A vala

No Brasil, cada vez mais, os conservadores e liberais vendem o case colombiano como uma revolução na gestão democrática. Para eles, que defendem o princípio dos direitos humanos fervorosamente quando o assunto é o Irã, a Colômbia é um modelo a se seguir. Mas pouco eles falam que o modelo do Plano bancado pelos EUA no país sul-americano é caro, pouco eficiente e, necessariamente, violento.

O Jay já falou disso tudo em seu post aqui. E todos demos algum pitaco nesse sentido. Mas uma notícia que o Marco Aurélio Weissheimer postou em seu RS Urgente mostra o quanto é aterradora a situação na Colômbia. Enquanto o carnaval midiático se concentrava no piti de Uribe em cima de Chavez, era descoberta uma vala comum com mais de 2 mil cadáveres em La Macarena, departamento de Meta, na Colômbia.

Segundo relatos do presidente do Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos da Colômbia, Jairo Ramírez, desde 2005, o Exército enterrou ali milhares de pessoas, sepultadas sem nome. Supostamente, seriam guerrilheiros mortos em combate, mas é tudo muito nebuloso.

É a maior vala comum da história contemporânea do continente latino-americano. Supera qualquer ditadura dos anos 70. A descoberta não foi divulgada na imprensa colombiana e só agora começa a vazar.

A presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Cilia Flores, já havia acusado, no dia 5 de agosto,  o Governo do presidente colombiano, Álvaro Uribe, de atacar seu país como “estratégia para tentar esconder o genocídio de La Macarena”. O discurso não era monopólio do governo do país adversário: a senadora colombiana Piedad Cordoba, outros parlamentares e ONGs dos direitos humanos já haviam acusado o governo Uribe de construir valas comuns para esconder o genocídio no interior do país.

Até a descoberta ser fartamente documentada, o governo da Colômbia negava a existência da vala comum e acusava pessoas como Piedad Córdoba de terrorismo. Ela e a população local de La Macarena (antes só conhecida pela coreografia mais dançada no mundo) mobilizaram uma delegação internacional composta por 10 dirigentes sindicais, 6 membros do Parlamento europeu, 3 membros do Parlamento britânico, 3 delegados da Espanha e 2 dos Estados Unidos que testemunharam e documentaram a vala comum em Macarena.

Como escreve o jornalista Patrick J. O’Donoghue, Uribe ficou bastante irritado com o diálogo da comissão estrangeira com os membros das famílias dos desaparecidos , em audiência pública organizada pelos senadores. Durante esse evento cerca de oitocentas pessoas de toda a região foram a Macarena contar que sofreram abusos das forças armadas colombianas.

A senadora Córdoba, há muito tempo, cobra informações de Uribe sobre o acontecido em La Macarena e sobre as demais infrações aos direitos humanos cometidas pela temida agência do serviço secreto colombiano, o DAS. São acusações de  espionagem ilegal em figuras públicas, assassinatos e investigação de contas bancárias de adversários de Uribe.

Uribe chama Piedad Córdoba de “inimiga da polícia de Segurança Democrática” e os euro-deputados que participaram da comissão de “porta-vozes para o terrorismo.” Para você ver o grau de dickcheneysse do sujeito.

Além disso, afirma que denunciar os abusos do exército colombiano é uma tática das Farc. O comentário, para a Comissão de Direitos Humanos da ONU, coloca a vida das vítimas que expuseram os abusos e o morticínio em Macarena em gravíssimo perigo.

Matéria no Huffignton Post mostra que existem denúncias de que os militares ocupavam casas e, em pelo menos uma denúncia, confundiam civis com membros da guerrilha. O caso de maior repercussão é o de Maria del Socorro Zapata, desaparecida desde 2007. Acusada pelos militares de fazer parte das Farc, seu corpo foi encontrado na vala comum em Macarena. Para seu marido, Dumar Zapata, que ficou impossibilitado por dias de entrar na sua casa e a encontrou toda destruída e cheia de manchas de sangue, a acusação é um absurdo.

De qualquer forma, mesmo que fosse do exército, a presença do corpo dessa mulher em uma vala comum indica um comportamento inaceitável do governo colombiano. A vala prova execuções sumárias, sem julgamento e sem nenhuma perícia. O argumento uribista é que são mortes de confronto. Mesmo assim, a vala comum destampa um fantasma que a direita brasileira não quer nem ouvir falar: as bizarrices cometidas pelo seu governo modelo em nome de uma guerra ao terror.

