia de personagens caricaturais e situações bizarras. São peças com significados particulares – como os personagens-provérbio de Bosch –, mas que têm um sentido comum entre elas.

É nesse painel que Watt recupera muito do poder de síntese do Minutemen (são só três instrumentos!), dialogando com a estética que o grupo construiu nos anos 80 (as canções foram compostas em uma antiga telecaster de D. Boon) e com muito da música que formou a sua geração – de Captain Beefheart e Credence a Wire, Black Flag, Gang of Four. O resultado é empolgante e esclarecedor para entender um dos personagens que ajudou a dar forma para o rock como nós o conhecemos hoje.

Pablo Pires é um dos consultores do Guaci em temas internacionais. Autor do blog Longes, ontem ele nos enviou o seguinte e-mail:

Só pude imaginar o Guaciara para dar conta do meu delírio madrugadôncio. Como de praxe, leio até altas horas e a The Nation está com uma proposta de “qual a melhor canção de protesto de todos os tempos?

O que é ótimo, boas indicações e pesquisa. Mas me deu vontade de falar do Brasil. Daí gastei umas horas tardias e fiz esta lista. Não é o caso do meu blog, mas acho que pode ser o caso do Guaci. A verdade é que fiz com cuidado, mas, só eu não vale. Daí pensei em fazer uma enquete também.

Na verdade, me interessei em saber o que é, o que ficou, sob vários parâmetros… Importância histórica, significado na época, mas, o que nós, da geração posterior, pega e o que fica, a estética e a política, enfim, acho que dá caldo.

Claro, você vai entender a lista e, bora….

Segue minha lista primeira é esta (querendo que seja contestada e acrescida…)

1 – Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores” 60′s

2 – Chico Buarque, “Apesar de você” 70′s

3 -Maria Bethânia (versão da composição de Joao do Vale/José Cândido’) “Carcará” 60′s

4 -  Elis Regina (versão da canção de Belchior) “Como nossos pais” 70′s

5 – Nara Leão (versão da música de Ze Ketti)  “Opinião” 60′s)

6 – Tom Zé, “Todos os olhos”, 70′s

7 – Caetano Veloso, “Proibido proibir” 60′s (versão original do discurso no FIC)

8 – Sérgio Sampaio, “Eu quero é botar meu bloco na rua” 70’s

9 – Raul Seixas, “Paranóia” 70′s

10 – Mutantes, “Panis et Circenses” 60′s

11 -Gonzaguinha, “Vamos à luta” 80′s

12 – Elis Regina (versão de música de João Bosco e Aldir Blanc) “O Bêbado e a equilibrista” 70′s

13 – Marília Medalha, Edu Lobo, Quarteto Novo e Conjunto Momento Quatro “Ponteio” 60′s

14 - Gilberto Gil, “Aquele abraço” 70′s

15 -  Gal Costa (composição de Jards Macalé e Waly Salomão) “Vapor Barato” 70’s

Como o Pablo deixa claríssimo, a idéia é comentar, criticar e sugerir novas listas aqui na caixa de comentários. Acho que a conversa rende demais.

O Brasil é um país que sempre zelou por um preconceito velado, por acobertar suas violências com uma suposta cordialidade, onde todos conviveriam juntos e as diferenças seriam percebidas de maneira leve e sem maiores danos.

O argumento está presente em discussões contra a ação afirmativa nas universidades e até para questionar o racismo na obra de Monteiro Lobato. Muito malabarismo verbal foi gasto.  Como a escritora Ana Maria Gonçalves expõe brilhantemente no texto linkado acima:

Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como “macaca de carvão”, “urubu fedorento”, “beiço”, “carne preta”, seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: “O vício do cachimbo deixa a boca torta”.”

O constrangimento explícito no  discurso do “não somos racistas” expõe o medo de reconhecer uma sociedade conservadora, muito preconceituosa e que se nega a reparar os seus erros. No momento em que o governo seriamente tentou construir uma saída legal contra esse tipo de violência e tentou reparar preconceito e abusos, a violência voltou em forma de campanha de guerra.

A campanha de José Serra, nesse ano:

- se posicionou  contra o PNDH3;

- contava com um vice abertamente contrário à política de Direitos Humanos de Lula  – e até de FHC;

- contava com apoio de skinheads, monarquistas, fanáticos religiosos;

- e utilizou  materiais dos extremistas de direita da TFP.

