A resposta de Hugo Chavez às acusações do governo colombiano de que o governo venezuelano é conivente com as FARC e as abriga no seu lado da fronteira são a parte mais visível de um grande festival de diversionismo e oportunismo político em curso na América Latina. Numa coincidência regional curiosa, Colômbia, Venezuela e Brasil estiveram, estão ou estarão nesse mesmo ano em meio a corridas eleitorais importantes. Na Colômbia, Uribe conseguiu emplacar o seu sucessor José Manuel Santos; na Venezuela, as eleições parlamentares acontecem em setembro, e grandes são as chances de que a oposição (de resto monstruosamente estúpida) consiga aumentar sua presença no congresso; e, nem preciso dizer, em outubro começa (ou termina, dependendo do otimismo do freguês) a corrida para ver quem conduizirá o Brasil nos anos pós-Lula.
Para Uribe e Santos, interessa agora posarem de conciliadores, e fingirem-se surpresos com a reação de Chavez às suas insinuações sobre a presença de tropas das FARC em território venezuelano. A presidência está garantida para Santos, que assume em 7 de agosto, garantindo a permanência do mesmo grupo político que conduziu de forma escandalosamente incompetente, apesar de todas as afirmações em contrário, o famigerado Plano Colômbia.
Interssou, e muito, a Uribe atribuir seu fracasso em resolver a guerra civil colombiana ao Equador e á Venezuela, que no seu entender abrigariam as FARC. É um segredo de polichinelo, que a mídia brasileira (preguiçosa, incompetente ou tendeciosa, em geral as três coisas) ignora solenemente: o Plano Colômbia é um completo fracasso. Já não fosse sua concepção inicial – o financiamento do combate à guerrilha disfarçado de combate ao narcotráfico, e com recursos vindos do mesmo país que, como todo mundo sabe, é o maior consumidor de drogas do mundo – a execução do PC sob Uribe foi desastrosa. Apenas as autoridades americanas responsáveis pelos repasses que devem chegar a 7.3 bilhões de dólares em ajuda principalmente militar e o próprio Álvaro Uribe acham que foi um sucesso. E grande parte de sua popularidade, da aprovação de seu governo e do sucesso em passar a presidência para Santos dependeram de convencer a população colombiana de que de fato o plano é eficiente e bem sucedido. Grande esperteza provocar tensões diplomáticas com o país vizinho cujo presidente é uma das maiores pedras no sapato dos EUA na região, trazendo benefícios políticos para si e para os seus financiadores.
A lista real dos fracassos do Plano Colômbia é enorme, e seria suficiente para acabar com o capital político de Uribe (fumigações criminosas de plantações de coca, repetidas violações de direitos humanos, uma aparente retomada dos índices de violência depois de uma queda expressiva, o que sugere que as ações de segurança pública foram todas de tipo repressivo, deslocamentos forçados de pessoas etc). Mas esse barulho na fronteira (e o recibo ineptamente passado por Chavez) servem como uma útil cortina de fumaça para o grupo político que não foi capaz de conduzir de forma eficiente a pacificação de um país que, como sempre repete Gabriel Garcia Márquez, está em guerra civil há mais de um século).
Chavez também tem sabido tirar proveito desse imbrólio. Apesar de seus sucessos em desmontar a hegemonia política da horripilante oligarquia de república das Bananas que (des)governou desde sempre a Venezuela, Chavez não parece ter grandes planos para impedir que o país caia em uma crise econômica profunda. O PIB venezuelano deve cair mais 3 a 6% esse ano, somada à queda de 3% no ano passado, e o país enfrenta inflação que bate nos 25% e pode chegar a 40%. Não resta dúvida de que, apesar de certa pirotecnia política com o tal do socialismo do século XXI e seu neo-bolivarianismo, as opções políticas de Chavez no continente são mais progressistas do que o capachismo incondicional das elites colombianas, que, junto com os chilenos, parecem sempre muito entusiasmados com a perspectiva de manter o sub-continente como quintal dos EUA, país que é hoje ele próprio um enorme deserto pós-industrial rodeado de estacionamentos de trailler transformados em favelas. Mas a ameaça de Chavez de suspender a venda de petróleo aos EUA mesmo que os venezuelanos tenham que “comer pedra” é, além de bravata, um gesto desesperado de recuperar sua força política.
E aqui no Brasil, esse não-assunto (o vínculo do PT com as FARC) tem se prestado à tentativa desesperada de Serra e de seu vice de fazer a mágica de crescer em ambiente saturado e, de quebra, fazer insinuações que só convencem ao eleitorado conservador de classe média, que já odeia o PT de qualquer jeito, e à imprensa estrangeira. Com essas insinuações, Serra reavivou a tática batizada de “risco Lula”, que agora já não é de caráter econômico, mas geo-político: a eleição de Dilma traria instabilidade ao continente. Até o equilibrado e sempre muito bom Valor Econômico rodou um editorial hoje contendo uma pérola de duplipensar orwelliano: “A posição brasileira [no conflito entre Colômbia e Venezuela] é evitar o confronto a todo custo, embora suas simpatias não estejam com o governo colombiano, e sim com Chávez, que não tem antagonismo ideológico com as FARC. O Brasil, sempre que pode, tem evitado condená-las.” Num giro não lá muito sofisticado, engrossa o coro dos que, por esperteza (ou estupidez) política têm insistido nas últimas semanas em associar o PT às FARC: uma ilação que só atinge e convence os leitores do OESP e da Veja. E o pessoal já devia ter entendido que essa imprensa não tem mais poder de influência sobre o voto para presidente no Brasil desde que Lula, um ano após o mensalão, passou seu rolo compressor político em cima de Geraldo Alckmin, colocando debaixo do braço (definitivamente, ao que tudo indica) uma massa de eleitores que, por inércia, sempre pertenceu à direita.




