Sim , sim, o blog anda meio parado e o acúmulo de tarefas dos três responsáveis por este espaço tem impossibilitado aquela atualização ágil e o debate moleque que sempre rolou nessa linda plataforma. Não temam, as coisas estão ficando mais tranquilas e acho que a alegria deve voltar a ser mais frequente por aqui. Pra começar, publicamos  o texto da nossa grande amiga Carol Trevisan – que é jornalista e trabalha com iniciativas da área social – sobre sua participação no primeiro evento da Copa do Mundo de 2014 e todas as cores que o império absolutista da bola brasileira pode ter. Para ler, recortar e comentar:

Pontapé inicial – Impressões sobre a bizarra experiência de participar  do primeiro chute da Fifa para a Copa do Mundo 2014, por Maria Carolina Trevisan

Bom humor e muita emoção...

Rio de Janeiro, 29 de julho. Seis e meia da tarde. Hora do rush na cidade maravilhosa. Ônibus lotados, carros e pedestres se misturam a um lusco-fusco que cega. As luzes vermelhas das lanternas em fila contrastam com a Baía de Guanabara, o cheiro da maresia e uma temperatura amena, o que faz do calçadão de Copacabana o melhor lugar para se estar.

Mas era hora do compromisso. Os ônibus com convidados da Fifa para o banquete que antecede o sorteio das eliminatórias da Copa 2014 partiam do luxuoso hotel Windsor Copacabana rumo ao Pier Mauá. O convite, assinado por Joseph Blatter, presidente da Fifa, e Ricardo Teixeira, presidente da CBF, sugeria como traje “bussiness atire”. Pouco a pouco os assentos foram ocupados por homens de terno-uniforme azul escuro, idênticos e com a palavra FIFA bordada no canto esquerdo do paletó. Para acompanhar, loiras perfumadas, cabelos em laquê, vestidos longos e brilhos mais adequados a casamento de princesa.

Esse foi o primeiro choque. O segundo, golpe bem mais forte, foi perceber que esse veículo cheio de desconhecidos e desimportantes seria escoltado por pelo menos quatro batedores da Polícia Rodoviária Federal, montados em uma bela Harley Davidson vintage. A população, espremida nos coletivos, era literalmente apartada para deixar passar sem atrasos tão distinguida turma. Foram pelo menos 10 desses. E assim, a Fifa, o governo e a prefeitura do Rio, começaram a mostrar que a elite brasileira, política e futebolística, é capaz de organizar uma Copa do Mundo. Deu vergonha.

Na chegada ao pier, os convidados eram recebidos com champanhe Chandon rose, caipirinhas, claro, e vários petiscos típicos de sabores irreconhecíveis. Carros pretos brilhantes, com motoristas negros brilhantes, estacionavam em uma área ultra vip (VVIP, segundo a Fifa O que seria? Very Very Important People? #medodessagente). Desembarcavam ali cartolas, ministros, prefeitos, secretários e secretários dos secretários. Perceber essa divisão entre as pessoas foi o choque número três. Mas não acabou.

Choque número quatro: com tantos VVIP, o mar seria um meio de ataque terrorista óbvio e fácil. Para evitar qualquer atentado, um barco da polícia esteve de prontidão do começo ao fim do evento, garantindo a segurança de todos nós. Enquanto isso, conversava-se, fumava-se e bebia-se a vontade. Até que as portas para o banquete foram abertas.

Cartões nominais espalhados sobre as mesas guiavam os comensais. No mapa de lugares, mais um choque: a Fifa guardou para a área de responsabilidade social uma mesa no lugar mais importante, primeira fila, cara a cara com o palco. Era a patota da “Corporate Social Responsibility” dividindo espaço com o Ministro do Esporte, Orlando Silva, o governador do Rio, Sergio Cabral, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, além de Blatter, Teixeira, Havelange, Cafu, Bebeto, entre outros. O que isso significa?

Estava, então, claríssimo que faz parte da reconstrução da imagem da Fifa dar importância à sua área de responsabilidade social. E o cheiro do poder é ludibriante. Pode mesmo embriagar a vista de quem não estiver atento e preparado. Os “privilégios” não paravam: o cardápio em português e inglês anunciava fettuccine de palmito pupunha, camarão ao gengibre com couscous marroquino, filet em crosta de ervas e haricot vert, além de mil sobremesas. E champanhe a vontade. Para nós, serviço na mesa. Para o resto, só buffet.

Havia cerca de dois mil convidados. Na mesa VIP da responsabilidade social éramos nove. Bem poucos para tamanha missão. Em meio ao rega-bofe, o “muito obrigada” em português forçado do Mr. Blatter. Assim que o jantar terminou todo o mundo saiu correndo de volta para o hotel, em um estranho movimento de fuga. Na volta, a mesma escolta vergonhosa, agressiva e, ao mesmo tempo, muito reveladora.

O sorteio

Mas o grande show aconteceria no dia seguinte, na Marina da Gloria. Gastou-se cerca de R$30 milhões, entre prefeitura e governo local, para que o sorteio das partidas preliminares da FIFA World CUP fosse um sucesso e continuasse mostrando a capacidade do país em receber o megaevento. Fui com a convicção e a esperança de que alguma coisa importante pudesse acontecer, além das bolinhas, mas decidi não mais aproveitar a carona em ônibus escoltado. As presenças ilustres contrastavam com a manifestação do lado de fora que pedia “uma Copa do povo” e “ fora Teixeira”.

Para adentrar o local do evento, era necessário passar pelo controle da Polícia Militar, pelo raio x e pelo scanner de bolsas, além de deixar isqueiros ou outros objetos “perigosos” para trás. Na entrada, um corredor com estandes das cidades-sede mostrava as promessas de cada uma, seus merchandisings, marketing propositions, presentations e folders. Tudo em inglês, logicamente. O mundo do futebol internacional não fala português. Mas parece que ama o Brasil.

Soou o sinal e era momento de entrar. A TV Globo não poderia tolerar atrasos. Ventava muito e a tenda ameaçava sair voando. De novo, a elite estava ali, ocupando suas praças reservadas. E o grupo da responsabilidade social, outra vez, na primeira fileira. Foi o choque número seis: apenas dez metros nos separavam de Blatter, Grondona, Teixeira, Havelange, Pelé, Cafu, Neymar, Bebeto, Zico, Zagallo, Ronaldão, e, mais tarde, da Presidente da República do Brasil, Dilma Roussef. Não dava para acreditar.

Choque número sete: repetiu-se muitas e muitas vezes, para todos os cerca de 600 milhões de telespectadores de mais de 200 países, que a Copa do Mundo 2014 é, agora, a “Copa do Mundo da FIFA”. No Brasil, fala-se Copa do Mundo e ponto, sempre foi assim. Agora, a “Copa do Mundo da FIFA” é marca registrada e tem preço.

