Tudo bem, tudo bem, nesse blog já passa mosca e o que tem de teia de aranha acumulada aqui e ali não está no gibi. O ano de 2011 não foi fácil pra ninguém e isso acabopu refletindo nesse abandono do Gua Gua. Mas a retomada começa agora e nada mais nobre do que dar uma força ao nosso grande amigo André Mantelli.

A alegria em pessoa Mantelli foi responsável por momentos muito felizes no Rio e são dele (e do meu chapa Alberto), as imagens de um dos dias mais felizes da minha vida.

Ele é um fotógrafo excelente e ontem foi assaltado no Rio. No roubo, subtraíram dele quase todo seu equipamento, isso bem em meio a um grande trabalho que ele faz sobre a Mata Atlântica. Por isso reproduzo o post que ele fez em seu blog. E convido todos a darem uma força em sua vaquinha.

manta aid

é verdade, como cartunista sou um excelente fotógrafo.

e é exatamente por isso que criei esta página para que aqueles que gostam das minhas imagens-histórias possam me ajudar na reconstrução de um pequeno patrimônio de trabalho.

(para quem ainda não sabe, perdi todo o meu equipamento fotográfico, que estava sem seguro, num assalto no rio)

pensei muito antes de optar em colocar este help aqui. aliás, bastaria dar o nº de uma conta. contudo achei interessante abrir valores, prestar contas e agir com transparência monitorando publicamente a evolução desta campanha. se tiverem outras sugestões, serão mais que bem-vindas.

fiz duas listas: a primeira corresponde exatamente ao que perdi, que é a meta mínima, 18 mil reais;

a segunda coloquei um ‘plus’ sobre o equipamento – vai que a galera se empolga – e tento complementar.

mas, afinal como disse lévi-strauss, ’vive-se em abundância e “nada falta a não ser o que não se tem.’

o link da ‘vaquinha’ é este aqui: http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=112370

acho que é um bom negócio pra todo mundo. ;)

para alguns, pode ser uma oportunidade de investimento. mais ou menos como um leilão.

por exemplo.

se vc doar 20 reais pra causa, ganha um portrait de vc mesmo em formato digital que mandarei por email. não se preocupe, uma hora estaremos na mesma cidade, rs.

imagino fazer uma expo com retratos deste movimento solidário. usarei sua imagem, se autorizar.

por módicos 50 reais vc leva o mesmo retrato impresso, formato 20 x 30 cm.

doando 100, vc faz três destes últimos (mas só um seria usado naquela exibição).

500 reais a gente faz o portrait que poderá ser usado na expo + um ensaio fotográfico, com 20 fotos finais (sem impressão).

1000, vc ganha o ensaio + uma ampliação de 75 x 50 cm de foto a escolher no flickr/mantelli.

ou faça sua proposta!

mas nos ensaios não estão incluídos possíveis custos de produção, certo?

peço que espalhem, divulguem, me ajudem a romper a meta.

absolutamente tudo será revertido para uma produção fotográfica apaixonante.

(pelo menos é o que pensa o apaixonado)

obrigado de coração pela generosidade e fraternidade.

um caloroso abraço,

:)

falamos de Davi Bernardo aqui no Guaci, mas faltava escrever mais detidamente sobre o disco que ele acaba de lançar:  Nova Fronteira.

As composições do Davi soam frescas e novas, mesmo com a influência de clássicos da música brasileira como Tom Jobim, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Guinga e Edu Lobo. A cabeça aberta do Davi coloca esses nomes consolidados ao lado de artistas contemporâneos ou importantes para a história do rock como Brian Wilson, Beatles, Animal Collective, Captain Beefheart, Fred Frith e Fiery Furnaces. Sem forçações de barra e nem esforço de adequação. Tá tudo ali, lado a lado. E é nessa falta de bulas auto-explicativas que acho que mora o que mais me chama atenção na música do Davi.

Sua intimidade com as composições  vai muito além de sua formação como músico com diploma na mão. Aparece muito mais no fascínio que ele sempre teve como bom escutador. O autor de Nova Fronteira, desde menino, procurou desvendar tudo o que escutava, como se as notas, as distorções e os sons que saiam do seu toca-discos fossem uma língua estrangeira a se compreender.