Com isso, parece ter destampado o bafo velado de uma sociedade desde sempre violenta, racista e decisivamente homofóbica.

Sujeitos que gastavam o latim para justificar seu preconceito, agora partem pra porrada sem meias palavras. Deixam o mau-hálito da intolerância destampado e ainda se orgulham disso, feito se fosse autoritária uma sociedade em que o racismo seja inaceitável e onde pessoas do mesmo sexo possam legalmente construir uma vida conjunta.

Para muitos se tornou aceitável que um deputado ou um pastor possam pregar ódio e violência contra terceiros  impunemente. Um sacerdote sobe ao seu púlpito e declara que o homem que ama outro homem ou a mulher que ama outra mulher são criaturas contra a humanidade e acusa quem o questiona de estar “limitando a sua liberdade”.

O parlamentar direitista defende a agressão física contra crianças e adolescentes homossexuais e ainda sai com a seguinte declaração: “Não venham querer se impor, achar que são uma classe a parte, que são privilegiados”. Sinceramente, se eu sair defendendo o espancamento sem misericórdia de ex-militares que falam merda a torto e a direito, o mínimo que vão me chamar é de maluco, terrorista ou alguma coisa dessas.

A mídia noticia tais barbaridades, mas também se recusa e faz campanha contra qualquer  legislação clara para evitar que abusos sejam cometidos em nome de uma falsa liberdade de expressão.

E é aí que mora a briga, o cerceamento a essas práticas não se tornou lei de fato. Nas brechas dessa fragilidade legal (ou de falta de leis),  os conservadores aproveitam para destilar ódio e preconceito contra qualquer um que não esteja em seus padrões. É por essa falta de regulamentação que um panaca como o Bolsonaro não pode ser caçado por falta de decoro parlamentar.

O resultado desse caldeirão violento é a onda de homofobia e preconceito que o país vive de maneira muito forte. Sim, o crescimento do racismo e do preconceito contra regiões do país é filho de uma campanha eleitoral sórdida apoiada por setores que até pouco tempo não tinham quase nenhuma voz no país. Repito: militares, skinheads, grupos extremistas como a TFP e religiosos fanáticos.

O vácuo programático em que o PSDB mergulhou e sua renitência em explicitar seus compromissos com o setor privado acabaram na adoção de um discurso violento e intolerante por um partido que antes era conhecido por ser “em cima do muro”.

O discurso veio de encontro a um estilo de campanha feito pelo PSDB que, desde 1998, flerta com a estratégia de apavorar o eleitorado. Na reeleição de FHC e em 2002 o tom era do “inevitável colapso da economia” de um eventual governo petista. O tal risco Lula nada mais era do que uma campanha publicitária contra uma institucionalidade já estabelecida no campo fiscal no Brasil.

O crescimento econômico e o sucesso dos programas sociais do governo Lula, calaram esse discurso. A partir daí restou a eles – em 2006 – falar sobre o mensalão e os escândalos de corrupção do governo Lula. Também não pegou. A falta de discurso empurrou o PSDB a dar mãos a grupos que baseiam sua sobrevivência na intolerância. No caso da homofobia e do aborto, eles contaram com o apoio de uma parte da CNBB com sede de sangue por ter seus preceitos “afrontados” por um estado que deveria ser laico.

O azedume do discurso eleitoral continua a frutificar em atos violentos e gritaria intolerante e os efeitos dessa bomba relógio plantada por apoiadores da campanha Serra ainda estão longe de passar.

Quem duvida do crescimento das ocorrências pós-segundo turno ou não acredita no peso do clima eleitoral na violência vale dar uma olhada nos dados da SaferNet que registra um crescimento de 88% nas denúncias de homofobia na Internet. Os casos recentes de agressão na Avenida Paulista e em Porto Alegre são apenas o lado mais visível de uma situação que tomou uma proporções assustadoras recentemente.

…o Blog do Guaciara anuncia explicitamente seu apoio à candidatura de Dilma Rousseff. Os motivos foram expostos ao longo dessa campanha, e procuramos contribuir, sem apoio cego nem incondicional, para que fosse bem sucedida.

Só saberemos se a campanha foi vitoriosa amanhã à noite. Mas temos a impressão de que fizemos a nossa parte.

Convidamos todos os nossos amigos e colaboradores a expressar, nos comentários, o seu apoio – ou não – a Dilma.

Desejamos a todos uma boa votação amanhã.

