Clique aqui, amplie, imprima e cole por aí (tirado de http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/)

Fontes nada petistas dizem por aí que a campanha tucana está 100% errada. Está mesmo,  além de todos erros cometidos ad nauseam por gente que parecem reformular tudo de acordo com a capa da última revista semanal, os estrategistas dessa campanha erraram na estratégia pesada de desqualificação do oponente nas redes sociais. Um exemplo disso é o mecanismo como o tal #Calabocadilma ganhou evidência.

Um quarto das mensagens do twitter são geradas por robôs que reproduzem uma só mensagem. Com esse mecanismo, 32% de todos os tweets enviados pelos usuários mais ativos do Twitter são gerados a partir de scripts/bots que postam mais de 150 mensagens por dia. É a mania do trending topic. Considerando que , levantamentos apontam que apenas um de cada 7 inscritos  colabora com conteúdo no Twitter, a participação dessas maquininhas se torna ainda mais relevante.

O que o PSDB fez: reproduziu o esquema deles de repetir a mensagem de seus porta-vozes por meio do twitter. A mensagem era retwitada milhares de vezes por robôs e assim ganhava espaço nos Trending Topics. Para isso até fakes como o do jogador Ronaldo foram usados. Além disso, uma apresentadora de TV ainda disse que twitteiros famosos estariam recebendo dinheiro para criticar a candidata do PT com a hashtag #Dilmafail.

Este tipo de campanha, obviamente não teve resultado nenhum. E assim que o Datafolha começou a apontar uma vitória com vantagem folgada de Dilma Roussef, a campanha que não tem reuniões e nem comícios tomou outro rumo.

Uma das peças dessa nova fase, foi a capa da revista Época, que se não bastasse requentar um notícia velha, ainda criou um ícone pop para uma candidata que até pouco só era conhecida como uma tecnocrata sisuda.  Tiro pela culatra é pouco. O Celso, do NPTO, escreveu um texto primoroso sobre a matéria.

Depois dessa, até o Estadão entrou em compasso de espera pela chegada da petista no poder. O desgaste já é tanto, que até as bancadas estaduais se assustam com a possibilidade de encolhimento. Complicado passou a ser o adjetivo mais comum ao lado de campanha tucana ou campanha de José Serra.  É lógico que o jogo ainda está longe de estar resolvido. O período mais quente começou hoje. Mas o cenário hoje é sombrio para o projeto oposicionista.

Espero que depois disso, os opositores do projeto petista (principalmente na imprensa) descubram que o melhor desgaste que um governo pode ter é com uma oposição que sabe o que quer. E com matérias que cobrem soluções políticas das coisas e não linchamento do adversário. Enquanto estiverem dispostos a caracterizar todos oponentes como ladrões, palhaços, burros etc., a oposição vai perder.  Os adesivos aí em cima, tirados no Alexandre Mathias e os links no Idelber mostram que, apesar da série de matérias relevantes que ainda são publicadas aqui e ali, a imprensa (e a oposição) se tornaram uma caricatura chiliquenta e irrelevante.

Aviso: E para a oposição, que ainda gosta de pintar o Lula como ignorante ou autoritário, vale muito escutar essas palavras dele sobre Vinícius de Morais, ontem em cerimônia no Itamaraty.

Não tem nada a ver com literatura, mas sobre uma consciência muito profunda do Brasil e uma compreensão íntima do que é democracia.  Vale a pena dar um play e escutar tudo.

O nosso amigo Walter Hupsel, também conhecido como Salvador por causa da sua terra natal, é chapa das antigas do pessoal do Guaciara. Colega de faculdade do Tiago é um interessado nas teorias sociais, na ciência política, em rock e mais um monte dos assuntos que a gente trata aqui no blog.

Recentemente, começou também a escrever uma coluna semanal no Yahoo! e o texto que ele escreve diz muito sobre um problema muito comum a muitas pessoas que escrevem para os grandes portais: a farta distribuição de ofensas nas caixas de comentário.

Ao invés de ser um espaço para debates e aprofundamentos, o espaço vira uma guerra de desqualificação que no limite tem como objetivo a anulação dos argumentos contrários.  O texto abaixo nasceu de uma conversa nossa sobre virulência nos comentários. Leiam, o Salvadô pode explicar tudo isso bem melhor a vocês.

Depois, é correr pra internet!

As pessoas na sala de jantar, por Walter Hupsel

É a primeira participação no Guaci, fora dois comentários perdidos em posts antigos. Blog que sempre acompanhei pela qualidade dos seus textos, pela pluralidade, pela amizade dos cabras daqui.

Publico aqui uma pequena reflexão, despretensiosa, motivada pela bizarrices dos comentários que leio sempre nas minhas colunas do Yahoo! E por algumas conversas esparsas com o grande Lauro que teve o estalo de cunhar, também despretensiosamente, a expressão que me apropriarei a partir deste momento: as pessoas da sala de jantar.

Uma coisa que sempre me incomodou foi a “personalidade autoritária”, pessoas que anseiam impor às outras seu modo de pensar, seu mundo preto e branco. Não admitem a menor liberdade fora desta caixinha, nem pluralidade de visões e muito menos de “estilos de vida”. Acho, sim, que estamos retrocedendo no tempo e cada vez me vejo mais perto de Weimar.  Pessimismo tosco? Talvez, mas os comentários aos meus textos reforçam esta minha visão escura e sombria.