Davi chegou a Pouso Alegre ainda bebê,  filho de músicos que vieram ser professores no conservatório municipal do interior e tentavam construir vida nova em Pouso Alegre, trazendo mais vida a pequena cidade. Sua cabeça  esteve ligada a música desde sua infância. Pensava em bandas e no trabalho de músico como brincadeira. Junto com o Corinthians, algumas bandas eram seus times e o motivo do seu fanatismo. Mais do que qualquer um na enorme turma de roqueiros de Pouso Alegre, Davi sempre me pareceu o sujeito que melhor tentava compreender a linguagem que todos escutavam.

Enquanto para a maioria dos garotos as distorções nos discos do Dinosaur Jr. ou do Thinking Fellers Union Local 282 pareciam formas inatingíveis que nem valiam a pena buscar, para o Davi aquilo ali era um pote de ouro a ser buscado, custe o que custar. Só se poderia entender o que eles estavam falando entendo a maneira como eles construíam suas canções. E assim foi também com os Beatles, com Coltrane, Miles, Jimmy Hendrix, Fred Friith, Edu Lobo, Tom Jobim e muitos outros…

Davi confiava na persistência e no tempo, uma cabeça muito distante da urgência e da ansiedade de fazer dos seus amigos que partiam pro rock (como eu) mais na base do instinto do que na reflexão.

Por isso, Davi se trancava em seu quarto e por horas media os acordes, decorava as letras e memorizava os arranjos de suas paixões musicais. Eu acredito que esse jeito tão profundo foi o que levou ele a demorar tanto tempo a começar a compor. A música Nova Fronteira que dá nome ao seu disco é muito mais significativa do que parece. Indica o caminho de colocar estruturas melódicas que dialogam com todo esse passado musical e, principalmente, com uma vivência coletiva.

E as letras dizem muito disso, das paisagens à matita perê de Nova FronteiraErrante, ao lirismo urgente de Dia pela noite e Teresa, passando pela reflexão de Boa Morte. Tudo entremeado com arranjos exuberantes que não têm medo de errar e com um compromisso de não se acomodar aos formatos persistentes nas produções atuais da MPB.

Se a melodia pode ecoar a riqueza harmônica mineira dos anos 70, o acompanhamento cheio de paisagens sonoras e estruturas traz o trabalho de Fiery Furnaces e Animal Collective a nossa memória. As declarações de amor e as belas melodias surgem de estruturas fragmentadas e complexas.

Necessariamente autoral , Nova Fronteira é o resultado de um extenuante trabalho de estúdio em que Davi Bernardo captou e executou quase tudo que se escuta ao longo de seus quase quarenta minutos. Por mais de um ano (entre setembro de 2008 e novembro de 2009), ele exercitou todos os ofícios de músico, arranjador, compositor e técnico de estúdio e voltou a sua cotidiana reflexão musical. Dessa vez em um ofício que não tinha nada além de suas composições como base e algumas letras de seus amigos.

Mesmo cercado de um universo tão cheio de referências, a música do Davi  chega com uma voz muito única que ainda tem muito a descobrir, mas que já se mostra em uma riqueza de possibilidades e de pontos de vista que foge às interpretações mais rasteiras. É uma reflexão muito profunda de alguém que buscou uma voz sua a partir de uma reflexão prática a partir de um repertório gigantesco. O disco vale muito a pena e deve ser escutado várias vezes.

O nosso amigo Walter Hupsel, também conhecido como Salvador por causa da sua terra natal, é chapa das antigas do pessoal do Guaciara. Colega de faculdade do Tiago é um interessado nas teorias sociais, na ciência política, em rock e mais um monte dos assuntos que a gente trata aqui no blog.

Recentemente, começou também a escrever uma coluna semanal no Yahoo! e o texto que ele escreve diz muito sobre um problema muito comum a muitas pessoas que escrevem para os grandes portais: a farta distribuição de ofensas nas caixas de comentário.