O terror continua presente na Colômbia (o lamentável ataque em Bogotá nos mostra isso). E isso não tem nada a ver com o governo reatar ou não com Chavez. Só prova que o Plano Colômbia é uma guerra cara e derrotada que enche os cofres colombianos de dinheiro para paliativos contra os reais problemas do país e deixa parte da população à mercê do tráfico, de guerrilhas, de paramilitares e de um exército violento e instruído para matar.

O blogue está mais lento. Todos estamos ocupados e cansados. Posso falar por mim, o ano foi difícil e mal consigo juntar uma linha na outra, uma oração à outra. Além disso, o fim do semestre é sempre mais duro para quem dá aula, mas também temos férias de julho (oxalá). Por isso, nos valemos sempre da ajuda preciosa dos nossos amigos. Desde o ano passado, publicamos com maior regularidade quadrinhos geniais de Rafael Campos Rocha e com menor do Fabio Zimbres. Aliás, na semana passada, FZ abriu a belíssima Marginal, exposição no espaço +Soma com alguns dos seus desenhos e com um painel maravilhoso com mais de 13 metros de comprimento.

Além destes colaoradores mais freqüentes, sempre recebemos o apoio de amigos, como o Arthur Dantas, o Daniel Pitta, a Luciana Travassos, o Demétrio Toledo e tantos outros. Ultimamente, o Pablo Pires tem nos dado a honra de abrigar algumas de suas matérias sobre os conflitos internacionais nessa extensão eletrônica do Guaci. Aproveito mais uma vez do cabra e incluo um texto dele sobre a Coréia do Norte. Aqui ele amplia uma matéria publicada no Estado de Minas na semana passada. Mas antes das notícias, o lamento de  Kim Jum Il direto de Pyongyang:

História mal contada

Relatório que acusa a Coreia do Norte de ser responsável pelo naufrágio da corveta do Sul é cada vez mais criticado. Evidências são questionadas e emergem suspeitas de práticas da Guerra Fria de falsa propaganda

Pablo Pires Fernandes

O relatório sobre o naufrágio da corveta sul-coreana Cheonan, que deixou 46 marinheiros mortos em 26 de março vem tendo sua legitimidade posta em dúvida. O episódio abriu uma crise na Península Coreana e o documento, divulgado por uma comissão de 12 investigadores de cinco países (Austrália, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Suécia), em 20 de maio, aponta que o navio foi torpedeado por um submarino norte-coreano.

Há vários dias a versão oficial já vem sendo questionada por blogueiros de várias partes do mundo. Nesta semana, a China levantou dúvidas sobre o resultado da investigação e, com a visita do ditador Kim Jong-il a Pequim, o governo chinês parece ter se convencido de que o colega comunista não tinha nada a ver com a história. Ontem (terça, 8), a Rússia somou-se ao coro da suspeita. O chefe das Forças Armadas da Rússia, o general Nikolái Makárov, disse que é cedo para tirar conclusões que culpam a Coreia do Norte pelo naufrágio.

Fontes do governo disseram à agência russa Interfax que “após estudar os materiais apresentados (por Seul) e os danos ao casco da corveta, especialistas russos consideraram de pouco peso a série de argumentos da comissão internacional sobre a implicação da Coreia do Norte no afundamento da corveta”. A Rússia enviou uma equipe de especialistas para analisar as provas apresentadas pela comissão de investigação e prometeu divulgar o resultado.

Desde os primeiros momentos após o naufrágio, a Coreia do Norte negou qualquer envolvimento com o incidente. Depois da divulgação do relatório, Pyongyang acusou a Seul de fabricar mentiras e pediu para que uma comissão de especialistas do próprio país verificasse as provas. O governo sul-coreano negou o acesso ao material, já que as relações foram rompidas.

Apesar de a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, em visita à Ásia na época, ter declarado que as conclusões da investigação são “esmagadoras” e  “sem sombra de dúvidas”, no sentido de apontar a culpa para a Coréia do Norte, fato largamente reproduzido, de maneira conclusiva na mídia mundial, há vários pontos mal esclarecidos no relatório.