Pra quem não acompanha minhas colunas no Yahoo! Uma breve sinopse: escrevi duas colunas sobre o problema das drogas, uma defendendo eticamente a liberdade de seu uso e outra sobre como isso foi pauta de uma política externa intervencionista dos Estados Unidos, que usaram o “medo das drogas” – claramente ligados a etnias ou países, como fonte de legitimidade das suas ações internacionais.

Pretendia escrever mais uma, sobre a violência interna do tráfico, a corrupção que gera, a “guerra” urbana, mas abortei o projeto por dois motivos: 1) não queria ser visto como o colunista de um tema só e 2)a saraivada de projéteis disparados contra mim, com teores que fariam o General Custer parecer uma Dercy Gonçalves.

Este texto está na gaveta, e será publicado um breve.

Depois escrevi sobre nossa querida elite, que se encastela cada vez mais e, logo na sequência, este sobre nossa pena de morte informal, quando a polícia faz o trabalho sujo e a população aplaude!

Sempre cheios de ódio, de passionalidades e de falta de reflexão, os comentários fariam minha vó temer por minha vida. Posso até ouvir a voz dela pedindo pro querido neto dela parar de tratar destes temas. JURO!

Foi neste contexto, de completa perplexidade, que conversei com laurose. Indagando conjuntamente “Que porra é esta?”, “da onde vem esta galera?” que vieram duas constatações:

Nós, pessoas da elite cultural/intelectual, criadas dentro dos muros das escolas particulares e das universidades, não conhecemos o povo brasileiro (perdoem minha abstração… povo?)

A segunda, decorrente desta constatação em certa medida até que óbvia, é uma tentativa de entender o que está se passando, ou, “quem é esta galera?”.

Cunhamos (já roubei!!!) a expressão “pessoas da sala de jantar” em referência óbvia à musica dos Mutantes.

Quem são estas pessoas, as da sala de jantar?  São aquelas que sempre existiram, mas nunca tiveram oportunidades de se expressar, que emitiam seus comentários apenas no almoço de família na casa da vó.

Entre iguais, numa caixa de ressonância, suas opiniões reverberavam, a ponto das opiniões virarem verdades inabaláveis. “Ora, como alguém pode pensar diferente?”

Agora, com a internet e uma certa “popularização” da banda larga, elas aparecem, aparecem e soltam suas vozes, suas verdades.  Desacostumadas com o debate (pois nunca o enfrentaram), vêm o outro cheio de ódio, e, tal como crianças, partem para a agressão e desqualificação do “adversário”.

Este fenômeno é interessante e merece mais atenção, coisa que não sou o mais indicado a fazer.  O fato é que a internet trouxe microfones pra esta galera, e nosso dever é ouvi-las, até mesmo para nos conhecer melhor, saber o que é de fato o Brasil, saber mais sobre quem é a nossa classe média. Saber um pouco melhor quem são as pessoas da sala de jantar.

Quem são estas pessoas, as da sala de jantar?  São aquelas estão ocupadas em nascer e em morrer.

Enquanto a correria dos sócios do Guaci não dá trégua para voltarmos às nossas tão queridas discussões, a gente dá uma listinha de temas, sites, posts e blogs que rendem uma ótima conversa.

  • Vários outros sites e listas de discussão dão o canal para se obter informações dos governo federal, estaduais e municipais  direto da fonte, sem intermediários. O mais difícil é compreender essa informação e levar ela ao público para se denunciar irregularidades, começar a se pensar políticas públicas e pressionar o Estado.
  • No estímulo ao debate, o movimento mais interessante do governo, é o site sobre o Marco Civil da Internet. Como não poderia deixar de ser, o cerne da discussão acontece on line,  amparado numa série de eventos presenciais.
  • Com a chegada das eleições e o acirramento dos debates, a imprensa que é muito ligada aos exemplos internacionais provavelmente irá tentar adaptar modelos desenvolvidos na última eleição pelo Talking Points Memo, que interpretava as diferentes pesquisas eleitorais para chegar a um vetor comum entre elas. De certa maneira, os dois blogs do jornalista José Roberto Toledo e o blog do Gunther já têm trabalhado com esses dados de uma maneira bem interessante.
  • Mas até agora, a iniciativa que mais me chamou atenção foi o Observatório da Web. Criado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para a Web (InWeb), da UFMG, o site reúne, notícias sobre todos os candidatos  de todas as fontes e em todos os formatos (twitter, revista, blogs, jornais etc.), e quantifica e qualifica todos em uma só plataforma. O site é muito interessante e a plataforma é interessantíssima para se medir  comportamento da mídia e do eleitorado em geral durante a campanha.

    Guaciara recomenda

    • E em matéria de blogs, poucos têm cumprido um papel tão importante em levantar informações e estimular discussões como o NPTO. O fera tá que tá e publica um monte de posts e de discussões relevantes todos os dias.

    O Plano Nacional de Banda Larga tem tudo pra se tornar o próximo palco de batalha midiática no Brasil. Lula defende que levar a internet em alta velocidade a 90 milhões de brasileiros é missão do Estado. O anúncio foi feito em primeira mão no twitter de Marcelo Branco, principal organizador da Campus Party, e  provocou um salto de 20% nas ações da Telebrás, contestações sobre o procedimento de se divulgar uma reunião presidencial por twitter e fez as empresas privadas fazerem biquinho.