Mesquita na panfletagem

Mesquita na panfletagem

Tinha me esquecido como campanha eleitoral na rua cansa e faz bem. Nesse ano, meu pai, o Marcos Mesquita decidiu sair candidato a deputado federal (para quem quiser votar, o número é 1399). Ele é um quadro do PT sul-mineiro desde que eu me entendo por gente, foi vice-prefeito e secretário da Saúde (por duas vezes). Até semana que vem, eu devo escrever um post mais detalhado sobre a importância de se votar nele. Sou filho da fera, mas acho fundamental colocar uma figura dessas na câmara.

Um link recente do Lula falando sobre o Vinícius de Morais diz muito sobre as razões por que eu acho ele um bom candidato. Médico, músico, professor e político, o Mesquita é o sujeito mais democrático que eu conheço. Isso se reproduz no sorriso e na disposição de dialogar com todos. Não é  à-toa que é uma das pessoas mais celebradas e amadas que eu já vi (e isso vem de muito antes da candidatura). Mas deixa a rasgação de seda de lado, vou contar o que vi nesse feriadão.

A campanha dele passa longe dessas superproduções de parlamentares midiáticos e é bem modesta, sem profissionais com bandeiras ou panfletos. É composta essencialmente de militantes do Sul de Minas e de amigos. E é nesse quesito que ela é forte. Só a injeção de amizade que ele e todos os participantes da campanha recebem quando vão divulgar seu nome já valeu meu feriado inteiro (e olha que ele teve mais um monte de coisas legais).

Nesse 7 de setembro, eu me juntei às dezenas de amigos que foram as ruas divulgar a candidatura do Mesquita na avenida principal de Pouso Alegre. Uma multidão de mais de 10 mil pessoas se reúne ali para ver exército, polícia, bombeiros e escolas públicas desfilarem com suas fanfarras em ritmos monótonos e com pouca dinâmica.No geral, querem ver os tanques, helicópteros, filhos, sobrinhos, primos e netos que se mostram na  avenida.

Tinha gente de tudo quanto é tipo, fazendo campanha e assistindo ao desfile.  Por causa disso, uma panfletagem dessas faz você aprender muito sobre quais são as expectativas das pessoas em relação a política e por que pautar o debate só no que repercute pela Internet – pelo menos por hora – é muito equivocado.

Além disso, é o momento de vivenciar a democracia de verdade. São centenas de cabos eleitorais divulgando as mais diversas plataformas políticas e combinações partidárias (ainda mais em Minas onde o quesito diversidade de alianças ultrapassa bastante os limites imaginados por qualquer cientista político). E entre pessoas de saco cheio, outras receptivas, velhinhos que só querem bater um papo todo mundo pergunta (ou se pergunta) pra que eu vou votar nesse cara.

Os votos para deputado federal e estadual são os últimos a serem colocados nas ponderações dos eleitores brasileiros. Muitas pessoas votam com base em critérios fisiológicos. O Brasil ainda é um país de carências gigantescas. Na opinião de boa parte do eleitorado, o Estado é um´provedor que só aparece na época de eleições.  Mas muita coisa tá mudando e eu acho que o personagem Lula, suas políticas sociais, seu discurso de valorização dos mais pobres e a prática de inserção das pessoas em conferências locais, estaduais e federais alterou positivamente esse cenário, politizou as pessoas quanto aos seus direito e impôs políticas irreversíveis.

Mas fazer campanha na rua me trouxe algumas grandes lições na prática (com toda distorção que a pequena amostragem pode oferecer). A primeira conclusão é óbvia: quem fala mal do Lula na rua hoje em dia corre risco sério de tomar uns cascudos de desconhecido. O pessoal mais pobre defende ele e  “a mulher” (a Dilma) de uma maneira mais entusiasmada que os petistas.  É nessa hora que se percebe que a consolidação dela no eleitorado é bem mais forte do que pode parecer. A principal fonte de informação dos transeuntes que eu encontrei em Pouso Alegre no feriado é a TV. A internet como meio de informação ainda é uma coisa abstrata.

Mas a decisão desse eleitor não se dá pelas notícias veiculadas por essa ou aquela emissora, se dá pela comprovação prática de que a vida deles melhorou, que eles conseguem quitar sua casa, comprar eletrodomésticos e com uma identificação muito profunda com o presidente. A comprovação é do dia-a-dia. Informação mais poderosa que a experiência não há, já dizia Stanislavski.