A primeira delas é o fato de a região do Mar Amarelo, onde ocorreu o acidente, ser fortemente monitorada, não apenas pela Marinha sul-coreana, como por forças dos Estados Unidos – que mantêm 28 mil soldados lotados na Coreia do Sul – e estavam praticando exercícios militares conjuntos até poucos dias antes do ocorrido. Quatro navios dos EUA ainda estavam na área. O relatório afirma que o torpedo teria sido disparado de um submarino da classe Sango ou Yono, respectivamente com 3 toneladas e 1,2 tonelada. Eles teriam deixado um porto norte-coreano três dias antes do ataque e retornado três dias depois (as afirmações do relatório não garantem certeza, apenas “acham” que isso ocorreu, com base em deduções posteriores). Pergunta-se: como é possível que um submarino de tamanha grandeza não tenha  sido detectado, sobretudo quando o próprio barco afundado, o Cheonan, era equipado com os mais modernos sensores anti-submarinos e sonares para esse tipo de detecção?

A área marítima é uma das mais rastreadas do mundo, com diversos equipamentos em um estreito entre ilhas relativamente pequeno, não é um oceano aberto. O lado sul-coreano dispõe de toda a tecnologia e cooperação – in loco – dos marines dos EUA. Mesmo que os submarinos não tenham sido detectados, o Cheonan deveria, no mínimo, ter registrado o disparo do torpedo, um dado militar básico, qualquer navio de guerra detecta, a tempo, um torpedo inimigo em sua direção. Fora que comparar a tecnologia sul-coreana/americana com a do velho regime comunista é brincadeira.

O general americano Walter Sharp, dois dias depois do naufrágio, afirmou: “Não detectamos qualquer movimento fora do comum dos militares norte-coreanos”. Na mesma época, militares sul-coreanos, em depoimento no Parlamento, descartaram uma ligação de Pyongyang com o naufrágio. Esse fato foi reportado no Korea Times, de Seul, citando o nome do general.

Especialistas também questionam o fragmento do torpedo apresentado como prova do ataque norte-coreano. Sobre o projétil, havia escrito “Número 1”, (Nº 1), em uma cifra geralmente distinta do que as usadas pelos militares de Pyongyang. Outro torpedo capturado há sete anos tem marcação diferente. (Aqui entra um fato específico, de numeração e grafia, próprias dos militares norte-coreanos – uma diferença de beon para ho, o que é grafado de modo oriental. Estava grafado beon – acho que é um tipo ideogramático, desculpe a ignorância, mas deduzi isto do que li e vi, graficamente – em vez de ho, isso prescindindo o número 1. O de sete anos atrás, e a prática do Norte é ho. Este estava beon. Isso tudo é gráfico, um ideograma. E estava a caneta, simples, o que poderia ter sido acrescido por qualquer um. Uns, inclusive, afirmam que é da lista do arsenal dos EUA (sic?)).

Também houve especialistas afirmando que o fragmento mostrado estava corroído e que deveria estar no mar erodindo por pelo menos alguns meses e não apenas as semanas que sucederam entre o incidente e a divulgação das provas. Isso foi citado por jornais sul-coreanos. O relatório não foi assinado e nenhum dos 12 técnicos e especialistas que o produziram deram qualquer entrevista depois da divulgação do documento. Dos 12 especialistas que produziram o relatório, apenas um sueco não é “aliado” da Coréia do Sul.

O jornalista e documentarista britânico John Pilger escreveu uma coluna no jornal New Statesman na qual ele relata que Ralph McGehee, um ex-agente da CIA (agência de inteligência dos EUA) usou de propaganda falsa – chamada black propaganda – na Guerra do Vietnã. No episódio, a CIA abateu um navio americano com armas norte-vietnamitas para justificar o um bombardeio dos EUA contra os comunistas. Este fato, não tanto difundido (se a mídia americana não menciona, raramente vira verdade difundida, claro), já se tornou fato histórico incontestável. Citando McGehee, o jornalista relata que a CIA mantém um estoque de armas “comunistas”. Pilger sugere que o mesmo pode estar ocorrendo no caso coreano.