Ao invés de ser um espaço para debates e aprofundamentos, o espaço vira uma guerra de desqualificação que no limite tem como objetivo a anulação dos argumentos contrários.  O texto abaixo nasceu de uma conversa nossa sobre virulência nos comentários. Leiam, o Salvadô pode explicar tudo isso bem melhor a vocês.

Depois, é correr pra internet!

As pessoas na sala de jantar, por Walter Hupsel

É a primeira participação no Guaci, fora dois comentários perdidos em posts antigos. Blog que sempre acompanhei pela qualidade dos seus textos, pela pluralidade, pela amizade dos cabras daqui.

Publico aqui uma pequena reflexão, despretensiosa, motivada pela bizarrices dos comentários que leio sempre nas minhas colunas do Yahoo! E por algumas conversas esparsas com o grande Lauro que teve o estalo de cunhar, também despretensiosamente, a expressão que me apropriarei a partir deste momento: as pessoas da sala de jantar.

Uma coisa que sempre me incomodou foi a “personalidade autoritária”, pessoas que anseiam impor às outras seu modo de pensar, seu mundo preto e branco. Não admitem a menor liberdade fora desta caixinha, nem pluralidade de visões e muito menos de “estilos de vida”. Acho, sim, que estamos retrocedendo no tempo e cada vez me vejo mais perto de Weimar.  Pessimismo tosco? Talvez, mas os comentários aos meus textos reforçam esta minha visão escura e sombria.

Pra quem não acompanha minhas colunas no Yahoo! Uma breve sinopse: escrevi duas colunas sobre o problema das drogas, uma defendendo eticamente a liberdade de seu uso e outra sobre como isso foi pauta de uma política externa intervencionista dos Estados Unidos, que usaram o “medo das drogas” – claramente ligados a etnias ou países, como fonte de legitimidade das suas ações internacionais.

Pretendia escrever mais uma, sobre a violência interna do tráfico, a corrupção que gera, a “guerra” urbana, mas abortei o projeto por dois motivos: 1) não queria ser visto como o colunista de um tema só e 2)a saraivada de projéteis disparados contra mim, com teores que fariam o General Custer parecer uma Dercy Gonçalves.

Este texto está na gaveta, e será publicado um breve.

Depois escrevi sobre nossa querida elite, que se encastela cada vez mais e, logo na sequência, este sobre nossa pena de morte informal, quando a polícia faz o trabalho sujo e a população aplaude!

Sempre cheios de ódio, de passionalidades e de falta de reflexão, os comentários fariam minha vó temer por minha vida. Posso até ouvir a voz dela pedindo pro querido neto dela parar de tratar destes temas. JURO!

Foi neste contexto, de completa perplexidade, que conversei com laurose. Indagando conjuntamente “Que porra é esta?”, “da onde vem esta galera?” que vieram duas constatações:

Nós, pessoas da elite cultural/intelectual, criadas dentro dos muros das escolas particulares e das universidades, não conhecemos o povo brasileiro (perdoem minha abstração… povo?)

A segunda, decorrente desta constatação em certa medida até que óbvia, é uma tentativa de entender o que está se passando, ou, “quem é esta galera?”.

Cunhamos (já roubei!!!) a expressão “pessoas da sala de jantar” em referência óbvia à musica dos Mutantes.

Quem são estas pessoas, as da sala de jantar?  São aquelas que sempre existiram, mas nunca tiveram oportunidades de se expressar, que emitiam seus comentários apenas no almoço de família na casa da vó.

Entre iguais, numa caixa de ressonância, suas opiniões reverberavam, a ponto das opiniões virarem verdades inabaláveis. “Ora, como alguém pode pensar diferente?”

Agora, com a internet e uma certa “popularização” da banda larga, elas aparecem, aparecem e soltam suas vozes, suas verdades.  Desacostumadas com o debate (pois nunca o enfrentaram), vêm o outro cheio de ódio, e, tal como crianças, partem para a agressão e desqualificação do “adversário”.

Este fenômeno é interessante e merece mais atenção, coisa que não sou o mais indicado a fazer.  O fato é que a internet trouxe microfones pra esta galera, e nosso dever é ouvi-las, até mesmo para nos conhecer melhor, saber o que é de fato o Brasil, saber mais sobre quem é a nossa classe média. Saber um pouco melhor quem são as pessoas da sala de jantar.