Os discursos que se seguiram foram elucidativos. Estava claro que Pelé (escolhido como embaixador honorário da Copa) e Teixeira não estão de amizade, que o rei é aliado de Dilma e que a presidente não dá a menor bola para Teixeira ou Blatter. As falas do governador e do prefeito do Rio mencionaram o legado da Copa e ressaltaram avanços nos campos esportivo, estrutural e econômico, na mobilidade urbana e no saneamento. Eduardo Paes passou quase perto ao dizer que “futebol não tem classe social” e que é “um meio de transformação”, porém, não disse nada sobre sua função e seu papel em um mega evento para diminuir as diferenças sociais. Mas citou o ex-presidente Lula e declarou: “o maior legado da Copa é a auto-estima do povo brasileiro”. Mas, e se o Brasil perder a Copa? Suicídio geral?? Choque número oito.

A situação melhorou quando a presidente Dilma subiu ao palco. Falou em liberdade, justiça social e paz como legados. Não era possível iniciar esse evento sem que ao menos essas palavras fossem lembradas. Em resumo: a Copa do Mundo da Fifa é uma coisa. A Copa do Mundo de Futebol, no imaginário do povo brasileiro, é outra coisa. E é de todos.

A partir daí começou o momento bolinhas, uma espécie de bingo. Estrelas como Neymar, Cafu, Ronaldo, Bebeto e Lucas sortearam a teia de jogos eliminatórios até a Copa. Os cerimonialistas vestidos de gala, Fernanda Lima e Tadeu Schmidt, apresentadores da TV Globo, anunciavam cada passo. O deslize ficou por conta de Schmidt, que equivocadamente chamou Ronaldo de Romário, sendo este último persona non grata na Fifa, a ponto de nem aparecer em nenhuma das imagens de futebol brasileiro que se mostrou. Entre um sorteio e outro, com pequenos shows nos intervalos, vídeos de pessoas como Gisele Bündchen (expert no tema), Paulo Coelho (!!) e até Oscar Niemeyer tentavam convencer os presentes da capacidade brasileira de receber a Copa, lembrando que futebol é a paixão nacional, mas esquecendo de seu componente tóxico, o ópio do povo.

Como vocês viram, saí chocada de todo esse espetáculo. Preocupada também. Mas entendi que há um espaço que precisa ser ocupado por propostas e ações e que o momento é agora. Se a Fifa está precisando da ala da responsabilidade social para mudar a sua imagem e nós queremos uma Copa do Mundo com o mínimo de efeitos sociais nocivos – queremos o contrário -, é preciso aproveitar (com olhar crítico, sempre), impôr o papel da sociedade civil e propor alguma alternativa. Porque o pontapé inicial (kick off) da Copa foi dado. Mas é o povo brasileiro que está sendo chutado.

O Rafael, mais uma vez, nos presenteia com sua crônica esportiva. Dessa vez o tema é o embate entre Real Madrid e Barcelona e a pose de pavão macho-alfa do técnico Mourinho. O texto está ótimo:

Só mesmo Mourinho pra escalar alguém que conseguiu bater no Felipe Melo. É o mesmo que contratar um segurança que foi demitido pelo César Maluco pelo uso desnecessário da força, ou um cientista que foi considerado antiético pelo Mengele. Na primeira parte do campeonato espanhol, Pepe, depois de cometer um pênalti em Casquero (Getafe), o chutou duas vezes no chão, de forma acintosa, e depois de expulso, resolveu que talvez inutilizar o atleta para o resto de sua vida profissional seria de bom tom, pisando assim em suas duas pernas (gesto repetido pelo lateral Marcelo, por sorte pela metade, no clássico contra o Barcelona). Mas tudo bem. O futebol é resultado. È guerra. Vamos quebrar o Zidane, porque humilhou a seleção brasileira, vamos arrebentar o Maradona, vamos invadir o Peru, porque não podemos mais explorar seu petróleo por um terço do preço, vamos maltratar todo mundo que não torça pro nosso time, que não vote em nosso partido, que não goste de nossos amigos imbecis!

Tenho uma teoria sobre a admiração homossexual que todos os macho-alfa que conheço têm pelo Mourinho, que é exatamente essa: tesão homossexual. Bonitão, no estilo bofe de meia-idade, caucasiano, arrogante, europeu, “vencedor”, pragmático. Mourinho é o próprio papaizinho dos filmes de foda, o doutor House, o Grisson do C.S.I, o Eastwood em que todo fracassado como eu e você podemos nos espelhar na fantasia. Tudo dá certo pra ele. Ele tem a grana e contrata os mais badalados metrossexuais do futebol, incluindo o protótipo mundial do gênero: Cristiano Ronaldo (de resto grande jogador, e preferido entre os detratores do baixinho, sem-graça, terceiro mundista e, pior que tudo, discreto, Messi).

Mourinho também é a própria imagem da imagem capitalista, seu arquétipo totalitário e totalizante, sua fantasia como Reino. Futebolisticamente, Mourinho atua no clichê do técnico retranqueiro do segundo milênio. Coloca  jogadores talentosos como meias-fazem-tudo, o que, numa vitória, leva o nome do técnico ao topo e, numa derrota, ressalta as dificuldades de marcação de um Ozil, por exemplo. Foi assim com a Inter, quando o espetacular Sneijeder e o incrível Eto’o ficaram reduzidos a volante de contenção e lateral-esquerdo, respectivamente. A vitória, como frisei, passa para o gênio-alquimista capaz de transformar talento e espontaneidade em obediência e robotização, e nunca para o novo robô, que obedece para garantir, pelo menos, o seu lugar no time titular, tendo em vista que o que ele fez, outro faria. Pior, mas faria. Já disputar a artilharia por 10 anos em diferentes países da Europa, só o Eto’o mesmo. Os reservas, no futebol, fazem às vezes do exército de desempregados mantidos pelo capitalismo na sociedade laboral. Sua presença pressiona e submete quem fica no cargo.

Enfim, é dessa coisificação e serialização da alteridade que vem a admiração que Mourinho desperta nos medíocres resignados: a demolição à resistência ao fundamentalismo capitalista. Isso sem falar no marketing esportivo. No meu tempo, era defeito ser marqueteiro. Hoje em dia todo mundo acha graça em falar mal por intermédio da imprensa e encher o real com a própria imagem. Eu acho feio, mas estou meio sozinho nessa.