    A especulação é antiga, mas Lula disse que finalmente o terreno está pronto pro investimento estatal. A coluna do Silvio Guedes Crespo, no site do Estadão, aponta três principais motivos para essa decisão do presidente:

    Uma é que o governo quer que o preço da banda larga caia 70%; outra, que as classes C e D tenham acesso à internet rápida; por fim, que a meta do governo é atingir 4.238 municípios até 2014.

    A internet no Brasil é mesmo cara, lenta e chega a poucas pessoas. A distribuição do serviço aumenta a desigualdade social gigante por aqui. Mesmo com o barulho em torno da nova classe média, do acesso de bens de consumo a banda larga continua longe das cidades menores e mesmo da periferia das metrópoles. O setor privado lucra muito, mas reclama das dificuldades.

    Os grupos de telecomunicações no Brasil são mesmo engraçados. Desde a década de 90, o setor se consolidou como um dos monstros de influência na política e na economia nacional e por trás do interesses desse setor se escondem personagens como Daniel Dantas, Carlos Jereissati e outras peças de muita influência e que não fazem nada bem pro país. Qualquer sinal mínimo de concorrência, faz as companhias se mobilizarem para não deixar a chama do oligopólio morrer.

    O último exemplo disso foi a compra da GVT pela Telefônica. O serviço ficou mais concentrado em menos donos. Enquanto isso, banda larga popular que é bomnão tem data pra começar…

    Com a entrada da Telebrás como player provavelmente a briga começa pra valer. Primeiro é saber se o governovai mesmo entrar na jogada ou se vai afinar. Os sinais do Lula parecem bem favoráveis a entrada da Telebrás na jogada. Na mensagem de abertura do Congresso Nacional lida por Dilma Roussef aos deputados, o Plano Nacional de Banda Larga foi a única medida particularizada pelo texto presidencial.

    O presidente da República e mais seis ministros se reuniram pessoalmente com os representantes da sociedade civil e mandou a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, se reunir com os empresários. Deixou clara a sua disposição política de atuar não só como regulador, mas também como competidor e agilizar de uma vez por todas a situação. A única iniciativa relevante nesse sentido é o Programa Banda Larga nas Escolas, que levou conexão rápida à internet a dois terços das escolas públicas urbanas do país.

    Para variar a iniciativa no Brasil nunca é privada.O papel da Anatel e do Ministério das Comunicações nessa lentidão é claro. Ao invés de estimular a competição, regular os preços e cobrar melhoria da qualidade da telefonia, a agência trabalhou pela oligopolização do setor e sufocou as tentativas de criação de um novo pólo concorrencial. Até que a necessidade bateu na porta.

    A falta de acesso compromete o desenvolvimento econômico do país. O acesso à rede é um dos trunfos de indianos e chineses pra internacionalização de produção. É o outsourcing de produtos e serviços que garantiu a internacionalização dessas economias e o acesso às tecnologias que elas se apropriaram e reproduziram em seus sistemas produtivos.

    Além disso, é só com o acesso generalizado da população à banda larga que o brasileiro pode se apropriar de todas as ferramentas tecnológicas e começar a criar, cobrar transparência do governo de maneira mais organizada e ter mais acesso à informação e a canais diretos com autoridades, empresas etc.

    Provavelmente, muita briga vai correr solta contra a iniciativa partir do Estado, a imprensa já tem se mostrado assustada nesse sentido e já dá os seus faniquitos. É a medida mais importante do governo para esse ano e uma das poucas com relevância para um salto social e econômico, espero que o lobby empresarial e a ideologização eleitoreira da imprensa não comprometam.

    Outro dia, um parceiro do Guaciara me contou  que o sociólogo  Chico de Oliveira voltou a repetir que o governo Lula “despolitiza a sociedade”. Pela tonelada de bobagens que anda dizendo por aí e pela falta de atividade, o  pensador  – que já foi tão importante – perdeu mesmo o prumo e anda tomando a parte (ele mesmo) pelo todo (a sociedade).

    Nesse ano, viajei bastante por lugares diferentes do Brasil e o que tenho visto é algo distante de uma sociedade despolitizada. O exemplo mais claro disso tudo foi a 1ª Conferência Nacional de Comunicação, a Confecom, que aconteceu em Brasília nessa semana.

    Digo que é o exemplo mais claro porque a comunicação é a fronteira mais explícita do debate pela democracia. A comunicação no Brasil abarca o direito à opinião, as disputas empresariais (no caso da telefonia) e a briga por um modelo de país. Quem lê os jornais e acredita piamente neles, não imagina o quanto o país tem mudado e como a sociedade organizada tem feito a diferença para melhorar o país.

    No campo da cultura, os artistas e o governo têm se mobilizado em diversos fóruns no País para debater as leis de fomento. Desse debate é que saiu a política de mudança na lei de incentivo, desse debate saiu a idéia de Vale-Cultura e desse debate é que a cultura entrou em pauta. Tudo isso com conflito, com discussão, com exposição de idéias diferentes e com a tentativa de se construir um consenso.