Do lado político, o presidente da Coreia do Sul, Lee Myung-bak, passa por problemas de popularidade e uma eleição regional estava agendada para dias depois do acidente. O fato, no caso, não o favoreceu e seu partido sofreu uma derrota. De um lado, os anti-Kim (eu acho que eles têm toda a razão) e, de outro, os céticos, que inclui parte da esquerda (não por afinidade com o Norte, mas por desconfiança do discurso oficial e do alinhamento incondicional aos EUA, mas, principalmente da dificuldade de lidar com a economia- sempre, o bolso!) e a comunidade exilada norte-coreana que acredita (sic) numa possível união etc. Apesar de todas “evidências”, uma pesquisa do Japan Today, do dia 23, portanto, três dias depois da divulgação do relatório, apontava que 48% acreditavam que os EUA e não a Coréia do Norte (com 46%) eram os responsáveis pelo ataque. E o Japão é um aliado!

Do ponto de vista dos EUA, emana do Congresso e de um certo público republicano uma pressão para lidar com o regime ditatorial norte-coreano de maneira mais agressiva, impondo sanções, por exemplo. Mas, sobretudo, naquela ocasião, estava em jogo a decisão japonesa de aceitar ou não as bases americanas na ilha de Okinawa. As bases têm forte oposição da população local, sobretudo depois de vários incidentes de abusos sexuais por parte dos marines a garotas do lugar (e eles estão sob jurisdição americana).

Depois do incidente, telefonemas da cúpula americana, incluindo o presidente Obama, convenceram o primeiro-ministro Yukio Hatoyama de renovar a concessão da base militar. Mas Hatoyama havia prometido, na campanha, de não fazê-lo e, quando renunciou, dias depois, pediu desculpas por não cumprir a promessa de retirar as bases americanas de Okinawa. A secretária Hillary estava no Japão no dia seguinte da divulgação do relatório que condenou a Coréia do Norte. Ela disse: “Quero dizer francamente ao povo japonês que a presença das tropas dos Estados Unidos no Japão é indispensável para a segurança do Japão e para a paz e estabilidade da região no atual ambiente de segurança”.

Na quarta-feira, a Coreia do Norte enviou ao Conselho de Segurança da ONU uma carta em que rejeita as acusações de que teria afundado uma corveta sul-coreana. O regime comunista disse ser vítima de uma conspiração dos EUA. A carta assinada pelo embaixador Siin Son-ho é uma resposta à queixa formalizada por Seul na semana passada, com um pedido para que a comunidade internacional evite novas agressões. “Com o tempo está ficando mais claro, por meio de análises militares e científicas, que as ‘descobertas da investigação’ por parte dos EUA e (da Coreia) do Sul, que desde seu anúncio eram objeto de dúvidas e críticas, nada mais são do que uma conspiração destinada a alcançar os objetivos políticos e militares dos EUA”, disse a carta, reproduzida pela agência oficial de notícias KCNA. “Se o Conselho de Segurança levar adiante as discussões sobre as ‘descobertas da investigação’ (…), ninguém será capaz de garantir que não haverá graves consequências para a paz e a estabilidade na Península Coreana.”

*Artigo adaptado de texto publicado no Estado de Minas, em 9 de junho.

Como disse o Demétrio, na caixa de comentários aí do lado, a conversa só está começando. Celso Amorim falou a mesma coisa com outras palavras: “O Brasil só colocou a bola na área”. Pelo jeito, muita coisa ainda vai acontecer. E como ela rendeu tanto no Guaciara seguem alguns links muito interessantes.

Jerusalem Post

Herald Tribune

El Pais

AFP

Reuters/Estadão

E a conversa continua!

Algumas dúvidas: qual seria o comportamento do eleitorado de qualquer país se o governo federal acabasse de instituir que a saúde que até ontem era paga poderia também ser pública, gratuita e acessível a todos os cidadãos? E se a carga tributária fosse a menor desde 1955? Provavelmente o presidente seria erguido em praça pública e saudado por todos como um grande herói. Em quase todo lugar do mundo, mas existe um país muito louco onde isso não acontece.

E se um presidente colocasse um país em uma guerra sem fim e, graças a uma política econômica irresponsável – com o apoio dos grandes conglomerados empresariais –, arrastasse o país –e o resto do mundo a reboque – a uma crise com proporções nunca antes vistas? Provavelmente, as pessoas iriam as ruas para derrubá-lo e o presidente seria considerado, no mínimo, um aventureiro incompetente.

Pois é, nos Estados Unidos, a coisa é estranha. Se Bush só afundou depois que a vaca chamava o brejo de casa e passou a maior parte do governo em nuvens de popularidade,  o governo Obama mergulha num descrédito gigantesco (80%) e é apontado como uma ameaça às liberdades individuais. Tudo em meio a uma batalha de recuperação econômica.