Quem são estas pessoas, as da sala de jantar?  São aquelas estão ocupadas em nascer e em morrer.

Telê já estava ligado no poder dos BRIC há muito tempo

O blog, como todos sabem, é do Guaciara. Infelizmente, como já reclamaram pessoalmente, por e-mail e até por aqui mesmo, nem sempre dá pra falar tanto do prédio que nomeou esse espaço virtual.

Na verdade, a idéia do blog é uma extensão do apartamento na Zona Oeste de São Paulo que já foi celebrado aqui, aqui e aqui.

O Guaci sempre foi forrada por livros, discos e filmes e isso sempre deu ainda mais ânimo às conversas por lá. Em um lugar especial bem no canto do apê, existia um ex-quartinho de empregada onde ficava toda parafernália de comunicação (o aparelhinho do speed, roteador wireless, telefone etc.) e um computador onde o Tiago ia trabalhar: a nada famosa Toca.

Apesar de aparentemente insignificante, o cantinho era animado também. Como é impossível reproduzir esse espaço virtual de maneira fidedigna, nós fundamos a Bibliotoca, o canto do conhecimento profundo no Guaciara. Como a gente trata de muitos assuntos e traz muitas referências, é legal que todos que participam aqui nos tragam as referências e materiais legais. Acho que isso faz o blog mais interessante.

Quem quiser acessa-la, basta clicar no ícone Bibliotoca Telê Santana, logo em cima do nome do Guaci, no canto superior direito da tela.

O primeiro a nos trazer material de primeiríssima foi o Demétrio Toledo, grande mestre  nosso na curtição, no bate-papo, nos temas sociológicos e no debate sobre desenvolvimento e inovação. Nesse material, dá pra encontrar texto sobre os BRIC, sobre o desenvolvimento chinês, sobre o papel do Estado no crescimento econômico  mais um punhado de coisas que a gente discutiu na última semana.

Convido a todos a participarem, dentro dos temas que a gente conversa por aqui a também contribuir.

A homenagem ao Telê é primeiro uma homenagem ao Jay e ao Demétrio que viveram muitas alegrias, enquanto esse gênio do banco de reservas dirigia o tricolor paulista. Além disso, o técnico torcia para o América-MG quando criança e fez feliz os torcedores de quase todos os times por onde passou, ou seja sabia de tudo.

A gente aqui sabe bem pouquinho de um monte de coisas, mas se fala bastante sobre tudo e por isso a Bibliotoca Telê Santana é mais um espaço pra conversa render e pro blog continuar essa fonte de curtição e debate de idéias.

Como eu demorei para escrever o post comemorativo de um ano do blog, fica  aqui a homenagem aos grandes amigos que tocam o site comigo e que passam por aqui.

Não sei como era a temperatura do lugar onde os pioneiros do paleolítico resolveram se refugiar. Devia ser brabo. Eles precisaram esconder-se nas fendas que se abriam no chão e nas pedras: tal como cavernas, grutas e gargantas.

Neste mês deste ano, prefiro elaborar o raciocínio não nos termos do que aprendi com a paleontologia, arqueologia, em textos vagabundos de história da civilização ou no livro do Lewis Mumford, mas a partir da minha experiência com a caricatura americana: dos Flinstones e do Elo Perdido. Inventar como o pessoal da época devia inventar naqueles desenhos que deixavam na pedra, só para render um papo.

Por isso, parece legal supor que eles fugiam de um calor tal como o que fez no Rio de Janeiro nos primeiros dias do primeiro mês do ano. Com a pele castigada pelo sol, não dava para continuar atrás daqueles mamíferos gigantescos, de subir em árvore, de bater perna por aí. Melhor entrar em algum lugar mais ameno, com sombra, lugares para encostar e  água fresca.  Ficar por lá, conversando fiado, emitindo sons e tentar conhecer outros nômades que estavam por lá.