Evidentemente, Mourinho não é burro. seu uso do animal Pepe, que de resto sabe o que fazer com a bola (quando não está preocupado em desabilitar fisicamente adversários), é bastante original: como os meias jogam bem abertos e tem que marcar os laterais, o marcador Pepe aparece pelo meio depois dos laterais e, portanto, dos meias ofensivos, marcando exatamente no meio do campo, e não na sobra dos zagueiros.

Berra pequeno Mouro

Berra pequeno Mouro

Colocados os jogadores, homens-do-corpo no seu devido lugar, o homem-cérebro ateniense ocupa o trono que sempre lhe foi destinado, e torna-se a um só tempo, autor e ator, e assume os ares histriônicos de um Felipe Scolari e de José Mourinho. O atual técnico palmeirense, antes de ganhar facilmente a pior copa do mundo da história do futebol com dois dos maiores atacantes dessa mesma história, era uma figura ainda posta em dúvida, principalmente pela truculência apregoada em campo (quem não se lembra do gesto de “quebra”, contra o ponta flamenguista Sávio, quando ainda era técnico do Grêmio?). Luis Felipe, como Mourinho, também nunca foi bobo, e em um dós-de-peito psicológico impressionante, conseguiu manter atiçados uma dupla tão díspar como o ciclotímico Rivaldo e o egoísta patológico (futebolísticamente falando) Ronaldo, no ataque da competição. Ronaldo, aliás, que se transformou no próprio marketing que o destruiu como jogador concreto e o criou como imagem. Muita gente acha simpático o twiteiro-mor do futebol brasileiro ser uma máquina de dinheiro ligada à CBF, à Globo, ao Faustão, aos cartolas do futebol. Eu tenho saudade de quando ele era uma máquina sem nenhum carisma, que destroçava os adversários porque o seu corpo calava a própria História.


O time em que se joga junto

Humilhação. É assim que todos os jornais – excetuando os madrilenhos, que viram um pênalti no apagado Cristiano Ronaldo – analisaram o jogo Real e Barcelona. Até se esqueceram do 6 a 2 de 2008, em pleno Santiago Bernabéu. Mas é que a imprensa ama destruir os que acreditam em suas próprias ladainhas, em suas “estimativas” e “dados”. Mourinho, o ultra-campeão, com a tríplice coroa e com o orçamento milionário do time dos Bourbon, acreditou. Como sou Barcelona e o futebol é uma caixinha de tristezas, também acreditei. Mas, como toda Pandora, o futebol mantém suas delícias, e elas têm chegado a esse pobre pai-de-família por meio do time blaugrana.

Diferentemente do duelo travado entre Uruguai e Gana, que relatei aqui desse mesmo blog, essa era uma luta entre mocinhos e bandidos. Entre a hiper-exposição midiática, o preenchimento do Real pela Imagem e a imagem como pele distante do que é ver o time do Barcelona em campo. Porque o que falam do Barcelona não se compara ao que você vê. Os apanhados de cenas de futebol das televisões não se comparam ao ritmo seguro, estável, assombrosamente natural com que o Barcelona envolve seus adversários. È o meu vislumbre contemporâneo do sublime de Beethoven e Beuys. Aquela natureza que permite a arte.

Também porque o Real Madrid é o time das “estimativas”, dos “dados levantados pelos jornalistas do jornal tal” e, principal e mais irritante de tudo, é o “time das estrelas”. José Mourinho é o gênio da retranca e Cristiano Ronaldo é mais antipático dos grandes jogadores do futebol mundial, superando até mesmo Sjeneider.

Já Guardiola é um tradicional revolucionário, ou seja, um artista. Enfrenta a sua própria admiração pela tradição para superá-la, sem inventar absolutamente nada para os desinteressados, mas muito para os que têm aquele prazer estético pelo futebol. O Barcelona que vemos agora é o que começou o seu movimento histórico com o técnico Cruyff, e que tinha o próprio Guardiola como jogador símbolo: alguém que dava passes simples e perfeitos e que parecia não correr, mas estava em todos os lugares do campo. O próprio Cruyff, como jogador, era o cara do deslocamento tático em campo, mas não gosto de falar de alguém que eu não tenha visto vários jogos ao vivo ou in loco. Enfim, a geração que vemos hoje, o time atual de Guardiola, é o ápice de uma tradição inventada nos anos 80 de jogar o toque de bola e o arremate simples, quando o gol é visível. Também é o jogo do deslocamento de quem vai receber o passe, que é dado quase sempre reto e rasteiro, no espaço onde não há adversários. Como a operação é simples e depende de qualidade técnica, mas não de alguma espetacular capacidade de dar efeito na bola, vários jogadores do Barcelona são capazes de dar esses passes, e também de recebê-los. Dessa forma, Iniesta e Xavi podem municiar o tempo inteiro os atacantes, mas também os atacantes e mesmo os laterais podem dar e receber esses passes, criando a grande dificuldade de marcação que enfrentam os adversários do Barcelona. Porque, na verdade, O Barcelona joga um “dois toques”, do treinamento básico de futebol, feito na metade do campo, só que em um campo inteiro. Ou, pelo menos, na metade do campo do adversário.

Outra coisa que Guardiola fez foi deixar os meninos criados juntos no futebol, jogarem juntos contra gente que não os conhece como eles se conhecem. Dorival Júnior estava fazendo isso com o Santos até ser destituído pela cretinice legalista de um clube que também vive de sua máscara do passado. De uma torcida que grita “tri-mundial” no primeiro gol do campeonato paulista. Apoiada pela Imagem Capitalista, é claro.

Várias notas deixaram a vitória tão bonita. As provocações de Mourinho. O desprezível apoio de Maradona ao suposto algoz de seu sucessor. Os jornais madrilenhos arrotando as glórias do passado antes de serem repetidas.

 

Xavi depois do primeiro gol

Depois, um jogo do Barcelona como deve ser: ignorando o adversário. E esse era o Real Madrid de Cristiano Ronaldo, Xavi Alonso, Ozil e Di Maria.  É triste e engraçado ver grandes jogadores correndo atrás dos adversários, na posição desconfortável de aturdimento e pequenez que costumam a reduzir os outros times. Casillas sentado no chão, depois do quarto e quinto gol, foi hilário. A troca de passes de letra, calcanhar e chaleira – nessa ordem e respectivamente – entre Xavi e Iniesta foi um momento de restabelecimento da fé na grandeza da espécie humana. Messi só não foi Messi porque não fez gols. Somente duas assistências e a sua série arqui-conhecida de fileiras de adversários sentados no chão. Já Xavi e Iniesta foram, respectivamente, Xavi e Iniesta. O Barcelona foi o Barcelona. E o Palmeiras de 96. E o São Paulo de 91. E aquela sala bacana da Tate Modern com o “Veado Iluminado por um Raio” de Beuys. E a canção dos trabalhadores de Cardew. E aquela historia engraçada do amigo contada mais uma vez. E o café da manhã com a mulher escolhida. E o filho, com suas mãozinhas golpeando o ar.