A oposição americana fala que, além de não precisar de um sistema de saúde, não tem obrigação nenhuma em salvar o sistema financeiro. O partido Republicano vive sem horizonte algum e nesse cenário se alimenta de intolerância e fundamentalismo.

Os conservadores por Deus e contra o sexo anal e a nova ordem mudial

Muito dessa reação violenta e escandalosa contra o governo é atribuído ao movimento Tea Party.  Você pode imaginar o que vem no caldo especial dessa turma: homofobia, xenofobia, a oposição ao sexo anal e a tudo que não se encaixa ao perfil dos “fundadores” da nação.

Esse é o ponto que me chama mais atenção. Os tea partiers, pelo pouco que acompanho se dividem entre Ron Paul e Sarah Palin. De um lado, estão os inimigos mortais da alegria, de um mundo mais desinibido; querem os valores protestantes como regras oficiais do país. São os fãs da Sarah Palin (eles são fãs mesmo, uma vez que a falta de debate político é outra característica do movimento).

Por outro lado, tem os libertarians que se juntam ao senador texano Ron Paul. São contra qualquer tipo de regulação ou intervenção do Estado na economia, a ponto de defenderem a falta de necessidade de Corpo de Bombeiros bancados pelo Estado.

Segundo o próprio Paul, Obama é um corporatista. Ou seja, trabalha pela dominação dos grandes conglomerados, com isso  sufoca a iniciativa individual. A posição desse pessoal é um pouco melhor do que o republicanismo radical, mas a falta de compreensão do papel do Estado é a mesma, ainda mais depois da crise financeira de 2008 que tem nos 30 anos de políticas de desregulamentação um dos seus principais vilões. Pelo menos são contra as intervenções militares americanas e radicalmente a favor da divisão entre estado e religião. Em uma recente pesquisa Rasmussen, o senador libertarian aparece empatado com Obama.

Na maior parte dos casos, os manifestantes das Tea Parties se rebelam contra o establishment político em geral e contra as instituições. O movimento se baseia em um fundamentalismo que remonta à independência dos Estados Unidos  e a uma paranóia em que o Estado é um inimigo e que os servidores públicos trabalham noite e dia para espoliar a vida do “cidadão de bem”.

A paranóia de que o governo federal é um monstro hobbesiano que irá chegar de dsco voador e dominar a liberdade de escolha está presente em todo imaginário dos EUA.

Tal desespero de que o comunismo, o totalitarismo e a invasão alienígena estão à espreita tem sido o combustível do radicalismo anti-Obama. A justificativa número um é o possível aumento de impostos por causa da criação do sistema de Saúde Pública e ajuda aos grandes conglomerados no pós-crise. O engraçado era que poucos reclamavam quando o aumento de impostos era para combater o terrorismo no Iraque.

O medo do centro e da esquerda política americana é que essas manifestações de rua descambem pra mais capítulos de violência nos EUA. Por causa disso, Bill Clinton recentemente comparou a ascensão do Tea Party ao atentado ao Oklahoma City Building há 14 anos atrás. Assim como a galera que reclama da “Nova Ordem Mundial”, o responsável pelo atentado, Timothy McVeigh, também participava de manifestações contra os impostos, o controle de armas e a intervenção do governo federal na vida dos americanos.

O atentado matou 168 pessoas e para McVeigh o atentado serviu para um “bem maior”, pois as pessoas que “traem a constituição são inimigos domésticos e deveriam ser punidas de acordo”.  É uma relação muito louca com a Constituição (que serve mais ou menos como o Corão ou a Bíblia) e com os outros regimes de governo, que são uma espécie de grande Satã. Também é um discurso que sempre ganha em agressividade quando os democratas estão no poder.

A não ser que tenha guerra. Quando um democrata assume o poder, o estado se torna um inimigo automático, os políticos e funcionários públicos são chamados de gangsters e tratados como uma ameaça permanente aos direitos individuais (nada muito diferente da reação da direita por aqui).

É claro que a euforia em torno da Tea Party pode ser exagerada. Mas esse discurso foi o que fortaleceu a bancada republicana no primeiro governo Clinton. Na ápoca a reação era contra uma Lei Criminal de 1994, que entre outras coisas previa a admissão de gays nas forças armadas.