Lá dentro do buraco, em um determinado momento, o pessoal resolveu contar o que aconteceu com eles. Falar o que ocorria com quem vinha do leste para o oeste para quem ia do sul para o leste. Registrar algumas coisas e, assim, eles  criaram algo maior que a linguagem, maior que a cultura: algo como o que faríamos com a história bem recentemente.

Porque não se devia apenas contar e marcar o que acontecia de um lado para o outro, mas alimentar a imaginação e, coerente no meu anacronismo, alimentar a conversa e um universo de imagens e linguagens compartilhadas que quem passasse por lá podia levar adiante. O lugar tornava-se um monumento. Um lugar para se estar.

A idéia do blog teve muito a ver com esses desenhos e registros em cavernas. Quando o Lauro propôs a idéia para os moradores originais, o que eu achei mais legal foi a possibilidade de deixar coisas por aqui e as pessoas poderem olhar e conversar. Falaríamos sobre tudo com os nossos amigos e com gente que nós nem conhecemos.  O Guaci sempre foi um lugar para se estar. Um lugar melhor que qualquer outro que eu havia morado desde que cheguei em São Paulo.

Quando me mudei para o prédio pensei, pronto, agora dá para fazer festa, para combinar outras coisas e até para inventar um pouco, como eu fazia lá em Pouso Alegre. Sobretudo por estar com o Lauro e o Jay, depois com o Demétrio, o Alê, o Marcão e o Ede: os meus chapas.

O Guaciara sempre foi um lugar muito gregário. Onde os amigos podem fugir das piores roubadas ou aparecer nos momentos em que ninguém tem nada o que fazer. Não custa lembrar que, pra cá, já veio gente que separou da mulher (ou do marido) e que a casa caiu (como ele mesmo afirma, em todos os sentidos). Muita gente do Brasil e do mundo se hospedou aqui quando veio para São Paulo.

Mas o Guaci acabou entusiasmando as ambições de alguns dos moradores. Já tentamos desdobrá-lo em sessões periódicas de filme, em uma coleção audiovisual e em um lugar para festas improvisadas, inventar histórias e rirmos de nós mesmos. De tudo o que inventamos, o que deu mais certo foi o blog.

Nele, aprendi uma porção de coisas. Embora 2009 tenha sido um ano muito movimentado, conseguimos conversar uma porção de assuntos e apresentar uma porção de coisas que nós gostamos para os outros.

Isso fez um bem danado para mim, justo na época em que tinha menos tempo para conviver com os outros. Mas, ao menos, conseguia alimentar uma ilusão quase doentia que tenho, que eu faço algo que melhora a minha vida e a dos outros.  Não tenho muita vocação política e sei que a política institucional tem seus limites. O jeito que arranjei para me iludir foi mostrar as coisas que eu gosto para todo mundo. Mas sem exibicionismo e nem pouca vergonha.

Embora esses meios eletrônicos tenham algo de trágico na aproximação das pessoas, pois dizem que esse espaço na vida concreta é cada vez mais reduzida, acho que é e será muito legal ter esse blog. Conheci muita gente e assuntos que eu não tinha a menor idéia. Mostrei idéias que eu escondia e textos que estavam esquecidos. Só posso agradecer.

Só ganha bolo quem vier me visitar em Brasília!

Já estamos atrasados em uns dez dias ou mais, mas, para quem não sabe, o Guaciara acaba de comemorar um ano de estadia na Internet! Como está escrito na nossa página explicativa, o blog começou num apartamento lá na Zona Oeste de São Paulo em que eu, o Tiago e o Joaquim morávamos.

O Tiago continua lá. Gente boa que escreve aqui como o Demétrio Toledo e o Ale Casatti também já morou nesse edifício maravilhoso e descontraído que tem o mesmo nome do blog, assim como o Marcos Gerez e o Edmundo Clairefont.

Teve muita gente (muita mesmo) que praticamente morou lá de tanto tempo que passava e ainda passa trocando idéia, matando o tempo, curtindo de montão. O mais bonito do Guaci é que sempre foi uma casa aberta onde as pessoas todas se encontravam. E eu acho que por isso que a idéia do blog deu tão certo. O procedimento é mais ou menos parecido: quem quiser entrar, entra; quem quiser falar, fala.