Depois, é que as menções ao Serra nos materiais de campanha tucanos em Minas são raíssimas e queimam o filme. Em Pouso Alegre, em várias ocasiões me disseram que o FHC e o Serra abandonaram Minas Gerais nos mandatos deles. A derrubada do Aécio foi o golpe final e não é sem motivo que o candidato tucano hoje amargue rejeição recorde no segundo maior colégio eleitoral brasileiro (alguns divulgam algo acima dos 45%). O Dilmasia tem pegado fogo pelo interior e isso se soma às combinações mais esdrúxulas para um eleitor tão acostumado à oposição PT-PSDB. Em Minas Gerais tem aliança para todos os gostos.

Mas o mais importante de tudo, é que diferente da Internet onde tudo é super claro, nas ruas do interior mineiro é tudo mais matizado. Lá não existe esse anti-petismo babão e nem raiva do serrismo. Honduras, Colômbia, Venezuela estão muito distantes da vida do pessoal. As perguntas mais comuns sobre os candidatos a deputado são: o que esse cara vai fazer pra melhorar meu bairro, pra conseguir trazer indústrias pra cá, desovar a produção, arrumar emprego pro meu filho, arrumar um dinheiro pra mim e coisas do tipo. Para esse tipo de problema, a campanha lulista tem a comprovação da realidade como elemento. A de Serra e Marina não têm nada, nem um cenário de uma vida melhor.

A militância profissional que ganha para distribuir os panfletos acaba atuando nessa mesma chave: “vote em tal candidato por que ele me arrumou um serviço”. Ou então repete os chavões básicos sobre cada tema. Só militância comprometida é que tem a informação do voto na ponta da língua e nessas horas é fundamental gente comprometida com a campanha. É a hora em que uma estrutura como a do PT vira votos.

A campanha do Serra não faz comícios e raramente vai às ruas. Os militantes serristas  se reduzem a mandar spams por e-mail, morrem de medo de ir pra rua. Não é à-toa que desconhecem as aspirações dos eleitores e do país. Preferem pensar o governo a partir de editoriais estrangeiros e nacionais. Isso, sem dúvida, é o reflexo do enfraquecimento dos coronéis que se acastelavam no PFL. Eram esses os caras que davam alguma base de realidade nas campanhas antigas do PSDB, um partido que não desgruda do twitter. O caminho do buraco é certo.

Eis que pra rebater um pouco da acusação que somos sectários e não damos a menor pelota para a direita, cito aqui um trecho muito interessante enviado pela newsletter (o tal Ex-blog) do César Maia, patrono do DEM e da nova sensação dos conservadores brasileiros, o deputado Índio da Costa.

1. A esquerda europeia está em declínio, uma vez que antes da crise não foi capaz de produzir soluções próprias, quando teve chance igual de fazer valer as suas idéias e corrigir os erros do capitalismo. É o caso da Espanha. Os socialistas no governo ficaram inicialmente paralisados, sem tomar medidas quando começou o declínio da economia e, em seguida, quando as tomaram, cortaram os benefícios sociais, o que parece um absurdo já que esse tema é uma de suas principais metas. A tributação dos mais ricos contribuiria para ajudar a preencher as lacunas e atenuar a injustiça das medidas de ajuste.

2. Ocorre, entretanto, que tudo ou quase tudo na história tem a sua lógica. A principal razão para esta falta de destaque da esquerda é que vivemos numa economia de mercado, sem substituto de hoje. Quando o sistema, quando vai bem, é eficiente, tanto que com ele, ainda que os ricos fiquem mais ricos, também permite o avanço do Estado de bem-estar social, tão importante para os sociais democratas.

3. Eles se esquecem que o sistema não é um paradigma de equidade, ou mesmo da racionalidade, tampouco de estabilidade. Os anos das vacas magras inevitavelmente chegam, resultando nos desequilíbrios que estamos sofrendo entre economia real e economia financeira, investimento e consumo, despesas públicas e incentivos do Estado, ajustes internos e globalização, problemas urgentes e melhorias em longo prazo, para além do conseqüente e grande desemprego que é o paradoxo do Estado de bem-estar social. E aí…

A teoria publicada pelo economista Francisco Bustelo, economista identificado com os socialistas espanhóis, no El Pais é antiga e atrela o sucesso de plataformas progressistas necessariamente a momentos de crescimento econômico, principalmente pela facilidade que esses períodos dão à ampliação de direitos trabalhistas e à expansão da rede de proteção social.