A movimentação contra essa legislação nos estados americanos mais conservadores deu brecha, entre outras coisas para o aumento da bancada republicana nos EUA  de 94 até 2006. Essa ascensão fez o ex-presidente democrata fritar no óleo da Monica Lewinski e empurrou o governo Clinton para uma administração mais à direita.

Isso certamente pode acontecer e, seguindo o gosto da direita americana, pode força-los a novas intervenções militares, avanço do protecionismo e perseguição de estrangeiros. A coisa toda ainda está pra ser escrita, mas até agora a oposição ao Obama no Congresso Americano faz de tudo para barrar qualquer proposta que o poder executivo propõe.  O cenário é bem pouco animador.

Amigo nosso de BH, o jornalista Pablo Pires acompanha pelas redações os conflitos mundo afora há um bom tempo. Hoje no Estado de Minas e também na incrível revista Graffitti 76% Quadrinhos. Pouco se falou, mas uma crise profunda balançou a relação carnal entre Israel e Estados Unidos.  A análise do Pablo rende uma ótima conversa (inclusive sobre o Brasil e a relação dos conservadores com a política internacional).

Netanyahu vira as costas pro mundo todo, mas o lobby não sai da mão

A crise entre os EUA e Israel, detonada com o anúncio da construção de 1,6 mil casas em Jerusalém durante a visita à cidade do vice-presidente norte-americano, Joe Biden, não se limitou à diplomacia e foi o estopim também de outros movimentos.

A reação da secretária de Estado, Hillary Clinton, que telefonou para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, dando-lhe um verdadeira bronca – “insultante” e “negativo para o processo de paz” foram alguns dos termos divulgadas pelos porta-vozes. – foi o ápice da tensão entre a potência e seu fiel e maior aliado no Oriente Médio. Houve quem apontou a rusga diplomática como a maior desde 1975, quando os EUA forçaram Israel a se retirar do Sinai.

No entanto, as consequências e, como é de praxe quando se lida com o conflito israelense-palestino, são exacerbadas. De um lado os conservadores dos EUA, em grande maioria fiéis ao poderoso lobby judeu, condenaram de pronto a reação de Hillary, classificando-a de exagerada e equivocada.

Também serviu a organizações mais aliadas à direita israelense e aos republicanos nos EUA, como a American Israel Public Affairs Committee (Aipac) ou a The Israel Project para pressionar o Congresso norte-americano a demonstrar publicamente o apoio ao Estado judeu.

Do outro lado do espectro político, a organização J´Street, que se se diz um lobby pró-Israel, mas que defende a paz e tem posturas mais liberais, acredita, assim como o presidente brasileiro – que a crise pode servir como uma oportunidade para relançar as negociações de paz sob um novo ângulo, menos submisso à postura radicalmente direitista e ortodoxa que domina o gabinete de Netanyahu.

A J´Street também denunciou o uso, por setores conservadores, da crise como fomentador de uma campanha contra o presidente Barack Obama. E manteve firme a sua posição de recolher assinaturas para que o governo dos EUA mantenha a postura firme em relação à administração israelense. Ou seja, continuar falando grosso para as coisas andarem.

O imbróglio diplomático entre os dois aliados refletiu nos EUA a provocou a mobilização dos dois setores de maneira radical, refletindo a divisão, não apenas da postura dos judeus-americanos em relação ao governo israelense, mas o próprio racha da sociedade norte-americana, que opõe liberais e uma classe universitária cosmopolitas a um poderoso grupo conservador que faz campanha de medo e terror, com apoio da mídia, e consegue mobilizar os que temem o “socialismo” de Obama ou que se alimentam do pânico do radicalismo islâmico.

Os palácios e bombas nucleares – além das habilidades incomparáveis e, por que não?, a beleza – de Kim Jong-Il não nos deveriam iludir: o cara no fundo também tem as tristezas dele. No clip abaixo, ele interpreta a canção “So ronery” (“Tão solitálio”, em tradução livre). Dirigido por Trey Parker e com roteiro dele e Matt Stone, é cena de Team America, animação dos criadores de South Park.

  

Karzai, Ahmadinejad e Ali Zardari: pelo jeito, está tudo tranquilo.

Karzai, Ahmadinejad e Ali Zardari: pelo jeito, está tudo tranquilo.