    Na semana passada, eu estive na Feira da Música em Recife e qualquer um que estava por lá  – do dono da gravadora grande ao blogueiro ou fanzineiro – reconhece que a grande novidade da música no Brasil são os festivais da Abrafin e o Circuito Fora do Eixo. Colaborativamente as cenas de fora de São Paulo e Rio têm criado redes de casas noturnas, selos, bandas, rádios comunitárias, sites  estúdios e festivais espalhados por quase todos os estados brasileiros. A iniciativa já profissionaliza um batalhão de pessoas e cria uma verdadeira frente de discurso pela democratização da cultura e por políticas públicas mais incisivas.

    Com a comunicação o buraco é ainda mais embaixo. Se entedermos que foi a disputa por espaços nas telecomunicações que pautou a maior briga empresarial na história brasileira recente, nós percebemos o quanto essa disputa é séria e essencial por aqui. E a já citada Confecom só aconteceu pela mobilização da sociedade e dos grupos mais progressistas do País.

    O governador do maior estado do país e presidenciável conservador era contra. E a conferência local só aconteceu em São Paulo por que a Assembléia Legislativa convocou, fruto de pressão política de grupos da sociedade civil. As grandes empresas de comunicação no Brasil – com exceção da Band e da Rede TV! -  boicotaram em peso a Confecom sem nenhuma cerimônia. O engraçado é que eles defenderam que a Conferência – aberta a todos os setores da população – era autoritária só por que nela havia gente que questiona a falta de controle social na empresas de rádio, TV e na imprensa em geral. A falta de disposição para a convivência com as diferenças já se mostra nas chamadas e manchetes desses grupos empresariais.

    O ministro das Comunicações também nunca foi grande entusiasta da conferência. E a sua realização só foi assegurada com a entrada da verba da presidência da República e por uma batalha surda do funcionalismo do ministério contra o ex-repórter da Globo e representante da ideologia da emissora no Planalto.

    O fato é que mesmo com esses entraves gigantescos. A Conferência aconteceu e foi muito bem sucedida e sem dúvida um avanço enorme para o Brasil. Lá foi aprovado o marco civil da Internet – com a concordância dos empresários -, algumas restrições de acesso dos políticos a concessões de rádio e TV e muitas outras discussões.  É claro que o evento não tem caráter deliberativo, mas em primeiro lugar cria um espaço institucional importante para se democratizar a comunicação.

    O efeito político do documento final é de enorme relevância e pode pautar a agenda governamental brasileira nos próximos anos, como aconteceu nas conferências de Saúde e Educação nos anos 80 e tem acontecido com as conferências de Cultura nos anos do governo Lula.

    A sociedade civil sai muito fortalecida e a política também, como apontou uma das maiores batalhadoras da conferência, a deputada Luiza Erundina – mulher de esquerda e longe da aposentadoria e do comodismo que dá o tom da esquerda pizzaiola. Mais do que nunca – como já escreveu o Jay -, a batalha por espaços de comunicação e de democracia é que vem ganhando com essa mobilizaçãoque reivindica, estimula o debate público e que insere novas questões e elementos políticos em um Brasil cada vez mais diverso e complexo.

    Na cultura, na música independente, no debate pela internet livre, no debate pela terra, a tônica da democratização é cada vez mais forte. É triste que gente que já conheceu tão bem o Brasil negue isso só para não errar. O pessimismo cego é também um barril de ignorância.

    Para saber mais da Confecom, vale a pena ler aqui.

    Imagem do blog do Tsavkko (http://tsavkko.blogspot.com)

    Pois é meus amigos, parece que os Frias estão decididos a concluir um processo empresarial inédito – a busca desesperada pela falência. Os negócios já vão mal, bem mal. Mas, sempre que têm chance, os proprietários do jornal parecem fazer força pra dar uma pioradinha.

    A última foi uma das mais ridículas. Por causa de duas imagens que faziam campanha contra  o Grupo Folha, o blogueiro Antonio Arles recebeu uma ameaça de processo dos advogados da Folha de S. Paulo. Lógico que, com isso, eles amplificaram a campanha, afinal eles têm o rabo preso com o leitor (e com o ex-leitor também, pelo jeito).

    Como bem lembrou o Raphael Neves, do excelente Politika etc., em seu twitter“Nem a VEJA (argh, vá de retro, cão!) veio encher o saco por causa do logo deles no selo em apoio ao @luisnassif.

    Se não bastasse a ditabranda e o menino do MEP, a campanha renitente por um dos pré-candidatos à presidência, os caras agora ameaçam quem diz para não comprar o produto deles. Com isso eles estão chegando onde sempre sonharam: o fundo do fundo do poço.

    Em seu sonho mais secreto, o administrador do jornal fica brigando por espaço pela máquina de xerox do bairro dele para editar o seu fanzine. Ele e um estudante de alguma faculdade disputando espaço: “Eu sou publisher, deixa eu imprimir minhas vinte cópias, seu burro, seu petista!!!”

    A história aparece mais bem detalhada aqui, aqui e aqui, mas comigo uma coisa é certa: assinatura do Uol e da Folha não rolam mais aqui e não é só pela ameaça ao blogueiro. Se um jornal é burro assim pra tratar com a discordância, imagina o tanto que é pior a sua opinião sobre as coisas do mundo. Desinformação por desinformação, eu tenho ônibus, táxi e fila de banco. Tá bom já.