Segundo tal argumento, em situações de crise, os governos de esquerda respondem de maneira lenta e desajustada por que esses contextos demandam ajustes (e cortes) no welfare state. São períodos em que a aposta na eficiência da economia como indutora de bem-estar faz mais sentido do que uma política de fortalecimento do Estado e aumento de salários (mesmo porque o período é de corte de vagas).

Acho que esse entendimento mostra dois falsos dilemas que encerram muito bem a maneira da elite brasileira (se apresentando na direita ou na esquerda) entender a condução de políticas públicas.

De um jeito bem rastaqué, quem acompanhou as respostas brasileira para crise sabe que a fórmula segue outro preceito. A crise não chegou aqui por ação política. O crescimento posterior se deu por uma política agressiva de corte nos tributos, aposta no mercado interno e no aumento dos salários e da rede de proteção social.

A fórmula foi continuar a apostar na eficiência do Estado como regulador do mercado e agente na diminuição das desigualdades.

Muitas pessoas (e partidos) ainda tem a organização partidária da Europa como modelo e organização política (tanto do ponto de vista partidário como programático). Em alguns casos como o PPS (com o eurocomunismo) e o DEM tal identificação com partidos internacionais é quase uma tara (César Maia e sua internacional PPista ou democrata-cristã que o diga).

É uma política que procura uma agenda “moderna”, mas que necessariamente não tem povo. Um exemplo disso é a relutância desses partidos com as conferências nacionais, com iniciativas de orçamento participativo ou com medidas de compensação social direta (tipo Bolsa Família). Tudo isso lida com o que há de mais profundo nos problemas do Brasil.

No seu “A Revolução Brasileira”, ainda em 1966, Caio Prado Júnior já levantava a lebre contra o “etapismo” e a importação do modelo europeu de interpretação marxista, essa obsessão de tentar entender o Brasil ideologicamente continua arraigada na esquerda e na direita. Vale mais ter a informação de fora ou ser culto do que pensar a partir da realidade local, vale mais o novo do que o povo.

A resposta pra isso tá aqui ó, tem líder mundial que já sabe, só falta ouvir as pessoas, como Lula faz:

Como vocês devem ter percebido, a temporada de colaborações no blog do Guaciara está aberta. E a qualidade dos debates ganha muito com isso. Nesse post quem escreve é o Gilson Alves, amigo, irmão, sócio minoritário do Guaci e sobretudo um dos cabras mais porretas da face da Terra com uma mão nas costas. Em seis links, o fera traz um dos temas mais importantes sobre o desenvolvimento do país: o novo Código Florestal. Confiram:

Seis links para a discussão sobre o Código Florestal

por Gilson Alves

E neguinho ainda acha que é pouco

Depois de muita tentativa (com detalhe no item “andamento” com início em 1999), enfim parece que vem uma mudança grande no Código Florestal Brasileiro. Pode-se dizer que esta é uma das leis mais importantes no que tange à gestão ambiental no Brasil, sendo ladeada de início pela Lei 6938/81, que criou o sistema nacional de gestão ambiental, e mais tarde pela Lei de Crimes Ambientais e o Sistema Nacional de Unidades de Conservação.

O Código Florestal tem ainda uma característica interessante, pois articula-se com a legislação de terras, ao contribuir com elementos para a formação daquilo que vem a ser a “função social da propriedade”. Resumindo uma salada de lugares comuns (mas de forma alguma irrelevantes) temos que a conservação (ou manutenção ou promoção, conforme o caso) da boa qualidade de vida depende de todos os cidadãos e que as atividades humanas podem se constituir em fatores de perturbação do equilíbrio ecológico, assim há que se regulamentar estas com a finalidade de alcançar aquelas.

O debate estava ocorrendo em uma comissão especial da Câmara dos Deputados e culminou com a aprovação do relatório do deputado Aldo Rebelo (PC do B – SP). A chiadeira que já era grande, aumentou com a aprovação do texto com dispositivos que prevêm a diminuição das áreas protegidas, o perdão de infratores e a “estadualização” do poder de legislar sobre as áreas de preservação permanente, como se vê aqui, aqui e aqui.