O Tiago nesse sentido é o cara que colocou isso muito forte pra gente. O fera não tem medo nenhum de defender as idéias dele e de mostrar o monte de coisas que ele adora conhecer por aí. Muita coisa que parece muito importante pra nós, às vezes nem tem tanta importância pro resto do mundo, mas não falta disposição dos três guaciáricos de mostrar isso pro mundo.

O Jay, desde que eu conheço ele, foi um dos caras que mais me mostrou coisas pra ler e apresentou idéias novas sobre o mundo. Sempre muito refletido e consistente.

E o Rafa Campos – o George Martin do Guaci – é um gênio, quanto mais conheço, mais eu sou fã.

Esse monte de gente é o que me deixa mais feliz no blog. O espaço reúne um pessoal massa que não deixa a cabeça parar de funcionar e de me mostrar coisas novas. Valeu todo mundo!

E só para a informação dos leitores, o top 10 dos posts mais lidos no ano :

1 Depois da Ditabranda…

2 Sala especial

3 Confetes

4 Picasso, Duchamp, Warhol e a idéia de transformação na arte moderna

5 Arte contemporânea japonesa, eros e a civilização no shopping

6 O ódio ao Brasil

7 Godard, Glauber e o Vento do leste, por Mateus Araújo

8 Copan, por Carlos Teixeira

9 Uma explicação da gripe suína, por Marcos Mesquita Filho

10 O ano Mira Schendel

Demétrio Toledo nos enche de orgulho. O sujeito é brilhante; um sociólogo nato, grande brasileiro e um dos maiores amigos que eu tenho na vida. Entre 2004 e 2005 ele morou aqui no Guaciara. Vinha de uma experiência difícil: havia perdido o teto; em todos os sentidos da palavra. O telhado da sua casa desabou e ele veio pra cá.

Foi naquele período que ele redigiu sua dissertação de mestrado: uma baita contribuição ao estudo das elites locais. Por sorte de todos nós, a editora papagaio transformou a tese em um livro que será lançado na segunda-feira (amanhã), no Bar Canto Madalena, em São Paulo.

O trabalho lida com as novas formas da ação coletiva. A partir de técnicas muito refinadas, interpreta uma reorganização das classes sociais no país, o modo das elites se organizarem, se dividirem e o peso institucional em cada um destes momentos. É um estudo fino de sociologia política. Tenta entender se é possível tratar as classes sociais da mesma maneira e pensar uma determinação da ação política das elites empresariais. É novo por tratar de formas muito recentes de se abordar os problemas sociológicos, por pedir uma reavaliação das categorias clássicas e também por indagar sobre as manifestações de poder na sociedade recente.

Chamo todos os leitores da nossa página a aparecerem por lá. Mais informações no convite:

Da esq. pra dir. Mesquita, Raimundo e Maurício, do Imbuia, em foto de Felipe Christ

Da esq. pra dir. Mesquita, Raimundo e Maurício, do Imbuia, em foto de Felipe Christ

Só pra começar a conversa, nesse sábado tem show do Grupo Imbuia em Pouso Alegre. Vai ser a gravação do DVD da banda. É o primeiro registro fonográfico em trinta anos do trabalho de Mesquita, Raimundo e Maurício. A apresentação em si vai ter uma forte carga emocional por ser um grupo que mesmo sem ter gravado conseguiu manter dezenas de canções na memória de uma geração inteira no Sul de Minas. Só isso já é um feito e tanto. Mas acho que essa apresentação tem um significado muito mais profundo para Pouso Alegre – cidade onde eu nasci.

Essa coisa de estar longe das coisas e das pessoas que foram uma referência na sua vida te faz entender um monte de coisas melhor. Além da saudade que é cada dia maior, também ando muito orgulhoso das coisas que acontecem na minha terra.

Há muito tempo não via tanta coisa legal sendo feita lá. Não sei por que, mas o pessoal da cidade vive uma animação boa, contagiante. Organizam shows, festas, mostras de cinema, mostram sua cara e querem ver coisas novas, entendê-las; falar a respeito de tudo, de um jeito muito feliz.