O presidente Obama quis trazer a mudança, mas esqueceu de combinar com os russos. Ou com os iranianos, afegãos, paquistaneses e norte-coreanos, para ser mais exato. No UOL, os novos testes nucleares de Pyongyang (e mais no New York Times). No site Carta Maior, a sobrevivência da paranóia como forma política nos EUA ( e mais na The Nation sobre os discursos de Obama e Cheney), e os recuos da adminstração atual em relação ao tratamento de casos de tortura. Under the rose: os libaneses não aguentam mais tanto espião israelense fuçando em seus assuntos. Só nas últimas semanas, foram quase 24 espiões desmascarados, presos ou expulsos do país, entre eles oficiais de alta patente das FDI. Você não gosta de mim, mas os seus aliados gostam: Ahmadinejad realiza encontro de cúpula com os presidentes do Afeganistão e Paquistão e acentua o seu poder de influência regional. No The Observer, a situação da população tâmil no Sri Lanka depois do que parece ser o fim nada pacífico de uma guerra civil de três décadas. Tariq Ali discute o fracasso americano no Afeganistão, na New Left Review. E um instrutivo panorama da situação política mundial no atlas do The Onion.

Closed Zone é um desenho animado dirigido pelo israelense Yoni Goodman. O cabra ficou famoso por ser o diretor de animação do premiado Waltz with Bashir.

O curta-metragem Closed Zone é um clamor pela abertura das fronteiras da Faixa de Gaza.

A indicação veio do Felipe. Muito obrigado.

Não sei o que está escrito, mas felizes eles não estão

Não sei o que está escrito, mas felizes eles não estão

Governar um país deve ser mais ou menos como manobrar um petroleiro ou porta-aviões: demora um certo tempo até que a mudança de rumo comece. O Titanic acabou se arrebentando por causa do mesmo fenômeno.

Mas desde logo se pode perceber as iniciativas e ações que, mais para frente, resultam em mudanças.

Em um mês de governo, para mérito seu – cumprindo compromissos assumidos em campanha -, Obama começou a desmontagem do campo de prisioneiros de Guantánamo. Mas sobram sinais de que as guerras americanas no Oriente Médio ainda vão azedar muito antes de qualquer sinal de melhora.

Obama ordenou o envio de mais 17 mil soldados ao Afeganistão, antes mesmo de a comissão encarregada de analisar a situação no país (criada por sua equipe de governo) emitir seu primeiro relatório, indicando que o novo governo apostará ainda na solução militar para cuidar do assunto. Isso apesar das declarações durante a campanha de que essa mesma solução não resolveria o problema.

Ainda, Obama parece ter dado seu aval à continuação da “guerra secreta” tocada pela CIA em território paquistanês. Dois bombardeios na última semana tiveram como alvo campos comandados pelo líder Talibã Baitullah Mehsud, acusado de ordenar e coordenar o assassinato de Benazir Bhutto. Somadas, as duas medidas só tendem a desestabilizar ainda mais a região e dar continuidade à violência que tem feito centenas de vítimas por ano.

A aproximação entre democratas e republicanos, ou entre a esquerda e setores mais conservadores, almejada por Obama, parece estar ocorrendo, ainda que diferente da encomenda: para a editora da The Nation, a escalada pode fazer com que a guerra do “Sr. Bush” vire a “guerra do Sr. Obama”; para o New York Times, Obama parece disposto a dar continuidade às guerras secretas da administração anterior.

O blogue Biscoito Fino e a Massa é um dos meus favoritos. Seu autor, Idelber Avelar, escreve bem e discorre sobre uma gama muito variada de temas. Fala de futebol, de política, da cultura do heavy metal, cidades que ele visita, as universidades do continente americano, intelectuais argentinos e por aí vai. Essa versatilidade, combinada a um alltíssimo nível intelectual, permitiu que esse professor mineiro residente nos Estados Unidos escrevesse um dos melhores livros que eu já li sobre as ditaduras na América do Sul.

Hoje, Idelber postou uma entrevista que os jornalistas Rodrigo Savazoni, André Deak e Jorge Conterrâneo fizeram com ele. O tema é a ocupação israelense na Palestina (um dos temas principais do site). O debate por lá ficou animado. Muita gente falando de jornalistas e o racismo, sobre como informar e tomar posição, sobre a parcialidade ou não da conversa e sobre uma solução possível para a tragédia.