    Abaixo as imagens (conteúdo estritamente jornalístico) que aterrorizaram os advogados do grupo empresarial da Barão de Limeira! Numa boa, parece que o objetivo dos donos do jornal é não deixar sobrar nem cafezinho nesse boteco. Do jeito que tá, até 2015, o grupo empresarial chega a meta da tiragem zero e seus proprietários vão gerir dois fanzines e 50% de um blog. Eu não vou sentir nenhuma saudade.

    A regulamentação do uso, e as iniciativas de uso, do espaço social – rural, urbano e virtual – é um dos temas cruciais do século XXI. O espaço é, literal e metaforicamente, um dos principais campos de batalha da guerra entre – para usar, num novo sentido, uma distinção antiga mas útil – os proponentes de uma sociedade aberta e os defensores de uma sociedade fechada.

    Um binômio que atravessa esses três campos – rural, urbano e virtual – é o par formado pelos conceitos “cercamento” e “ocupação”. O sentido clássico da noção de “cercamento” remete, como aprendemos nas nossas aulas de história, ao processo de formação do capitalismo – mais especificamente, à acumulação primitiva que consistiu na transformação da “natureza” (a terra) em “civilização” (capital). Os cercamentos do século XVII são os avós do processo de privatização do espaço que parece, hoje, ser a tendência social, econômica e política dominante. A privatização do espaço urbano pelo mercado imobiliário e a regulamentação do espaço público na base do “não pode” pelos governos conservadores (DEM-PSDB) são exemplos desses novos cercamentos.

    A “ocupação”, por outro lado, remete à resistência aos cercamentos – um misto de desobediência e inovação, de desbunde anárquico e defesa de princípios elevados: direito, liberdade, autonomia. No Brasil, MST e as diversas frentes dos movimentos de moradia nas cidades carregam, há tempos e com sucesso, essa bandeira da ocupação.

    O Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital, que está rolando – hoje e amanhã ainda tem programação intensa de debates, exibições e shows – na Cinemateca Brasileira (confira serviço, abaixo) leva essa batalha para o espaço virtual. O Fórum é uma das etapas de elaboração de marcos para as políticas públicas de cultura digital, e uma de suas bandeiras é também enfrentar o novo cercamento que tem ameaçado transformar uma certa “natureza” (nesse caso, a cultura e a tecnologia livres) em – como sempre, no sentido antipático, branco, masculino, cristão e capitalista da palavra – “civilização” (ou seja, em mercadoria e em espaço regulamentado segundo a lógica da proibição).

    A própria utilização que os organizadores do Seminário estão fazendo do espaço da Cinemateca Brasileira encena essa disputa. Aqui também predomina a lógica da ocupação: quem conhece a Cinemateca sabe que é um espaço incrível, mas sub-aproveitado. Os produtores espalharam redes e almofadões coloridos, mesas e cadeiras onde em geral predomina o clima sóbrio, de velório, característico dos espaços culturais paulistas geridos por socialaites tucanos(as). Um espaço antipático, concebido para receber eventos da”cultura oficial” para a meia dúzia de culturetes endinheirados(as) da cidade. Uma das subversões mais interessantes do uso do espaço foi a abertura da sala (privativa) da diretoria da Cinemateca para uso da produção do evento. Mesmo quem trabalha na Cinemateca raramente tem a chance de entrar na bela sala construída ao lado da nova sala de exibição da instituição.

    Nova sala da Cinemateca: muito bonito, mas... cadê as pessoas?

    As diferentes concepções e formas de uso do espaço resumem as disputas políticas em jogo hoje no Brasil. Assim como o espaço da cidade deve ser público, aberto e permeável às iniciativas das pessoas, o espaço virtual da rede mundial de computadores deve ser regido por esses mesmos princípios. A defesa da liberdade na internet não é bandeira apenas dos garotos e garotas fissurados em novas tecnologias; perder a batalha contra os cercamentos nesse campo é ceder espaço político para a onda conservadora. Bora ocupar os espaços.

    Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital

    De 18 a 21 de novembro de 2009

    Local: Cinemateca Brasileira

    Lgo. Senador Raul Cardoso 207

    Vila Mariana São Paulo – SP

    Programação

    20/11 – 6ª feira

    9h/17h
    Credenciamento/ inscrição

    9h/12h
    Plenária de Infraestrutura – Sala Petrobrás

    Seminário de Comunicação – Sala BNDES
    Palestrantes:

    . Jean Burgess (pesquisadora da Universidade de Queensland, na Austrália, e co-autora do livro “Youtube a Revolução Digital)

    Ivana Bentes (professora da UFRJ)
    Alex Primo (professor da UFRGS)
    Anápuaká Muniz (Web Brasil Indígena)
    Jamie King (produtor de ‘Steal This Film’ e criador da vodo.net)
    Moderador: André Deak (curador do eixo comunicação do Fórum da Cultura Digital Brasileira)

    Ações auto gestionadas – tendas do hall

    13h/14h
    Intervenção artística – tendas do hall

    14h/17h
    Plenária de Arte – Sala Petrobrás

    Seminário de Economia da Cultura Digital – Sala BNDES
    Palestrantes:

    . Daniel Granados (Producciones Doradas)
    . Pablo Capilé (Circuito Fora do Eixo)

    Ladislaw Dowbor (Economista e professor da PUC-SP)
    .
    Ronaldo Lemos (Professor de direito da FGV-Rio)
    . Juliana Nolasco (Coordenação de Economia da Cultura – MinC)
    Moderador: Oona Castro (curadora do eixo economia do Fórum da Cultura Digital Brasileira)