Fábio Júnior é bola no filó

Já falei no ano passado sobre a alegria de ser torcedor do América mineiro em duas ocasiões (aqui e aqui). Na época começávamos a voltar de uma ressaca que abalou o time por longos nove anos.  Em 2001, nós fomos apeados da elite do futebol brasileiro pelo Palmeiras comandado pelo Luís Felipe Scolari. Daí em diante, o torcedor desse time viveu uma ladeira abaixo sem precedentes nos seus 98 anos de história.

Em 2004 , caímos para terceira divisão (que até então o time desconhecia) e quatro anos depois por pouco a gente não escapa de cair pra recém fundada série D. A humilhação poderia ser pior – e foi. No mesmo ano, o meu time de coração caiu para o módulo II  do Campeonato Mineiro.

Comecei a acreditar piamente que torcia para um time moribundo. Mas eis que da maior desgraça de nossas vidas uma torcida que vestia pijama e que não se importava com a expressão local do time mudou completamente de expressão. Começou a tratar o Coelho como ele merece, um time de tradição e com a torcida mais legal do mundo.

E a torcida pequena que tem na mania de ir pro Independência curtir com o time de camisa verde, branca e preta fez o América em três anos volta pra elite do futebol brasileiro. Mesmo sem contarmos com nosso campo (que está em reformas).

A classificação foi sofrida até o fim. E até os 47 minutos e trinta segundos do segundo tempo contra a Ponte Preta tudo podia acontecer. O jogo aconteceu em Campinas e eu acompanhei pela televisão roendo as unhas, ligando pro meu pai e tendo flashbacks de vários piores momentos que eu já vivi com o Coelhão. Mas o time de Flávio, Otávio, Preto, Micão, Gabriel, Shelson, Dudu, Irênio, Euller , Leandro Ferreira, Helton Luiz, Marcos Rocha, Thiago Silvy, Rodrigo, Nando, Fábio Júnior – que foi brilhante – e muito mais, segurou um dos seus jogos mais tensos do campeonato – a Ponte Preta jogava com a posibilidade de estímulo de quase R$ 500 mil oferecido pelo time dos padeiros paulistanos – e voltou pra série A.

Coelhão de primeira

Gritei muito na sala do Guaciara, assim como o pessoal das fotos em cima e do vídeo embaixo. E a vitória marcou um ano muito especial de aflições, torcidas, emoções fortes e mudanças para melhor (nesse final de semana ainda assisti dois shows do Ornette Coleman com momentos que me deixaram arrepiado de emoção). Nos comentários, a gente fala mais da campanha do Coelhão.

Agora é tentar segurar o Mauro Fernandes no comando do time e manter a cabeça da diretoria. No ano passado, disseram que o Coelho não tinha time pra subir na segundona e o Coelho subiu, mesmo com o baque da saída do Givanildo. Nesse ano, já tem colunista esportivo soltando a mesma groselha (apesar das exceções). O Coelhão tem obrigação de desmentir esse pessoal.

E a série A do campeonato brasileiro que se prepare, vai voltar a ser mais legal do que nunca (com Coelho, mas também com o Bahea, que eu aprendi a gostar ainda mais ao longo da Série B).

Wesley Sneijeder é um gênio do futebol. Como sabemos que o futebol – como a arte e a filosofia – é uma atividade corporal, o primeiro item de sua genialidade é a sua excepcional capacidade física. Sneijeder é ambidestro, podendo fazer lançamentos precisos com os dois pés. Se ele pudesse, como podem inúmeros craques, tudo bem. Mas Sneijder realiza lançamentos precisos com os dois pés, quase sempre assistências para gols, em quase todos os jogos que você puder assistir dele. Só isso já o torna o mais efetivo meio-campista que eu vi desde Zidane.

Além disso, o holandês é excelente driblador e chutador. O que significa que quando dribla, Wesley está buscando espaço para o arremate, e não somente praticando “futebol-moleque”, essa praga midiática que ocupa nossos instantes preciosos nos estádios e em frente às nossas televisões. Outra característica do holandês que me entusiasma é o número de vezes que Sneijeder consegue roubar a bola dos adversários quando dá o bote. Sempre me desespero com jogadores ofensivos marcando, porque a única coisa que conseguem, geralmente, é derrubar o adversário ainda no campo de defesa. Quando não tomam o amarelo, irritados por tentarem tirar a bola, sem sucesso, de um jogador inferior tecnicamente. Além do que, em geral os craques do ataque não obedecem – e não estão acostumados a obedecer – esquemas táticos rígidos. O esquema tático de ataque rígido acaba por destruir a principal e mais eficiente característica do ataque, que é a surpresa. E sabemos, a essa altura do campeonato, que se um sistema de defesa não comete erros, dificilmente um atacante, por mais talentoso que seja, pode penetrá-lo. Afinal, para destruir uma jogada basta um bico pra frente. É um trabalho delicado o de ataque, que pode dar errado com qualquer suspiro. O defensor também não pode errar, mas não precisa criar.

Criação e precisão são duas coisas muito difíceis de serem colocadas juntas. Daí a raridade de homens como Ronaldo e Eto`o no futebol mundial.  Enfim, criar sem um esquema rígido que o sustente é o que faz o futebol superior à pintura, por exemplo. Isso no caso do meio de campo pra frente, já que, como dissemos, os sistemas de coberturas dos zagueiros ou mesmo de marcação da zaga devem mais ou menos rígidos, justamente para diminuir a margem de atuação dos atacantes e meiocampistas ofensivos.

 

Wesley Benjamin Sneijder (1984)

Voltando ao nosso herói, perder a bola pra Sneijeder é um perigo, porque sua primeira providência não é verificar o penteado no telão ou estufar o peito para ouvir o aleluia da platéia. Sua primeira providência é despachar Eto`o ou Robben para correr em direção ao gol adversário. É verdade que o meia nunca mais foi o goleador e driblador agressivo do Ajax, e não somente por ter passado pelo túmulo de craques Real Madrid. Afinal, é cada vez mais difícil repetir feitos de um ano no seguinte, no futebol mega-informado da atualidade. Os jogadores de ataque são destrinchados até a alma pelos adversários. Além, é claro, do Real ter a estranha característica de fazer desaparecer jogadores estupendos como Kaká. Não é tão estranho, na verdade. O Real foi campeão com Sneijeder, se não me engano.