Algumas das coisas – como o sensacional Pumu e o incrível Zé Rolêjá foram assunto aqui no Guaci outras vezes. Soma-se a eles o talentosíssimo Davi Bernardo que finalmente (e felizmente) liberou alguns de seus sons pro pessoal ouvir. Só coisa fina. As músicas estão lindas.

E o legal é que eu percebo uma certa unidade no trabaho de todos eles: a coisa de viver interessado em tudo em uma cidade pequena com tempo pra absorver as coisas, em viver a vida em sua plenitude – com calma e sem ter de se apresentar como a next big thing. Mas com vontade de ser influente, de dialogar de cabeça erguida com uma tradição, sem facilidades.

Isso tudo também tem muito a ver – em uma ótica mais da periferia – com o som que o Kiko Dinucci, por exemplo, faz. E acho que esse tipo de voz, que busca uma novidade desatrelada do que dizem os veículos de comunicação, as assessorias de imprensa e os produtores de show me chamam muito mais atenção do que qualquer novidade que estampa os cartazes de shows nas casas descoladas por aí.

Logo que o Racionais apareceu com o Sobrevivendo no Inferno, eles diziam que faziam os discos pro pessoal que morava na periferia, pra gente que convivia com eles. Dava pra ver que a complexidade dos temas, das letras eram as mesmas das conversas com amigos de longa data, as descobertas que pessoas com intimidade fazem.

O Imbuia e essa turma nova de Pouso Alegre têm isso. De ir longe com um clima de curtição, uma vontade de falar sobre o mundo sem baratear as coisas ou se transformar em caricatura fácil para os leads dos jornais e sem a preocupação de causar impacto no mercado gringo. É um som que não faz média para patrão. Um som que quer fazer sentido em primeiro lugar pra quem vive a realidade imediata de quem o canta. Mas que não quer mitificar nada. Só entender e aproveitar a vida. E que, é bom lembrar, faz questão de ser novo, original e absolutamente único.

Nesse sentido e com todo orgulho, acho que o show que o Grupo Imbuia faz em Pouso Alegre tem muito a ver com esse espírito. Seus integrantes têm quase trinta anos a mais que o Zé Rolê ou que o Paulinho do Pumu. Mas música pra eles também é isso. Ser único falando e tocando o que faz deles únicos: a experiência de vida.

É por isso que as composições não têm paralelo – não existe nada igual ao Imbuia - e que os vocais e as cordas são tão cheios de complexidade. É a vida toda que tá ali. A coisa vai longe e fala sobre muita gente.

Uma das coisas que me deixam mais feliz hoje em dia é saber que esse DVD vai ser gravado. Fico mais feliz que seja lançado junto dos trabalhos dos meus amigos, tão especiais e únicos também.

Tô cheio de orgulho pelo pessoal de Pouso Alegre, só queria passar mais tempo por lá.

Show do de gravação do DVD do Imbuia – Sábado (17/10) às 20h -Teatro Municipal de Pouso Alegre



Em um quesito, o Guaciara é imbatível. É um local cheio de amor pra dar. E seja aqui na Internet ou no apartamento em Perdizes, o Guaci sempre juntou gente pra bater papo. Ouvir um som, ficar bebum, aquela coisa linda da amizade… Sempre um espaço pra aplacar as tristezas e alegrar o coração.

No dia dos namorados, uma homenagem aos amores tranquilos e a alegria do amor. E de quebra um recuerdo da curtição que é o edifício Guaciara.

A vinda (cancelada) do Ahmadinejad ao Brasil tocou fogo na Internet. O que tinha de gente pelos blogs falando contra e a favor a vinda do homem não era brincadeira (leia aqui os textos do Sergio Leo, do Idelber Avelar e do Pedro Doria, os comentários são bem instrutivos também).

Apesar de sempre ter achado o regime iraniano muito conservador e restritivo, eu tinha pouca informação de como as coisas se davam por lá.