    Ações auto gestionadas – tendas do hall

    a partir das 21h
    Ação musical – lona de circo externa

    21/11 – Sábado

    9h/17h
    Credenciamento/ inscrição

    9h/12h
    Transmissão da sala BNDES na Sala Petrobrás

    Contexto Internacional da Cultura Digital – Sala BNDES
    Palestrantes:
    .
    Raquel Rennó (pesquisadora de arte digital e integrante da Associaçao Cultural de Projetos em Cultura Digital ZZZinc, de Barcelona e do International Center for Info Ethics
    , da Alemanha)
    . David Sasaki (diretor do Rising Voices)
    . Ivo Corrêa (Responsável pelas políticas públicas e governamentais da Google Brasil)
    . Alfredo Manevy (Secretário executivo do Ministério da Cultura)
    . Amelia Andersdotter (membro do Partido Pirata Sueco)
    Moderador: Álvaro Malaguti (gerente de projetos da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa- RNP)

    Transmissão da sala BNDES nas tendas do hall

    12h/14h
    Encerramento

    14h/17h
    Cerimônia de encerramento – Sala BNDES
    Entrega do resultado do trabalho realizado ao Ministro da Cultura, Juca Ferreira
    Atividades culturais – lona de circo externa

    Vocês não sabem o quanto é divertido escrever isso aqui:

    “Na onda do Pramil”, de Alexandre Casatti, é fácil fácil uma das melhores coisas publicadas no Brasil nos últimos quinze anos em três categorias: (a) texto de internet, quer dizer, escrito e publicado no contexto da difusão em massa irreversível do meio; (b) literatura urbana, quer dizer, segundo a velha forma venerável de Dickens, Flaubert e Virginia Woolf, na qual enredo e estrutura/experiência urbana se misturam profundamente; no Brasil, o opus magnun do gênero é “Perus, Malagueta e Bacanaço”, de João Antonio, acho; e (c) claro, trabalho de estréia, quer dizer, de um sujeito que nunca sentou na Mercearia São Pedro posando de escroto só para pegar bem. (A tentação de colocar mais um item “literatura marginal” é posta de lado sem dificuldade. Literatura, ponto.)

    (a)    O melhor texto de internet tinha mesmo que ser um que não levasse absolutamente em conta o fato de ser de internet. A diferença é que o canal é mais aberto. Publicar alguma coisa em outros tempos não seria tão possível: menos pelos custos, mais pelo circuito fechado de escritores e editores num contexto em que o público é minguado, e o gosto fabricado mediano e estável. O surgimento de infinitos canais abre o campo, facilita o acesso.

    (b)   Dickens e Flaubert sabiam que os seus personagens e tramas não podiam deixar de ser eles também cidades: estranhos uns aos outros, mas entrando em associações temporárias cujos desfechos eram mais (Dickens) ou menos (Flaubert) felizes, os personagens habitam um espaço social que não pertence mais a ninguém e por isso pertence a todo mundo (o romance vitoriano, por exemplo, acontece de regra dentro da casa de alguém, dentro da propriedade etc). O passageiro e o taxista, e as narrativas paralelas do taxista, refletem esses encontros improváveis tipicamente urbanos. Ainda, o espaço geográfico amplo e heterogêneo junta, sempre na onda do acaso, passados diferentes que não deixam de, como no Pigmalião (B. Shaw), tomarem corpo nos ritmos e sotaques da fala. E, acima de tudo, ali ninguém é bobo: todos entram na interação com seu jogo mais ou menos delineado: os comentários em off do narrador, a simpatia comercial do taxista, que, como nas Mil e uma noites ou no Decamerão, conta uma história mas leva também um capilé, que a vida continua e ninguém vive só de saliva.

    A Londres de Dickens: do mundo fechado ao universo infinito

    A Londres de Dickens: do mundo fechado ao universo infinito

    (c)    Casatti faz a mágica de desaparecer enquanto conta a história, coisa que só quem sabe consegue fazer. No entanto quem conhece o Alê e sabe que ele é um personagem do Bocaccio vê a fera em cada linha e, mais do que só a ele, o mundo picaresco que ele vê de trás de um de seus vários óculos. E o que é incrível, quase sublime em algumas frases: a mão é leve. Diferente das caricaturas ou do hiper-realismo da fala e da por assim dizer estrutura de consciência – o jeito de narrar a vida – dos personagens urbanos da má literatura, os deslizes, desvios e tiros certeiros do diálogo correm sem solavancos, numa troca que flui como contraponto musical.

    rembrandt69

    Rembrandt: "Boi esfolado"(c.1638)

    Acho que a literatura, como toda arte, e como também a ciência, sai mesmo de fora dos circuitos ridiculamente auto-conscientes do jogo de status social envolvido na sua produção. E é meio gratuita, sem intenção nem recompensa a não ser aquele tipo de alegria satisfeita de quem conta uma piada com sucesso: é uma forma de chamar a atenção, mas só para descontrair os presentes.