O que acontece é a maldição do “Dream Team”, das super estrelas midiáticas que não conseguem exercer sua profissão em paz devido à caterva midiática (mais mídia!) que paira ao seu redor. Aconteceu com o Real de Zidane e Beckham e com o selecionado brasileiro de 2006. Mas aconteceu realmente algo estranho com Sneijeder na Copa do Mundo. E com toda seleção holandesa. Seu vistoso e agressivo futebol das vésperas foi substituído por um pragmatismo triste, porque baseado na catimba e na violência de um Van Bommel, de longe o mais detestável futebolista da atualidade. Mas isso tudo já foi explicado com maestria por Tostão, o Lorenzo Mammì da nossa imprensa esportiva.

Parte 2

Apesar do seu incrível talento, Sneijder não é o maior meio-campista da atualidade, no meu entendimento. Esse é Xavi Hernándes. Campeão cinco vezes pela liga, três pela Supercopa, duas pela Champions e um Título Mundial de Clubes. Isso só pelo Barcelona. Xavi também deve ser o mais importante jogador da história da Espanha, com um Mundial Sub-20, Prata nas Olimpíadas de 2000, uma Eurocopa e o último mundial da FIFA. Seu estilo preciso e austero lembra o de seu sucessor no Barcelona e atual técnico, Pepe Guardiola, um cracasso de bola que, juntamente com Romário, StoichkovLaudrup fizeram não somente esse cronista, mas todo mundo que gostava de bola e conseguia sintonizar a Bandeirantes a torcer pelo Barcelona do início dos anos 90.

 

Xavier Hernández Creus (1980)

Xavi combina a obediência cega à marcação a uma saída de bola rápida e precisa ( mesmo que não pareça rápida. Na verdade é rápida porque é precisa). Tem um drible fácil e elegante, sem os malabarismos e exibicionismos que tanto exasperam esse crítico diletante. Se é possível para Xavi, arrisca lançamentos em profundidade, sempre rasteiros, e nunca de longuíssima distância (uma preciosidade dos tempos de Gerson que hoje só é cometida por zagueiros quando seu time não tem meio-campistas).

Xavi é muito pequeno, mas protege a bola com perfeição, e dificilmente, aliás, raramente, a perde para um adversário. Esse seu lado zagueiro e estruturador, deixou-o um pouco fora dos holofotes na época áurea de Ronaldinho Gaúcho, que parecia ser um camisa dez capaz de levar a bola pela lateral do campo e aplicar elásticos e fazer gols de bicicleta. Um mal-entendido que foi superado pela escalação de Gaúcho como atacante recuado por Felipão e pela lucidez de Zagallo, que declarou a ausência de “pulmão” para que Ronaldinho pudesse ser realmente um meio-campista.

Mesmo assim, e apesar de uma série de contusões longas nos tornozelos e outros alvos de volantes adversários, Xavi deve, ao final de sua carreira, ser considerado o jogador mais importante de um dos mais importantes clubes do século. A não ser que Messi continue sua média – algo anos 60 – de fazer 1 gol por jogo. Aí realmente não há Estrutura Histórica que aguente.

Tatiana Trouvé - 350 Points Towards Infinity, 2010

Não concordo com Antero Greco, que culpou uma possível timidez, devido à repressão da mídia e do estabilishement pela fraca atuação de Neymar contra o Corinthians no último clássico na Vila Belmiro. Também é um comentário que ignora o time adversário, um sério postulante ao título e que ganhou, no ano passado, os mesmos campeonatos que o Santos esse ano, só que contra adversários mais fortes e competitivos nas finais. Acho que, mais uma vez, Tostão está certo: Neymar é bom, mas está se tornando exibicionista, realizando jogadas descartáveis, de efeito televisivo ou de marketing. Quando joga sério, gingando em velocidade na frente do adversário para tentar o arremate (o atacante dificilmente termina um drible), ou dando passos diagonais simples para colegas que entram na área em velocidade, de frente para o gol, o santista é muito melhor. Provou isso no último sábado contra o Cruzeiro. Tenho pra mim que a situação em torno de Neymar – que não tem nada a ver com sua própria atitude em campo – foi criada pelas mesmas pessoas que empobreceram os debates políticos na TV: os marqueteiros e seus lugares comuns com ares de sabedoria, seu reacionarismo ideológico com ares de pragmatismo, e sua realpolitik com ares de…realpolitik!

Como eu disse, isso não tem nada a ver com o futebol do jogador em campo, apelidado de moleque e irreverente, mas que, nos melhores dias, não é. É um futebol fino, apesar de rarefeito. E inteligente, apesar de não ser genial. Um Careca (do Guarani, São Paulo e Napoli) com mais swing (apesar de menos estratégico que o de seu antecessor).

Em muitos pontos lembra mesmo o futebol de Robinho, com alguns das suas mesmas deficiências, mas com mais qualidades, entre elas o arremate surpreendente.

Voltando ao Marketing e seu império inexistente, mas que sobrevive como tabu, algo na Bienal de São Paulo parece sofrer do mesmo mal, ainda que em menor escala do que no futebol, graças ao seu metier, que ainda (ainda) sustenta pruridos mais libertários do que liberais, apesar de todos os esforços contrários de seus intermediários vinculados ao Capital. Mesmo assim, e com todas as iniciativas do filisteísmo camp de desmoralizá-la, a bienal sobrevive por meio de seus artistas, como a excelente Tatiana Trouvé, com sua brilhante inversão do tromp l’oeil tanto arquitetônico quanto escultórico. Seu exemplo mais famoso é a chuva de prumos fora do prumo, mas creio que as cadeiras submersas na piscina de cimento, assim como a elevação do piso adornada por vergalhões estruturais são também de sua autoria. Tudo nessa artista carrega a marca de uma qualidade paradoxal. Seus desenhos de instalações são auto-suficientes, ou seja, são obras eles mesmos, dispensando a realização da obra tridimensional, dos feitos. Afinal, não é pela falta de feitos espetaculares que se ressente a arte contemporânea.

Inversões como o projeto que é obra mostra mais uma vez sua afeição pela subversão dos binários estrutura/ornamento ou mesmo utilitário/contemplação. Suas esculturas afirmam-se pela horizontalidade, assim como suas instalações afirmam-se pela imagem fechada dentro de um esquadro de visualidade imediata. Evidentemente, seu trabalho não é dos mais comentados na Bienal, devido aos escândalos auto-impostos pela mesma e de seus artistas mais sedentos de grandes realizações. Ou feitos, como comentei logo acima (exceção para a chacina virtual de Gil Vicente, mais uma dor no peito do que um dó de peito, acredito eu, o que não redime, para mim, a obra em si mesma ).