Tudo que eu sabia vinha da péssima cobertura internacional do Brasil, dos quadrinhos da Marjane Satrapi e do cinema iraniano. Mesmo assim, nos anos 90, pouca coisa me chamou tanta atenção quanto os filmes do Abbas Kiarostami. A coisa é de uma riqueza absurda e é tudo emocionante. Os filmes de Mohsen Makhmalbaf também.

Eu acredito que parte desse fascínio que os dois diretores exercem na minha cabeça tem a ver com a maneira em que o cinema deles é puro desnudamento da realidade. A Cláudia Mesquita, que é minha grande amiga, tia e uma das pessoas que eu mais amo nesse mundo, escreveu um texto sobre Um Instante de Inocência, filme do Makhmalbaf emblemático sobre essa discussão do que se tornou o Irã pós-revolução islâmica. Muito por que ela passa ao longo das discussões políticas para tratar o que nesse momento histórico mexeu com a vida das pessoas. O texto foi escrito em 1997, mas continua muito atual. Feito como um trabalho para a universidade, ele tem como principal referência o texto de Mateus Araújo sobre os filmes anteriores de Makhmalbaf, Salve o Cinema e Gabbeh (“Dois filmes iranianos”). Vale muito a pena lê-lo.

 

Um instante de inocência: realismo e auto-reflexividade

Cláudia C. Mesquita /Trabalho apresentado à disciplina “Realismo no cinema” (Prof. Lúcia Nagib, Unicamp/1997).

 

“Não é esta uma sólida definição do realismo em arte: obrigar o espírito a tomar partido sem trapacear com os seres e as coisas? [1]

Cena do filme de Makhmalbaf

Cena do filme de Makhmalbaf

1) Neste ensaio, proponho abordar Um Instante de Inocência (1996), último filme de Mohsen Makhmalbaf exibido no Brasil. Tentarei analisar a maneira original como o filme articula certa busca de realismo no cinema com estratégias que desmascaram as convenções ilusionistas (estratégias conhecidas como “antiilusionistas”), engendrando uma espécie de “realismo dialético” que, guardadas as diferenças de meio artístico, ideologia e contexto, remete à visão que Brecht tinha do conceito – e que, programaticamente, reivindicava para sua própria obra teatral, sobretudo como encenador [2].

Como Mateus Araújo já notou (retomo nessa introdução, em linhas gerais, os seus argumentos), a estratégia dos filmes iranianos recentes combina, não raro, estilo realista de registro – muitas vezes semelhante ao documental[3] – a procedimentos antiilusionistas variados. Freqüentemente comparado ao neo-realismo italiano (pela aproximação a temáticas e circunstâncias reais, o trabalho com atores não profissionais em locações etc.), o cinema iraniano herda também procedimentos da Nouvelle Vague francesa e dos chamados cinemas novos, trabalhando uma consciência do próprio cinema herdada da tradição moderna. Lembremos do prólogo de Através das Oliveiras, em que o ator se apresenta, olhando para a câmera e dizendo: “Eu sou o ator que vai fazer o papel do diretor”.

Tal consciência aparece na forma de enredos meta-cinematográficos. Nesses filmes, a “realidade iraniana” não é um dado ou um pressuposto, mas algo que vai sendo descoberto aos poucos, como parte do processo mesmo de “filmagem” ou de preparação para a filmagem – ou ainda, no caso de E a vida continua, filme de Kiarostami, no processo de revisita a uma região rural do Irã, recém-abalada por um terremoto, por um diretor de cinema em busca de atores que trabalharam em um filme seu rodado na região. Assim, não se trata de filmes “sobre”[4] determinados episódios, mas de filmes que abordam a relação do cinema com tais episódios e realidades.

Como lemos na hipótese de Mateus Araújo sobre Salve o Cinema e Gabbeh, tais filmes iranianos fazem da equação cinema/vida uma reflexão constante[5]. Qual, senão esta, é a problemática privilegiada por Makhmalbaf nos seus longas Salve o Cinema (1995) e Um Instante de Inocência? O projeto deste último não é outro: Makhmalbaf propõe a revisita, pelo cinema, de um episódio vivido, não para repeti-lo, mas para equacioná-lo no presente. Tentarei detalhar esses pontos à frente, na análise mais detida de Um Instante de Inocência.

(more…)

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