    O pessoal ligado na cultura digital deveria ler com atenção o “green paper” – documento provisório (”discussion paper”) que, resumindo o posicionamento inicial de interessados, tem como função convocar, pautando, um debate sobre temas específicos de regulamentação – O copyright na economia do conhecimento. De 2008, o documento elaborado pela Comissão Europeia tem como objetivo “fomentar  o debate a respeito de como o conhecimento para pesquisa, ciência e educação pode ser disseminado da melhor forma no ambiente virtual”. Sugere que “um alto nível de proteção ao copyright é crucial para a criação intelectual” e que o copyright “assegura a manutenção e o desenvolvimento da criatividade no interesse de autores, produtores, consumidores e público em geral”. Em resumo, o documento aponta para a necessidade de que se estabeleça, no âmbito da comunidade europeia, “um sistema rigoroso e efetivo para a proteção do copyright e dos direitos a ele relacionados”, sistema  ”necessário para garantir a autores e produtores uma recompensa para seus esforços criativos”, a fim de “encorajar produtores e editores a investir em trabalhos criativos”. A base do documento é a preservação da importância econômica do mercado editorial e de comunicação na economia europeia.

    A posição resumida no green paper ecoou na Declaração de Hamburgo (2009), documento elaborado pelo Conselho de Editores Europeus. Nela, a EPC reafirma que a proteção ao copyright é condição para a “inovação” e que, sem ela, não se pode garantir que os consumidores tenham à disposição produtos de qualidade. A declaração defende “melhorias urgentes da proteção da propriedade intelectual na internet”, e conclama legisladores e governantes nacionais e internacionais a “proteger de forma mais eficiente a criação intelectual de valores”.

    Um grupo alemão de blogueiros respondeu à crítica de que a comunicação descentralizada na internet põe em perigo o próprio jornalismo. O documento dos blogueiros contém 17 itens (você pode lê-lo, em francês, aqui). Em resumo, o grupo defende que, junto com o desenvolvimento tecnológico, a internet tem proporcionado o desenvolvimento de uma nova lógica (e de uma nova ética profissional e mecanismos de controle de qualidade e credibilidade) de comunicação – diferente, mas não pior. Pelo contrário, aprofundando os potenciais democráticos e universalizantes da imprensa tradicional.

    Contra a comunicação como mercadoria, um pouco de política tradicional ajuda

    Contra a comunicação como mercadoria, um pouco de política tradicional ajuda

    Assim como a rede mundial de computadores, a política hoje – transnacional, no caso da UE – segue um padrão difuso, multidirecional, complexo, contando com a participação de diversos atores vinculados entre si das mais diversas formas – a simplicidade da estrutura dos estados nacionais, nos quais as disputas podiam ocorrer em um campo razoavelmente hierarquizado, previsível, como se sabe, anda bastante obsoleta. Isso dificulta igualmente as inciativas (defensivas ou ofensivas) que procuram intervir ou interromper determinados processos que podem desembocar em uma legislação indesejável. Parece que o alarde feito em torno da liberdade proporcionada pelo mundo digital tem ofuscado os riscos a essa mesma liberdade que podem vir de instituições tradicionais. O lobby da indústria sabe muito bem que conquistar a simpatia do público é fundamental, mas um voto de um político é muito mais.

    Por isso, acho importantíssimo que o debate em torno da liberdade no ambiente virtual não seja vítima de auto-referencialidade. Pode ser ignorância minha, mas sinto que o movimento pró-cybercultura e afins se hipnotiza com temas ligados à tecnologia digital, aos incrementos nos recursos disponíveis, e esquece das instâncias tradicionais que, dotadas de legitimidade política por boas (democracia) ou más (força, das norma e da sanção, em especial) razões, são no final decisivas. É urgente pensar em um braço atuando no nível institucional tradicional. A estetização, carnavalização (muito bem-vindas) de todo movimento popular não pode ser o único mecanismo de ação – tampouco o mal político da esquerda do “congressismo”: vamos fazer um encontro, um congresso, um debate etc…: corre-se o risco de que o movimento fale apenas consigo mesmo.

    Todo movimento social amadurecido precisa partir pra cima do sistema político, e disputar pra valer na arena arcaica mas ainda assim suprema do Estado. Manifestos, fóruns, petições, etc., são momentos cruciais, mas não se pode esquecer que o inimigo trabalha em silêncio, e tem a sabedoria maquiavélica de falar manso e jogar pesado. O exemplo mais evidente, no Brasil, são as maquinações do senador Azeredo em torno da regulamentação conservadora da internet.

    Uma das melhores coisas deste blogue foi ter conhecido gente que me ensina sempre. Foi no blog do Idelber que conheci o Victor da Rosa. Lá, também descobrimos que temos um ídolo em comum: Félix Feneon. O crítico de arte, escritor e militante anarquista (daqueles que colocavam bomba).

    Foi, na minha opinião, um dos personagens mais exemplares e ricos da passagem do século XIX e XX. Divulgou os pintores divisionistas, sobretudo Seurat, fez observações das mais agudas sobre as relações entre o homem e a máquina e foi um dos maiores interlocutores de Paris em uma época em que a cidade derretia de animação.

    O texto do Victor é muito melhor que tudo isso que eu disse, mas só para arrematar: Por que raios, e a pergunta fica para os editores que lêem o blogue, ele não foi editado até hoje por aqui?

    félix fenéon e a sua ficha corrida

    félix fenéon e a sua ficha corrida

    O imaginário do twitter – rede social em que os usuários podem, a todo momento, enviar mensagens de 140 caracteres, no máximo, para seus seguidores – não é nada novo. Tal imaginário, de início, aparece ligado a uma série de questões que acabam relacionando a escrita com a métrica, o limite, a medida. De qualquer modo, o acúmulo de opiniões que vêem no twitter qualquer coisa como o apanágio da superficialidade, segundo enunciados e valores sempre discutíveis – como o de que não existe interesse na própria superficialidade, inclusive – devem apagar uma história.