Eu, conciliador como sou, fiquei mais interessado nas soluções. Sem ver muita luz no fim do túnel, publiquei esse comentário e, por sugestão do meu irmão, resolvi colocar aqui no Guaciara.

 

Jerusalém, Al Aqsa e a treta

Jerusalém, Al Aqsa e a treta

Ontem, o Estadão publicou um artigo de Amós Oz em que ele condena o ataque israelense à Palestina. Mais animado do que eu esperava, o escritor também vê uma solução iminente para o conflito. Até aí, tudo bem, sonhar não custa nada. Mas quando ele começa a explicar como tudo aconteceu e as maneiras de se conquistar a paz a coisa fica mais complicada. Aliás, barato, para um escritor da envergadura dele.

Oz afirma que o massacre foi causado por radicais de ambos os lados. Seriam esses extremistas que perturbariam a paz e lucrariam com isso. Os maiores vencedores do massacre seriam os fanáticos israelenses e o Hamas. Os atores desse xadrez construiriam o infindável ciclo do ódio. Eu nem discordo disso, embora ache que o buraco é mais embaixo, tanto para os palestinos quanto para os israelenses. Além disso, parece estranho falar de qualquer lucro fora do território israelense diante do número de baixas de militares e civis. No entanto, as coisas começam a ficar estranhas quando ele começa a justificar as decisões do premiê Ehud Barak como acertadas e até moderadas.

Segundo ele, que foi ativista do que no passado chamaram de campo da paz, não dá para conviver com o Hamas. Esse grupo, que foi eleito de forma legítima, precisa ser retirado do poder e do mundo dos vivos. Só assim o que o escritor chama de “acerto iminente” acontecerá. Sem a eliminação dos militantes, as bombas devem continuar a cair. Aí mora o primeiro erro.

Acredito na boa vontade de Oz na busca da paz e da convivência entre os povos daquele pedaço do mundo, mas não acho que, para seguir o seu raciocínio, a intolerância ao que ele considera os intolerantes resolva o problema. Nem que o massacre seja uma resposta para alguma coisa. Do jeito em que as coisas são colocadas, parece que ele pede que a vida política palestina seja tutorada por Israel. Os partidos legais seriam escolhidos pela força estrangeira em uma ocupação infindável. Mas não é só isso.

Obviamente, ele fala em ataque desproporcional e de forças retrógradas dentro de Israel, mas não dá o nome aos bois. Diz que eles foram responsáveis pelo massacre, mas não diz que esses genocidas ocupam, de fato, as cadeiras mais importantes do governo israelense. Seria o caso de saber se existe algum grupo com chance de ocupar o poder em Israel que não pertença a um desses grupos fanáticos que Oz fala. Será que algum partido israelense no poder não é fanático no sentido que ele afirma?

Pelo o que eu entendi, a paz virá se os palestinos abrirem mão do seu direito de escolha e aceitarem os limites que os israelenses querem dar a eles. Se for assim, essa luz no fim do túnel é trágica.

Pensando no fim do Apartheid, só foi possível reconduzir o país depois de um longo processo de distensão das animosidades. Claro que o processo não se arraigou por toda a sociedade, mas, ao menos, curou algumas feridas que impediriam qualquer retomada de uma normalidade institucional.

Uma das medidas importantes foram os tribunais do perdão, com confissões de culpa, acerto de contas e perdão. Esse processo foi levado a cabo pela Comissão Truth and reconciliation. Assumia-se que um crime fora cometido. Mesmo que não castigado, essa medida, de certa forma, foi eficaz. Isso entrou para a jurisprudência sul-africana e tais atrocidades estavam proibidas de acontecer.

As similaridades entre a políica de Israel e o apartheid sulafricano são notadas por diversas fontes. Inclusive, alguns anos atrás, o Guardian publicou uma matéria sobre a relação entre os dois países. Pelo resultado das últimas eleições israelenses, a reconciliação está muito distante. Os eleitores aplaudiram de pé o massacre. Assim não existe a possibilidade do grupo dominante no imbróglio assumir qualquer tipo de erro. Do lado israelense, se existe alguma culpa pelos massacres é porque eles não mataram mais.

Gente como Amós Oz não está em melhor posição. No texto em que ele escreve, confunde autodeterminação dos palestinos com servidão voluntária. Enquanto a idéia de paz vier desse campo fica difícil qualquer “acerto”.

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