Falando nisso, não consigo entender por que ficaria tão mal em uma instalação a frase “libertem os urubu”, brilhante em seu contexto, ou a bela inscrição “invasor” em uma obra colocada justamente do lado de fora do evento, por um artista que busca o sentido de sua obra na rua e em todo o seu ruído. Também não entendo a surpresa com um rapaz que – como tantos revolucionários do passado – coloca seus peões para estampar seu próprio nome na História como autores de grandes feitos, ainda que realizados pela mão e sofrimento de outrem.

Untitled de Pere Llobera, 2010

Sou um profissional liberal fracassado. Como tal, contento-me em dar aulas e falar de futebol. E me queixar dos profissionais liberais mais talentosos que eu que brilham onde eu deveria brilhar, se a Mãe Natureza tivesse me dotado de engenho e arte. Enfim, voltando ao futebol de verdade – não o praticado para 1 zilhão de expectadores dos milhares de canais ultra hi-fi-definicion onde vc pode contar os pentelhos do Cristiano Ronaldo (os que escaparam da tosa semanal ) que escapam (por sua vez) pelas estrias de sua high-absorvection-ceroula – mas aquele futebol empedernido do volante do Vitória (que nunca ganha) contra o paredão de fama do Fenômeno (que nunca joga). Mas a vida é assim e a tendência é piorar, como diz um grande amigo pintor “lá de cima” que caminha para o sucesso de sua obra e riqueza material assim que se convencer que a ética é a pecha dos injustos nos justos e dos castradores nos castrados. Falando em pintura, é interessante como a pintura brasileira também tem trilhado o caminho da justeza, mesmo em nossos periódicos impressos (tudo bem, é o jornal do qual sou cartunista. Aquele, que acerta o resultado da eleição sozinho). Várias amostras de “arte” têm me surpreendido pela sua seriedade, ainda mais quando usando o meio da pintura. Imagina se algum deles tivesse o talento de um Pere Llobera e o jornal a seriedade desses pintores para cobrir as eleições? Hein?hein?

Bom, a idéia era fazer um paralelo entre o futebol cumpridor da última copa e a “nova pintura brasileira” ou mesmo sua velha arte. Não faz mal, continuamos com o futebol.

Em primeiro lugar é mesmo uma pena que o MEU Elias, do meu Corinthians, tenha nascido na época do excepcional Hernanes, do amaldiçoado São Paulo Futebol Clube. Elias é um jogador incrível, que lembra, pelas atribuições, o Petit que demoliu a seleção brasileira na copa em que Zidane foi responsável (como das outras vezes) pela parte da humilhação. Lembram? Eu lembro bem. Pois bem, no meu entender, Elias é o responsável direto pelo tom em que o Corinthians joga desde 2008, quando saiu das garras da série YWZ para a glamorosa série B, onde o supracitado Cristiano Ronaldo teria que procurar as rótulas no vestiário, na primeira sambadinha cintura-dura que desse. Em pintura, o tom é aquela nota de cor em que toda a superfície se desenvolve, do preto até o branco. O negócio tonal em pintura é sério: Rembrandt era um típico pintor tonal, por exemplo.

Martin Kippenberger: Tate Modern, vista geral da exposição, 2009

No futebol é a mesma coisa. O Corinthians joga de um jeito, desde 2008: recua até o círculo do meio-de-campo (não mais!) e tenta em uma trombada casual espoletar a bola pras laterais. Dali pros volantes (Elias, o saudoso Cristian e Jucilei) avançam o mais rápido possível pelo meio, obrigando os volantes adversários a dar o bote e perder a cobertura dos laterais. Foi assim na melhor época. Até a rede globo achar que todas as estrelas da novela estavam torcendo pelo tuitero-mor do futebol brasileiro e o gaúcho dos pampas simplesmente se desinteressar pela equipe em prol das duas âncoras carecas nos quais ele levou uns belos trocados (a história de Souza no Corinthians ainda vai voltar à vida do Mano, não se preocupem verdes secadores de plantão). De qualquer forma, da grata surpresa de Júlio César ao grande Jorge Henrique, passando pelo inatacável Roberto Carlos, o Corinthians me agrada. Aliás, o lateral merece uma declaração à parte. Nunca, desde sua ascensão ao palmeiras de Luxemburgo – e antes – o canhoto pôde ser visto com tanta sobriedade, tanta seriedade como no alvinegro. Rodrigo Andrade errou (e ele conhece do riscado), assim como vários são paulinos como Ivan Marsiglia. Dessa vez falo dos São Paulinos porque, infelicidade minha, acabam sedo dos mais informados em futebol dentre nós, os desinformados. Uma coisa é crescer torcendo pro, digamos (e com todo respeito pela atual campanha) Avaí. E outra é – até a idade adulta – disputar uma dezena de títulos internacionais. Tudo bem, existe a internete e você tira em 2 minutos a escalação da Argentina de 86, mas estar no campo, e acompanhar seu time até as finais de 5 brasileiros consecutivos (o campeonato dos campeonatos, a meu ver (o brasileirão merece isso: um parênteses dentro de outro com direito a dois pontos. É um campeonato em que grandes times não achincalham pequenos escretes, como na Copa do Brasil) te traz aquilo que Goethe chamava de maturidade afetivo-intelectual. Imagino que seja algo como emocionar-se pensando e pensando emocionar-se. Enfim, Roberto é a cara do timão. E joga com a sobriedade, a justeza da nova pintura paulista. Deve ser a próxima capa do caderno de cultura, por justiça!

Para terminar, não sei se meu time será campeão. Temos a sólida equipe do Santos com seu Cristiano Ronaldo da vez dando petelecos no lugar de pênaltis e ainda assim ganhando o jogo, e o Internacional, pra mim uma das mais sólidas equipes do Brasil dos últimos anos. Que tem o seu Elias, por sinal. O incansável Guiñazu e seu avanço inexorável, tanto pelo meio quanto pelas laterais.

Martin Kippenberger: The Brothers Montgolfier, 1987

p.s- hei! E se um jovem pintor brasileiro, ao invés de tentar citar Morandi, a direção das pinceladas e o engajamento, ao mesmo tempo, no Tema e na Forma, ligasse o foda-se e corresse pelas laterais do campo? Um Kippenberger enlouquecido, que angariaria a antipatia dos inteligentes e a simpatia dos técnicos de futebol de todo mundo?

Seria uma boa, não seria? O problema é que você nunca estaria na capa dos cadernos de cultura do lado de cá dos trópicos.