De seu lado o deputado tem a bancada ruralista e a cara de paisagem do governo e oposição. Não tenho o distanciamento recomendável pra analisar o posicionamento do relator, haja vista a enorme simpatia que possuo pelas críticas que lhe são feitas (muito em razão de trabalhar diariamente com o assunto). Ainda assim, deixemos Aldo Rebelo falar por si, não sem antes atentar pra profusão de “todo mundo é fora da lei” e a busca de fantasmas como a “contaminação alienígena dos interesses das ongs ambientalistas” (como estratégias de mudar o foco do debate).

A mobilização está caminhando, e espero que se mostre vitoriosa.

Quando chegamos do bar do Alemão, todo mundo se meteu no elevador e foi ver como terminariam os jogos. O Israel vinha confiante,  2 a 0 no primeiro tempo não garantia a vitória mas já despertava aquela coceira na mão de partir para as quartas de final da Libertadores da América. Os tropeços de primeiro semestre do ano do centenário não pareciam mais sinais de mau agouro. Agora era esperar acabar o segundo tempo sem nenhum susto. O Leandro, torcedor do Bahia, achava graça, todo estóico diante daquela ansiedade.

Antes de o elevador deixar o primeiro da turma, os flameguistas já comemoravam o gol do Vagner Love.

O Israel foi o último a aparecer para o almoço no dia seguinte. O Idelber apareceu cedo, mas nem falou no terceiro gol do Santos. Passou a manhã lendo o livro do Zé Paulo (que deixou a gente mais cedo, na noite anterior, depois de um tímido lamento de palmeirense doente que não quer nem mais saber de futebol, nunca mais, nunca mais mesmo), sobre a democracia corintiana, o que meio que equilibrava as coisas. Campeonato tem todo ano.

O Rodrigo aprontou um negócio incrível aqui em Curitiba, junto com a Celise e o pessoal todo do SESC Paraná. E eu não fui o único a dizer – mas eu, para falar de futebol? O Idelber, que esqueceu mais sobre futebol do que eu jamais vou saber, também não entendeu o convite no começo. Acho que essa reação só confirmou a sacada do Rodrigo: futebol, como diria o Aristóteles, se diz de muitas maneiras. Larga um microfone na mão de um pessoal que, quando não tem microfone, quase não fala de outra coisa, que com certeza algum papo bom sobre bola aparece. Eu estava na primeira mesa e, tirando a minha participação, que não vi por causa das luzes e do nervosismo, foi uma noite memorável.

A ideia era discutir futebol, as eleições, copa do mundo, política. O Israel tomou conta da mesa, que era o Leandro Fortes, o José Paulo Florenzano e eu. O Leandro explicou por que o jornalismo esportivo e o jornalismo político são tão ruins no Brasil: a passividade profissional, a falta de preparo e o mau gosto assombram as duas áreas. O José Paulo, que carrega na cabeça todo o universo do futebol brasileiro sob a ditadura, lembrou que a cooptação da seleção de 1970 foi apenas mais um ato de arbitrariedade e violência do regime militar: as práticas de liberdade da delegação brasileira espelhavam e reforçavam um movimento subterrâneo idêntico ao de muitos setores da sociedade brasileira, e que culminou com a seleção de 82, numa derrota tão sublime quanto a do movimento das Diretas Já – que não por acaso carregou como símbolo a mesma camisa amarela, o traje de celebração da liberdade e da alegria oficial do país. Eu tentei reclamar da Copa do Mundo como megaevento privado, danoso e contrário à condução democrática do desenvolvimento das cidades.

O encontro ainda segue, hoje e amanhã. A platéia estava cheia de pessoas interessadíssimas, e interessantes: estudantes de jornalismo, jornalistas, escritores, curiosos. Hoje sentam para conversar sobre arte e profissionalismo na era da imagem, sob a batuta do Lauro Mesquita, Francisco Bosco e André Mendes Capraro. Amanhã, depois da mesa sobre a democracia corintiana, a seleção brasileira e a abertura política, com Idelber Avelar, Marcos Guterman e Sócrates Brasileiro Sampaio de Oliveira, o Dr. Sócrates (sob os cuidados do Rodrigo Merheb), José Miguel Wisnik e Sócrates vão arriscar umas músicas sobre futebol. Eu trouxe uma camisa do São Paulo para ver se o Sócrates leva pro Raí assinar.

Hoje chegou um flamenguista, um santista e um dos dois torcedores do América MG da redação do Guaciara.  O Rodrigo foi cuidadoso o suficiente para garantir a representação plural da sociedade brasileira no evento.

Está sendo duca. Quem está em Curitiba e não veio precisa vir. O serviço está no post logo aí embaixo.

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