    O crítico Félix Fenéon, interlocutor de escritores como Paul Valéry e André Gide, mas também de pintores mais radicais do século XIX, como os divisionistas – depois mais conhecidos como pontilhistas, também – acusado de pequenos ataques realizados em cafés mais burgueses de Paris, encarna aquilo que Michel Foucault chama, mais de cinquenta anos depois, de jornalista extremo, radical. Félix Feneón, a partir de 1906, dentre outras atividades, mantém uma coluna de fait-divers no periódico francês Le Matin – o espaço mais baixo de um jornal, digamos (e talvez também o mais literário) – e sua coluna recebe o título sugestivo de “Nouvelles en trois lignes”.

    Existe uma ambiguidade e devo começar com ela – talvez até um paradoxo. O significante “nouvelle” – que, para o português, pode ser traduzido por “notícia” ou “novela” mesmo (é possível encontrar as duas referências) – já sugere uma dúvida sobre o que é ficcional ou não. De fato, o estatuto discursivo da notícia, dentro da expectativa de uma representação ou de um efeito de representação, faz oposição direta ao que entendemos por novela, gênero ficcional. Na medida em que os dois dispositivos se aproximam, então, torna-se difícil saber de que posição o texto é escrito.

    “Uma louca na cidade de Puéchabon, a sra. Bautiol, née Hérail, acordou seus sogros a golpes de marreta”, escreve Félix Fenéon em sua coluna. Ou ainda: “Foi no boliche que a apoplexia derrubou o sr. André, 75 anos, de Levallois. Jogou uma bola que ainda rolava quando ele deixou de existir.” O que existe de recurso ficcional nos fragmentos de Fenéon, a princípio, está ligado com a velocidade de seu texto. É como se a medida sugerisse um estilo de escrita – ou talvez se trate mesmo de uma imposição. Mas o humor que surge diretamente da brevidade, por outro lado, se relaciona de modo definitivo com o caráter noticioso da cena. Quer dizer, de algum modo acreditamos que a cena descrita aconteceu. Enfim, tudo se relaciona de modo muito controverso com qualquer coisa que se entenda por representação.

    Paul Signac: Retrato do Monsieur Félix Fénéon em 1890

    Paul Signac: "Retrato do Monsieur Félix Fénéon em 1890"

    Depois, existe uma extrema unidade de escrita nestes fragmentos de Félix Fenéon – aquela mesma unidade que confere ao hai-cai um aspecto clássico, fechado. A rigor, é o que nos permite ler tais fragmentos depois de cem anos e sem nenhum sentimento de perda. E nisso podemos afirmar que o caráter noticioso da cena é também uma espécie de fraude, é falso. Enfim, o texto não aparece dependente de qualquer elemento exterior a ele. Não há nenhuma notícia, afinal. Na introdução de seu belo ensaio sobre Picasso, em que procura retirar o artista de um lugar sacralizado do modernismo para recolocá-lo no campo da mercadoria – leia-se: no baixo – a crítica norte-americana Rosalind Krauss, justamente, utiliza como ponto de partida os textos de Félix Fenéon. Para Krauss, além da velocidade – e vale dizer que, salvo engano, nenhum fragmento do escritor ultrapassa os 140 caracteres permitidos no twitter – há um traço nestes fragmentos que interessa como contra-leitura da improvável transparência modernista, a saber: uma opacidade narrativa, a perda do comentário – enfim, certa traição do processo comunicativo mesmo.

    A escritora argentina Pola Oloixarac, em uma interessante reflexão sobre o papel do twitter em países com circulação restrita de informação, como Irã e China, sugere que a grandeza do site está ligada com uma pergunta inerentemente política: o que você está fazendo? Por outro lado, um dos interesses do twitter está na possibilidade de criar perfis falsos, seja de famosos ou de anônimos. O limite entre o que se verifica ou não se verifica fora do twitter está sempre movediço. Também não é pequena a disseminação de informações falsas que aparecem para confundir os leitores mais ingênuos, digamos. Do ponto de vista político – seja de uma política da escrita ou da informação – se trata de uma das mídias mais versáteis que a internet foi capaz de criar.

    É verdade que cada usuário utiliza o twitter do modo como considera mais válido, oportuno, mas existe uma indecisão que parece cada vez mais difícil de negar, a saber: onde começa a ficção? – onde termina? Ao mesmo tempo estas perguntas, a meu ver, são espécies de armadilhas inúteis. O leitor e o usuário que se colocam nesta posição de dúvida acabam entrando em um labirinto sem saída. Gosto de pensar afinal que se trata somente de uma literatura imprestável. Entrar para a rede do twitter requer o abandono mesmo da dicotomia que separa notícia e novela.

    Desenho de Georges Seurat de 1884

    Desenho de Georges Seurat de 1884

    *O Victor é ensaísta, mestrando em Literatura pela UFSC, autor das narrativas de piano e flauta – fragmentos de um romance (Lumme Editor, SP, 2007). Além disso edita o ótimo www.victordarosa.blogspot.com

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