Hoje, às 19h, Rafael Campos Rocha inaugurará sua exposição no Paço das Artes, no campus da USP, em São Paulo. Ontem, mais ou menos no mesmo horário, enviou um texto entusiasmado no mesmo horário celebrando a Copa de 2010. Como empolgação é conosco, colocamos na rede

Forlan

Forlan: o grande jogador de uma copa sem craques

Se tem uma coisa que eu detesto é o passadismo. As eras de ouro, editadas nos canais de esporte, ou os times sagrados, editadas na memória do torcedor. É bem verdade que tivemos últimas edições da copa do mundo medíocres, dentre as quais destaca-se a copa de 2002 ganha pelo Brasil e mesmo a de 1998. A melhor copa de Ronaldo, na minha opinião e na dos comissários da FIFA. Foi uma grande copa de um grande jogador em um grande momento, mas era difícil tirar aquela copa da França, em casa. Ainda mais liderada por um Zidane implacável e um Petit em uma partida perfeita. Daquela partida me vem Zizou, levando Leonardo para a lateral do campo para aplicar mais um drible humilhante, sempre revidado com violência pelo eterno ex-são paulino. Conheci somente três jogadores para os quais a pedalada é efetiva: Zidane, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. Todos os três foram eleitos os melhores do mundo e todos foram campeões pela FIFA, o que não prova a efetividade da pedalada, mas a efetividade da efetividade.

Por isso estou especialmente contente pela vitória da Espanha no mundial: pela prova de que um meio-de-campo leve e habilidoso, de toques de efeito e envolvente, de jogo compassado e pensado pode ganhar um mundial. Zidane já havia mostrado isso em inúmeras ocasiões, mas o argumento é que Zidane é Zidane, o que não serve, por algum motivo ignoto, para os volantes, já Elano e Felipe Melo não são Redondo ou Baresi.  E a Espanha ganhou a copa fora de casa, para um time violento e com pelo menos um jogador de meio de campo genial, Sjneider, e um excelente e incansável atacante: Robben. Os espanhóis provaram que se pode jogar bola deixando jogar, deixando o adversário tentar o gol, tentar a jogada, e depois pedir licença para tentar a sua jogada também. Evidentemente, Holanda estava cansada de ser o futebol bonito e eliminado e resolveu trazer a campo o mau-caratismo que sempre tomou conta de suas últimas equipes (que me perdoem os holandeses, mas estamos falando de uma seleção que enfrenta sérios problemas de preconceito racial dentro de suas fileiras, e por aí vai). A Holanda, uma das seleções mais antipáticas da copa pela violência, catimba e reclamações, só perdeu mesmo nesse quesito para o Brasil, ajudado enormemente pela grande imprensa nacional, sempre pronta a vilipendiar os adversários e mesmo participantes de chaves distantes, como no célebre caso da Sport TV versus Paraguai.

Por isso também foi importante que a equipe campeã também tenha levado o troféu fair play. Não por razões éticas ou qualquer bobagem do tipo, mas somente porque nada mais irritante que pessoas que culpam as outras pelos próprios problemas, que é o caso dos jogadores violentos e, principalmente, reclamões. De novo me vêm a mente os ridículos ataques de raiva de Robinho contra o Chile e, principalmente, contra a Holanda. E, é claro, o ódio de Robben por saber que, em sua forma ideal, Puyol não lhe faria frente. Mas não foi Puyol que machucou Robben para a copa. Foi a incrível falta de inteligência das comissões européias, marcando vários jogos-treino complicados antes da copa, e fazendo assim com que seus times entrem em fase descendente no torneio. Nem a campeã Espanha escapou. Portanto, a violência maçante conseguiu levar a Holanda para a final, mas não à taça.

Também foi merecidíssima e simpaticíssima a premiação de Forlan, que acompanho desde que transformou um modorrento amistoso Brasil e Uruguai em um eletrizante 3 a 3. Os times mais divertidos da copa estavam disputando o terceiro e quarto lugar, eu sei, mas Espanha e Holanda eram os melhores times da copa. E não adianta lembrar-se de copas que trouxeram craques como Hagi, Romário e Maradona, ou seleções empolgantes como a Nigéria. A Nigéria e a Romênia empolgavam porque não eram adversárias a altura. . E só se pode julgar um homem pelos seus inimigos, como já dizia Goethe, um megalomaníaco antipático, mas bom à beça. Vide Maradona precisou se aposentar para que no Brasil as pessoas começassem a admitir que aquela foi a maior atuação de um jogador em uma copa do mundo. Aliás, para mim o problema de Messi na copa é um problema de Édipo, que só será vencido com a desistência de Maradona do cargo. E tenho dito.

Para terminar, não me lembro de nenhuma outra copa em que um polvo tivesse acertado todos os resultados de jogos em que foi solicitado seu prognóstico.

Convenhamos, isso foi legal pra caramba!

E para a triste despedida de Brasil, Argentina e Paraguai na Copa do Mundo nada melhor do que duas versões na linda voz de Roberto Goyeneche para dois clássicos do tango: Naranjo en Flor, dos irmãos Homero e Virgilio Expósito e Balada para un loco, de Astor Piazzolla e Horacio Ferrer (com Piazzolla no bandoneón).

Mais uma vez, infelizmente, fomos uma promessa que não se cumpriu nessa Copa. E agora o melhor é apostar na coragem épica do Uruguai.

Naranjo en flor (Homero e Virgilio Expósito)

Era mas blanda que el agua,
que el agua blanda,
era mas fresca que el rio,
naranjo en floor…
Y en esa calle de estio,
calle perdida,
dejo un pedazo de vida
y se marcho…

Primero hay que saber sufrir,
despues amar, despues partir
y al fin andar sin pensamiento…
Perfume de naranjo en flor,
promesas vanas de un amor
que se escaparon en el viento…
Despues, que importa el despues?
Toda mi vida es el ayer
que me detiene en el pasado,
eterna y vieja juventud
que me ha dejado acobardado
como un pajaro sin luz.

Que le habran hecho mis manos?
Que le habran hecho
para dejarme en el pecho
tanto dolor?
Dolor de vieja arboleda,
cancion de esquina
con un pedazo de vida,
naranjo en flor..”

Balada para un loco (Astor Piazzolla e Horacio Ferrer)

Las tardecitas de Buenos Aires tienen ese no sé qué, ¿viste?.
Salís de tu casa, por Arenales .
Lo de siempre: en la calle y en vos…
Cuando de repente, de atrás de un árbol, me aparezco yo.
Mezcla rara de penúltimo linyera y de primer polizonte a Venus:
medio melón en la cabeza, las rayas de la camisa pintadas en la piel,
dos medias suelas clavadas en los pies y una banderita de taxi libre
levantada en cada mano. ¡Te reís!…
Pero sólo vos me ves: porque los maniquíes me guiñan;
los semáforos me dan tres luces celestes,
y las naranjas del frutero de la esquina me tiran azahares.
¡Vení!, que así, medio bailando y medio volando,
me saco el melón para saludarte,
te regalo una banderita y te digo…

(Cantado)

Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao…
No ves que va la luna rodando por Callao
que un corso de astronautas y niños, con un vals,
me baila alrededor… ¡Bailá!… ¡Vení!… ¡Volá!

Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao…
Yo miro a Buenos Aires del nido de un gorrión;
y a vos te vi tan triste… ¡Vení! ¡Volá! ¡Sentí!…
el loco berretín que tengo para vos:

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón.

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Como un acróbata demente saltaré,
sobre el abismo de tu escote hasta sentir
que enloquecí tu corazón de libertad…
¡Ya vas a ver!

Recitado

Salgamos a volar, querida mía;
subite a mi ilusión supersport,
y vamos a correr por las cornisas
¡con una golondrina en el motor!
De Vieytes nos aplauden: “¡Viva! ¡Viva!”
los locos que inventaron el Amor:
y un ángel y un soldado y una niña
nos dan un valsecito bailador.

Nos sale a saludar la gente linda…
Y loco –pero tuyo– ¡qué sé yo!:
provoco campanarios con la risa,
y al fin, te miro, y canto a media voz:

(Cantado)

Quereme así, piantao, piantao, piantao…
Trepatea esta ternura de locos que hay en mí,
ponete esta peluca de alondras ¡y volá!
¡Volá conmigo ya! ¡Vení, volá, vení!

Quereme así, piantao, piantao, piantao…
Abrite a los amores que vamos a intentar
la mágica locura total de revivir
¡Vení, volá, vení! ¡Trai-lai-la-larará!

(Gritado)

¡Viva! ¡Viva! ¡Viva!
Loca ella y loco yo…
¡Locos! ¡Locos! ¡Locos!
¡Loca ella y loco yo!

E agora é Uruguai! E aqui também todos são Loco Abreu, Lugano, Diego Fórlan, Luís Suárez e toda a rapa!

Heitor contra Aquiles

O Brasil perdeu e não parecia tragédia nacional. Ninguém se acostuma, no Brasil, com Copa do Mundo sem drama. Tem que ser ou um papelão como em 2006 ou uma euforia como em 94. Ou uma tragédia mesmo, como em 82.

Na África, um time metódico e que se abstinha de brilhar (até porque o único jogador de ataque brilhante, acostumado a ser o responsável por todos os times que passa desde os 19 anos, não está em grande forma física), foi derrotado por um time mais metódico e que está realmente se abstendo de brilhar para ganhar a sua primeira Copa. Ponto. Felipe Melo fez o que se esperava dele, Robinho idem. Sneijder também.

Mas isso era porque o Brasil não veio nessa copa para ser protagonista. Terminado o jogo, duas horas depois, a maior batalha, o jogo de futebol dos meus séculos foi travado unha a unha, canela a canela na cidade de Joanesburgo.

Impossível escolher dois adversários mais simpáticos: africanos em sua casa lutando para resgatar o orgulho de um continente versus uma senhora adormecida à quase um século, o berço do futebol-arte, encostado na prateleira da historia. Mas não na lata de lixo. O Uruguai chegou nessa copa para dar prazer, oferecer seu corpo em holocausto. Para quem acha que essa coisa de massacrar timinho é um porre e gosta de mesmo é de futebol. Gosta de ver uma luta, não uma surra. E uma luta é que foi presenteada para todos os mortais que ligaram a TV nessa tarde de sexta-feira.

Pra quem gosta de livro velho, a Ilíada é desse tipo de história emocionante, em que somos tomados por uma coisa muito maior que o orgulho nacional, ou qualquer um dos chauvinismos que atrapalhou todas as suas versões posteriores da história no correr dos séculos. Lá não tem vilão – no sentindo de vileza – todo mundo é honrado e corajoso. Todos são heróis. Para derrotar Heitor só Aquiles. Para derrotar Aquiles só o infalível Paris. Sua primeira flechada no baixo ventre de Helena levou o grego a contragosto para Tróia, somente para tomar a última e única flecha disparada pelo troiano durante toda a guerra e mergulhar seu rosto no pó. A Ilíada é do caralho. E o jogo Gana e Uruguai não fica atrás.

Começa o Uruguai atacando e o excepcional Forlan – um homem que já tinha transformado um modorrento Uruguai e Brasil em um maravilhoso 3 x 3, no início do milênio – mostrando que vem para uma Copa do Mundo para levar adiante, continuar a escrita do futebol para além dos conchavos escrotos da burocracia capitalista da FIFA, CBF, GLOBO e toda essa caterva. Forlan foi pra África para jogar futebol. E se não tem o talento exuberante de um Özil, de um Messi, de um Kaká, tem a paixão pelo Jogo (não o prazer, a paixão), naquele sentido alto, desobrigado e desinteressado que o Jogo tem. O Jogo é a própria sublimação, é o evento civilizatório por vocação. É o símbolo pragmático da paz na espécie, do conjunto de elementos contra a adversidade da natureza. Foi assim com a Grécia arcaica, e é assim até hoje com os homens, as hienas e os guepardos.

Mas as tentativas sul-americanas não surtiram o efeito-gol e os ganeses, liderados pelo incansável Boateng, encurralaram os celestes em seu campo, até que a sensacional bola Jabulani fez mais um gol na copa, pelos pés de seu títere da vez: Muntari. Sem mística, meus caros, não existe épica.

E como toda épica, essa Copa também tem a sua herança. E nosso herói Forlan, filho de lendário Pablo Forlan, volta a colocar o Uruguai no jogo pelo mesmo artifício de Muntari: apela ao grande espírito de Jabulani e – como na Ilíada – os Deuses se sacodem atrás de um favorito.

Mas o mais espetacular, o elemento essencial da épica tinha que vir: o sacrifício. O atacante em grande fase, o óbvio aspirante a artilheiro da copa do mundo defende no último segundo de jogo uma bola com a mão, dando a chance de um pênalti contra o Uruguai. Se fosse gol, o gesto de Suarez não passaria de um momento desesperado. Um sacrifício inútil como os pobres-diabos que vão queimar seu coco nos desertos árabes ou seus corpos nos edifícios de Manhattan.

Mas o artilheiro ganês na Copa, o panzer Gyan, errou o pênalti. E Uruguai foi para a prorrogação. Temos um vilão? Gyan? E quem vai cobrar a primeira penalidade na disputa final, depois de duas horas de futebol frenético e incansável? Ele mesmo. Macho pra caralho. E converte. O resto é história. Pênalti aqui e ali, Uruguai nas semi-finais. Podia ser oposto, tanto fazia. Aqueles 22 caras provaram que ainda é um mundo bom, jovem e forte pra se morrer nele.

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